A Máquina Angélica

Publicação: 16 de fevereiro de 2011

“E se um dia ou uma noite um demônio se
esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse:
“Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste,
terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes…?”.

Friedrich Nietzsche, “Gaia Ciência, §341”.

I

Desde que havia me mudado para a capital, em decorrência do repentino sucesso nos negócios de minha família, que eu conhecia Anabela. Ela morava com o pai (médico renomado entre a alta sociedade paulistana) e a madrasta a duas casas da minha. Se não me engano, eu tinha uns nove ou dez anos e ela dez ou onze. Não sei se posso dizer isso, ou se é possível uma criança de dez anos sentir esse tipo de coisa, mas me apaixonei por ela desde o primeiro instante que a vi.

Como dizem, as meninas amadurecem mais rápido que os meninos. E o fato de Anabela também ser um ano mais velha que eu não me ajudava em nada ao tentar qualquer coisa com ela. O que significa que foram anos em uma relação platônica. Ela estudava no Externato para Moças Santa Cecília, no centro da cidade, e eu no Grupo Rodrigues Alves, na Avenida Paulista. Costumávamos nos ver todos os finais de tarde no parque Trianon e voltávamos juntos para nossas casas. Durante todo esse tempo nunca tive coragem para me declarar a ela. Entretanto, creio que ela sempre soube o que eu sentia por ela. Talvez por isso mesmo ela tenha tomado a iniciativa e me roubou um beijo, me fazendo corar como um pimentão, no dia em que nos abrigávamos da chuva debaixo do toldo de uma padaria. A partir de então, vez ou outra voltávamos de mãos dadas até um quarteirão antes da casa dela. Isso sem contar nossos encontros às escondidas.

Com o final de nossos estudos, decidi que era hora de criar coragem e pedi-la oficialmente em namoro a seus pais. Por que não? Conhecíamo-nos há anos e as coisas entre nós haviam mudado desde os tempos de criança. Apaixonado, sonhava em como seriam as coisas dali por diante. Cheguei até mesmo a pensar em como seria futuramente pedi-la em noivado e como seria o casamento, quantos filhos nós teríamos e tudo mais. Entretanto, os pais de Anabela pensavam diferente. Acho que eles suspeitavam de algo e acharam que seria melhor para ela passar algum tempo na Europa. Afinal de contas, ela era a filha única de um médico de prestígio de uma das famílias mais tradicionais da cidade. Enquanto eu era apenas o filho de um fazendeiro, recém-chegado do meio do mato, e cuja família (devido a um golpe de sorte do destino) havia acabado de se endinheirar a não mais do que dez anos. Assim, no final de novembro de 1925 ela e a mãe iriam embarcar num navio rumo a Portugal, Espanha, França e Itália. Quando ela me contou, fui pego completamente de surpresa. Tentei sentir raiva, gritar ou então chorar, mas só me veio o choque e a apatia. Passado o primeiro momento, tentei argumentar para deixar-me falar com os pais dela e convence-los a deixarem-na ficar. Mas ela se recusou, disse que se fizesse isso seria pior e que, pensando bem, ela gostaria de fazer essa viagem como umas férias antes de decidir o que faria da vida. Pensava talvez tornar-se enfermeira, como recomendado pelo pai, mas ainda não havia se decidido. Depois disso, nos beijamos uma última vez e ela partiu. Poderia ter ido atrás dela. Tinha dinheiro para isso, mas não o fiz.

Eu fiquei para trás, em solo brasileiro, para atender as exigências de meu pai e ingressar na Faculdade de Direito. Eu queria ser engenheiro, mas nunca ninguém me perguntou a respeito. O sonho de minha mãe era ter um filho padre, mas o que meu pai desejava era um advogado. Alguém de confiança que o ajudasse a administrar nosso patrimônio sem ter de se preocupar com a honestidade do indivíduo. Sendo assim, iniciei meus estudos no ano seguinte e em pouco tempo comecei a me destacar entre os melhores da turma.

Anabela não voltou da Europa, mas tinha notícias dela através dos postais e cartas que me mandava. Estava encantada com o Velho Mundo, com as cidades, com as pessoas, com a vida completamente diferente da que tinha por aqui. Fiquei sabendo por ela que havia alugado um apartamento nos arredores de Paris e que tinha começado a fazer um curso sobre História da Arte. Depois disse que começara a pintar e esculpir. Havia se unido a um grupo de outros artistas franceses, que tinham grandes ideias inovadoras e revolucionárias, segundo ela. Realizavam sarais, liam poesias, compunham músicas, escreviam livros, pensavam em iniciar um novo movimento de vanguarda artística… Em uma carta, chegou a dizer que estava até mesmo fumando! Ela parecia cada vez mais empolgada com tudo aquilo. Acreditava que estava no caminho certo para realizar seu sonho de infância e se tornar uma pintora famosa. Porém, enquanto seu entusiasmo foi crescendo, suas cartas foram ficando cada vez mais raras. Até que por fim elas cessaram. Demorei a me acostumar em ter de viver minha vida sem a presença de Anabela, mas achava que não tinha outro remédio. Cheguei a enviar algumas cartas em busca de notícias, mas nenhuma delas foi respondida. Assim, decidi que o melhor era esquecê-la de uma vez por todas.

Sem Anabela, restou-me concentrar-me a finco em meus estudos e minha carreira. Devido ao meu ótimo desempenho acadêmico fui indicado como estagiário por alguns professores, o que me possibilitou trabalhar num dos mais importantes escritórios de advocacia da cidade antes mesmo de eu me formar, para a felicidade de meus pais. Lá me tornara amigo de um dos principais sócios, doutor Leopoldo Morgado Filho, que simpatizou comigo desde o início e que dizia ser certa minha contratação. Ele costumava brincar dizendo que: “Quando tu estiveres diplomado, estarás contratado! No papel e na Igreja!”. Eu ria com isso, mas no fundo me sentia um pouco angustiado com aquela pressão de me fazer formar o quanto antes. Pressão essa que vinha não apenas do doutor Morgado, mas também de meu pai e de Clarice, minha futura noiva. Eu a conheci em sua casa, na festa do quinquagésimo sétimo aniversário de seu pai, meu chefe, doutor Morgado. Ela era completamente o oposto de Anabela, física e psicologicamente, e acho que foi isso o que me atraiu nela. Nada melhor para esquecer um amor do que outro, assim diz o povo. E foi o que tentei fazer.

No dia da festa, seus cabelos dourados e seus olhos azuis de imediato capturaram minha atenção. Quando o pai me apresentou a ela, Clarice sorriu um tanto acanhada e ficamos a conversar por um longo tempo. Depois desse dia, passei a frequentar a sua casa até que finalmente a pedi em namoro ao seu pai, que de pronto nos deu permissão. A partir de então, não bastando o escritório, passei a conviver mais na presença de meu futuro sogro do que em minha própria casa com meus pais. E assim a promessa se tornou mais pesada: assim que me formasse não apenas estaria prometido meu lugar efetivo no escritório da Albuquerque & Morgado, como também a mão de Clarice (“Contratado, no papel e na Igreja!”); que não pensava em outra coisa a não ser em montar o enxoval, em seu vestido de noiva, na festa, nos convidados, em o que iriam dizer da festa e tudo mais.

Clarice era um espírito simples, caseiro. Ansiava apenas casar-se bem, ter filhos e cuidar do marido que fosse um espelho do que o pai fora para sua mãe. Falava pouco e evitava qualquer tipo de discussão. Portanto, não falava de política, religião ou qualquer outro assunto controverso que agitasse os ânimos. Apenas conversas amenas, momento em que demonstrava sua extrema languidez. Para ela, sua verdadeira vocação era ser uma esposa dedicada como a mãe e tornar o lar um paraíso para seu futuro marido.

Gostava de Clarice, mas no fundo sentia que faltava algo nela, algo que sabia existir em Anabela (ao menos naquela que eu me lembrava). Como disse antes, uma era o oposto da outra. Anabela fora para o estrangeiro e trocou o conforto do lar pelo mundo, para estudar, conhecer novos lugares e pessoas. Saber o que havia lá fora, além do mundinho criado por pessoas como seu pai, doutor Morgado e outros da mesma espécie. Um mundo para o qual eu me deixei ser levado. Ela não era como nós, dizia e fazia o que bem queria. Chamavam-na de arredia! Eu preferia pensar nela, até com certa inveja, como um espírito livre.

Para evitar as cobranças de meu chefe, minha namorada e de meu pai, todo o tempo que tinha disponível eu dedicava à faculdade. Lá era o único lugar onde podia ficar sozinho comigo mesmo, sem que ninguém me incomodasse. Foi nessa época que vim a conhecer John Mullholand. O professor Mullholand havia chegado ao país em meu segundo ano de curso, como professor convidado durante um semestre. Porém, devido ao seu bom desempenho e a aprovação dos alunos, acabou sendo contratado por um prazo de até dez anos consecutivos. Era um inglês alto, de olhar expressivo e um grande bigode escuro e alinhado. Rapidamente aprendeu a falar o português, quase sem sotaque. Tinha um ar de austeridade britânica singular. Apesar de sua rigidez em sala de aula, quando não desempenhava o papel de professor era muito gentil e até mesmo espirituoso. Ainda que a maioria das anedotas que nos contava fosse completamente sem graça. Muitos chegavam a dizer que pareciam ser duas pessoas diferentes. Um era o professor Mullholand, sisudo, exigente, até mesmo amedrontador em sala de aula. Outro era o senhor John, simpático, brincalhão, apreciador de conhaque e um entusiasta da engenharia mecânica nas horas vagas. Aos poucos acabou cativando um grupo de alunos fiéis, seus fãs, no qual eu me incluía.

