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Publicação: 25 de fevereiro de 2010

“Décimo segundo andar! Graças a Deus!”, foi o que ele pensou, enquanto retirava as ondas de suor que insistiam em jorrar de sua testa. Dezenas de lances de escadas carregando duas malas pesadas não era o final das férias perfeitas que ele havia imaginado. Na verdade não foram férias perfeitas. Talvez a caipirinha de vodka com maracujá – que foi a melhor que já bebeu até hoje (não que ele costumasse beber) – e o luau incluído no pacote da viagem (com direito a batida de cacau e trio elétrico) tivessem sido perfeitos, mas o resto foi um desastre. Desde o inicio ele soube que não seria uma viagem tão boa quanto imaginava. Sempre foi assim. No colégio evitava os famosos acampamentos de verão. Enquanto seus amigos voltavam contando com orgulho sobre as confusões que tinham arrumado, e as meninas que tinham agarrado enquanto os monitores não viam, ele só podia contar sobre como sua avó do interior tinha mudado os móveis de lugar em sua “imensa” casa de 4m por 4m. Na faculdade, enquanto todos iam para os jogos universitários ou os encontros regionais de estudantes (mera desculpa para beberem como loucos e armarem as maiores sacanagens que podiam imaginar), ele ficava em casa vendo tv, lendo ficção cientifica, ou jogando WAR com seus primos pequenos.

Já havia tomado um porre em sua vida. Foi quando entrou na faculdade. Mas foi horrível! Ao chegar em casa vomitou até dormir abraçado com a privada; o que foi o bastante para fazer sua mãe superprotetora acreditar que ele era um alcoólatra, e faze-lo morrer de vergonha e dor de cabeça com um sermão interminável sobre os malefícios do álcool. Ele se encheu daquilo tudo. Estava de saco cheio! No terceiro ano da faculdade havia arrumado um estagio que acabou por se tornar um emprego, e que lhe rendeu o bastante para sair de casa.

Decidiu morar sozinho. Dividir o pequeno apartamento com alguém seria muito bom (financeiramente falando), mas ele não suportaria. Como filho único, sempre esteve acostumado a viver sozinho, e outra pessoa poderia deixa-lo desconfortável. Preferia viver assim, sozinho. Ninguém costumava ir até seu apartamento. Mesmo seus ditos amigos. No fundo ele sabia que eles não eram seus amigos. Havia se aproximado deles na faculdade pelo simples fato deles serem excluídos dos demais grupos pré-existentes. Talvez fosse isso que o atraiu neles, o fato de serem excluídos. Era como se sentia, não apenas em relação à faculdade, mas em relação ao mundo: um excluído. Ao menos era o que ele acreditava ser, ou que lhe parecia mais conveniente. Era mais confortável!

Após três anos de trabalho, finalmente tinha tirado férias. Férias forçadas, pois por ele nunca teria tirado. Seu chefe o obrigou, dizendo que ele estava muito estressado. “Que bobagem!” – ele pensou. Foi preciso que seu chefe ameaçasse despedi-lo para que ele tirasse as malditas férias. Já que foi obrigado, decidiu ir para a Bahia. Vários colegas lhe recomendaram ir para Porto-Seguro. Achavam que ele iria se divertir lá. Estavam errados. Na verdade quem iria se divertir seriam eles, ao ouvir as histórias insólitas que ele tinha para contar (por exemplo, como a cada duas horas ele era abordado na rua por vendedores de “substancias químicas” não regulamentadas pelo governo; ou como no meio da madrugada, voltando para o hotel, teve de fugir de um cafetão que queria que ele utilizasse os serviços de sua “funcionária” a todo custo; ou ainda o acarajé apimentado que lhe rendeu três dias de “realeza” sentado no trono do banheiro do hotel). Maldita hora que ele tirou essas férias; ou melhor, que o obrigaram a tirar essas férias! Podia ter ido com sua mãe para a casa da avó no interior. Teria economizado muito mais. Mas, quem disse que ele queria ver sua mãe? Ele gostava dela, afinal era sua mãe, mas os dois ou três telefonemas diários dela, e a mesma rotina de perguntas e sermões corriqueiros, fazia com que qualquer resquício de complexo de Édipo que ele tivesse por ela se transformasse em pura fúria assassina, digna do velho Jack o Estripador. Mas logo ele deixava pra lá, com o reconfortante pensamento “Ah! Fazer o quê? É a minha mãe!”.

“Finalmente o décimo segundo!” Jogou a mochila pequena que carregava na mão de lado, e com muito custo abriu a porta que dava acesso ao andar. Aquela costumava ser uma porta pesada, afinal foram feitas contra incêndio, mas depois de subir todos aqueles degraus, ela parecia pesar uma tonelada. Entrou no andar aliviado. Podia botar em uso aquelas rodinhas malditas da sua mala, que até então só serviram para fazer barulho a cada degrau que subiam batendo e ecoando dentro de seu cérebro. Atravessou o antigo corredor (o prédio devia ser da década de 50 ou 60) e no meio do caminho, ao chegar à porta do elevador viu o porque dele não estar funcionando. Assim como todo o edifício, o elevador também devia ser dos anos 50 (mas por alguma razão, ele não duvidaria se lhe dissessem que ele era mais antigo que o prédio). Era uma porcaria, a porta sempre ficava meio aberta, sendo preciso empurrar-la quando saísse dele. M. ficou tomado de fúria. Mas não qualquer tipo de fúria; aquele tipo de fúria típica dos conformistas: a raiva sem entusiasmo, vulgarmente conhecida como pura depressão. Ficou lá, estático, observando a pequena fresta da porta do elevador. Fresta que não deixou o elevador descer ao térreo. O que fez o porteiro, após 10 minutos de espera, chegar a brilhante conclusão de que o elevador não parecia que estava descendo e lhe sugerir: “Acho que o senhor vai ter de ir de escada”! M. pensou consigo mesmo: “Não diga! Eu estava pensando em ir voando até em casa! Mas como deixei a janela trancada vou ter de ir de escada mesmo!” – ele apenas pensou, nunca teria coragem de dizer isso para o porteiro que era duas vezes maior que ele.

Devemos dizer que M. não era uma das criaturas mais felizes daquele andar, exatamente o oposto do cachorrinho da senhora do apartamento 124. Era um cachorro minúsculo, um yorkshire ou um pequinês ou seja lá o que for, pouco importava desde que se mantivesse longe dele. Mas é claro que isso não acontecia. Todos os dias quando saia para o trabalho a velha e seu cão saiam para passear e era inevitável o encontro frente ao elevador. E neste momento começava o festival de latidos, pulos, lambidas e roçadas na sua perna. Uma vez teve de voltar para dentro e trocar de calça por causa da mancha deixada pelo pequeno “Marechal”, era assim que a velha o chamava. M. detestava o cão, não podia acreditar em nada que pudesse ser tão feliz e contente o tempo todo como aquele animal. Provavelmente a velha tinha deixado ele cair de cabeça no chão, e o cão acabou ficando assim, meio “perturbado”. Pensando bem, ele achava que a própria velha teria caído de cabeça no chão e por isso ela também era meio “perturbada”.

M. tinha certeza de quem tinha deixado a porta do elevador aberta. Só podia ser a senhora do 124, quem mais? Toda vez que ela saia deixava a porta do elevador aberta. Mas agora não adiantava discutir, queria apenas chegar logo em casa e desabar na cama. Porém, ao passar em frente à porta do 124 ainda conseguiu lançar um olhar de ódio. Imediatamente o cachorro começou a latir. É como dizem, os animais sentem o cheiro do medo e M. saiu correndo com o susto que tomou em direção a sua porta.

Depois de alguns segundos revirando suas coisas, enquanto o pequeno Marechal se esgoelava de tanto latir, M. achou as chaves de casa no fundo de sua mochila. Destrancou a porta e tentou abri-la. Nada! Tentou de novo e mais uma vez sem sucesso. Certificou-se que tinha realmente aberto a porta: estava aberta. Verificou se aquele era o seu andar: correto. Checou se aquela era realmente a porta do seu apartamento: 123; correto! – “Mas que merda!” – ele pensou, não costumava xingar em voz alta.

Tentou novamente abrir a porta. Queria entrar logo, poder tomar um banho, ir ao banheiro, dormir e não ouvir mais aqueles latidos infernais! Ele se concentrou, virou a maçaneta e resolveu dar um safanão com o ombro na porta. Ela não abriu totalmente, mas cedeu um pouco. Tinha alguma coisa atrás dela que a estava prendendo. Forçou mais um pouco até conseguir espaço o bastante para ele passar de lado. Encolheu a barriga, forçou aqui e ali e conseguiu entrar!

Aquele cheiro de casa fechada impregnou seu nariz. Tinha esquecido dois pedaços de pizza em cima do fogão, e depois de 15 dias provavelmente eles tivessem criado vida e infestado sua cozinha com uma colônia de fungos e bactérias super-desenvolvidas (talvez tivessem até criado sua própria civilização). É claro, esse é um detalhe importante: foram apenas 15 dias de viagem. O pacote era de um mês, mas ele já estava tão decepcionado e frustrado que abandonou o grupo da excursão e foi embora. O problema é que ele não avisou ninguém que iria embora. Inicialmente pensaram que ele havia se perdido durante o passeio de escuna seguido de aula de mergulho. Depois cogitaram a idéia que ele tivesse sido seqüestrado, mas como ninguém entrou em contato pedindo resgate, descartaram a idéia. Até que um senhor aposentado (capitão reformado da polícia militar. Não que esse detalhe seja importante, mas ele acreditava que por causa disso sua palavra valia mais que a dos outros) cogitou a possibilidade de que ele talvez não fizesse parte da excursão e fosse um turista avulso. Todos ficaram satisfeitos com essa hipótese (afinal de contas, foi um ex-capitão de policia que a disse) e dormiram com suas consciências tranqüilas. É claro que todas essas teorias sobre o desaparecimento de M. só foram ocorrer justamente 15 dias depois que ele já tinha ido embora e dentro do ônibus que ia levar o grupo de volta para o aeroporto, durante a distribuição dos brindes. Quando sobrou um brinde foi que lembraram de M.; para devolve-lo ao esquecimento novamente, cinco minutos depois de terem lembrado dele.

M. entrou em casa e imediatamente abriu a janela para ver se o cheiro ficava menos pior. Foi à cozinha e jogou no lixo aquilo que um dia havia sido dois pedaços de pizza. Pensou em acender uns incensos para melhorar o aroma do apartamento, mas não tinha nenhum. “Merda!” – dessa vez falou em voz alta.

Tentou ignorar o cheiro e foi ver o que estava impedindo a porta de abrir. Havia dezenas e dezenas de correspondências lá. Desde folhetos de pizzarias e restaurantes chineses (não lembrava de ter tantos assim na vizinhança) até cartas de banco oferecendo crédito e cartões, contas de luz, água, telefone, contas avisando de outras contas não pagas, revistas que ele não assinava (mais um ótimo serviço do porteiro disléxico que confundia as correspondências do 133 com as suas) além de várias malas-diretas de lojas que ele nunca ouviu falar. Pegou tudo aquilo e jogou em cima da escrivaninha. Trouxe suas malas para dentro e antes de fechar a porta deu um grande “shhhhhhhhilll!” para os latidos do cachorro, o que só fez ele latir ainda mais e provavelmente acordar dona Matilde, a dona do Marechal, que já estava abrindo a porta gritando: “Quem é?”.

“Chega! Finalmente em casa!” – ele pensou. Foi ao banheiro, lavou as mãos e antes de dormir um pouco resolveu checar o computador, para ver se havia baixado os mp3 e os jogos que ele tinha deixado baixando antes de ir viajar. De um total de 100 itens, conseguiu apenas 5 deles. “É, acontece!” – disse pra si mesmo enquanto caia na cama de roupa e tudo.

Quando acordou já era noite. Não sabia dizer ao certo por quanto tempo tinha dormido. Talvez umas duas ou três horas no máximo. Olhou no relógio do computador: “00:45h!”. Não acreditou, checou no seu celular: “00:45h!”. Não conseguia acreditar que havia dormido por quase doze horas seguidas. O pior é que estava com fome e não tinha nada para comer, e a essa hora não teria como pedir nada ou sair para comprar. Não naquele dia da semana e não àquela hora. A vantagem de se morar no centro da cidade é que você sempre está próximo do metrô, ônibus, táxi, mercados e é fácil para você ir a qualquer lugar e para as pessoas virem até você. A desvantagem é que depois das 22h ninguém quer andar no centro, nem mesmo você.

Procurou no meio das suas malas, que ainda não havia desfeito, e achou meio pacote de bolacha aberto. Uma bolacha nunca lhe pareceu tão saborosa. Sentou-se na frente do computador e resolveu checar seus e-mails. Provavelmente teria uma pilha de e-mails para apagar. Digitou a senha de acesso, e lá estavam eles: mais de 600 e-mails! – “Essa é a vantagem de se ter uma conta de e-mail com alta capacidade de memória, dá para você receber muito mais lixo antes que sua caixa de entrada fique lotada!” – disse a si mesmo.  Levantou, foi até a geladeira e pegou a garrafa de água – “Água e bolacha! Bolacha e água! Bom, melhor que nada, pelo menos.” E assim começou a longa tarefa de selecionar e apagar os e-mails desnecessários. Propagandas de próteses penianas, créditos bancários, sites pornôs, confirmações de compras via internet que ele nunca fez, avisos falsos de bancos e sobre imposto de renda, links falsos paras álbuns de fotos de amigos que ele não tinha, enfim, toda uma flora e fauna imensa de “inutilidades públicas”. Depois de madrugada adentro apagando todo aquele lixo, finalmente sobrou apenas umas poucas dezenas de mensagens realmente dignas de atenção. Muitos e-mails de colegas de trabalho, contatos, um pedido do seu chefe para avisa-lo quando chegasse para poder lhe passar um serviço extra (logicamente só iria avisa-lo de sua volta daqui uns 15 dias), malas-diretas de algumas lojas, entre outras coisas. Entretanto, um e-mail lhe chamou a atenção. No título dizia: “Ingresso na Ordem Aceito”. M. quase apagou como sendo lixo eletrônico, mas decidiu ver do que se tratava. O e-mail dizia:

Prezado M…,

De acordo com correspondência anterior, estamos efetivando seu ingresso em nossa Ordem.

Desta forma, a partir de então você atenderá pelo codinome 27 (VINTE E SETE).

Futuros contatos serão feitos através deste codinome, para evitarmos qualquer tipo de constrangimento e divulgação de informações pessoais de nossos membros, para sua própria segurança.

Em breve entraremos em contato para maiores instruções.