Com um pouco mais de intimidade e já mais ambientado ao nosso país, passou a organizar pequenas reuniões privadas (regadas a vinho ou conhaque) em sua própria residência. Fomos os primeiros ‘nativos’ a adentrar sua casa desde que chegara da Inglaterra. Éramos um grupo pequeno de início, uns quatro ou cinco, mas com o tempo o grupo foi crescendo e quando me dei conta já havíamos chegado à marca entre vinte e cinco até trinta e poucos alunos. Havia se tornado comum que vissem o professor Mullholand durante a hora do almoço escoltado por nós, cruzando o largo de São Bento. Durante tais refeições e reuniões, sua única regra era não falar sobre Direito. Podíamos falar do que bem entendêssemos, desde que os assuntos de sala de aula fossem deixados dentro das paredes da mesma.

Apesar de sermos um grupo grande, a maior parte era de membros ocasionais. Frequentavam nossas reuniões (sempre a convite do próprio professor) uma meia dúzia de vezes, mas depois desapareciam. Apenas sete de nós eram membros fiéis de nossa confraria semi-secreta. A revelia do professor, nós nos auto intitulamos como a “Sociedade Mullholand” ou ainda como a “Mullholand & Associados”. O professor não se importava com os nomes e apenas ria ou ignorava ao ouvi-los.

No final de 1930 a faculdade estava em polvorosa com a nova turma de formandos e seus convidados para a cerimônia de colação de grau. Eu era um deles, todo paramentado em minha beca para a ocasião. Foi uma cerimônia muito bonita, com direito aos discursos de alguns colegas, do diretor da faculdade e do professor Mullholand, que foi escolhido como o paraninfo da turma. Seu discurso foi interessante, mas ao mesmo tempo um pouco obscuro em alguns momentos. Diferente dos demais, ele evitou os clichês e não falou sobre a nobre função do Direito em nossa sociedade ou como nós, futuros advogados, exerceríamos um papel fundamental para manter a ordem e os bons costumes em nosso país. O discurso do professor John Mullholand enveredou por um viés mais humanista, beirando o metafísico. Dentre outras coisas, ele enfatizou que a busca pelo conhecimento era uma obrigação de todos para a construção de um novo mundo. Até hoje me lembro dessas palavras e sabia que o que ele queria dizer não era “um mundo melhor”, como muitos podem pensar. Seu sentido era literal: ele falava sobre um novo mundo.

Ele continuou dizendo que tal busca pelo conhecimento não se limitava apenas a nós, formandos, mas a todos os presentes. Apenas através da sabedoria seria possível atingirmos uma nova era de luz, a verdadeira compreensão do universo e quiçá a verdadeira compreensão do divino. Enquanto falava, o professor havia se transformado. Não era nem o professor Mullholand ou o senhor John que estava ali bradando aquelas palavras como num púlpito de igreja, mas uma terceira personificação do inglês que até então desconhecíamos. Seus olhos brilhavam de uma forma nunca vista. O discurso soava quase como um desabafo, um segredo há muito guardado por ele. Notei na ocasião que algumas pessoas que ouviam ao professor ficaram um tanto inquietas. Alguns professores que estavam no palco também olhavam com certa estranheza para Mullholand, como se sentissem que havia algo de errado ali, mas não sabiam precisar exatamente o que poderia ser.

Ele concluiu citando as palavras de um de seus conterrâneos, que assim como havia dito em seu discurso apologético, buscou o verdadeiro conhecimento por toda a vida: “Intellectus Iudicat Veritatem. O intelecto julga a verdade!”, ele gritou ao terminar. Puxada por nós, da “Sociedade Mullholand”, uma salva de palmas encheu o salão nobre da faculdade, fazendo todos os presentes nos acompanhar, mesmo que de forma menos entusiasmada que a nossa. De qualquer forma, no final seu discurso acabou sendo muito aplaudido por todos. Inclusive por meus próprios convidados.

Na plateia estavam presentes meus pais e os pais de Clarice, além dela própria. Após a cerimônia houve uma recepção organizada pelos próprios alunos. Em meio aos comes e bebes, nos despedíamos de rostos que provavelmente não voltaríamos a rever tão cedo, ou na próxima vez que nos víssemos seria para tratar de assuntos meramente profissionais. Seriam poucas as amizades que resistiriam após a formatura. Durante a festa tive a oportunidade de estar pela última vez na companhia de meus colegas, os pupilos do professor Mullholand. Com o fim da faculdade o grupo acabou dispersando e voltei a me reencontrar com apenas alguns deles. Nesta mesma ocasião, também pude finalmente apresentar o professor a meus pais e ao doutor Morgado. Apesar de ter sido um encontro breve, mais tarde eles me disseram que o acharam extremamente “peculiar”. Clarice, em especial, não disse uma palavra enquanto o professor estava por perto. Depois me confessou que havia ficado intimidada com ele. Fato que não entendi e que ela não soube explicar a razão.

Como prometido, com o diploma em mãos fui contratado pela Albuquerque & Morgado. Antes do Natal já estava trabalhando na mesa vizinha a de Morgado Filho, recebendo novos clientes e dando continuidade, agora oficialmente, aos processos antigos que já acompanhava antes de formado. Durante o jantar de Ano-Novo, realizado na casa de meus pais, realizei a segunda parte da promessa e pedi a mão de Clarice ao seu pai. Na verdade não foi uma surpresa para ninguém. O doutor Morgado havia me instruído a fazer o pedido nessa data e havia comentado algo com a esposa, que por sua vez comentara com a filha e com minha mãe. Segui as ordens de meu futuro sogro e comecei o ano de 1931 comprometido em um noivado com Clarice. Ao final da festa lembro que me retirei para a varanda, mas não demorou muito para o pai de Clarice chegar, com um dos charutos de meu pai à mão. Ele me abraçou e disse novamente: “Contratado, no papel e na Igreja! Agora é fato!”. Eu sorri, um tanto sem graça, e arrumei uma desculpa qualquer para voltar para dentro. Sentia como se um peso enorme tivesse sido colocado em minhas costas. Um fardo que não havia pedido para carregar e nem sabia se realmente o queria.

Casamo-nos no dia dezenove de março, dia de São José, a quem a mãe de Clarice era muito devota, na igreja da Consolação. Como combinado, todos os preparativos do casamento ficaram aos cuidados das duas. A cerimônia foi grandiosa, como Clarice queria, sendo um dos principais assuntos nos jornais daquela semana. Após a festa, regada a vinhos caríssimos e pratos requintados, eu e ela viajamos para Paris, como era o sonho de Clarice. Admito ter concordado com o destino de nossa lua-de-mel com o desejo secreto de que talvez, quem sabe, acabasse encontrando Anabela. Passamos um mês na capital parisiense às custas de meu pai. Visitamos diversos restaurantes, museus e cafés. Um mês sem me preocupar com as fazendas de minha família ou com os clientes do escritório. Clarice era a personificação da felicidade. Estava radiante, carinhosa, mais falante até! Estava tão contente com a viagem que me fez achar que uma mudança física podia ter acontecido, que havia ficado até mais bonita. Entretanto, eu não conseguia retribuir na mesma moeda. A cada esquina que virávamos, a cada restaurante ou loja que entravamos, meus olhos imediatamente vasculhavam os cantos procurando por um rosto que fosse familiar. Por alguém que há muito havia saído de minha vida e que eu insistia em resgatar para o momento presente. Quando retornamos da Europa, Clarice havia voltado ao seu estado natural de comedimento e eu frustrado por não ter tido a chance de ver Anabela, ainda que fosse a última vez.

Ao voltar ao trabalho tive de compensar o período de ausência. Fiquei tão sobrecarregado que passei semanas trabalhando inclusive aos finais de semana. Não bastando isso, ainda tentava me dividir com as necessidades administrativas de meu pai e os planos de Morgado Filho. Meu pai tinha seus advogados e contadores, mas antes de tomar qualquer decisão pedia minha opinião. Ao mesmo tempo, eu percebia que o doutor Morgado tentava me afastar de tudo isso. Sentia que ele não queria que o genro fosse um simples consultor do pai, um garoto que vigiava fazendas. Ele chegou a oferecer ao meu pai outros advogados para a mesma função. Homens de sua própria confiança, mas meu pai ainda estava relutante em aceitar. Como já disse, seu sonho era ter um filho advogado trabalhando com ele. Não seria fácil convence-lo do contrário e aceitar um estranho cuidando de assuntos que ele considerava como sendo de família.

Desde meu penúltimo ano na faculdade que o doutor Morgado, influenciado por amigos e conhecidos, começava a sonhar com planos maiores de carreira e pretendia me envolver neles. Esse era seu plano para me afastar da sombra de meu pai. No começo daquele ano nosso escritório começou a receber visitas frequentes de alguns políticos. Anteriormente, vez ou outra sempre tinha algum deles por lá, mas agora a presença deles era muito mais constante. Morgado Filho queria se lançar na política. Começou a estabelecer contatos, frequentar novos círculos de amizade, a fazer alianças com figuras do alto-escalão. Em meio a tudo isso, eu era arrastado como um menino que o pai puxa à força pela mão. Sempre que podia, doutor Morgado me levava consigo a reuniões, jantares e todo tipo de ocasião em que achasse que pudesse me ajudar a me familiarizar com este mundo do poder público. Sua ideia era de se lançar candidato a um cargo na câmara municipal nas próximas eleições. Depois pretendia galgar cargos mais altos no governo estadual e quem sabe federal. Enquanto isso eu deveria ir me preparando para assumir seu lugar no escritório e talvez até mesmo como seu sucessor na política. Era um homem ambicioso, ávido por dinheiro. Como se já não tivesse o bastante para viver três vidas sem preocupações. Clarice aprovava as decisões do pai, sonhando em talvez um dia ser a filha e depois esposa de um futuro prefeito da cidade. Eu apenas obedecia, desagradando cada vez mais meu pai. Porém, a situação política do país não ia nada bem. Principalmente entre São Paulo e o governo federal. A tensão entre as partes aumentava cada vez mais e muitos começavam a temer pelo pior. E foi o que aconteceu.

As aspirações políticas de Morgado Filho começaram a virar fumaça no mês de maio de 1932, com o assassinato de quatro jovens estudantes por partidários do governo da ditadura de Vargas. Isso insuflou diversos grupos políticos a iniciarem uma revolta sem precedentes no país. Foi um momento difícil, onde lados começaram a ser escolhidos de forma rápida e imediata. De uma hora para outra fomos obrigados a tomar um posicionamento. Você era contra ou a favor do Estado. E qualquer tipo de hesitação ou neutralidade não era muito bem vista por nenhum dos dois lados. Sendo assim, logo que começou a agitação nas ruas o doutor Morgado recebeu um convite de um de seus novos amigos. Ele ainda não havia decidido quem apoiaria naquele momento, e achou por bem atender a solicitação. Sua preocupação era muito mais financeira que de consciência política. O que ele queria saber era onde ele depositaria seu dinheiro.

O convite que ele recebera deixava claro que ele não deveria contar a ninguém sobre o encontro. Contudo, ele desrespeitou o aviso e me contou sobre o fato e exigiu que (assim como era de costume) eu o acompanhasse. Creio que dessa vez minha presença foi solicitada mais como guarda-costas do que como genro querido.

O tal encontro secreto se daria à noite, no restaurante Posilipo, e para entrar seria necessário apresentar o telegrama onde constava o convite. O telegrama dizia sete horas da noite, mas quando foram seis e meia meu sogro e eu já estávamos na porta do lugar. Aparentemente o restaurante estava fechado, mas após batermos na porta esta se abriu e através de uma pequena fresta um homem idoso surgiu avisando num misto de português com italiano que não abririam naquele dia. Entreolhamo-nos sem saber o que fazer. Meu sogro então entregou o telegrama, explicando a situação, ao que o homem puxou-o de suas mãos e após uma leitura rápida e algumas explicações adicionais abriu a porta. Lá dentro já se encontravam outros convidados para a tal reunião secreta. Fiquei um pouco temeroso pelo ambiente de conspiração que pairava no ar. Principalmente depois que a porta atrás de nós foi fechada e trancada pelo dono do estabelecimento.

Com exceção dos convidados, o restaurante estava vazio. Todos os presentes estavam ao redor de uma das mesas centrais do salão principal, falando alto, discutindo e fumando muito. De imediato reconheci alguns dos rostos presentes. Homens ligados à política e que haviam frequentado nosso escritório naqueles últimos meses. Na época não tinha consciência disso, mas a minha frente estava presente o que viria a ser o coração intelectual da revolução. Eu já conhecia quase todos, ao menos sido apresentado a eles por meu sogro. Joaquim de Abreu, Aureliano Leite, Paulo Nogueira, Prudente de Moraes Neto, Ferreira de Andrada e outros. Todos ali, discutindo o rumo a ser tomado contra a ditadura do governo federal. Uns eram mais incisivos e defendiam que o confronto armado era a única saída, outros argumentavam por uma saída mais diplomática; já outros optavam por uma terceira via, que unia as duas ideias. O doutor Morgado ao se aproximar da mesa foi logo cumprimentado por alguns dos presentes, os quais também me reconheceram e pediram que me aproximasse e participasse do debate. A discussão avançou noite adentro sem que uma posição oficial fosse tomada. Entretanto, os partidários em pegarmos em armas começavam a ganhar mais terreno. Principalmente por usarem o argumento de que quem deu o primeiro tiro havia sido o próprio governo federal, não nós! Isso era um fato inegável.

Eu permanecia calado, apenas observando aqueles homens decidirem o destino de todos nós. Para mim aquilo parecia loucura! Enfrentar o governo do Estado? Como? Com que homens? Com que dinheiro? Ouvia dizer que outros estados estavam dispostos a aderir à causa, mas eu particularmente não tinha muita fé nisso. Neste momento ouvi a porta do restaurante se abrir para a chegada de mais dois convidados. Ao entrarem foram logo saudados com gritos de boas-vindas. O que vinha mais à frente, a passos ligeiros e firmes, era um sujeito baixo, careca e de óculos miúdos e redondos. Lembrava muito um professor meu dos tempos de escola. Entretanto, aquele era o general Klinger; Bertoldo Klinger. Ele havia se envolvido em diversos episódios contra o governo em anos anteriores, sendo até mesmo preso por isso em certa ocasião. Ele também apoiava o confronto armado e, caso isso viesse a se concretizar, seria ele a encabeçar militarmente a revolução. O segundo homem caminhava devagar, era alto, semblante sisudo e olhar intimidador. Este sim tinha a aparência de um general, mas para minha surpresa tratava-se de meu velho professor, John Mullholand.

Assim que ele me reconheceu seu ar taciturno se desfez e um sorriso brotou debaixo de seu bigode. Ele veio até mim e me cumprimentou antes dos demais. A última vez que o vi havia sido em minha formatura e desde então nunca mais soube dele. Achava até mesmo que havia retornado à sua terra natal. Contudo, ali estava ele de pé na minha frente. Como me contou depois, ele não lecionava mais na faculdade de Direito. Abandonou o cargo após certos incidentes, nos quais ele teria sido acusado de uso indevido das dependências da faculdade. Isso acarretou um sério desentendimento com o diretor e antes que as coisas piorassem achou melhor entregar o cargo. Quando lhe perguntei sobre o que se tratava tais acusações, disse apenas que estava usando uma das salas desocupadas do prédio para guardar algumas coisas suas. Ferramentas e alguns livros. Seria por pouco tempo, mas o descobriram antes que pudesse retirar suas coisas de lá. “Com certeza algum aluno rancoroso por uma nota baixa que lhe dei”, ele me disse num meio sorriso. Contudo, logo após sua saída da faculdade ele se tornou consultor daqueles homens ali reunidos no restaurante e principalmente do general Klinger. Fato que não compreendi de momento.

Com a chegada do general e do professor o debate se tornou mais acalorado e a proposta do confronto armado ganhou mais fôlego. Klinger dizia que infelizmente aquela era a única solução e se nós não a aceitássemos naquele momento, seriamos obrigados a fazer quando fosse tarde demais e as tropas federais batessem em nossas portas. Assim como eu, outros também pensavam que era muito arriscado, que não tínhamos homens o bastante, equipamentos, munição e etc. O general disse ter consciência disso, e era por isso que o senhor Mullholand estava ali. Segundo o general, as tropas federais tinham sim mais soldados, armas, munição e provisões do que nós: “Entretanto, nós temos uma única e valiosa vantagem sobre eles!”. Todos estavam calados e curiosos com as palavras do general. Ele se levantou da cadeira e começou a andar ao redor da mesa, perguntando quem se lembrava da história do antigo rei grego chamado Leônidas de Esparta. Apenas uma meia dúzia levantou a mão, inclusive eu. Após uma pausa para verificar quantos conheciam a história, Klinger se dirigiu a nós e disse que nós seríamos Esparta! Tremi ao tentar imaginar o que exatamente o general queria dizer com aquilo. Para os demais que desconheciam a história da batalha, o general lhes explicou rapidamente. Resumiu, dizendo que o rei Leônidas, com poucas centenas de homens, havia sido capaz de impedir que o grande exército persa (que contava com milhares) avançasse sobre a Grécia. Poucos contra muitos, graças ao seu pensamento estratégico. Ele se colocou na entrada de um desfiladeiro, as Termópilas, passagem obrigatória do inimigo, e ali o forçou a lutar. Devido à falta de espaço e ao conhecimento de terreno dos gregos, os persas foram derrotados a cada uma de suas investidas. E só foram vencidos devido a um traidor, um Judas, que passou informações aos persas e estes puderam pegar Leônidas e seus homens de surpresa. O general então nos disse novamente que nós seriamos Esparta e que John Mullholand seria o desfiladeiro pelo qual as forças federais teriam de passar se quisessem chegar até nós. Podíamos não ter força para derrotar o inimigo, mas tínhamos como impedi-lo de nos atingir. Porém, diferente da velha história, não teríamos um traidor, assegurou o general: “Eu mesmo darei cabo de quem ousar tal ato!”.