Cordialmente,

9.

M. leu o e-mail. Leu novamente. Leu ao menos mais umas cinco vezes sem entender absolutamente nada. Procurou ver quem era o remetente. Havia um, mas era nitidamente de mentira, criado apenas para enviar aquele e-mail para ele. “Estranho.” – pensou em responder para ver o que acontecia. O e-mail voltou informando que aquela conta de e-mail estava lotada. Poderia ser uma brincadeira do pessoal do trabalho, mas ainda assim não fazia sentido e era bem sem graça para uma brincadeira. Acabou ignorando o tal e-mail e o apagou. Checou o restante dos e-mails e quando acabou decidiu ir dormir. Já era quase de manhã e precisaria sair cedo para ir ao mercado e pagar as contas atrasadas.

Acordou descansado, com fome e dores musculares devido ao esforço de ontem ao subir com as malas pela escada. Isso lhe fez lembrar de dona Matilde e do Marechal. Olhou no celular que para ver que horas eram: “11:30h”. Podia sair tranqüilo, não corria o risco de encontrar os dois no corredor. Ela saia para passear com o cachorro sempre e apenas pela manhã e à noite. Estava salvo! Tomou um banho em seu chuveiro que estava mais para uma goteira que uma ducha. A maior parte dos furos de água estavam entupidos – “Quando voltar preciso limpar isso!” – mas nunca o fazia. Se vestiu e foi verificar a correspondência em cima da mesa, para ver quais eram as contas mais urgentes a serem pagas.

“Conta de cartão de crédito que já cancelei, conta de luz, água, gás… propaganda, propaganda, propaganda… conta de parcelamento de empréstimo… propaganda, propaganda, propaganda… carta estranha… propaganda, propaganda, propaganda… conta da tv a cabo… propaganda, propaganda, propaganda… CARTA ESTRANHA!?” – rapidamente procurou de novo a tal carta em meio às outras. Era uma carta, bem… estranha! Era um envelope daqueles antigos, pequenos, com um espaço para colocar o CEP em quadrados individuais para cada número. Na verdade, parecia até que havia sido reaproveitado de outra correspondência. Olhou o carimbo do correio para ver de onde foi enviada. Estranhou, era dali do centro mesmo, próximo de onde morava. Havia sido postada há uns 15 dias atrás aproximadamente. O seu nome e endereço haviam sido escritos com uma máquina de escrever – “Quem é que ainda usa máquina de escrever hoje em dia?” – comentou sorrindo num ar de indignação e sarcasmo enquanto olhava para os lados. Em vão. Sempre que fazia comentários espertos estava sozinho. Fingiu que não tinha falado nada e, conformado, voltou-se novamente para a carta. Virou-a, mas não havia remetente. Demorou a abri-la, seja lá quem a mandou exagerou na dose da cola. Não teve outra solução a não ser rasgar o envelope, quase rasgando a carta junto. A carta também tinha sido escrita numa máquina de escrever. Devia ser uma daquelas antigas, pois as letras estavam até meio borradas. A carta dizia:

Prezado senhor M… ,

Por meio desta missiva, viemos lhe convidar para a nossa honrada e gloriosa ORDEM.

Através de várias investigações e levantamentos, chegamos a conclusão de que vossa senhoria possui o perfil que se encaixa perfeitamente dentro dos nobres propósitos desta sociedade secreta de cavalheiros.

Desta forma, caso não queira efetivar seu honorável ingresso em nossas fileiras, esperamos sua manifestação epistolar através de missiva a ser enviada para o endereço de caixa postal existente no verso desta mesma carta.

Entretanto, se dentro de 10 (dez) dias não obtivermos nenhuma resposta de sua parte, compreenderemos sua automática aprovação de ingresso em nossa ORDEM e mais tarde entraremos em contato para maiores instruções.

Sinceramente,

3.

Ficou pensando sobre o que tinha lido. Concluiu que sua compreensão daquilo tudo era tão grande quanto à habilidade de um atum escalando uma montanha. Virou a carta e realmente havia um endereço de caixa postal no verso. De repente ergueu os olhos arregalados e correu para o computador. Foi até a sua conta de e-mail e até a lixeira, resgatando aquele e-mail estranho que tinha lido na noite anterior: “Ingresso na Ordem Aceito”. O leu novamente. Agora as coisas faziam mais sentido; ou melhor, estavam menos confusas. Mas ainda assim, “que merda será essa Ordem?” – murmurou consigo – “Como é que me acharam? Deve ter sido através da lista telefônica, como todo o resto das propagandas que a gente recebe hoje em dia”. Seja lá o que fosse, ele tinha mais o que fazer do que se preocupar com uma suposta ordem secreta, que distribuía números para as pessoas se identificarem. Sendo ele 27, 8, 4 ou π, ainda assim tinha contas a pagar. Deixou a carta perto do computador e saiu.

Levou quase duas horas para poder fazer tudo o que precisava. Primeiro passou na lavanderia para deixar a pilha de roupa suja da viagem. Depois foi ao banco. A pior parte na sua opinião. Ele detestava bancos. Tudo o que podia fazer, realizava via internet. Mas, como as contas estavam todas em atraso, teve de ir ao caixa. Parecia que todo mundo naquele dia resolveu ir ao banco ao mesmo tempo. Já ficou desanimado assim que entrou na agencia e viu aquela fila quilométrica. Sem ter muito o que fazer a respeito, se arrastou deprimido até o fim da fila. Precisava pagar agora apenas quatro contas. Podia ir até os caixas eletrônicos, mas nunca confiou neles. Sua mãe dizia que bandidos ficavam a espreita e que podiam copiar seus dados do cartão. Não que ele acreditasse tanto nisso, mas preferia não arriscar. Em bancos sempre se sentia mal, como se estivesse sendo constantemente observado. Bem, ele estava mesmo! Afinal, aquilo era um banco, não uma padaria. Se irritava também com os office-boys e suas pilhas de contas das empresas. Se irritava ainda mais com a fila de atendimento preferencial. Achava que muita gente ia de propósito com crianças de colo para poder passar na frente de todo mundo; ou ainda tinha aqueles que achava que fingiam precisar andar de muletas para usarem o tal caixa. “Quanto tempo perdido!” – pensava ele até chegar ao limite de sua paciência e parar de pensar a respeito. Realmente era chato estar ali, mas ele tinha o dom de tornar aquilo ainda mais insuportável para si mesmo. Pagou suas contas e foi ao mercado. Comprou o estritamente necessário para o mínimo de sua sobrevivência por um período de uma semana.

Ao chegar na portaria do prédio carregado de compras, o porteiro apenas o cumprimentou com um sorriso e continuou sentado em sua cadeira frente ao pequeno monitor de tv que passava um daqueles maçantes programas de auditório. M. sorriu de volta para ele enquanto pensava: “Cretino! Me ajudar ele não pode, mas vir pedir dinheiro emprestado pode!” – e continuou seu caminho até a porta do elevador. Depois de uma sessão de contorcionismo, conseguiu apertar o botão do elevador com o cotovelo, enquanto tentava evitar que uma das sacolas caísse no chão ao mesmo tempo em que ouvia o porteiro se matando de rir com alguma “pegadinha” ridícula que assistia na tv. Seus dedos já estavam bem vermelhos e doíam devido ao peso das sacolas, e nada do elevador chegar. O porteiro continuava se divertindo com o programa da tv. “Filho da mãe! Será que não percebe que eu estou aqui? O porteiro da noite pelo menos abre a porta para gente, isso quando ele não está dormindo, ou bêbado… ou os dois!” – pensava ele, enquanto fingia que a recente falta de sensibilidade dos dedos não lhe incomodava nem um pouco. E nada do elevador chegar. Levantou a cabeça e olhou para o mostrador no topo da porta. Lá estava ele, arrogantemente brilhante, insolente! Parecia até que as risadas não vinham do porteiro, mas que na verdade estavam vindo dele, enquanto zombava daquela triste figura cansada lá embaixo, cheia de sacolas plásticas de mercado e com os dedos prestes a serem amputados: o luminoso número 12!

Os músculos da sua pálpebra direita começaram a vibrar freneticamente. Um velho sinal desde a infância, de quando ele estava extremante irritado com alguma coisa. Realmente irritado, preste a explodir! De repente, largou todas as sacolas de uma vez só, as quais se espatifaram no chão. Fechou os olhos, contou até dez, respirou fundo e se virou para o porteiro: “Por favor! Por favor! POR FAVOR!” – o porteiro ria loucamente, mas na terceira vez fez a gentileza de lhe dar atenção, tentando disfarçar a distração. “Opa! Desculpe senhor M.! Tava aqui entretido…” – e apontava pra tv ainda em meio a uns risinhos – “… o senhor viu só o que aquele cara fez? É muito  engraçado…”! Tentando disfarçar a irritação, M. o interrompeu: “Por acaso a dona Matilde subiu agora, antes de eu chegar?” O porteiro fez uma cara pensativa, como se M. tivesse lhe perguntado qual era a raiz quadrada de 1344, ou qual era o sentido da vida. Num rompante ele respondeu: “Ah! A dona Matilde! Sim, sim! Ela acabou de subir com o Marechal! Foi ainda agorinha! Se o senhor tivesse chegado um minutinho antes tinha subido com ela!”. M. olhou nos olhos do porteiro, depois para o chão, depois de novo pro porteiro e para o 12 luminoso do elevador. Respirou fundo enquanto se abaixava para recolher as sacolas do chão, e direcionava pensamentos não muito fraternos à dona Matilde e ao porteiro – principalmente depois que ele voltou a assistir ao programa e rir como um louco, ao invés de vir até ali lhe ajudar. Depois de ter recolhido as compras (e fazer seus dedos se lembrarem o que é a dor), olhou uma vez mais para o 12 do mostrador do elevador. Talvez na esperança que ele fosse mudar para 11, 10, 9… Mas não, nada mudou, inclusive a risada do porteiro voltou ainda mais forte e mais alta. Sem outra opção, dirigiu-se às escadas de emergência. Quando já tinha conseguido empurrar com as costas a porta para subir pelas escadas, o porteiro se virou para ele e disse: “Ué senhor M.! Vai de escada de novo?” M. parou e pensou: “Não!  Vou esperar sua mãe chegar e me levar no colo!”, mas o que ele disse com um sorriso amarelo foi: “É, né! Fazer o que? É bom pra exercitar, né?” e deixou a porta bater. Mas antes mesmo dela fechar pode ouvir o porteiro voltar a gargalhar de mais alguém que havia caído na “pegadinha”.

Novamente, pingando de suor, ele chegava ao décimo segundo andar! Chegou em frente à porta do elevador, que estava novamente entreaberta. A fechou com uma singela ombrada, e ficou parado lá, escorado na porta enquanto ouvia o elevador descer. Se recompôs e continuou seu caminho. Nem quis olhar para a porta da dona Matilde, mas em pensamento ela estava sendo muito bem lembrada por ele. Logicamente, assim que passou, os latidos começaram. Imediatamente M. lembrou de um documentário que assistiu sobre um mercado chinês que vendia carne de cachorro, e deu um leve sorriso de canto de boca.

Ao chegar à porta de seu apartamento, ouviu que o interfone estava tocando. Largou as compras no chão para poder pegar a chave do bolso o mais rápido possível. Entrou rápido e correu até a cozinha para atender o interfone. “Alô? Alô?! Seu M.?!” – era o porteiro, que não estava ouvindo direito por causa do volume da tv – Seu M.?! Tá me ouvindo?” – disse gritando. Ele berrava tanto, que M. pensou que logo não seria preciso o interfone. “Sim, estou ouvido!” – M. gritou. “Então seu M., esqueci de falar pro senhor que quando a dona Matilde subiu, eu dei pra ela levar a correspondência do senhor. Se ela não deixou na sua porta tá com ela! Ouviu seu M.?” – dizia o porteiro aos berros. “Tudo bem! Muito Obrigado!” e desligou. “Era só o que me faltava! Puta que pariu!” – sussurrou M.

Guardou as compras, navegou um pouco pela internet, tomou um copo de água, navegou mais um pouco na internet, tomou outro gole de água; foi e voltou pelo quarto-sala, só tomando coragem para ir até o 124 e falar com dona Matilde e a sua fera em miniatura. Estava nervoso, ou melhor, ansioso! “Coragem! Tem medo do que? De ser atacado por um cachorro pouco maior que um rato e por uma velha?” – ele ficava resmungando para si mesmo enquanto andava pelo apartamento – “Afinal de contas, você é um homem ou um rato? Rato? Queijo ralado! Sabia que tinha esquecido de comprar alguma coisa!” – comentava enquanto checava dentro da geladeira se realmente tinha esquecido de comprar o queijo. Estava se desviando de seu foco principal. Tinha de ir até ao apartamento de dona Matilde pegar sua correspondência!

Abriu a porta de seu apartamento e saiu calmamente. Foi até a porta do 124. Parou, respirou fundo, arrumou o cabelo, colocou a camisa para dentro da calça, verificou para ver se não estava com bafo. “Pelo amor de Deus! Você vai pegar sua correspondência com ela, e não convida-la para jantar fora!” – pensou ele revoltando-se consigo mesmo. Respirou fundo novamente e decidiu tocar a campainha. Porém, assim que ergueu o dedo, o Marechal começou a latir. Respirou fundo e tocou a campainha assim mesmo. O cachorro parecia que odiava o som, pois latia ainda mais loucamente. Tocou novamente, e apenas na terceira vez ouviu a voz da velha: “Já vai! Já vai!”.

Barulhos de trancas e correntes sendo retiradas. Finalmente a porta se abriu parcialmente, mantendo-se presa pela corrente da ultima tranca. Pela fresta, uma face idosa usando um par de óculos de aros grossos apareceu, enquanto o latir do cão se tornava absolutamente insuportável. “Sr. M.! Que surpresa!” – disse a velha senhora de ar bonachão. “Como vai a senhora? O porteiro me disse que lhe entregou a minha correspondência e…” – a velha bateu com a porta na cara dele. M. ficou paralisado, com a boca aberta sem terminar o que estava dizendo e tentando entender o que tinha acontecido. Voltou ao normal, olhou no corredor para se certificar que ninguém tinha visto aquilo. O cachorro continuava a latir como louco. Pé ante pé ele foi se afastando e voltando para seu apartamento. Já estava girando a maçaneta de sua porta quando, de repente, a porta do 124 se abriu e dona Matilde apareceu com três envelopes na mão e um pequinês (ou yorkshire, pouco importa, ele não sabia a diferença) correndo por entre as suas pernas alucinadamente na direção dele. Dona Matilde veio lentamente caminhando em sua direção, enquanto o Marechal mordia, puxava e estraçalhava cheio de raiva a barra da sua calça como se ela fosse a maior ameaça sobre a terra!