Todos ficaram boquiabertos. Alguns acharam que o general havia enlouquecido. Outros, mesmo sem entender o que havia sido dito, apoiavam o general por confiarem em suas decisões do passado. Morgado Filho transpirava, suava frio. Pela primeira vez o vi sem saber o que fazer. Sua confiança havia se desmanchado juntamente com as cinzas de seu charuto. Eu também estava confuso com tudo aquilo, temia por mim, por minha família, mas meu sogro estava apavorado. Assim como ele, também não conseguia entender como Mullholand, de um simples professor, um acadêmico do Direito, havia se tornado um dos mentores intelectuais da revolução! Que tipo de artifício ele possuía capaz de enfrentar as tropas federais e que conquistou a confiança do general Klinger?

Saímos do restaurante com a certeza de que a revolução era um fato e que a guerra era inevitável. Antes de ir embora, o professor disse que precisava muito falar comigo, mas em outra ocasião, não ali. Ele me procuraria em breve, disse. Voltei para casa e contei tudo a Clarice. Ela não disse nada e calada voltou a dormir, como se eu tivesse acabado de lhe dizer alguma bobagem.

Nas semanas seguintes houve grande agitação na Albuquerque & Morgado. Políticos e figuras ligadas a revolução apareciam querendo falar com Morgado Filho, mas este mandava dizer que estava ocupado e para eles voltarem mais tarde. Ele os evitava a todo custo. Meu sogro havia tomado sua decisão, havia escolhido de que lado ficaria. Disse ao sócio e aos outros funcionários que iria sair de férias e no final da primeira quinzena de junho ele partiu com a esposa, alguns criados e boa parte de seus bens de valor para uma casa que possuía em Petrópolis. Ele insistiu para que eu fosse com ele, quase me obrigou, mas aquilo era inviável. Não sairia fugido, deixando para trás meus pais a mercê de uma situação como a que se anunciava. Entretanto, lhe disse que assim que arrumasse tudo, me juntaria a eles no Rio de Janeiro. Para minha surpresa, Clarice decidiu ficar comigo, apesar do pai ter pedido que ela fosse junto com eles.

Com ausência de Morgado, eu fiquei em seu lugar no escritório. Alertei meu pai sobre o que estaria por vir e o aconselhei a ficar na cidade. Se o general Klinger estivesse certo, o último lugar a ser invadido seria a capital. Sendo assim, decidi ficar com meus pais e Clarice, para o desagrado de meu sogro. Perdi a conta de quantos telegramas ele enviou, espumando de raiva, exigindo minha presença e de sua filha em Petrópolis. Respondi os três primeiros, mas depois passei a ignorá-los.

Na semana anterior de ser declarada a revolução tive uma visita inesperada. Numa certa tarde, sem avisar ou ser anunciado, o professor Mullholand entrou pela porta de minha sala. Sorridente como sempre, me cumprimentou e pedi que se sentasse. Conversamos sobre trivialidades, o que havia feito desde que havia me formado e outras coisas. Após algum tempo de rodeios, ele decidiu dizer a que tinha vindo. Como havia dito na última vez que nos vimos, ele disse que precisava muito conversar sobre um assunto importante. Oficialmente aquele era um pedido em nome do alto comando revolucionário, mas na prática era um pedido pessoal. Mullholand disse que precisava de ajuda para poder por em prática o trunfo que eles tinham contra as forças federais. Contou-me que a princípio ele conseguia fazer tudo sozinho, mas agora as coisas haviam se complicado e sua saúde não era mais a mesma. De fato, observando com mais atenção, notei que ele apresentava certo ar abatido, o rosto levemente pálido e indício de olheiras. Percebi também que agora usava uma bengala, muito elegante, de madeira escura e com uma cabeça prateada de falcão na ponta. Nunca havia visto o professor com tal acessório antes e ao que parecia não fora a vaidade que o fez começar a usá-la.

Ele me disse que havia cogitado diversas outras pessoas para a mesma proposta, mas dentre elas eu era a única na qual tinha total confiança e que se enquadrava. Fiquei muito lisonjeado com aquilo, mas ainda não entendia exatamente o que ele realmente queria. Ao questiona-lo sobre isso, ele me respondeu: “Preciso de um ajudante para que eu possa operar a Enoquiana”.

“Enoquiana?”, repeti a mim mesmo. Aquela foi a primeira vez que eu ouvia falar da arma secreta da revolução. Quis saber mais sobre aquilo, mas Mullholand disse que ali não era um lugar seguro e pediu para ir a sua casa àquela noite, após o jantar, que ele iria me explicar tudo. Ele se levantou e caminhou até a porta apoiando-se na bengala. Despedimo-nos e mais uma vez me abateu a sensação de que era tragado para algo que não havia pedido.

Naquela noite jantei com meus pais e Clarice, que na semana anterior havia descoberto estar grávida. Pela avaliação do médico, por volta de um mês de gestação. A primeira boa notícia desde que todos aqueles problemas sobre a revolução haviam começado. Terminado o jantar, me arrumei e fui até a casa de John Mullholand. Ele morava num casarão antigo de esquina com a Alameda Santos. Do portão até a porta principal havia uma grande escadaria, que terminava numa varanda de onde se tinha uma vista privilegiada do bairro. Ao bater à porta fui atendido rapidamente pelo próprio Mullholand, que abriu a porta sem hesitação. Certamente ele me esperava chegar a qualquer momento. Parecia nervoso, ansioso. Também parecia mais cansado do que quando esteve no escritório. Entrei e fomos direto para a sala de estar, muito conhecida por mim nos tempos da “Sociedade Mullholand”.

Embalados por doses de conhaque, relembramos os velhos tempos e rimos de algumas histórias que eu até já havia me esquecido. Entretanto, a todo o momento ele olhava para o relógio na parede atrás de mim. Notei que era com tanta frequência que não me contive e lhe perguntei se tinha algum compromisso. Ele disse que não, que estava apenas se certificando do horário para poder me mostrar algo. Continuamos a conversar e ele então começou a falar exatamente como havia feito em seu discurso em minha colação de grau. Seu semblante havia mudado. Como naquela ocasião, aquela outra faceta de sua personalidade havia tomado conta dele.

Perguntou-me se alguma vez eu havia questionado o mundo. Não sei se havia entendido exatamente o que ele queria dizer, mas respondi que sim, como todo mundo um dia o faz. Ele me olhou nos olhos e perguntou se alguma vez pensei que poderia existir algo mais do que nós vemos todos os dias ao sair nas ruas, ao olhar para o céu, ao ir trabalhar… Se alguma vez me passou pela cabeça que o mundo que nos cerca poderia ser mudado, controlado. Se alguma vez pensei que poderia existir outro mundo, que fosse superior a esse, muito mais refinado, e que só não o alcançamos devido nossa própria incapacidade de concebê-lo. Respondi que, filosoficamente, sim. Talvez já houvesse pensado nisso. Na verdade isso me trouxe a mente minhas lições de catecismo, sobre o que nos diziam sobre como seria o Céu e o Paraíso. Contudo, percebia no olhar de Mullholand que não era sobre isso que ele estava falando.

Ele me deixou sem palavras quando perguntou: “Já pensou sobre o Apocalipse, Rafael?”. Foi de repente, uma frase dita sem qualquer contexto ou introdução prévia. Pela força do hábito, comecei dizendo: “Professor…” – engoli em seco – “… não me recordo. Talvez, acho, que nunca cheguei a pensar seriamente sobre o assunto”. Isso foi a única coisa que consegui falar naquele momento. Mullholand olhou mais uma vez para o relógio e depois para mim. Ao começar a falar, o ar de professor havia voltado ao me explicar a origem da palavra “apocalipse”. Vinha do grego e diferente do que a maioria das pessoas crê, significa “revelação”. Em nada relacionado com algo catastrófico e terrível. “A não ser para aqueles que não estiverem preparados para a ela” – ele ressaltou – “E se pudéssemos atingir esse outro mundo? E se conseguíssemos o Apocalipse? Transformar nosso mundo em um novo mundo? Na verdade, não um novo mundo, mas termos acesso a verdadeira natureza do universo? Literalmente, revela-la para todos?”. Eu me mantive calado. Pensei que ele estivesse bêbado e divagando. Ele se levantou em silêncio e de costas para mim disse, não sei se para mim ou consigo mesmo (ou ambos): “Quod est inferius est sicut quod est superius, et quod est superius est sicut quod est inferius, ad perpetranda miracula rei unius”. Não compreendi exatamente o que ele havia dito. Latim infelizmente nunca foi meu forte e sempre me limitei ao necessário para minha profissão e a algumas passagens das Sagradas Escrituras. Ao se virar disse para mim: “O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa”. Arrisquei um palpite e lhe perguntei se aquela passagem era do Novo Testamento, talvez da Epístola de São Paulo aos Coríntios. Mullholand disse que não, sorrindo. Olhou novamente para o relógio, mas desta vez se demorou mais que das outras vezes. Também olhei para ver as horas e me surpreendi ao notar que eram praticamente três horas da madrugada. Já me levantava para me despedir, quando ele voltou-se para mim: “Está na hora. Venha comigo”.

Antes mesmo que tentasse argumentar que era tarde e que precisava ir embora, ele já havia subido as escadas para o andar de cima. Não sabia o que fazer a não ser obedecer e segui-lo. Ele me aguardava no topo da escada com um molho de chaves na mão. Seguimos por um dos corredores até uma porta num dos cantos mais isolados da casa. Ele destrancou a porta e entramos. Era uma sala tão grande quanto a sala de estar, mas suas paredes estavam recobertas de prateleiras de livros e quadros negros com desenhos do que pareciam ser modelos esquemáticos, plantas de máquinas e veículos. Além disso, havia também mapas de locais que eu desconhecia e combinações de símbolos geométricos que não sabia o que significavam. Havia caixas espalhadas por todos os cantos com peças de metal, parafusos, ferramentas e duas bancadas com todo tipo de parafernália. Sabia dos interesses do professor pela mecânica, mas não imaginava que fosse daquela forma. Certa vez ele me disse que seu sonho era ser engenheiro, mas devido ao pai acabou seguindo a carreira de advogado. Talvez esse fosse um dos fatores pelos quais ele se identificava comigo.

Atravessamos esta sala até uma segunda porta que também estava trancada. Ele a abriu e antes de entrarmos acendeu uma vela e pediu que o acompanhasse dentro da escuridão. Lá dentro ele acendeu uma porção de outras velas. Quando minha visão se acostumou com o ambiente, vi que estava numa sala menor que a anterior, mas ainda assim espaçosa. Mullholand continuou a acender mais velas e pude ver que não havia janelas ali. Uma cortina vermelha grossa e pesada cobria todas as paredes. Junto a uma das paredes, sobre uma bancada, havia diversos cilindros acobreados medindo entre um e dois palmos de altura. Eles eram pesados e sua superfície dentada, como os de em uma caixa de música ou um realejo, e no topo de cada um deles havia um algarismo romano em alto relevo. Um conjunto de trinta peças ao todo. Havia também placas de metal prateado, quadrangulares, que também continham mais símbolos e outras formas geométricas em cada um de seus vértices. Estas placas eram vazadas, como pequenas grades, e intui que servissem para se encaixar em algo devido aos pequenos grampos existentes em um de seus lados. Ali também vi outras placas menores e de cores variadas, provavelmente cada uma feita de um tipo de metal diferente, preenchidas com mais desenhos e sinais. No chão estavam desenhados em linhas brancas dois grandes círculos concêntricos e em suas bordas mais símbolos e figuras que eu nunca tinha visto antes. E finalmente, dentro dos círculos uma mesa e sobre ela um aparato estranhíssimo aos meus olhos. Quando Mullholand percebeu, ele se aproximou e disse orgulhoso: “Eu lhe apresento a Enoquiana!”.

Demorou a minha mente entender o que era aquilo. Sobre uma mesa comprida havia uma grande bandeja escura de metal. No fundo dela estava uma grossa camada de um líquido prateado, coberta quase até a borda por outra de água. Como Mullholand me mostrou, os dois líquidos não se misturavam de forma alguma e me informou que a tal substância que estava ali era mercúrio. Ligada à bandeja havia duas cânulas, pelas quais se projetavam duas longas hastes de prata para dentro da bandeja, submersas sob o mercúrio. Estas eram uma extensão de um caixa de estanho (com aproximadamente trinta centímetros de altura por sessenta de largura e trinta de profundidade) cheia de pequenas teclas, travas, alavancas e mais símbolos. Sua parte superior estava aberta e lá dentro pude ver um conjunto de engrenagens e diversos cilindros dentados, semelhantes aos que estavam sobre a bancada, mas de menor tamanho. Além disso, existiam também diversas linguetas de metal, finas e rijas, que supus funcionarem em conjunto com os cilindros. De fato, eu estava certo em minha comparação inicial dos cilindros com os de uma caixa de música. Após minha observação da máquina, o professor tomou a frente e começou a me explicar seu funcionamento.

A Enoquiana, como ele me explicou, foi o resultado de anos de estudo e dedicação para chegar ao que ele chamou de o marco na história da humanidade que anunciaria uma nova era que começava a se descortinar para nós. Novamente ele apresentava aquele mesmo comportamento desvairado de antes: “Nossos antepassados possuíam o conhecimento, mesmo que de forma intuitiva, a respeito da verdadeira natureza do universo. Digamos que foi uma centelha divina deixada entre nós. Basta ver ao redor do mundo, em praticamente em todas as civilizações e religiões este conhecimento está presente. A primeira migalha de uma longa trilha que deveríamos seguir até a fonte primordial, mas que em algum momento no meio do trajeto nós nos perdemos e até hoje o homem busca voltar ao caminho original. O grande problema é que nossos antepassados não tinham o discernimento e os meios adequados para colocar o que sabiam em prática e de forma correta para que isso funcionasse. Desta forma, todo o tipo de bobagens e superstições se impregnaram a este verdadeiro saber. Vieram outros e distorceram esse conhecimento em prol de si mesmos ou de interesses mesquinhos. Se auto proclamaram feiticeiros, santos e profetas, mas não passavam de loucos e charlatões. Contudo, alguns poucos homens, que sabiam que nas gerações vindouras seria possível utilizar o que eles sabiam, preservaram essas informações e as passaram de geração em geração.”

Eu me mantinha calado, prestando atenção ao que ele dizia. Enquanto falava, o professor limpava e fazia ajustes dentro da máquina. “Compreende o que eu digo Rafael? Por exemplo, no passado se você sofresse de alguma enfermidade possivelmente diriam que você estava sob a influência de algum espírito maligno, uma maldição ou um simples mau-olhado. Tentariam exorcizá-lo, mandariam que fizesse uma porção de simpatias, orações ou que fosse procurar um curandeiro. Hoje o que fazemos? Vamos ao médico e ele nos receita uma medicação e melhoramos! Nossos ancestrais tinham a intuição de como curar, mas não tinham os meios de fazê-lo. Quando tiveram a tecnologia correta, tudo se resolveu. Compreende?”. Em certo sentido eu concordava com Mullholand. Seu raciocínio não me parecia tão absurdo, mas ainda não entendia o que tudo isso tinha haver com a revolução e onde aquela máquina se encaixava em tudo isso.

“Da mesma forma como os curandeiros do passado, nós ainda hoje andamos às apalpadelas na escuridão quando o assunto se eleva a uma compreensão maior do mundo. Da mesma forma que o antigo exorcista ou a feiticeira possuíam suas práticas para entender e solucionar os males alheios (que não passavam de uma má compreensão do universo), hoje nós ainda temos as filosofias e as religiões. Todas não passam de más interpretações da verdadeira natureza do universo. Da fonte primordial!”. Felizmente ele não podia ver meu rosto, já que ainda estava manuseando a máquina, pois pela primeira vez eu começava a ficar com medo de sua pessoa.

“Há muitos séculos, em minha terra natal, existiu um homem que tinha esta mesma clareza de raciocínio que tenho agora. Seu nome era John Dee. Ele fez uma das coisas mais fantásticas que alguém podia fazer. Ele falou com os anjos. Com os anjos!” – ele dizia isso em pleno êxtase – “Ele aprendeu a linguagem primordial. O idioma que Ele usou no princípio de tudo: In principio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum”. Ele deixou a máquina de lado e correu até a bancada e verificou os cilindros com atenção, até escolher um deles e voltar. Limpou o cilindro, que continha o número “IX” gravado, o encaixou num espaço do aparelho e depois foi buscar algumas das placas de metal. Duas, de cores diferentes, ele introduziu em outros espaços em seu interior. Por fim, usou uma das placas maiores, das que pareciam com grades, para fechar a máquina. Como eu havia previsto, a peça se encaixava sobre as teclas. Devido aos seus encaixes, ela suprimia algumas teclas e permitia que outras ficassem à mostra, formando assim quatro quadrantes compostos de inscrições que me pareciam sem sentido sobre a superfície da Enoquiana. “Dee e seu assistente, Edward Kelley, chamaram esta linguagem de idioma enoquiano, dai o nome de minha invenção. Com base no idioma enoquiano e certas práticas mágicas de sua época ele conseguiu entrar em contato com o mundo superior ou (como chamo) o mundo verdadeiro. O método que ele elaborou para isso era baseado em matemática, geometria, cálculos astronômicos e inspirado em antigos conceitos herméticos. Através disso ele conseguiu se comunicar com seres etéreos, espíritos de forma sutil que lhe passaram diversas informações e inclusive algumas que lhe salvaram a sua vida”.