Dona Matilde caminhava com uma rapidez que faria uma lesma se sentir uma velocista. M. sorria educadamente para ela e, discretamente, tentava chutar o pequeno Marechal para longe e salvar o que havia sobrado de sua calça. “Aqui está meu querido!” – dizia dona Matilde chacoalhando os envelopes e se aproximando. M. decidiu ir até ela antes que o Marechal descobrisse que ele tinha outra barra na outra perna da calça. Arrastando o cão pelo chão do corredor, chegou até a velha senhora. “Muito obrigado dona Matilde! Se a senhora não se incomoda, eu vou pegar minha correspondência e voltar para dentro.” – a velha sorriu para ele – “Não foi nada meu querido. Foi um prazer ajuda-lo!” – e ficou lá parada olhado para a cara dele. Ele, ainda tentando se livrar do cão aos seus pés, esboçou um sorriso sem graça. “Bem… é… dona Matilde, eu gostaria de ir pro meu apartamento e… o pequeno Marechal está… bem… está…” – a velha ainda o fitava sorrindo; mas logo, parecendo como se tivesse saído de um transe, olhou aflita para seu cão – “Marechal! Seu sem-vergonha! Cachorro feio! Já para dentro! Vai, vai, vai!”. O cão largou a calça e entrou em casa choramingando. M. agradeceu novamente e entrou em seu apartamento o mais rápido que pode, deixando dona Matilde e seu cachorro para trás.

M. trancou a porta e ficou alguns segundos lá, encostado de costas para ela, respirando fundo. Olhou para a barra de sua calça. Estava dilacerada e babada! Fechou os olhos numa expressão de ódio contido, enquanto tentava encontrar palavras que pudessem expressar seus sentimentos pelo cachorro de dona Matilde. Mas não achou nenhuma adequada; não muito melhor que as de sempre. Preferiu economizar saliva e trocar de roupa.

Pensava em que dia iria na casa de sua mãe levar a calça para ela concertar (ou transformar em bermuda), enquanto recolhia as três cartas que tinha jogado em cima da cama assim que entrou. Uma era propaganda de banco, anunciando que havia sido aprovado uma linha de credito pessoal com direito a cartão e bastava ligar para o número indicado e ativar o plano. M. amassou a carta com uma das mãos e fez uma “cesta” no lixo debaixo da mesa do computador. A segunda carta era a propaganda de um “flat” na região do bairro dos Jardins. O anuncio dizia que ele teria amplas dimensões, comodidade, boa localização, condomínio com piscina e sauna, segurança e etc…Tudo isso a sua disposição nos próximos cinco anos! “Colocar esse folheto debaixo da porta da dona Matilde.” – pensou ele como um lembrete a si mesmo. Por fim, a ultima carta. Na verdade era um telegrama. Ele ficou bem empolgado, afinal, nunca tinha recebido um telegrama! Antes de abri-lo, ficou admirando o envelope; checando se seu endereço havia sido escrito de forma correta, a textura do envelope, entre outros detalhes. Alguns minutos depois, resolveu abrir o envelope. Abriu com todo o cuidado, pois pretendia guarda-lo. O remetente estava em nome de “João da Silva” e o endereço parecia ser ali perto de seu prédio. O telegrama dizia: “VEJA SEU EMAIL”.

“Ver meu e-mail?” – disse ele confuso. Checou a data de postagem do telegrama. Havia sido postado no dia anterior. “Para que alguém manda um telegrama avisando que mandou um e-mail?” – comentou achando aquilo o cúmulo da bizarrice. Ligou o computador, digitou sua senha de acesso, e lá estavam 10 novas mensagens. Algumas propagandas de costume, alguns lixos eletrônicos, uma piada de um colega do trabalho (algo envolvendo um moedor de carne, um jumento e uma mulher gorda; não quis saber de maiores detalhes e logo apagou a mensagem), outro e-mail de seu chefe pedindo para avisa-lo quando chegasse (esse foi o primeiro que apagou depois dos três e-mails sobre aumento de pênis) e um que dizia “Aviso aos Múltiplos de 3”. Decidiu abrir a mensagem. O remetente do e-mail se identificava também como “João da Silva” entre parênteses; era nitidamente outro e-mail falso criado só para aquela mensagem. Provavelmente se tentasse responde-lo não daria em nada, como o outro que tinha recebido. De qualquer forma, a mensagem dizia:

Prezados Irmãos (x 3),

De acordo com investigações prévias, e como já foi alertado a todos, existem elementos entre nós que conspiram e ameaçam nossas integridades físicas e mentais.

Por alguma razão, que ainda nos é desconhecida, eles se infiltraram em nosso meio e buscam nos aterrorizar. Portanto, caso recebam qualquer tipo de contato (seja qual for o meio) contendo ameaças e os obrigando a realizar qualquer tipo de coisa, não se deixem abater. São ameaças vazias. Não cedam de forma alguma.

Em breve entraremos em contato para maiores instruções e notícias.

Cordialmente,

18.

“Mas que porra é isso?” – gritou, se surpreendendo com ele mesmo por ter xingado em voz alta.

Já havia se passado dois dias desde que recebera o misterioso telegrama e o e-mail. No dia que recebeu a mensagem não conseguiu pensar em mais nada a não ser sobre aquilo tudo. Tentou entender o que estava acontecendo: “Será que eu me inscrevi em alguma coisa e não lembro? Bom, teve aquele sorteio do shopping no começo do ano, mas… não, não pode ser… ” – ele se questionava. Conseguiu ignorar a situação por um dia inteiro, até que resolveu descobrir mais a respeito do endereço que aparecia como remetente no misterioso telegrama. Assim, no segundo dia após ter recebido o e-mail, tomou um banho, se vestiu, pegou sua carteira e o celular e já estava prestes a abrir a porta quando ouviu barulho de alguém no corredor. Ficou lá, imóvel, paralisado. Costumeiramente evitava os vizinhos, mas naquele dia em especial estava mais anti-social do que de costume. M. detestava o que ele chamava de “ritos sociais de boa vizinhança”. Se lhe perguntassem, ele diria que os ditos “ritos” consistiam em fingir; fingir estar interessado em perguntar se o vizinho está bem, fingir em estar contente de ver seu vizinho e demonstrar isso sorrindo, fingir que está preocupado com o clima e fazer comentários sobre o tempo, enfim, todo tipo de coisa para que tanto você quanto a outra pessoa não se sentissem tão desconfortáveis ao se verem. Ele não entendia qual era a grande necessidade das pessoas em fingirem ser amigáveis. Era uma total perda de tempo. Pelo menos era o que M. pensava.

De qualquer forma, lá estava ele frente a sua porta, ouvindo os sons que vinham do corredor. Se arriscou a olhar pelo olho-mágico, e pode ver que era o senhor que morava no 122 que estava saindo. Não sabia muita coisa sobre ele e o pouco que sabia não era grande coisa. Ele tinha se mudado para lá há uns três ou quatro meses, se não lhe falhava a memória. Ao que parece, era dono de uma livraria ou um sebo ali mesmo no centro da cidade. Pelo visto, assim como M., ele também era um recluso. Nunca viu ninguém visitá-lo. Aparentava estar por volta da casa dos cinqüenta. Era alto e corpulento, não exatamente gordo, mas forte. Quando jovem poderia ter sido do exército. – “Talvez tenha sido mesmo” – pensava M. Estava sempre muito bem vestido. Nada de extravagante, mas muito melhor do que a maioria das pessoas que costumava encontrar todo dia. Estava sempre de terno e gravata. Parecia um personagem saído de um filme dos anos 40. Talvez tivesse essa impressão por causa do chapéu que insistia em usar (que realmente parecia ser dos anos 40) – “Cada louco com sua mania!” – murmurou. O senhor do 122 trancou a porta de seu apartamento e se dirigiu para o elevador. Enquanto esperava, verificava alguma coisa dentro de sua valise de couro.

M. esperou até ter certeza de que seu vizinho já estivesse quase chegando ao térreo, e só então decidiu abrir a porta e sair. Quando apertou o botão do elevador, viu que ele estava descendo do terceiro para o segundo andar. Assim que entrou no elevador e começou a descer, rezou para que ninguém mais entrasse no meio do caminho. Definitivamente não estava num dia muito sociável. Logo estava no térreo.

Com o telegrama em mãos, estava pronto para começar sua procura pelo endereço do tal senhor “João da Silva”. Pelo que podia ver, devia ser perto de lá, mas não sabia exatamente onde. Deve-se dizer que o senhor M. não era uma das melhores pessoas no quesito “direções” (aquela velha piada de alguém “capaz de se perder em seu próprio bairro”, no caso de M., não era piada). Em parte, responsabilizava sua mãe por isso, que só deixou ele andar sozinho na rua com dezesseis anos de idade.  Claro que isso era mentira e uma bela desculpa para si mesmo (desde os treze anos que sua mãe já não ia busca-lo mais no colégio). M. leu novamente o endereço do remetente do telegrama e começou sua busca.

Logicamente ele se perdeu e gastou muito mais tempo do que o necessário para achar o dito endereço; isso sem contar as duas vezes que ele passou em frente do próprio prédio.  Entretanto, para seu alivio, finalmente tinha encontrado o lugar. Mas não serviu para muita coisa. Seja lá quem fosse o misterioso senhor João da Silva, não queira ser encontrado facilmente. O endereço em questão era exatamente o endereço da própria agencia dos correios de onde havia sido enviada a mensagem. M. não podia nem dizer que tinha voltado à estaca zero, por que nunca saíra dela na verdade. Já era quase seis da noite e o sol estava se pondo. Frustrado, decidiu que naquele dia só lhe restava voltar para casa. Estava com fome e lembrou-se que na geladeira estava lhe esperando um litro de refrigerante e uma lasanha congelada para microondas, bolonhesa coberta de molho branco. Detestava molho branco, e isso fez com que seu retorno fosse ainda mais penoso.

Enquanto voltava para casa, encontrou uma padaria e decidiu comprar pão e presunto. Qualquer coisa seria melhor do que lasanha com molho branco. Aliás, ele mesmo se perguntava: “Por quê eu comprei uma lasanha com molho branco?”. Como era uma padaria diferente da sua habitual (em outras palavras, a que ficava na sua rua), ele virou algumas esquinas erradas e levou uns quinze minutos a mais para chegar em casa. Mas também, não estava com pressa.

Durante seu caminho de volta, ainda pensava a respeito dos e-mails e da tal Ordem da qual, até onde parecia, ele tinha sido feito membro sem que nem ele mesmo soubesse do que se tratava. Ao chegar em casa, o elevador estava novamente travado no décimo segundo andar. Nem mesmo se deu o trabalho de perguntar ao porteiro se era dona Matilde que havia chegado naquela hora. Apenas aguardou um pouco para ver se o elevador realmente iria se negar a descer. Como sua suspeita se confirmou, se encaminhou sem hesitação para as escadas. O porteiro (o das pegadinhas) disse alguma coisa para M., mas como ele já estava acostumado aos seus “brilhantes” comentários, nem se deu ao trabalho de parar para ouvir. Afinal de contas, como ele mesmo pensou: “Nada de ser sociável por hoje!”.

“Novamente o décimo segundo andar!” – já não estava tão cansado como de costume. Talvez seu corpo já começasse a se acostumar com aquilo. “Quem precisa de academia?” – falou alto o bastante para ecoar nos corredores das escadas. Tinha acabado de entrar no corredor do andar (ainda um pouco ofegante) e já se dirigia para sua porta quando percebeu que havia alguém atrás dele. Virou-se rápido, mas não havia ninguém. Teve a impressão de ter ouvido o barulho de uma porta ter sido fechada, mas podia ser apenas sua imaginação paranóica.  Ficou um tempo parado, olhado para o corredor vazio, mas nada de excepcional aconteceu (com exceção da luz que apagou, e ele teve de acende-la de novo e a voz abafada de dona Matilde falando com o Marechal em seu apartamento). Ainda meio apreensivo, foi em direção a sua porta. A abriu sem maiores problemas. Estava em casa de novo.

Foi tomar um copo de água e voltou para a porta. Ficou lá olhando pelo olho-mágico. Mas como antes, nada de novo aconteceu no corredor. Entretanto, tinha quase certeza de que realmente tinha alguém no corredor com ele ainda agora. “Você está ficando paranóico, isso sim!” – pensava consigo mesmo enquanto observava o corredor. Já estava lá há quase cinco minutos. Parado, apenas observando, de guarda, como um atirador de elite esperando o momento certo do tiro. Estava tão concentrado que podia ouvir o som das engrenagens do elevador funcionando. Mais um pouco poderia até ouvir o que estava acontecendo dentro dos outros apartamentos (não que realmente ele pudesse fazer isso, mas não custava nada fantasiar).

Estava lá observando, concentrado. Absolutamente focado em sua vigília do corredor, a espera sabe-se lá do que ou de quem. De repente, sentiu sua perna ser atacada por algum tipo de criatura! O pânico tomou conta dele! Pulou para trás e correu de costas, tentando fugir daquilo que tinha se enfiado dentro de suas calças. Acabou tropeçando e caiu em cima da cama. Desesperado, enfiou a mão dentro do bolso para se livrar daquilo. Respirou fundo e chamou a si mesmo de idiota. Era apenas seu celular vibrando. Olhou quem estava ligando. Era sua mãe. Ficou surpreso, pois não tinha contado para ninguém (nem mesmo para ela) que já tinha voltado de viagem. Ainda ficou olhando para o celular, observando a palavra “mãe” piscando no visor do aparelho. “Atendo ou não?” – pensava. Era um dilema inútil. Mesmo antes de pensar na pergunta ele já sabia a resposta. Atendeu, inspirou e disse meio desanimado: “Oi, mãe”.

“Como é que você tem a coragem de voltar de viagem e não me avisar que já chegou, filho?” – disse ela indignada.

Uma grande interrogação pairava sobre a cabeça de M. Ninguém sabia que ele tinha voltado – “Mas mãe, eu… não voltei ainda de viagem. Estou aqui em Porto Seguro ainda”.

“Não minta para a sua mãe! Eu sei que você não está mais na Bahia e que já voltou há dois dias atrás!”.

Ele sabia que seria inútil tentar manter aquela mentira e se rendeu de uma vez – “Tá bom! Tá bom! É verdade, eu voltei de viagem! Mas como a senhora sabe?”.