Começava a sentir um calafrio subindo pela minha espinha ao ouvir as últimas palavras do professor. Não tinha certeza, mas começava a entender para onde esta conversa se encaminhava e não gostava nada da ideia. “Contudo, assim como já disse, ele também não tinha os meios adequados para explorar todo o potencial de seu método. E como poderia? Levaria séculos para que surgissem as ferramentas adequadas para isso. É isso que quero lhe mostrar hoje! Eu consegui concretizar o sonho de John Dee! Após muitos anos, desde meus tempos de faculdade, que eu trabalho nisso. Eu esmiucei o método enoquiano de Dee e dei forma a ele através dessa máquina. O que antes levou anos, décadas ou até séculos para nossos antepassados aprenderem agora pode ser alcançado com o apertar de um simples botão! Livre de superstições, dogmas, ritualizações teatrais… Livre de sacerdotes, instituições religiosas, grupos secretos ou que quer que seja! Um meio de contato direto com o divino, acessível a qualquer pessoa. Entende agora o que quero dizer quando digo que estamos frente a um novo mundo? Algo que vai mudar completamente nossa realidade?” – ele se aproximou da máquina e começou a girar uma manivela, o que fez soar várias travas e engrenagens. Creio que tenha girado a manivela umas duas dúzia de vezes, talvez mais. Só parou quando não havia mais como dar corda no mecanismo. “A Enoquiana não é nem magia e nem fruto de uma nova ciência. Ela é as duas coisas! É a automação da magia! A mesma praticada pelos sábios do passado, mas muito mais refinada e purificada de mentiras e ignorância. Meu amigo, esta é a chave para o verdadeiro Apocalipse!”.

John Mullholand apertou um interruptor ao lado de sua máquina e imediatamente ela começou a produzir som. Não era música, mas também não saberia definir com certeza o que aquilo me parecia. Havia uma lógica nos tons que ela produzia. Sons graves e longos, intercalados por sons mais agudos. A máquina realmente funcionava como um grande realejo. O professor me disse que cada parte de sua Enoquiana tinha uma função específica, dentro dos parâmetros indicados nos registros de John Dee. Uma das partes principais seriam os cilindros maiores. Cada um deles correspondia a um cântico invocatório, que em conjunto às demais especificações desejadas e reguladas com antecedência, iriam produzir uma melodia correspondente a um plano da existência, os aethyrs (“mundos etéreos”) que se desejava entrar em contato. Originalmente, estes cantos invocatórios deveriam ser entoados na linguagem enoquiana por alguém, mas Mullholand havia conseguido converter as vocalizações em acordes musicais. Quando em funcionamento, os cilindros começavam a girar, tocando as linguetas metálicas, produzindo a melodia invocatória. Esta então passaria pelas cânulas e faria as duas hastes submersas no mercúrio vibrarem, como um diapasão. Isto criaria ondulações e padrões na camada de mercúrio, permitindo assim um canal para a manifestação das tais entidades em nosso mundo. É claro que tudo isso parece uma grande bobagem e até mesmo uma sandice. Era o que eu também pensava até que eu vi Sadini.

O som da máquina continuou sem interrupções. Havia se tornado uma ladainha monótona aos meus ouvidos, sem que nada de diferente tivesse ocorrido. O professor estava ao meu lado, calado, olhos fixos em sua invenção. Tentei falar com ele, dizer que aquilo era perda de tempo e que precisava voltar para casa, mas ele me interrompeu e fazia sinal para que eu me calasse. Pela segunda vez que tentei dizer algo, ele agarrou meu braço: “Veja!”. Olhei e vi que uma fumaça branca e espessa cobria a bandeja, se espalhando pela mesa e começando a se derramar pelo chão. Ao mesmo tempo, um cheiro estranho impregnou minhas narinas. Um odor metálico e ardente. A fumaça aumentava cada vez mais, para meu espanto, e começava a se elevar numa coluna em direção ao teto. Percebi que curiosamente ela não ultrapassava as linhas desenhadas no chão, se restringindo ao espaço dentro do circulo. Eu não entendia exatamente o que estava acontecendo. Creio que de alguma forma a água e o mercúrio estivessem evaporando, mas não saberia dizer como isso acontecia. Mullholand continuava a segurar meu braço com força, os olhos arregalados e um sorriso estranho no rosto. “Está vendo? Está vendo? Funciona! Agora veja só…”, ele disse se aproximando das bordas do círculo. De onde estava, esticou o braço e apertou outro botão que fez parar o cilindro maior e interrompendo a melodia invocatória. Entretanto, ainda podia ouvir que a máquina continuava em funcionamento. Podia escutar um barulho suave e baixo vindo dela, como um leve zunido. Acreditava que a experiência do professor tinha chegado ao fim, mas foi quando chamaram por seu nome.

Olhei para o professor, mas este continuava calado e com o olhar fixo na fumaça branca. Novamente chamaram por seu nome. Temeroso, aos poucos comecei a perceber que havia algo dentro da fumaça. Alguma coisa começava a tomar forma, como a silhueta de uma pessoa que estivesse se aproximando de nós. Pela terceira vez ouvi chamarem pelo professor e tive certeza que a voz vinha de dentro da fumaça.

O vulto era grande, uma sombra bruxuleante dentro da coluna de fumaça. O professor respondeu a entidade e esta lhe sussurrou algo. “Este é Sadini” – disse-me ele. O vulto, Sadini, virou-se para mim e sussurrou novamente algo que não pude ouvir e que em seguida o professor repetiu para mim: “Sadini o saúda! Diz que não há razão para temer e que espera que um dia você possa reencontrá-la”. Confuso e com medo, perguntei sobre o que ele estava falando? A quem estava se referindo? O professor também não sabia e voltou a falar com a entidade. Ela então respondeu, mas antes mesmo que ele me dissesse já sabia a resposta: “Anabela? Você conhece alguém com esse nome?”. Aquela havia sido a prova que Mullholand queria me apresentar para demonstrar que sua máquina realmente funcionava. Pude ver por sua expressão de satisfação ao ver minha reação de espanto. Era isso que ele queria.

Mullholand voltou novamente para Sadini, lhe disse algo e se despediu. A entidade respondeu e começou a desaparecer. Enquanto isso, o professor apertou outro botão e a máquina se calou completamente. A coluna de fumaça desceu rapidamente e em pouco tempo ela se dispersou. Eu ainda me recuperava do choque daquela experiência. Nunca havia conversado sobre Anabela com o professor ou com meus colegas na faculdade. Não havia como ele saber sobre ela para poder arquitetar um teatro como aquele.

Fui trazido de volta à realidade com as tosses do professor. Ele estava apoiado sobre a mesa da Enoquiana, tossindo muito. Corri para ampará-lo e ao tirar o lenço da boca, vi que havia manchas de sangue nele. Antes que pudesse dizer algo sobre aquilo, ele sussurrou sobre janelas atrás das cortinas. Realmente havia janelas. As abri para ventilar a sala e retirar aquele cheiro estranho do ambiente. Ao voltar para junto dele senti um pouco de tontura e enjoo. Havia algo naquela fumaça que afetava meus sentidos.

Mais tarde, de volta a sala de estar, Mullholand me explicou o que havia acontecido e como a Enoquiana iria servir à causa da revolução. Ele estava operando a máquina há pouco mais de dois anos. Inicialmente não obteve grandes sucessos. Chegou até pensar em desistir. Contudo, com um pouco mais de persistência e algumas alterações no projeto original os resultados começaram a surgir. Primeiro só conseguia captar sombras disformes, sons e vozes incompreensíveis. Com o tempo as vozes ficaram mais claras e ele passou a entendê-las. Elas se manifestavam de forma espontânea, sem que ele lhes dirigisse qualquer pergunta. Falavam sobre coisas aleatórias e sem sentido, como se conversassem entre si. Com maior domínio da máquina, passou a filtrar as vozes e as manifestações que mais lhe chamavam a atenção, como quem ajusta a frequência de um rádio. Foi então que ele começou a receber mensagens de uma dessas entidades a respeito de um grande conflito que estaria por vir. A entidade, que se apresentou ao professor pelo nome de Sadini, lhe disse que sabia o que estava por vir e pouco tempo um grande conflito iria ser deflagrado no país. Revelou os nomes dos principais envolvidos, os fatos que dariam início a tudo e como e onde seriam os primeiros ataques.

O professor me revelou que foram semanas de diálogo com Sadini. Ele anotou tudo o que lhe foi dito, cada palavra sem deixar escapar uma informação sequer. Depois, tentou entrar em contato com as autoridades e demais envolvidos. Ele enviava cartas e telegramas às pessoas que Sadini havia mencionado, pedindo que entrassem em contato com ele, mas não lhe davam ouvidos. Em tais mensagens relatava brevemente alguma previsão de Sadini que envolvesse o destinatário e pedia que este entrasse em contato o mais breve possível. Ele até mesmo enviou cartas às famílias dos jovens que mais tarde vieram a ser assassinados, avisando sobre o perigo que corriam, mas isso não impediu a tragédia. Os primeiros que lhe responderam, intrigados com o que Mullholand lhes tinha a dizer, foram Carlos Ferreira de Andrada (escritor e poeta), Ibrahim Nobre (promotor público da capital) e o general Klinger. Dos três, Klinger se demonstrou sempre o mais interessado. Principalmente quando as primeiras previsões que o professor havia lhe enviado começaram a se concretizar.