“Eu sou sua mãe, esqueceu? Sabia que você não ia agüentar ficar nessa viagem por muito tempo. Você nunca gostou de ficar longe de casa por muito tempo. Lembra aquela vez, quando você tinha uns nove anos, quando você foi passar o fim de semana na casa dos seus primos? Não era nem onze horas da noite da sexta-feira e você já tinha me ligado, chorando, pedindo que eu fosse te pegar porque…”.

“Ok, ok! Eu lembro dessa história, mãe! Mas isso ainda não responde minha pergunta”.

“Bom, como eu achava que você não ia agüentar passar um mês viajando, resolvi te ligar para conferir. Mas claro, antes eu liguei para o hotel lá na Bahia em que você estava hospedado, para confirmar se você já tinha ido embora”.

“Mas como você sabia onde eu estava e o número do hotel?” – ele perguntou ainda mais intrigado.

“Ora, filho! Liguei para a sua agência de viagem, falei que era sua mãe, e eles me deram as informações. Depois liguei para a portaria do seu prédio, e o porteiro disse que você já tinha chegado há dois dias. Por sinal, muito simpático o porteiro do seu prédio. Elogiou você, disse que você ajuda aquela sua vizinha, aquela senhora do cachorrinho. Disse que se preocupa com ela, está sempre perguntando dela. Fico muito orgulhosa, filho!”

“Sei…” – disse M., enquanto pensava que sua mãe com certeza deveria ter seguido carreira policial, detetive ou algo assim – “Mas, a portaria do meu prédio tem telefone?”

“Tem”.

“E você tem o numero?”

“Tenho”.

“Como?”

“Liguei para a imobiliária, falei que era sua mãe e a fiadora, e eles me deram o número”.

“Bom, então a senhora já está sabendo que estou de volta. Satisfeita?”

“Não! Por que você não me ligou, não passou aqui?”

“Por que? Porque queria descansar.”

“Descançar? Então quer dizer que a presença da sua mãe te cansa? Quer dizer então que sou um estorvo para você?”

“Não, não é nada disso!” – respondeu com um ar de tédio. Ele conhecia muito bem esses ataques de chantagem emocional de sua mãe – “Eu não te liguei porque tinha de arrumar minhas coisas aqui. Guardar as malas, pagar as contas atrasadas, limpar a casa e outras coisas” – logicamente era mentira. Suas malas continuavam jogadas num canto do apartamento, ainda tinham umas três contas em atraso para pagar e nos últimos dois dias esteve ligado na internet ou vendo tv, deixando a vassoura em paz.

“É bom mesmo você arrumar sua casa. Da última vez que fui ai fiquei chocada com a bagunça!” – esse era um dos típicos comentários que ela sempre fazia para ele.

“Bom meu querido, quando é que você vai passar aqui? Tem umas correspondências aqui para você”.

“Na verdade não sei, mãe. Talvez no fim de semana. Vou levar uma calça para senhora ver se dá para consertar. A barra rasgou”.

“No fim de semana? Perfeito! Vou fazer seu prato preferido filho: lasanha bolonhesa com molho branco”.

“Mãe, eu detesto esta lasanha com molho branco”. – disse começando a se irritar com a mania de sua mãe achar que sabia do que ele gostava.

“Está bem, meu querido. Eu faço então canelone com molho branco”.

M. respirou fundo para manter a calma – “Mãe, façamos assim: depois eu te ligo e a gente combina o que a senhora faz. Agora preciso desligar e continuar arrumando minhas coisas”.

“Está bem, filho. E hoje, quando for sair, não esquece de se agasalhar. Parece que vai chover hoje à noite, ouviu?” – M. estava em silêncio e confuso.

“Mãe, quem disse que eu vou sair hoje?”

“É que seu amigo do trabalho disse que ia ligar para você, para te chamar para sair hoje à noite”.

“Do que a senhora está falando?” – disse, temendo pelo o que estaria para ouvir.

“É que antes de ligar para o seu prédio, liguei para um de seus amigos do trabalho. Talvez você estivesse com algum deles. Na verdade, tudo isso poderia ser evitado se você não tivesse desligado o seu celular. Você não está me evitando, está?”

“Claro que não, mãe!” – disse irritado, mas era mentira. Sempre a evitava – “Mas como é que você tem o numero de um amigo meu do trabalho?”

“Ué, eu peguei o número na sua agenda”.

“Agenda? Mas que agenda?”

“A agenda do seu celular, filho!”

“A senhora andou mexendo no meu celular?” – ele perguntou atônito.

“Sim. Peguei na ultima vez que você veio aqui em casa. Filho, nunca se sabe o que pode acontecer. É sempre bom ter o numero de seus amigos, no caso de alguma emergência. Todas as mães fazem isso. E não grite comigo!”

M. ficou alguns segundos em silencio até se acalmar. – “Está bem, mãe. Para quem a senhora ligou?”

“Bem, não lembro o nome direito. Acho que é Bernardo, Reinaldo…”

“Não vá me dizer que a senhora ligou para o Ricardo!”

“Isso mesmo! Ricardo! É esse mesmo!”

M. fechou os olhos e contava mentalmente até dez para não xingar sua mãe. O Ricardo (vulgo “Rica”, como ele mesmo se autodenominava) era um de seus colegas de trabalho mais insuportáveis, na sua opinião. Era, ou ao menos tentava, ser o “palhaço” do trabalho. Sempre contando piadinhas sem graça, enviando e-mails pornográficos durante o trabalho, sempre tentando ser altamente simpático e adorava inventar apelidos para todos. Um pé no saco, segundo M.

“A senhora ligou para ele e pediu para ele me convidar para sair?”

“Eu? Não, apenas perguntei se você estava com ele. Ele então perguntou se você já tinha voltado de viagem. Quando disse que sim, ele falou que iria lhe ligar para combinarem alguma coisa. Disse que você anda meio solitário. Eu acho muito bom que seus amigos se preocupem com você”.

“Ele não é meu amigo”.

“Não importa. É bom que você saia de casa de vez em quando. Bom, então espero você no fim de semana. Te ligo depois, filho”.

M. desligou o celular já pensando na desculpa que teria de dar para seu “amigo” quando ele ligasse. Maldita hora que sua mãe ligou para o Rica. Logo hoje que ele queria só tomar um banho e ficar a noite toda vendo tv.

Mal tinha largado o celular em cima da mesa para poder ir ao banheiro, e o aparelho começou a tocar. Olhou para ver quem era. Era o Rica! Ficou nervoso, andava para lá e para cá tentando pensar no que falar – “Já sei! Vou dizer que estou com visita! É isso!” – atendeu.

“M.? E ai, meu querido?”

“Tudo bem, Rica?” – infelizmente ele não podia ver o sorriso amarelo de M.

“Vamos pra balada hoje?” – disse rindo.

“Olha, então… não sei não. Ainda estou meio ocupado e…”

“Pode parar, meu querido! Já pode ir pedindo a pizza que daqui a pouco eu tô ai. A minha metade é de aliche!”

“Mas Rica, calma lá! Você não sabe onde moro e…”.

“Atende o interfone”.

“O quê?”

“Atende o interfone”.

“Mas por que? Ele nem está…” – no mesmo instante o interfone começou a tocar.

“Alô? Seu M.? Tem um rapaz aqui em baixo. O nome dele é Ricardo” – M. não acreditava naquilo. Só podia ter sido sua mãe. Ela deve ter dado seu endereço para seu caro “amigo” – “Puta que p…!” – murmurou.

“Seu M.? O senhor disse alguma coisa? Posso mandar ele subir?”

“Pode, sim!” – M. desligou o interfone antes mesmo que o porteiro dissesse alguma coisa.

Os segundos que se seguiram pareceram uma eternidade. Ele ficou lá de pé, de frente para a porta, aguardando sua visita indesejável. Ouviu o barulho da porta do elevador. Passos no corredor se tornando cada vez mais altos. A luz do corredor se acendeu. Passos cada vez mais próximos. A campainha tocou rapidamente três vezes seguida. Ele continuava parado. Pensava que, talvez, se ficasse lá parado em silencio, o Rica desistisse e fosse embora. A campainha tocou novamente, seguida de batidas na porta e a voz do Rica – “M.! É o Rica! Tá no banheiro, tá?” – e riu bem alto.

M. decidiu abrir a porta o mais rápido possível. Era melhor deixa-lo entrar antes que dona Matilde viesse ver o que estava acontecendo juntamente com o Marechal. Ai sim seria um pesadelo completo: a velha disléxica, o cachorro psicótico e o piadista inconveniente juntos e na sua porta. Não queria nem mesmo pensar numa situação daquelas. Correu e abriu a porta o mais rápido possível.

“E ai, cadê a pizza?” – disse Rica.

M. não achava o tal amigo Rica insuportável pelo simples fato dele acreditar (ou terem dito a ele) que era engraçado. O problema é que juntamente com o “pseudo lado cômico”, vinha também um descarado “senso de tempo-espaço pessoal expandido”: em outras palavras, era um folgado e espaçoso. Talvez seu lado cômico fosse na verdade a forma de tentar amenizar seu lado espaçoso. Ou ele era espaçoso justamente porque achava que seu lado cômico permitia isso? De qualquer forma, M. o achava merecedor do Nobel da chatice. O Rica já foi entrando como se estivesse na própria casa, sentou frente ao computador e começou a checar seus e-mails.

“E ai M., cadê a pizza? Ela vai demorar muito? Posso usar seu computador? É rápido!” – M. estava completamente sem reação – “É… eu vou ligar pra pizzaria. Pode usar o computador. Fique a vontade.” – apesar dele duvidar que precisasse dizer isso.

“Pô, legal seu apê M.! Faz tempo que você mora aqui? – M. não respondeu, pois já estava fazendo o pedido da pizza.

Rica já tinha visto seus e-mails, e agora estava navegando em alguns sites pornôs que, ao que tudo parecia, ele conhecia de cor. Assim que M. desligou o telefone, Rica o chamou urgente para lhe mostrar algo no computador.

“M., vem cá ver! Olha que gostosa! Se tivesse com uma dessas hoje, estaria bem longe daqui!” – deu uma gargalhada e deu um empurrão no ombro de M., que por sua vez estava achando tudo aquilo bem desagradável.

Enquanto esperavam a pizza chegar, Rica manteve a inconveniente atitude de ficar falando enquanto mostrava cada vez mais pornografias e contava uma enxurrada de piadas sem graça. Todas elas de certa forma eram como pequenas ilhas de baixarias, cercadas de pornografias por todos os lados.

“Você leu a piada que te mandei? A da gorda e do jegue?” – perguntava ele eufórico, após ter contado uma outra de suas fantásticas piadas.

“Li. Era aquela que tinha um moedor de carne? Li sim.” – mentia M. para ver se Rica mudava de assunto.

“Muito boa, né? Vou te mandar outra que achei no mesmo site que ela. Mas essa da gorda ainda continua sendo melhor. A melhor parte é aquela hora que a gorda tá com o moedor de carne na mão, e ai o jegue olha e diz assustado…” – para o alivio de M. o interfone tocou. Era a pizza.

“Quer que eu vá lá buscar?” – perguntou Rica. Antes mesmo que M. dissesse alguma coisa, Rica já tinha pegado o dinheiro de suas mãos e saído.

“Preciso pensar em alguma coisa! Em alguma desculpa para ele ir embora! Mas o quê?” – estava tenso. Não conseguia pensar em nada convincente. Logo já podia ouvir a porta se abrir e Rica entrando com a pizza, deixando a porta escancarada. M. se levantou e foi fechar a porta. Faltava pouco para fechar a porta quando teve uma sensação estranha. Levantou os olhos e pode ver que alguém o estava observando de um dos outros apartamentos. Assim que ele percebeu que estava sendo observado, fecharam a porta do apartamento em questão com uma batida forte. Por um segundo M. manteve-se lá parado. Tinha certeza que era o 122 – “Será que era o senhor do 122? Quem mais seria? Ele mora sozinho, só pode ser ele. Também, com essa bagunça toda que o Rica fez é natural que saiam para ver o que está acontecendo”- M. pensava consigo, tentando se tranqüilizar. Entretanto, aquilo o deixou inquieto. Com uma sensação desagradável. Definitivamente estava ficando paranóico.

Mal tinha fechado a porta quando viu Rica sair da cozinha munido de um prato e dois pedaços de pizza de aliche, que impregnava o apartamento com aquele cheiro forte. M. detestava aliche, e isso só fez com que desejasse ainda mais que seu visitante fosse embora logo. Não lembrava exatamente quem tinha dito isso, talvez Benjamin Franklin, mas lembrou-se do pensamento que dizia: “Visitas são como peixes. Após três dias começam a cheirar mal”. No caso de Rica, bastaram trinta minutos.

M. foi até a cozinha e pegou seu pedaço de pizza. Ao voltar para a sala, via Rica comer como se não tivesse amanhã. Parecia que ele nunca tinha visto um pedaço de pizza em toda sua vida. A visão dele comendo daquele jeito, com as mãos, de forma quase pornográfica, e o cheiro do aliche, começou a deixar M. enjoado.

“Eu adoro pizza de aliche!” – disse Rica enquanto se levantava para ir a cozinha pegar mais um pedaço.

“É, deu para perceber.” – comentou M.

Rica ainda estava na cozinha quando M. ouviu o celular do amigo tocar. Ele o tinha deixado em cima da mesa do computador. M. o pegou e foi leva-lo para o amigo que pareceu não tê-lo ouvido tocar. Chegou na cozinha e lhe entregou o aparelho.

“Opa! Brigadão meu querido!” – dizia Rica enquanto limpava as mãos para poder atender o celular.

M. entregou o celular e voltou para seu pedaço de pizza que lhe aguardava na sala-quarto. Porém, enquanto voltava, pode ouvir um pouco do que o amigo dizia.

“Alô? É ele. E ai, queridão, como vai?… Sei… certo… Isso mesmo, vou estar lá hoje… Bom, acho que daqui a pouco!… Vai, vai sim… Não, ainda não, mas depois te conto em detalhes… Isso… Tô, tô sim… Você vai levar o… Entendi… Certo! Então a gente se vê lá… Tá certo, meu querido Onze! Até!” – Rica desligou o celular e voltou para a sala com mais dois pedaços de pizza.

Alguma coisa naquela conversa havia inquietado M. Talvez não a conversa em si, mas a forma como Rica havia chamado a outra pessoa do outro lado da linha: Onze! Era impossível não se lembrar de toda a história dos e-mails, do telegrama, da tal Ordem e os codinomes numéricos. “Será que o Rica sabe de alguma coisa? Será que ele faz parte da Ordem? Pelo amor de Deus! Pára com isso! Está começando a ver coisas onde elas não existem. Daqui a pouco vai estar ouvindo vozes!” – pensava M.