Com o acirramento das tensões e a morte dos estudantes, não demorou muito para que começasse a ser organizado o núcleo intelectual da revolução e entrarem em contato com Klinger. Na verdade, o general, seguindo as previsões de Sadini, foi quem se ofereceu a se unir aos revolucionários. Assim que foi aceito, entrou em contato com Mullholand e o professor se tornou a peça chave para a resistência da revolução contra as forças federais. Contudo, nem o general e nem ninguém sabia da verdade por trás das mensagens proféticas de John Mullholand.  Para todos os efeitos, o professor fez todos acreditarem que era ele quem fazia as previsões, utilizando o método de John Dee de forma “tradicional”. O único que sabia sobre a Enoquiana era eu. O professor temia que se descobrissem a verdade iriam querer tirar a máquina de suas mãos e tentar operá-la por conta própria. O que ele achava um absurdo. A máquina ainda precisava de ajustes até estar em plenas condições para que leigos pudessem operá-la adequadamente.

Após aquela noite na casa do professor Mullholand eu ponderei muito sobre o pedido de ser seu assistente. Ainda não tinha me convencido por completo a respeito do que tinha visto. Ainda vagava no fundo da minha mente a ideia de que tudo poderia ser um truque, mas porque ele faria isso comigo? Como resposta só me restava pensar que o que presenciei era real. De alguma forma que eu não conseguia entender perfeitamente, o professor havia construído um aparelho capaz de contatar forças além de nosso mundo. Se a Enoquiana realmente funcionasse como queria Mullholand, realmente estaríamos frente a uma nova era da história da humanidade. Além disso, independente da máquina e da revolução, as condições de saúde dele pareciam mais graves do que aparentavam. Por fim, pensando mais no professor do que na máquina, me comprometi a ajuda-lo. Se aquilo funcionasse poderia ajudar um amigo querido, proteger minha família e talvez, devo confessar, tentar descobrir mais sobre o que acontecera com Anabela.

Uma semana após ter visto a invenção do professor começou a revolução. Cartazes de convocação se espalhavam pelas ruas. Homens e mulheres começaram a se voluntariar para contribuir de alguma maneira. Fileiras de soldados, cavalos e veículos de batalha tomaram as ruas, indo para os quatro cantos do estado. Como esperado e profetizado pelas mensagens de Mullholand, começamos os confrontos sozinhos. Temendo o governo federal, outros estados não aderiram à causa. Desta forma, nosso comando militar organizava nossas tropas nos principais pontos estratégicos do estado, onde sabíamos que sofreríamos ataques. Sim, nós sabíamos onde e quando seríamos atacados. Muitas das vezes tínhamos conhecimento até de quantos soldados dispunham as forças inimigas. Tamanha eficiência estratégica se dava pelo fato de que todos os oficiais em posição de comando possuíam um tipo de dossiê contendo um apanhado de informações militares sobre as tropas federais. Previsões obtidas através da Enoquiana.

Nas noites que antecederam os primeiros confrontos, eu e Mullholand trabalhamos incessantemente com a Enoquiana. Minha tarefa se limitava a levar as transcrições que ele fazia até o general Klinger e o alto-comando revolucionário e cuidar de sua saúde. Ao final de cada sessão com o suposto ser angelical, o professor Mullholand ficava exausto. Não raras às vezes em que entrei na sala e o encontrei quase desacordado, com lápis e papel na mão sobre a mesa. Ele não me permitia ficar na sala durante as sessões, me restando aguardar do lado de fora até que me chamasse. Toda às vezes ao entrar sentia aquele cheiro horrível e o que ainda restava da fumaça ainda se dissipando no ar. Ficava enjoado, com certa acidez estomacal e um pouco zonzo. Abria as cortinas e as janelas para ventilar e repunha a bandeja com mais mercúrio e água. Em média evaporava metade da camada de mercúrio e quase toda a água por cada sessão de uso da Enoquiana. Acreditava ser óbvio que era aquilo que estava fazendo o professor definhar. Ele estava se intoxicando aos poucos e não eu sabia por quanto tempo mais ele resistiria. Tentei convencê-lo a me ensinar a utiliza-la para poupá-lo um pouco do trabalho, mas ele se recusou. Dizia que sabia o que estava fazendo e que quando chegasse a hora eu iria aprender a usar a máquina.

A revolução prosseguiu e para o espanto dos mais céticos as palavras do general Klinger se cumpriam. Por mais que tentassem as tropas federais não conseguiam passar por nossas fronteiras. Eles não entendiam como nós sempre sabíamos onde eles estavam. Quase sempre eram atacados de surpresa, sem qualquer chance de contra-atacar, restando apenas a rendição. Os dossiês com as previsões haviam sido chamados oficialmente pelos intelectuais da revolução (usando de todo seu lirismo) como “Cartas de Cassandra”, mas quase ninguém usava esse nome. A maioria de nós se referia simplesmente ao “almanaque”. Por exemplo, era comum entre os oficiais ouvir diálogos como: “Que dia será o ataque de Atibaia? Dia quinze ou dezesseis?” – e o outro responder – “Não me recordo. É melhor ver no almanaque”.

Com certeza o poder federal não esperava que a revolução fosse se estender por tanto tempo. Ela havia começado em julho, já estávamos quase às vésperas do Natal e não parecia que o confronto teria um final tão cedo. Como previsto, o inimigo não conseguia entrar em nosso território, mas nós também não conseguíamos derrota-los. Mesmo com um auxílio adicional da Enoquiana. Além das previsões, o professor também começou a receber de Sadini orientações para a construção de máquinas. Instruções para a construção de veículos e armamentos. Estes planos foram repassados ao comando militar e alguns foram construídos e utilizados. Tanques blindados mais resistentes, granadas com maior poder de destruição e armas com maior capacidade de disparos e de munição. Devido a falta de recursos, apenas alguns poucos exemplares puderam ser construídos. Porém, serviram de inspiração aos nossos engenheiros para versões simplificadas dos modelos originais. Apesar da satisfação de nosso sucesso em resistir até então, me incomodava cada vez mais com as essas novas mensagens. Não me parecia muito da índole de um anjo, como o professor chamava, fornecer ideias e instruções para que pudéssemos matar e aterrorizar outras pessoas.

Em uma das noites de trabalho na casa de Mullholand acabei me atrasando e quando cheguei ele já estava trancado dentro da sala. Pude ouvir o som da Enoquiana em funcionamento e vozes. Tentando incomodar o menos possível, bati três vezes na porta e anunciei minha presença. Como de costume puxei um banco e fiquei ao lado da porta aguardando ser chamado ao final da sessão. Desde que havia começado a auxiliar o professor estava me desdobrando. À noite ajudava Mullholand a passar a limpo suas anotações, a arrumar a sala da máquina e demais necessidades do professor. Sua saúde estava piorando. Tinha crises de tosse onde expelia um catarro preto e espesso juntamente com sangue. Estava pálido e manchas escuras se espalhavam por sua pele. Tinha os olhos injetados e parecia que estava perdendo a visão e o cabelo de forma acelerada. Mesmo assim ele relutava em parar em razão de concluir seu trabalho. “Estarei feliz em morrer se puder deixar meu legado pronto para ser usado pela humanidade!”, ele dizia. Em minha casa as coisas estavam um pouco complicadas. A gestação de Clarice passara por algumas dificuldades. Ela havia tido estranhos sangramentos e muita febre. Os médicos não souberam dizer o que se passava e eu quase temi por ela e pela criança. Foi preciso interna-la, mas ao que parecia estava tudo se normalizando. Não tinha mais notícias de meus sogros. Com as fronteiras fechadas não sabia o que se passava com eles, mas com certeza estavam desesperados para ter notícias da filha e furiosos (especialmente Morgado Filho) comigo.

Devido ao cansaço e as diversas noites mal dormidas, acabei cochilando. Creio ter dormido por alguns minutos. Talvez meia-hora, não saberia dizer ao certo. Temendo que o professor tivesse me chamado nesse meio tempo, levei o ouvido à porta. Ainda ouvia o som da máquina em funcionamento, mas apenas uma única voz e outro som que não pude identificar de imediato. Foi então que ouvi um barulho estranho, uma batida contra a porta, seguido de um som abafado contra o chão. Destranquei a porta o mais depressa que pude, mas não conseguia abri-la. Alguma coisa a estava bloqueando. Com um pouco mais de força consegui uma passagem suficiente para eu entrar. Logo vi o corpo do professor estirado no chão, atrás da porta. O rosto pálido, olhos arregalados e a boca aberta exibindo dentes amarelados. Tentei falar com ele, inutilmente reanima-lo, mas estava morto. Olhei ao redor e vi suas anotações espalhadas por todo o chão. Foi só então que o som da máquina me chamou a atenção. Estava tão abalado com a cena que havia me esquecido da Enoquiana. Ela ainda estava em funcionamento, a coluna de fumaça branca ainda de pé e um vulto tremulando em seu interior. Impulsivamente me aproximei para desliga-la. A sombra se moveu em minha direção. Não olhava para ela diretamente, mas sabia que ali, naquela sombra sem face haviam olhos voltados para mim. Quando toquei na máquina ouvi uma voz que sussurrou: “Sinto muito…”. Sentia sua presença cada vez mais próxima, quase rente a meu rosto. Seu hálito tinha o cheiro metálico da fumaça, o que me causou náuseas e fizeram minhas pernas fraquejarem para dentro do círculo. Fechei os olhos com força, respirei fundo tentando voltar ao normal e desliguei o aparelho. Já não sentia mais a presença do vulto dentro da sala.