M. e Rica tinham acabado de comer. M. foi lavar os pratos enquanto Rica havia ido ao banheiro. Ao sair, com um ar de felicidade (como se tivesse tirado uma tonelada das costas), voltou para a cozinha.

“E ai, queridão? Preparado para a balada de hoje?” – perguntou Rica com um sorriso.

“Olha, eu não sei se essa é uma boa idéia. Eu estou meio cansado, e amanhã tenho umas coisas para fazer logo cedo. Além do que, ainda estamos no meio da semana”.

“Mas e daí? Você está de férias M.! Esqueceu? Até o mês que vêm você está num eterno sábado!” – gargalhava Rica.

“Bom, é verdade. Mas e você? Amanhã vai ter de acordar cedo, não vai?”

“Não se preocupa, meu querido! Depois chego em casa, tomo um banho e pronto: lavou tá novo!” – dizia Rica enquanto empurrava M. para fora da cozinha – “Vamos lá! Escova os dentes, pega a carteira e vamos logo de uma vez!”

M. não se conteve e acabou perguntando: “Você marcou com alguém lá?”

“Bom, falei com duas amigas minhas. São bonitas, viu! Se quiser posso arrumar uma delas para você. Tá afim?”

“Não, não precisa. Obrigado. Perguntei porque ouvi você falando no celular”.

“Ah tá! Entendi. Era só um amigo meu. Tinha comentado que ia sair hoje. Talvez ele apareça lá também”.

M. foi escovar os dentes, se arrumou, pegou a carteira e a chave de casa. Agora não tinha mais volta. Como não conseguiu arrumar nenhuma desculpa, teria de ir com Rica. Na verdade, bem lá no fundo, ele estava com vontade de ir. Alguma coisa dentro dele dizia para ele ir. Estava curioso para ver aonde iriam, afinal não costumava sair muito e não podia perder aquela oportunidade, mesmo que fosse com o chato do Rica. A última vez que havia saído com outras pessoas foi no final do ano passado, numa dessas confraternizações de encerramento de ano. Todo mundo do seu trabalho tinha ido. No começo foi tudo bem. Mas depois que todos já tinham tomado uns quatro chopps ou umas duas caipirinhas (ou qualquer outro tipo de “estimulante”), começou o que M. chamou de “show de aberrações”. Novas (e falsas) amizades eram fortalecidas, para logo em seguida se transformarem em inimizades (devido a um ou outro que começava a falar demais), mas no final todos se abraçavam (completamente bêbados) e choravam, jurando que se adoravam. Claro que nem todos compartilhavam dessa “cerimônia”. Alguns preferiam se atracar num canto com seus colegas de trabalho, sem medo de serem acusados de assedio sexual; outros resolviam dar seus shows particulares no karaokê, e outros simplesmente riam sem motivo aparente. M., por sua vez, parou no segundo chopp temendo o que pudesse acontecer. Entretanto, dessa vez ele estava disposto a sair sem se preocupar com o dia de amanhã. Estava de férias, com pessoas que não o conheciam e com quem não trabalhava (tirando Rica). Decidiu aproveitar a oportunidade. Que mal faria?

“Antes que eu me esqueça, onde nós estamos indo?” – perguntou para Rica.

Estavam dentro do carro de Rica, há quase quarenta minutos parados no trânsito. Chovia muito e nenhuma rádio tocava algo interessante.

“É aqui perto da sua casa. Se não estivesse chovendo tanto era melhor ter ido a pé”.

Dez minutos depois começaram a andar e finalmente estavam fora daquele engarrafamento. Nunca souberam o que causou aquele transito, exatamente como sempre acontece.

Algum tempo depois já tinham chegado ao tal lugar. Era realmente próximo a casa de M., talvez uns quinze ou vinte minutos de caminhada. Pararam o carro numa rua ao lado do local e aguardaram um pouco para ver se a chuva não dava uma trégua. Obviamente ela não deu. Resolveram sair do carro correndo. Conseguiram chegar até a porta do lugar sem ficarem muito encharcados. Entraram na fila que havia se formado e logo já estavam dando seus nomes na entrada.

O lugar em questão tinha um nome peculiar. Parecia com o nome de alguma cidade do leste europeu, mas M. não fez muita questão de lembrar qual. Logo na entrada havia um rapaz que fez com que M. começasse a pensar se tinha sido realmente uma boa idéia ter ido até lá com Rica. O indivíduo em questão não aparentava ter mais do que vinte anos, mas tentava disfarçar mantendo uma barba rala. Entretanto, o que realmente chamava a atenção era seu figurino. Parecia um cafetão saído de um filme B dos anos 70: terno bege, calça boca de sino marrom e camisa listrada. Para completar, usava um medalhão horroroso e um chapéu roxo com uma pena do lado. Antes de entrarem, M. puxou o amigo de lado.

“Rica, é festa fechada? Você tem nome na lista?”

“Festa? Não, meu querido! Você é ótimo M.! Se o pessoal do trampo soubesse desse seu lado de piadista eu estaria correndo perigo de perder meu posto oficial, hein!” – disse Rica gargalhando.

“Não Rica! Eu estou falando sério. Porque esse cara ai na entrada tá fantasiado, então?”

“M., ele não tá fantasiado. É só o jeito dele se vestir pra night! É um estilo, assim, meio alternativo”.

“Alternativo, é?” – comentou M. Para ele, alternativo sempre soou como alguma coisa de segunda mão. Como algo que não dá certo e recorremos para o plano B, o plano alternativo.

Deram seus nomes para o rapaz alternativo, pegaram suas comandas e entraram. Era um corredor escuro, com as paredes todas pintadas, estilo grafite de rua. Ao fundo já dava para ouvir o som que estava tocando. Ainda não conseguia distinguir o que era, apenas que o som estava bem alto.

No final do corredor havia uma porta grande de vidro (bem suja por sinal, como M. observou). Assim que abriram a porta, uma onda de sons e aromas invadiu a mente de M. Cigarro, cerveja e algum outro cheiro indefinido que M. não conseguiu identificar, mas parecia ser de coisa velha, coisa guardada. M. estava paralisado. Nunca tinha imaginado que pudesse existir um lugar como aquele (não verdade, ele não imaginava que pudessem existir muitas outras coisas que realmente existiam). Rica falou alguma coisa, mas ele não pode escutar devido ao som alto.

“O que? Não ouvi o que você falou!” – disse M. aos berros.

“Eu falei para gente subir! Acho que minhas amigas estão lá no outro andar!”

“OK!” – gritou M., praticamente pendurado no ouvido de Rica.

O lugar cabia bem ao termo “alternativo”. Havia um palco com uma banda até que interessante. Entretanto, seus músicos não pareciam estar num estado normal de consciência. Principalmente o vocalista, que revezava entre cantar, pular e rolar no chão em cima do palco. O público por sua vez também não era dos mais normais (segundo os parâmetros de M.). Ele se sentia num grande zoológico humano. Tinham pessoas de todos os tipos, tamanhos e formas. Homens enormes com caras de lutadores de jiu-jitsu; meninas pálidas com cabelos coloridos e roupas pretas e roxas; garotos magérrimos de boné, vestidos de preto e maquiados curtindo uma depressão; rapazes com tranças rastafari e camisetas estampadas com o rosto do Bob Marley, enquanto outros andavam de cara fechada, com jaquetas de couro e cabelo espetado; isso sem contar as demais criaturas indefinidas que apenas viviam felizes dentro de sua androginia.

Percorreram alguns corredores cheios de pessoas daquele novo mundo descoberto por M. Estava se sentindo como se tivesse entrado no País das Maravilhas, onde tudo é estranho, mas mesmo assim você quer ver até onde tudo isso pode chegar, até onde vai a toca do coelho.

Foi seguindo Rica por aquele lugar soturno. Subiram uma escada antiga de madeira que rangia muito, e chegaram até um andar superior. Lá o barulho já não incomodava tanto. O lugar parecia ser mais antigo que o restante do prédio. Parecia ser quase que inteiramente feito de madeira. Havia alguns sofás antigos nos cantos, que estavam sendo ocupados por jovens que já tinham bebido demais e casais muito empolgados deixando seus hormônios falarem por si. Em outros cantos, viu que tinha estantes mais velhas, talvez, que o elevador do seu prédio, com livros mais antigos ainda.

“Rica, por acaso esse lugar já foi a casa de alguém?” – perguntou ao amigo enquanto o mesmo o ignorava e parecia estar procurando por alguém.

“O que? Foi, foi. Na verdade foi uma biblioteca, mas isso foi no tempo da tv à lenha”.

“E ai virou balada alternativa?”

“Exatamente! Legal, né?” – disse isso sorrindo para o amigo e desaparecendo em meio à multidão. Alguns segundos depois ele estava de volta com duas moças a tiracolo.

“Meninas, este é o meu amigo M.! M, essas são as minhas amigas que eu falei. Esta é a Suzana e ela é a Vera”.

Eles se cumprimentaram. A tal Suzana lhe disse que podia chamá-la de “Sue”. Já a Vera disse que podia chamá-la de “Vera” mesmo. A Sue era baixinha; tinha o cabelo rosa com umas mechas pretas e um piercing no lábio inferior (sem contar com os quatro brincos em cada orelha). Usava uma mini-saia jeans e botas. Seria fácil encontra-la na multidão, já que usava uma blusa listrada de preto e rosa – “com certeza para combinar com o cabelo” – pensou M. Mas apesar de tudo, ela até que era “simpática”. A outra amiga, por sua vez, era mais alta e estava vestida inteiramente de preto. Mini-saia, botas, meia-arrastão, blusa de gola alta, óculos verdes redondos (ao estilo do John Lennon, ou quem sabe do Ozzy ou da Rita Lee? Enfim…) e boina – “os beatiniks voltaram?” – pensou como sendo uma nota mental.

Ficaram lá conversando um pouco. Na verdade, não foi bem uma conversa. Rica, para variar, ficou contando suas piadas infames e pornográficas; Sue, que parecia ter gostado de M. (principalmente depois que ela soube que ele morava sozinho perto dali), ficava lhe perguntando sobre uma porção de filmes e bandas que ele nunca tinha ouvido falar e ria quando ele dizia que não sabia do que ela estava falando; e Vera ignorava a todos e se limitava a fumar seu cigarro de cheiro estranho. Já M. estava calado, tentando pensar no modo mais rápido para calar a boca de Rica e da Sue. Descobriu. Ele sairia dali – “Olha, eu vou pegar cerveja. Alguém quer?” – Rica continuava a contar suas piadas e apenas acenou positivamente com a cabeça. Vera apenas ergueu a mão, com um certo ar de tédio.

“Eu vou com você”. – disse Sue se agarrando em seu braço.

“Não, tudo bem. Eu vou lá pegar e já volto”. – M. esboçava de novo seu famoso sorriso amarelo.

“Tá bom! Mas olha lá, hein! Tô te esperando aqui!” – disse dando uma piscadela para ele.

“Meu Deus!” – gritavam seus neurônios em desespero, enquanto ele apenas sorria e fingia estar tudo bem.

Enquanto se dirigia ao bar, olhava apara trás, talvez na esperança que seu amigo e as duas que estavam com eles tivessem desaparecido. Mas não tinham. Pelo contrário.

Tinha muita gente na frente ao bar. Ao que parecia, o serviço lá não era dos melhores, ou eles tinham pouca gente para servir a todos. Quando finalmente conseguiu chegar ao balcão, M. pode ver que havia apenas duas pessoas no bar. Porém, apenas uma delas estava atendendo. Era uma moça ruiva de cabelos compridos, presos num rabo de cavalo, e roupas meio hippies, ou que ao menos lembravam o estilo dos hippies. A gola de sua camiseta estava encharcada de suor devido ao calor que fazia lá e ao esforço que o trabalha exigia.

“Pois não?” – ela perguntou com um leve sotaque espanhol.

“Uma cerveja, por favor!”

Enquanto esperava, M. observou a outra pessoa que estava lá no bar (e que deveria estar ajudando a moça espanhola). Era um rapaz bem alto e careca, que se mantinha completamente alheio ao mundo ao seu redor, absolutamente compenetrado no livro que tinha a sua frente sobre o balcão do bar. M. ficou intrigado com aquela figura. Foi se aproximando aos poucos do rapaz, curioso pelo conteúdo do livro. Pela qualidade e o amarelado das páginas, parecia que era um livro muito velho. Provavelmente um dos que poderiam ser encontrados nas estantes do recinto. O estilo de impressão das letras era bem antigo, e as ilustrações que ele continha eram desenhadas num estilo que fez M. se lembrar das imagens de Gustav Doré sobre a Divina Cómedia e Don Quixote. Apesar de não conseguir ver claramente do que se tratava, por alguma razão elas o deixavam desconfortável. Parecia que havia pessoas devorando partes humanas como num açougue, mas podia estar equivocado. Ele não conseguia entender o conteúdo das páginas, pois estavam de ponta-cabeça para ele. Mas pode ver que estava escrito em inglês. Havia uma frase no topo da página, que provavelmente era o titulo da obra, mas ele também não conseguia ler.

“Posso ajudar?”- o rapaz do bar disse para M. com uma voz tão calorosa quanto os ventos que sopram na Sibéria durante o inverno.

Ele não tinha percebido, mas sem querer, havia se debruçado sobre o livro de forma que havia se tornado impossível a leitura por parte do rapaz do bar. M. se assustou e recuou.

“Me desculpe. Foi sem querer.” – disse ao rapaz.

“The History of Anthropophagy”. – respondeu o rapaz.

“O quê?”

“The History of Anthropophagy. É o titulo do livro. É sobre canibalismo.”

“A sim! Claro! Obrigado. É antigo esse livro?”

“Acho que sim.” – disse ele voltando ao começo do volume e procurando alguma indicação – “1920, segunda edição, impresso em Londres”.

“Nossa! Que bacana! É bom o livro?” – disse M. sem saber muito bem o que responder e já um tanto intimidado pela figura do rapaz e sua leitura mórbida.

“Não sei, comecei a ler ontem”. – disse o rapaz sem desviar o olhar de sua leitura.

“Mas você já está no meio do livro”.

“Pois é!” – provavelmente os ventos siberianos eram mais acolhedores que a voz do rapaz.

M. fingiu que aquele diálogo nunca aconteceu e procurou a moça com a cerveja para poder sair de lá o mais rápido possível. Não sabia o que era pior: Rica e suas piadas infames, ou o barman insólito. Finalmente a moça ruiva lhe trouxe a cerveja e copos plásticos. Estava se virando para ir embora, quando ouviu novamente a voz de gelo do barman – “Por acaso você é o 27, não é?”.

M. ficou petrificado. Era como se a voz do rapaz realmente o tivesse congelado. Não sabia o que fazer. Correr de volta para Rica e as meninas? Ignorar e fingir que não ouviu? Largar tudo e sair correndo daquele lugar, direto para casa? Essa ultima idéia foi a mais aprazível. Mas decidiu se virar, lentamente, para o rapaz. Não disse nada, apenas se virou para ele e ficou lá, esperando que ele dissesse alguma coisa.

“É você o 27? É ou não é?” – perguntou o rapaz, um pouco menos sinistro.

M., para variar, não sabia o que fazer. Então, decidiu apenas concordar com a cabeça. O rapaz parecia surpreso, apenas ergueu a sobrancelha direita e fez um sinal para que ele se aproximasse. M. parecia que estava engessado. Andava sem flexionar seus joelhos, sem piscar, segurando a cerveja com a mão direita e os copos na esquerda. Assim que chegou até o barman, este enfiou a mão no bolso da calça e lhe entregou um guardanapo dobrado. Em um dos lados haviam escrito com caneta esferográfica azul o número 27. Sem dizer mais nada, o barman retornou para sua leitura, ignorando novamente o mundo ao seu redor. M., ainda atônito, se afastou e abriu o guardanapo. Estava escrito: “Vá até o banheiro! Rápido! Ass.: 21”.

M. voltou para junto de Rica e das meninas, serviu a cerveja para eles e pensava o que fazer, enquanto tomava um gole da cerveja mais aguada que já tinha tomado. Rica e Sue falavam com ele, mas os ignorava. Estava mergulhado num mundo de duvidas e paranóias. Não sabia o que fazer. Enquanto essa historia de Ordem e codinomes por números estava só no universo dos e-mails tudo bem, o telegrama o deixou desconfortável; mas agora sabiam que ele estava aqui, e queriam falar com ele! Tudo contribuía para acreditar que aquilo era nada mais que uma brincadeira de Rica. Mas no fundo, alguma coisa lhe dizia que havia algo errado. Não era uma simples brincadeira, e Rica não tinha cérebro o suficiente para elaborar uma coisa daquelas. De repente interrompeu o que lhe diziam e falou: “Vou ao banheiro!” – e saiu rápido, sem esperar por uma resposta deles.

Nunca ficou sabendo, ao sair correndo rumo ao banheiro, que Rica apenas riu e tentou continuar o resto da piada para Sue (e dez minutos depois ia tentar agarra-la num dos sofás que tinham desocupado), que por sua vez não estava nem um pouco interessada na piada e que começava a achar que M. era um cara estranho; e Vera apenas tragou seu cigarro exótico e soltou uma longa baforada, pensando o quão tediosa estava sendo aquela noite.

A esta altura, M. já tinha descido a velha escada de madeira chegando ao hall escuro do piso inferior. Era um lugar um pouco mais escuro e mais soturno que o resto da casa. Se virasse a direita chegaria até a escada que dava acesso ao andar onde tocava a banda; indo em frente acabaria chegando a suposta pista de dança, mas resolveu ir para a esquerda, para ao banheiro.

O caminho até lá só não era totalmente escuro por causa de uma lâmpada fluorescente roxa que tinha bem ao lado da porta do banheiro. Ao lado também tinha um outro sofá velho, devidamente ocupado por um individuo completamente inconsciente (e que já deveria ter tomado um café bem forte e sem açúcar há umas duas horas atrás). M. ficou lá parado, na frente do banheiro. Além dele e do rapaz em coma alcoólico, não tinha mais ninguém ali – “Será que ele está dentro do banheiro?”.

Empurrou a porta com todo cuidado, pois não sabia o que podia encontrar. Era um banheiro pequeno. Uma pia, um mictório e uma cabine para a privada. Acima da pia, o espelho tinha sinais de ferrugem e desgaste, assim como as paredes. Não era um dos melhores que já tinha visto, mas era melhor do que estava esperando. Mas, de qualquer forma, não tinha ninguém lá. Foi até a cabine da privada, empurrou a porta, mas estava vazia. “Foi uma brincadeira mesmo, então?” – pensava consigo mesmo. De repente, alguém tocou seu ombro. M. virou-se assustado, e pode ver que era um rapaz mais baixo que ele. Vestia calça jeans e camiseta preta, tudo com uma aparência de usado e sujo. Era magro, e usava uma franja comprida que cobria parte de seu rosto, o que fez M. pensar ser algo inconveniente e desnecessária. Parecia nervoso, talvez até mesmo doente, devido a suas mãos trêmulas e rosto abatido. Constantemente olhava para os lados, como se estivesse sendo seguido. Sem dizer uma palavra, apenas fez um sinal para que M. voltasse para dentro do banheiro, enquanto ele mesmo também entrava. Fechou a porta e ficou apoiado contra ela, escorando o pé no mictório, para ter certeza de que ninguém entraria. M. agora tinha certeza de que ele não estava bem. O rapaz tentava ouvir além da porta, talvez ainda se certificando de que ninguém mais se aproximava de lá. M. estava assustado e pensava de que forma poderia sair de lá. Nesse instante o rapaz decidiu se dirigir a ele – “27? É você, não é? O 27?” – falou sussurrando.

M. estava nervoso. Ficou um tempo observando o rapaz, enquanto pensava que finalmente talvez pudesse obter algumas respostas para aquela maluquice toda. Não falou nada, apenas concordou com a cabeça. O rapaz ainda segurava a porta – “Ótimo! Ótimo! Ótimo!” – disse e checava novamente para tentar ouvir algum barulho de alguém tentando entrar – “21!” – disse batendo com a mão espalmada sobre o peito.

“Então é você!” – disse M., mas imediatamente foi repreendido pelo rapaz.

“Fala baixo! Eles podem estar ouvindo a gente!” – disse nervoso.

“Desculpe. Mas me diga, por favor, o que está acontecendo?” – sussurrava M.

O rapaz, ainda nervoso, segurava a porta.

“Não temos muito tempo! Então, preste atenção! Eles estão atrás da gente, e não é de hoje!”

“Mas eles quem?” – perguntava M. ainda mais confuso.

“Olha só, a gente não tem muito tempo para grandes explicações. Basta que você saiba que dentro da Ordem existem várias facções. Entretanto, uma delas, há muito tempo, foi combatida e extinta. Só que muitos de seus antigos membros sobreviveram e permaneceram escondidos, até agora. Há pouco tempo a gente descobriu que eles se infiltraram novamente entre nós. Agindo nos bastidores. E eles descobriram os novos planos da Ordem! Descobriram sobre você!” – disse o rapaz, pela primeira vez, num tom de voz mais alta.

“Sobre mim?” – sussurrou M. absolutamente sem entender nada, completamente perdido, nervoso e meio zonzo. Agora imaginava como uma barata devia se sentir quando é jogada na privada e dão descarga.

“É, ué! Quem mais seria?” – disse o rapaz, segurando a porta.

“Olha, sinceramente eu não estou entendendo nada!”

“Escuta! Não tenho tempo para isso. Então fica quieto e escuta. Essa tal facção se infiltrou entre nós e começou eliminar cada um de nós, os números múltiplos de três. Na verdade, sabemos que eles conseguiram se infiltrar mesmo entre os múltiplos de três. Na semana retrasada ele foi identificado como sendo o 42. Viu no jornal aquele caso do casal que foi abordado na porta de casa, quando chegava à noite? Aquele do marido que foi abrir a porta da garagem e foi baleado e morreu na hora? A impressa divulgou como sendo mais um caso policial da cidade. Mas não foi. O homem que morreu era o número 15! Foi ele que descobriu tudo sobre o 42.” – ele dizia, enquanto M. estava impressionado em como ele lhe dizia todo aquele monte de coisas sem sentido com tanta naturalidade.

“Sei… bom… mas me diga uma coisa: por quê os múltiplos de três?” – disse M. se arriscando a perguntar o que, logicamente, seria óbvio para o rapaz.

“Como assim, por quê? Por sua causa, é lógico! Eles não sabem quem é você exatamente, apenas que você é um de nós dos múltiplos de três” – respirou fundo – “Veja bem 27, você não pode se arriscar. Eu não digo apenas por você, mas digo em nome de todos nós. Você é a nossa última esperança! Entende o que quero dizer?”.

“Entendo”. – ele não estava entendendo absolutamente nada – “Mas quando você diz que estão nos eliminando, você quer dizer que estão realmente…” – perguntou ansioso.

“É isso mesmo que você está pensando: assassinato! Não ouviu o que acabei de dizer sobre o 15?” – respondeu o rapaz num tom sombrio. M. engoliu em seco.

“Bom… muito obrigado por você ter me chamado hoje. Mas, como você sabia que eu ia estar aqui hoje?” – perguntou M.

“Como assim?”

“Quero dizer, como você sabia que eu ia estar aqui hoje?”

“Eu não sabia!” – respondeu o rapaz desconfiado.

“Mas você deixou o bilhete com o barman! Esse bilhete aqui…” – tirou o bilhete do bolso e mostrou ao rapaz. Este pegou o guardanapo e o olhou com horror. Ergueu seus olhos arregalados para M. e retirou um guardanapo idêntico do bolso, mas com o número 21 escrito. M. abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não conseguiu falar nada.

“Eles sabem que estamos aqui! Foi uma emboscada! Estamos correndo perigo aqui!” – disse o rapaz num tom quase inaudível. Seus olhos corriam de um canto a outro enquanto fitava o chão. M. não sabia o que fazer. Estava paralisado de medo. Finalmente, 21 teve uma idéia.

“Nós temos que despista-los! Faze-los acreditar que nada está acontecendo!” – disse ao mesmo tempo que pensava em como sair de lá – “Vamos fazer o seguinte: vamos para a pista e nos misturamos na multidão. Esperamos algum tempo e depois saímos de lá”.

“Ok!”

“Mas vamos fazer assim: primeiro vai você. Vou esperar um pouco e vou logo depois. Nos encontramos na fila para sair, no caixa. Certo?”

“Ok!” – M. não conseguia pensar em nada mais inteligente para dizer naquela hora.

“Mas não se esqueça: não confie em ninguém! Ninguém! Qualquer um pode ser um deles!” – disse enfático para M. – “E mais uma coisa: não se deixe ser marcado. Esse é o seu trunfo contra eles!”

“Marcado? Como assim, marcado?”

“Aqui, veja!” – o rapaz virou o braço esquerdo, mostrando a parte interna de seu pulso para M. Lá estava tatuado, num estilo de letra gótica, um pequeno número 21 – “Esta era uma prática antiga da Ordem, introduzida pelos traidores. Foi um golpe deles. Nos enganaram para nos marcarem, e assim ficar mais fácil a busca por você. Cuidado! Boa sorte! Foi uma honra!” – cumprimentou M. e abriu a porta para que ele pudesse sair. Enquanto saia do banheiro, M. teve a sensação que o rapaz (ou 21) estava emocionado, prestes a chorar. Mas como ele estava nervoso e confuso com tudo aquilo, podia estar enganado. Assim que tinha saído do banheiro e já estava quase no corredor que dava acesso para a pista, pode ver que dois homens de jaqueta preta e cabeça raspada foram ao banheiro. Pode apenas ouvir a porta do banheiro bater, mas ninguém saiu.

Foi o mais rápido que pode para a pista. Ao que parecia, a banda tinha acabado de tocar lá embaixo e muita gente tinha ido lá para a pista. Estava bem cheia e escura. A única iluminação do lugar era feita por três únicos e pequenos pontos de luz laranja. Era extremante difícil visualizar alguma coisa lá que não estivesse a poucos metros de você. M. foi se espremendo em meio à multidão que pulava e dançava em transe ao som da música eletrônica misturada com jazz. Decidiu permanecer bem no meio da pista, de forma que pudesse ver quem entrasse lá. Tentava se equilibrar e não pisar no pé de ninguém. Apenas ia seguindo o movimento da inquieta multidão. Após algum tempo de vigilância, viu dois vultos entrando na pista. Quando se aproximaram de um dos pontos de luz pode ver que se tratavam dos dois que tinham ido ao banheiro agora há pouco. O rapaz 21 não tinha aparecido até agora. M. pensou o óbvio – “Eles o pegaram!”. Olhou para o seu pulso para se certificar que não tinha nenhuma tatuagem. Não havia nada. Aguardou até que os dois entrassem na multidão. Viu qual seria o caminho que fariam e decidiu ir pelo lado oposto e sair de lado o mais rápido que pudesse. Saiu de lá e estava quase indo encontrar com Rica, mas parou no meio do caminho – “Não posso voltar lá para cima. O Barman deve estar lá e deve estar metido nisso! E se o Rica for um deles também? Preciso ir embora!” – deu meia vota e resolveu descer e ir para a saída.

Passou pelo palco e realmente o show da banda já tinha acabado há algum tempo. Os músicos nem mesmo estavam lá mais desmontando os instrumentos. Aquilo estava estranho. Sentia como se tivesse perdido uma parte da noite, um lapso de tempo. Suava muito, estava nervoso, tinha uma sensação claustrofóbica naquele lugar. Perguntou a uma pessoa que passava onde era a saída e correu para lá. Ao chegar, entrou logo na fila para pagar. Logo pagou e estava preste a sair quando ouviu lhe chamarem – “M.! Meu querido! Onde você se meteu?” – era Rica. Estava com a mão na cintura de Sue e Vera os seguiam logo atrás.

“Onde você foi parar, M.? Tava enroscado com alguém em algum canto por ai, é?” – disse Rica cutucando-o e dando uma piscadela. Isso fez M. lembrar-se da incrível capacidade do amigo de ser desagradável em qualquer que fosse a situação.

“Não, estava dando um volta. Conhecendo a casa.” – M. estava sério e só pensava em sair de lá.

“Mas você já pagou? Ia embora sem esperar a gente, ia?” – perguntou Sue fazendo beicinho.

“Sabe… eu não estou me sentindo bem. Acho que já vou indo”.

“Não meu querido! Espera mais um pouco que a gente tá indo também. É só a gente pagar. Espera ai!” – falou Rica indo pro final da fila do caixa.

Nesse momento, M. ficou desesperado. Assim que Rica e as meninas foram para a fila, os dois sujeitos de jaqueta apareceram na porta daquela sala. M. se desesperou e simplesmente saiu correndo.

“M.! Onde você vai? Espera a gente! Tá com dor de barriga, né?” – gritava Rica para o amigo.

M. correu até o segurança que estava na saída recolhendo as comandas pagas, jogou para ele a sua e saiu correndo para a liberdade da rua. Correu rua abaixo, desviando dos passantes. Aproveitou o trânsito parado e atravessou a rua, correndo por entre os carros. Corria como se o diabo estivesse atrás dele.