II

Repeti a mim mesmo: “Vulgaris, Hic, Oculus caligabit, diffidetque plurimum“. Era o que dizia a placa em cima da entrada de meu escritório em minha casa. Presente do professor Mullholand. Lembrei que naquela noite seria o seu aniversário. Estaria completando sessenta e cinco anos, se estivesse vivo.

Como fiquei sabendo bem depois, a morte de Mullholand chocou a todos. A versão dos fatos foi de que Rafael chegou atrasado a sua casa e o encontrou morto em sua oficina. Vítima de um enfarto em decorrência de uma doença degenerativa que o acompanhava há muitos anos. O laudo médico mais tarde confirmou que sua morte realmente havia sido uma parada cardíaca. Naquela noite, ao retirar o corpo da sala da Enoquiana para a oficina, ele teve o cuidado de ocultar a porta da sala com uma estante grande e pesada, para que ninguém soubesse da máquina. Recolheu as anotações do professor daquela noite e repassou as últimas previsões sobre as tropas federais ao general Klinger.

John Mullholand foi sepultado no dia seguinte. Assim como outros, foi declarado um herói da revolução e teve um funeral com honras militares. Muitos estiveram presentes e muitos lamentaram a perda daquele que havia garantido a segurança da população. Contudo, o luto por sua morte logo deu lugar a alegria.

O sul do estado do Mato Grosso e o de Minas Gerais haviam decidido aderir à revolução e se juntaram a causa. Nas últimas mensagens disse que ao final do confronto eles teriam aliados e assim se cumpriu o que dizia mais uma vez. Com a adesão de novos aliados, no início de março de 1933 o governo federal ofereceu um cessar fogo e um encontro entre os líderes de ambas as partes. Após alguns dias de negociações, no dia vinte e cinco do mesmo mês foi declarado o armistício e o fim do confronto. Ao voltarem do Rio de Janeiro, o general Bertoldo Klinger e os demais líderes revolucionários foram recebidos como heróis e desfilaram em carro aberto pelas ruas da cidade. No ano seguinte, como também fiquei sabendo, praticamente todos os termos do acordo haviam sido cumpridos. Principalmente o de uma maior autonomia política para os estados e uma nova constituição para o país.

Antes de saber de tudo isso eu havia tentado voltar à minha vida normal, mas não pude. A curiosidade era grande demais e após quase um ano decidi que iria retomar os contatos. Queria saber o resultado final de tudo. Sentia como se fosse uma necessidade existencial. Estava viciado com aquele projeto. Clarice certamente já deveria ter dado a luz àquela altura. Infelizmente não sei seu nome ou o sexo da criança. Assim como nunca mais soube nada sobre Morgado Filho e o destino dos pais de Rafael.

No dia em que retomei os contatos eu estava em casa, terminando de corrigir as provas dos alunos da faculdade. Terminei por volta de meia-noite e subi para o quarto. Do final do corredor pude ver que a luz do abajur estava acesa e quando cheguei à porta pude constatar que, como de costume, Anabela havia dormido enquanto lia. A cobri, tirei o livro de suas mãos e apaguei a luz. Aproveitando o momento, decidi tentar um novo contato. Anabela não gostava de minha fixação no projeto e eu evitava aborrece-la, principalmente agora que estava esperando bebê.

Estava ansioso, pois desde a morte do outro professor não havia conseguido mais contato. Desci até o laboratório no porão, ajustei as coordenadas da máquina para o terceiro aethyr e liguei o gerador. As teclas começaram a estalar freneticamente e a ressonância enoquiana de abertura dos canais começou a soar. Após uma hora sem nenhum resultado achava que seria mais uma noite perdida como as outras, mas de repente o espelho de mercúrio começou a pulsar, para minha surpresa. Havia alguém tentando contato! Com cautela, aumentei aos poucos a frequência e a imagem foi ficando cada vez mais nítida no espelho. Quase morri de susto ao ver minha própria face ali, do outro lado. Lá estava Rafael, com seu típico olhar apreensivo e desconsolado.

Nunca consegui me acostumar com os encontros comigo mesmo. Como sempre, era uma cópia exata de mim mesmo, mas desta vez usando roupas do tempo do meu avô. Por alguma razão que ainda não havia conseguido decifrar, o terceiro aethyr possuía a maior discrepância cronológica de todos os outros. Quase oitenta anos!

Como o professor, ele me chamou de Sadini. Senti-me estúpido ao ver aquele Rafael me chamar assim. Este era na verdade o nome da gata de Anabela. Quando fiz o primeiro contato com o professor Mullholand e ele perguntou meu nome, achei que seria prudente usar um pseudônimo e o primeiro nome que me veio à mente foi o da gata. Mas o que realmente me perturbava era saber que o professor deles realmente acreditava que estava falando com anjos e outras entidades etéreas. Aqui, o meu professor Mullholand havia me explicado em detalhes o funcionamento de sua invenção, baseada no método enoquiano desenvolvido pelo aristocrata, místico, filósofo e matemático renascentista, Próspero de Milão. Infelizmente o professor Mullholand nunca pode ver sua máquina em funcionamento, devido ao aneurisma que o levou a óbito há três anos.

O Mullholand daquele aethyr havia falecido devido ao seu coração fraco, agravado pela intoxicação por mercúrio e o susto que teve ao ver quem era seu ser angelical na realidade. Ele não estava de todo errado em suas conjecturas, muito pelo contrário; mas sua obsessão por algo absolutamente divino, completamente metafísico, comprometeu nossa interação. Depois de algum tempo de contatos, percebi que seria difícil para ele compreender a verdadeira natureza do que ele estava experimentando. Que não eram planos angelicais que ele estava contatando (um erro muito comum em vários aethyrs menos desenvolvidos), mas mundos irmãos espalhados pelo grande tecido universal. “Há muitas moradas na casa de meu pai”, como diz a crença greco-judaica.

Desde o início, quando comecei a dar informações para ele sobre a revolução que estava por vir, eu evitava aparecer com nitidez devido a sua credulidade. Contudo, naquela noite fatídica eu esqueci e acabei deixando a máquina regulada em frequência normal, o que desfez meu disfarce e fez o pobre Mullholand entrar em choque e sair correndo desesperado. Vi quando Rafael entrou na sala e encontrou o seu corpo. Agora, lá estava ele, com sua expressão de espanto querendo respostas. Sabia muita coisa sobre Rafael, boa parte por experiência própria e a outra pelo o que o seu Mullholand me contou.

Aquela foi a primeira e última vez que estabeleci contato direto com ele. Creio que ele não estava preparado para o momento; não imaginava o que encontraria ao ligar a máquina do lado de lá. Conversamos por menos de meia hora apenas. Aproveitei o ensejo e quis saber como havia terminado a revolução. Após ele me inteirar dos fatos, acreditei que era chegada a hora. Tentei lhe explicar da forma mais clara e simples possível sobre o que se tratava a máquina que tinha em mãos e por fim decidi me revelar a ele. Sendo assim, aumentei a frequência de minha máquina, desfazendo a forma de vulto na qual ele estava acostumado a me ver. Este foi meu grande erro. Deveria ter esperado mais. Talvez algumas sessões a mais e prepara-lo melhor. Não esquecerei seu olhar vidrado e o horror estampado em sua face. Depois desse dia ele sumiu. Tentei contato outras vezes, mas sem sucesso. Talvez ele tenha abandonado a máquina na casa de seu professor, a destruído ou se desfeito dela. Só sei que nunca mais consegui falar com ele ou com alguém de seu aethyr.

De qualquer forma, espero que após a revolução ele tenha se acertado consigo mesmo e começado a viver sua vida de verdade, não aquela vida patética que lhe impuseram. Claro que falo isso por razões muito pessoais. Não conseguiria imaginar minha vida enfiado dentro de um escritório de advocacia e sem Anabela. O que me faz lembrar, ontem meus pais vieram jantar conosco e não sei por qual razão resolvemos rever o vídeo de nosso casamento. Foi no panteão da Avenida Brasil, há cinco anos. Como sempre, Anabela se emocionou ao ouvir o final do sermão do sacerdote e minha mãe criticou ao rever o vestido roxo que a irmã de meu pai que mora no interior estava usando. O professor Mullholand foi meu padrinho e recordei que na época estávamos finalizando o primeiro protótipo da nossa Enoquiana.

Quando começamos o projeto, nunca imaginava que conheceria Rafael e muito menos que isso aconteceria em pelo menos quatro dos nove aethyrs que já contatei. Ainda sinto que o Rafael do terceiro tinha algo especial, tinha potencial, mas agora creio que infelizmente nunca mais o verei. Gostaria de ter tido a oportunidade de ter conversado mais com ele. Após ter me revelado, as únicas palavras que pude dizer a ele foram: “Como vai? Eu me chamo Rafael”, depois disso ele desapareceu e a máquina foi desligada.



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2 Respostas para
     “A Máquina Angélica”

  • disse: 16 de fevereiro de 2011

    Uau! Acabei de ler e ainda estou tentando entender…
    Mas acho que vou ter de ler novamente, rsrs.

    Muito bom, gostei da reviravolta…surpreendente!
    Parabéns!

  • Valquiria disse: 16 de fevereiro de 2011

    Vc nasceu no dia certo!

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