O sol começava a dar os primeiros sinais de vida quando chegou ao seu prédio. Não deu atenção ao porteiro que lhe desejou bom-dia, nem ao elevador que estava parado do décimo segundo andar. Correu direto para as escadas. Nunca tinha subido tão rápido aquelas escadas até a sua casa. Enquanto corria pelo corredor até seu apartamento, foi tirando as chaves do bolso. Abriu a porta imediatamente no momento que parou frente a sua porta. A abriu e já tinha dado o primeiro passo para dentro de sua casa, quando ouviu o som da porta de um dos outros apartamentos se fechar atrás dele novamente. Este foi o único momento em que parou desde que tinha fugido da balada. Silencio no corredor. Entrou, trancou a porta e passou a corrente (que ele nunca usava). Estava suado, cansado, nervoso e muito tonto. Estava a ponto de desmaiar. Desmaiou.

Aquele barulho ecoava dentro da sua cabeça. Cada vez mais ele ia se tornando enlouquecedor. Era impossível ignora-lo por mais tempo. Sua cabeça doía muito. Estava enjoado. Seu estomago se revirava e tinha um gosto estranho na boca. “Ressaca!” – pensou. Estava deitado na cama, ainda vestido com as mesmas roupas que estava usando quando chegou. Levantou, foi ao banheiro e depois até a cozinha. Sua boca estava seca. Na verdade, se sentia como se estivesse no Saara. Não tinha idéia que horas eram, mas pelo sol que via pela janela imaginava que fosse por volta do meio-dia. Deu uma olhada no seu celular para ver as horas. Tinha nove chamadas não atendidas – “Então era esse o barulho.” – concluiu. Checou as horas – “13:35h”. Decidiu verificar as chamadas. Uma era do Rica, as demais eram de sua mãe. Assim que o aviso de chamadas não atendidas desapareceu do visor, algo lhe chamou a atenção. A principio sua mente não conseguia processar aquela informação, mas com o tempo ela foi se tornando clara. Cada vez mais clara e assustadora para ele. Se a data que aparecia em seu celular estava correta, ele teria dormido por dois dias direto! Correu para o computador para confirmar. Dois dias também! Ligou a tv, procurando por algum canal que informasse data e hora. Finalmente achou um canal de noticias. No topo da tela havia a data e hora. Confirmado. Desde que tinha chegado da tal balada, ele havia dormido por dois dias direto. Aquilo estava errado. Não podia ser! Não tinha bebido tanto a ponto de ficar praticamente em coma por dois dias. Na verdade, não tinha bebido o suficiente para ter ressaca. Para M. só havia uma única explicação: tinha sido drogado!

Sua cabeça estava a ponto de explodir. Ao mesmo tempo, um turbilhão de pensamentos e dúvidas passava por sua mente. “Será que é tudo verdade? Será que eu realmente faço parte dessa tal Ordem e não me lembro? E se for verdade, por quê eu sou tão importante?” – M. se perguntava.

Decidiu que a primeira coisa a fazer era tomar alguma coisa para parar com aquela dor de cabeça. Foi até o armário do banheiro, mas não tinha nada lá. Teria que sair para comprar. Apenas escovou os dentes e penteou o cabelo e resolveu sair com aquela roupa mesmo. Retirou a corrente da porta e ia destrancar a porta, quando percebeu que ela já estava aberta. M. ficou quieto, parado. Todo esse tempo apenas aquela pequena corrente garantiu sua segurança. Verificou a fechadura pelo lado de fora, mas não havia nenhum sinal de arrombamento. Ainda assim, precisa ir até a farmácia. Lembrou de uma coisa que tinha visto em um filme. Pegaria um palito e o deixaria preso do lado de fora da porta, preso no canto. Assim, quando abrissem a porta, o palito cairia e ele saberia que alguém entrou. Fez isso. Assegurou-se de que ninguém estava vendo o que fazia. Trancou a porta e saiu.

Não quis se demorar muito fora de casa. Comprou o que precisava e logo voltou. Pela primeira vez desde… bem, não lembrava mais quando tinha sido a ultima vez, mas fazia muito tempo que não subia de elevador até seu apartamento. Nunca tinha percebido, mas havia uma câmera no elevador. Isso o deixou desconfortável. Poderiam estar o observando naquele mesmo instante. “Bem, mas é para isso que serve uma câmera de segurança!” – pensava. Não tirou o olho dela até sair do elevador.

Já estava com a chave na mão para abrir a porta quando notou o tal palito no chão, perto de seu pé. Alguém entrou em sua casa! Girou a maçaneta. A porta estava aberta. Entrou na ponta dos pés, com toda cautela. Haviam revirado seu apartamento. Parecia que um furacão tinha passado por ali. Se aquilo tudo fosse uma brincadeira, era uma de péssimo gosto. Pensou em chamar a polícia, mas desistiu. “O que vou dizer para eles? Que uma Ordem secreta está me perseguindo, mas eu não sei quem é, ou o que quer?”. Além disso, o rapaz 21 tinha lhe dito para não confiar em ninguém. Lembrou-se da câmera do elevador. Se alguém tivesse entrado, talvez aparecesse na câmera. Interfonou para o porteiro e perguntou se alguém tinha lhe procurado enquanto estava fora, ou se alguém tinha usado o elevador. Ninguém. “Então só pode ter sido alguém que não precisou usar o elevador”. – dizia a si mesmo. Lembrou-se do apartamento 122, do senhor do 122 – “Será que ele é um deles?”. Decidiu que não podia ficar mais lá. Não era mais seguro. Trancou a porta, passou a corrente e usou a cadeira da cozinha para escorar a porta. Antes de ir embora, precisava fazer um back-up das coisas que estavam no seu computador.

Enquanto salvava as coisas do seu computador, foi checando na internet qualquer coisa que pudesse lhe esclarecer algo sobre a Ordem e tudo isso que estava acontecendo. Depois de muito tempo pesquisando, decidiu que era inútil. Eles eram realmente secretos. Porém, uma noticia lhe chamou a atenção. O site que estava vendo, dizia que o corpo de um jovem havia sido encontrado naquela manhã próximo a represa. O corpo indicava sinais de agressão e dois tiros na nuca como a causa da morte. O site dizia também, que a polícia suspeitava inicialmente que o jovem era usuário de drogas e que aquilo tivesse sido um acerto de contas. Até agora não havia sido possível contatar amigos e familiares da vítima para realizar o reconhecimento. A pedido da polícia, a reportagem informava as características físicas do rapaz para que alguém que o conhecesse pudesse entrar em contato com as autoridades. Foi então que M. quase caiu da cadeira. Entre as características detalhadas, era informado que o jovem possuía uma tatuagem artística estilizada do número 21 no pulso esquerdo.

“Puta que pariu!” – foi a única coisa sábia que M. conseguiu dizer.

Terminou de arrumar algumas poucas coisas. Enfiou tudo numa mochila e saiu. Enquanto trancava a porta, ouviu o barulho de que alguém também estava saindo. Tentou ir mais rápido e correu para as escadas. Não podia esperar o elevador. Abriu a porta para as escadas e começou a descer correndo. Ainda estava entre o décimo primeiro e décimo andar quando ouviu a porta das escadas de seu andar bater. “Alguém está vindo!” – pensou assustado. Desceu até o décimo andar e decidiu entrar naquele andar e chamar o elevador. Porém, enquanto isso, ficou logo atrás da porta pesada da escada, deixando uma fresta, esperando poder ver quem estaria descendo. Ouviu o som do elevador que já tinha chegado, mas ainda ninguém havia descido pelas escadas. Passos se aproximavam lentamente. M. tentava respirar mais de devagar para não fazer barulho, não queria ser denunciado por si mesmo. Os passos estavam muito próximos. De repente alguém apareceu. Alto, terno e chapéu; era o que ele temia: o senhor do 122 – “Ele deve ser um deles! Com certeza é! Deve estar me espionando! Talvez tenha sido ele que revirou meu apartamento. Preciso sair daqui!”.

Enquanto estava pensando, o senhor do 122 passava exatamente por ele. Parou por alguns segundos, como que tentando ouvir alguma coisa. O sangue de M. congelou em suas veias. Mas então o senhor do 122 continuou a descer. M. respirou fundo, aliviado. Não havia sido descoberto.

M. sabia que era estúpido, que podia simplesmente pegar o elevador e descer, mas queria ter certeza de que seu vizinho já tinha ido realmente embora. Abriu a porta, avançou até os primeiros degraus para o nono andar. Continuou a descer, mas tudo estava em silencio. Já estava subindo de volta para o décimo andar, quando ouviu uma voz cavernosa atrás de si. – “Está procurando alguma coisa, meu jovem?”. M. estava em pânico. Seus pés pareciam grudados no chão. Virou-se lentamente, e lá estava o senhor do 122, com o ombro encostado na parede e com um cigarro na boca. Segurava o chapéu com uma das mãos enquanto acendia o cigarro com a outra. Deu uma longa baforada, e como M. não respondeu nada, ele continuou. “O gato comeu a sua língua, M.? Ou eu deveria chamá-lo: 27?” – soltou outra baforada, que dominou o ambiente, fazendo com que as escadas parecessem estar pegando fogo.

M. não respondeu nada. Apenas girou em cima dos calcanhares e saiu correndo em direção ao elevador no décimo andar. Entrou, apertou o térreo e quando ele chegou, saiu como um trem em direção a rua (quase derrubando a dona Matilde e pisando em cima do Marechal, que estavam entrando no prédio). Estava em pânico, desesperado, perdido. Saiu andando pela rua, andando rápido. Olhava para trás para ver se não estava sendo seguido. Decidiu ir para o metrô. Sabia para onde ir. Precisava de um lugar seguro e o único que conhecia era lá: “Vou para casa da mamãe!”.

Chegou na casa de sua mãe por volta das cinco horas da tarde. Podia ter chegado mais cedo, mas achou que seria mais prudente não ir direto para lá caso estivesse sendo seguido. Foi descendo em diversas estações do metrô (que não tinham absolutamente nada a haver com o caminho para a casa de sua mãe); quando achava que alguém era suspeito, esperava a pessoa embarcar e pegava o próximo. Mesmo quando decidiu finalmente desembarcar na estação certa, não foi direto para a casa de sua mãe. Ficou dando voltas pela vizinhança. Parava em bancas de jornal e ficava observando se não havia ninguém suspeito nos arredores. Passou na padaria, comprou seis pães, deu mais algumas voltas no quarteirão e finalmente tocou a campainha da casa de sua mãe.

Ela demorou para atender. Estava quase achando que ela tivesse saído, quando ela abriu a porta para ele. Ela estava falando ao telefone. Abriu a porta e fez sinal para ele entrar, enquanto continuava a conversa pelo telefone. Sua mãe tinha esse costume de ir fazendo tudo dentro de casa enquanto conversava no telefone. M. detestava quando ela fazia aquilo, pois às vezes ele não sabia se ela estava falando com ele ou com a pessoa no telefone. Mas ele ignorou sua mãe por hora, deixou os pães na cozinha e voltou para a sala para assistir tv. Enquanto mudava de canal aleatoriamente, buscava mais alguma noticia sobre o corpo encontrado na represa. Estava tão concentrado que nem percebeu a presença de sua mãe bem ao seu lado. Tomou um susto que o fez saltar do sofá. Ela olhou para ele com uma careta (e ainda pendurada no telefone) e lhe entregou um punhado de cartas e voltou para a cozinha. Mesmo fazendo já algum tempo que ele não morava mais com sua mãe, muitas de suas correspondências eram entregues na casa dela ainda. Ele quis atualizar seu novo endereço para evitar aquilo, mas ela não deixava, dizia que era melhor assim – “E se você se mudar de novo? Vai ter de trocar tudo de novo! Assim você sabe que elas sempre virão para cá.” – ela costumava dizer. Na verdade, ela até tinha razão, mas no fundo sabia que era uma mera desculpa para ele ter de ir lá e ela manter sua vigilância costumeira sobre o filho.

M. começou a checar sua correspondência – “Propaganda do seu antigo banco,  mais propaganda… folheto de pizzaria, folheto de restaurante chinês (seja lá quem fosse a empresa que fazia esses folhetos, devem estar ricos), mais propagandas… e finalmente uma carta”. A carta por si só fez M. sentir um frio na espinha. Era muito parecida com a primeira carta que tinha recebido na sua casa. Envelope com aparência de antigo e usado, e com o seu nome e endereço escritos a maquina. A única diferença era que dessa vez não havia remetente e nem selo – “Deve ter sido entregue pessoalmente!” – M. pensou já sentindo seu coração disparar.

Rompeu o envelope com cuidado. Abriu a carta e a leu. A carta não tinha sido escrita nem à mão nem à máquina, mas sim feita de recortes de revista, com letras de tamanho e estilo diferente. Do mesmo modo que as cartas de seqüestro dos filmes. A carta dizia: “Nós sabemos onde você está. Um de nós está bem próximo de você”. M. entrou em pânico. Não sabia o que fazer. Imediatamente lembrou-se do senhor do 122. Era a única pessoa próxima dele – “Mas…” – ele pensou – “por quê enviaram a carta para cá?”. Passou por sua cabeça que talvez eles agora passassem a ameaçar a sua mãe. Acreditava que havia sido um erro vir se esconder na casa dela. “Preciso avisá-la! Mas como?” – pensava.

Levantou-se do sofá e ficou de pé, no meio da sala, pensativo. Não sabia como diria para sua mãe que estava sendo perseguido por uma Ordem misteriosa que acreditava que ele era algum tipo de “escolhido”, que ainda por cima corria visco de vida, e que agora a tinha evolvido nisso tudo – “Talvez se mostrar para ela a reportagem do corpo encontrado na represa a ajude a acreditar”.

Decidiu resolver isso logo de uma vez. Precisava contar o que estava acontecendo. Estava indo para a cozinha, quando viu na mesinha ao lado da poltrona da sala uma revista. Havia algo estranho que lhe chamou a atenção. Por alguma razão ele se sentiu atraído para ela. Assim que a pegou, alguma coisa caiu de dentro dela. Era uma tesoura, que caiu quase em cima de seu pé. M. olhou para a tesoura intrigado e decidiu folhear a revista. Para seu horror, diversas paginas tinham sido recortadas e delas haviam nitidamente retirado algumas letras. Lembrou-se então da antiga escrivaninha de madeira de seu pai. Estava fechada, mas não trancada. A abriu lentamente, e o que mais temia estava lá bem na sua frente. A antiga máquina de escrever que seu pai costumava usar, e ao lado dela, alguns envelopes antigos. Ele pegou uns dos envelopes, colocou na máquina e escreveu seu nome. Comparou com o que estava escrito no envelope que havia recebido: o formato da letra era idêntico. M. não podia acreditar no que estava vendo. Seria possível que sua própria mãe fizesse parte daquilo?

De repente ouviu alguém lhe chamando. Era sua mãe que o chamava da cozinha. Ele continuou parado por alguns instantes. Respirou fundo e decidiu ir até lá.

“Então filho, o que foi que te deu para aparecer assim de repente hoje? Querido? Você está bem? Parece pálido!”

M. estava branco como uma vela, olhos arregalados. Se movia devagar, como que medindo cada movimento.

“Eu… estou bem!” – tentava manter a aparência de que estava tudo bem. Logicamente não estava sendo bem sucedido.

“Você está pálido, sim! Deixa eu ver se você está com febre. Nossa! Você está gelado, filho!” – disse a mãe, olhando fundo no olhos de M.

Rapidamente M. agarrou o pulso da mãe, lançando para ela um olhar gélido  – “Mãe… por acaso a senhora andou usando a maquina de escrever do papai?”

“Filho, do que você está falando?” – disse a mãe de M. assustada.

“Usou ou não?” – gritava M.

“Filho, acho que você não está bem. É melhor você se sentar. Vou preparar um lanche para você, e ai você me conta o que está acontecendo.” – ela disse, soltando seu braço e indo em direção da geladeira.

M. não falou nada, apenas sentou-se, com as mãos pousadas sobre a mesa. Mas então ele saltou da cadeira ao ver a mãe puxando uma faca da gaveta.

“O que a senhora está fazendo?” – ele gritou.

“Calma! Estou apenas preparando seu lanche!”

M. não suportava mais aquela situação. Foi correndo para a sala e ao voltar jogou a carta em cima da mesa.

“O que a senhora tem a dizer sobre isso!” – gritava apontando para a carta misteriosa.

A mãe se aproximou, pegou a carta e a leu lentamente. Ao terminar, olhou fixamente para o filho. Estava muito calma, séria. Devolveu a carta para M. e se demorou antes de voltar a falar com ele.

“Filho, onde foi que você arrumou esta carta?” – perguntou com certo tom de desconfiança.

“A senhora sabe onde foi! Acho que a revista que está na sala e a tesoura respondem a sua pergunta, não?” – dizia M. com a voz trêmula de nervoso.

Ela voltou-se para a pia, pegou um cigarro do maço e o acendeu, enquanto fitava o filho. Apoiou-se na pia da cozinha e deu uma tragada. Abanou a fumaça suspensa a sua frente e disse ao filho: “Meu querido, acho que você precisa de ajuda. E eu posso te ajudar!”

“Me ajudar! Como a senhora poderia? A senhora está com eles, não está? Diga a verdade!” – gritava, já a beira do desespero.

“Calma meu bem! Tudo vai dar certo. Confie na sua mãe.”

“Confiar? Eu não confio em ninguém mais!” – gritava.

“Calma filho! Calma que eu vou te ajudar!”

Nesse instante a atenção de M. se desviou para um barulho vindo da área de serviço. A área de serviço dava para o quintal, e ao que parecia alguém tinha entrado na área de serviço e fechado a porta. M. permaneceu quieto, tentando ouvir quem estava lá. A mãe apenas olhava para ele, atenta. De repente M. gritou com o susto que tomou. Tentou andar para trás, numa tentativa instintiva de fuga, mas acabou tropeçando na cadeira em que estava sentado e caiu no chão. Era o senhor do 122 que acabara de entrar na cozinha, vindo da área de serviço. Enquanto M. tentava se erguer, pode ver que seu antigo vizinho havia entrado na cozinha e ia a seu encontro. Sua mãe também se aproximara, pedindo calma. M. rastejou até a sala, não perdendo de vista a mãe e o senhor do 122, que sorria para ele.

“Ouça sua mãe e tudo acabará bem.” – disse o senhor do 122.

M. estava horrorizado, em choque. O mundo todo estava contra ele, o caçavam por algo que ele nem mesmo sabia o por quê. Sua própria mãe o traiu. Sua cabeça estava doendo muito, em ondas lancinantes de dor. Ela já estava doendo desde que ele tinha chegado na casa da mãe, mas com o tempo a dor foi crescendo. Talvez o efeito do remédio estivesse passando, ou o estresse causou seu retorno, ou ambos. Ele continuava a se arrastar de costas pelo chão. Começava a espirar com dificuldade. Se perguntava se não teria sido drogado novamente. Sua mãe e o senhor do 122 continuavam a se aproximar. Sua mãe pedindo calma, e o senhor do 122 sorrindo um sorriso sádico. Não conseguia mais respirar. Lembrou-se das crises de asma de quando era criança. Sentiu que mãos o agarravam. Tentou resistir, mas era inútil. Não tinha mais forças. Se entregou e deixou-se mergulhar na inconsciência.

Alguém estava lhe chamando. A principio parecia uma voz distante, mas aos poucos foi ficando mais próxima e clara.

“Senhor M.? Pode me ouvir, senhor M.? M.?” – dizia a voz.

Uma luz forte e incomoda brilhou em seus olhos. Obrigou-se a despertar e ver o que estava acontecendo. Alguém estava segurando uma pequena lanterna frente a seus olhos. Alguém de branco. Sentia-se estranho, com um mal estar. Definitivamente não estava bem. Se lhe dissessem que tinha sido atropelado por um caminhão ele acreditaria. Estava deitado. Tentou se levantar, mas foi impedido. Alguém pediu para que se acalmasse e o forçou a deitar-se novamente.

“Frio. Estou com frio.” – foi a primeira coisa que quis dizer. Na verdade a primeira coisa que tinha pensado era em xingar quem tinha colocado aquela luz na sua cara, mas achou mais prudente apenas reclamar do frio.

“Pronto, aqui está o cobertor.” – disse uma voz diferente, enquanto sentia que colocavam um cobertor sobre ele.

Tentou olhar ao seu redor para ver onde estava, para ver se reconhecia algo, mas não reconheceu nada. Havia duas pessoas próximas a ele. Não conseguia enxerga-los direito por causa da luz do lugar que era muito forte (ou ele é que não enxergava direito). Parecia que tudo estava meio desfocado.

“Não enxergo direito.” – reclamou.

“É natural. Logo voltará ao normal, eu garanto.” – disse a primeira voz.

“Você é o que, médico?” – disse M.

“Sim. Mas não se preocupe.”

“Mas o onde eu estou? O que aconteceu?” – perguntou M. inquieto.

“Calma senhor M., vou lhe explicar. Mas antes, fique deitado e descanse.”

“Ok”.

“Muito bem senhor M.” – começou o médico – “Ao que parece o senhor teve um de colapso nervoso, possivelmente provocado por alto estresse”.

“Mas…” – dizia M., mas foi rapidamente interrompido pelo médico.

“Senhor M., conversei com sua mãe enquanto o senhor estava dormindo, e ela me relatou que no passado o senhor havia apresentado sinais de depressão. É correto isso?”

“Sim, é verdade, mas…”

“O senhor também fazia uso de anti-depressivos quando adolescente, segundo o que ela nos contou. Sua mãe também nos disse que, também na adolescência, o senhor teve delírios, alucinações. Isso também é verdade, não é?”

“Bem, é verdade. Porém…”

“Ao que parece o senhor teria tirado férias forçadas, segundo recomendação do seu patrão, alegando que o senhor estaria muito estressado com o trabalho”.

“Olha doutor, o caso é que…”

“Por favor senhor M., permita-me concluir. Pois bem, como eu dizia, segundo o seu histórico levantado através de sua mãe, acredito que o senhor sofreu de um tipo de surto esquizofrênico. Em outras palavras, o senhor criou um mundo fantasioso no qual acreditava piamente. Enquanto vinha para cá, o senhor delirava e balbuciava algumas coisas. O senhor falava sobre uma suposta Ordem secreta que o estaria perseguindo, que o senhor teria recebido e-mails e cartas ameaçadoras. Chegou até mesmo a dizer que encontrou um desses membros e que ele teria sido assassinado. Enfim!” – o medico fez uma pausa e respirou fundo – “Senhor M., na verdade, tudo isso foi apenas fruto de sua imaginação. Uma das provas para isso é de que o senhor teria mostrado a sua mãe uma suposta carta de seus perseguidores, feita de recortes de revista. Porém, ela nos disse que foi o senhor mesmo que elaborou essa carta. Ela viu o senhor recortar as letras da revista, montar a carta e deixa-la junto com as outras da sua correspondência. Ela não comentou nada com o senhor, pois acreditava ser algo pessoal seu, e que teria deixado com as demais cartas para não esquecê-la”.

“Está bem doutor! Está bem. Mas o senhor está esquecendo de um detalhe. Ela pode muito bem estar mentindo. Por acaso ela comentou sobre o homem que estava com ela?” – disse M. com ar triunfante, sabendo que este argumento seria seu trunfo contra aquela farsa.

“Você quer dizer o seu vizinho? O tal senhor do…, deixe-me ver aqui, eu anotei em algum lugar, o senhor do 122? É desse que você está falando?”

“Bom, é! É ele mesmo. Ela falou sobre ele?” – perguntou M.

“Sim, sim. Sua mãe nos contou sobre ele. Um homem que o senhor alega estar lhe vigiando. Seu vizinho de andar. Particularmente decidi checar esta informação. Infelizmente senhor M., esse seu vizinho não existe. Na verdade, o apartamento 122 de seu prédio está desocupado há pelo menos oito anos, desde que o antigo dono faleceu. Nunca foi alugado ou vendido.” – explicou o médico – “Segundo pude entender, senhor M., o senhor também sofria de desmaios ou perda de memória ocasional. Por vezes o senhor acordava com a sensação de ter lapsos de memória ou de tempo, não é verdade?”

M. não disse nada, apenas concordou com a cabeça.

“Pois bem senhor M., não posso afirmar nada ainda, pois seria leviano de minha parte, mas creio que durante esses lapsos, essas ausências, na verdade apenas a sua mente consciente é que adormecia. Enquanto isso, seu inconsciente continuava desperto, preparando esses tais e-mails, cartas e outras coisas. Digamos que nesses momentos, o seu inconsciente ficava nos bastidores preparando o espetáculo no qual sua mente consciente iria atuar quando o senhor despertasse. Ou seja, senhor M., se há alguma conspiração ou alguém que tramasse contra o senhor, este era você mesmo”.

M. não dizia nada. Estava arrasado. De certa forma fazia sentido tudo aquilo que o médico lhe disse. Talvez, justamente por ser tão solitário, tenha criado uma fantasia, um mundo no qual ele não apenas fazia parte de uma grande conspiração como também era o elemento fundamental dela. Lembrava-se das palavras do rapaz 21: “Você é a nossa última esperança!”. Ele pode ter tirado isso de algum filme, assim como o senhor do 122 não apenas parecia ser dos anos 40, como talvez fosse realmente de algum filme antigo que tivesse visto. Estava arrasado. Ficou em silencio por algum tempo, com o olhar suspenso. Pegou o controle remoto da tv do quarto e começou a mudar de canal, sem prestar atenção em nenhum em particular.

“Muito bem senhor M., eu tenho de ver outros pacientes agora, mas quando for mais tarde eu retornarei para ver como o senhor está. Por hora, vou pedir para que o enfermeiro lhe dê um calmante. Não é nada muito forte, só uma coisa para lhe ajudar a dormir, está bem?”

M. não respondeu nada, apenas continuou vendo a televisão. O médico deu algumas instruções para o enfermeiro, que já estava lá na sala desde o inicio da conversa, e saiu.

A programação da televisão, como de costume, não estava lá das melhores. O enfermeiro preparava-se para aplicar uma injeção em M. Já tinha preparado a seringa e limpado a área do braço de M. para aplicar a medicação quando falou: “É bom o livro. Bem interessante”.

M. demorou para se lembrar de que havia mais alguém com ele na sala. Deixou a tv de lado e se dirigiu ao enfermeiro.

“Desculpe, o que você disse?”

“Eu disse que o livro é bom, melhor do que eu esperava” – disse enquanto aplicava a medicação em M.

“Livro? Desculpa, mas acho que perdi alguma parte do que você falou. Que livro?” – apesar da visão ainda turva, ele tentava focar melhor a figura do enfermeiro, que aos poucos ia se tornando mais nítida.

O enfermeiro, que já descartava a seringa e colocava um pequeno band-aid em M., sorriu – “O livro, senhor M., sobre os canibais. O senhor havia me perguntado aquele dia se era um bom livro. Pois bem, é bem interessante. Apesar de um pouco antiquado e desatualizado, mas ainda sim bem interessante”.

M. sentia o mais puro horror. Um horror, um pavor, que nunca tinha sentido antes. Sua visão estava quase perfeita, mas já era o suficiente para reconhecer o rosto do enfermeiro – “Você!” – sussurrou M. Ele não acreditava no que via. Com certeza estava delirando novamente, era a única explicação (ao menos era o que rezava que estivesse acontecendo).

“É bom livro, como já disse. Se pudesse eu lhe emprestaria senhor M., mas já o emprestei a outra pessoa” – dizia sorrindo, tentando se desculpar – “Bom senhor M., não se preocupe. Dentro de alguns instantes a medicação começará a fazer efeito e tudo ficará bem. Tudo ficará bem. Temos planos para você”.

O enfermeiro arrumou suas coisas. Pegou o saco plástico onde tinha jogado a seringa e o frasco com a medicação, lacrou, e o colocou dentro de um envelope pardo. Escreveu alguma coisa nele que M. não pode ver. Entretanto, enquanto escrevia, próximo à cabeceira da cama, M. pode ver a tatuagem que ele tinha na parte interna do pulso. Era um número, estilizado em letras góticas, que M. viu para confirmar seu pesadelo: 42.

Ao terminar, colocou o envelope dentro de uma valise preta. Cumprimentou M. com um sorriso e saiu, deixando-o completamente horrorizado. Antes da porta se fechar, M. pode ver que o senhor do 122 estava no corredor, e viu também quando recebeu a valise preta das mãos do enfermeiro. Milhares de pensamentos passavam por sua cabeça. Mas eram tantos que não conseguia se ater a nenhum. Começou a sentir sono, muito sono. Não queria dormir – “Não posso me entregar! Não dessa vez!”. Mas era mais forte que ele. Pensou em se levantar, mas não conseguia. Uma dormência estranha tomava conta de seus membros e de sua mente. Suas pálpebras estavam se fechando. Era cada vez mais difícil resistir – “Não posso dormir! Não posso me render! Se me entregar assim, eles…”. Mas seus olhos se fecharam, e sua mente mergulhou novamente no mar da inconsciência.



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