A Profecia do Pântano

Publicação: 25 de maio de 2010

“O destino sempre se dá como deve!”
Beowulf (verso 455)

“Malditos! Malditos! Malditos! Três vezes malditos!”, gritava a rainha sobre o cadáver de seu filho. Ela o acolheu em seus braços e inutilmente o ninava da mesma forma que fazia quando ele era apenas um bebê. Por toda aquela noite ela chorou pela morte de seu querido e único filho. Seu pranto foi grande e doloroso. Mas não maior do que seu ódio e sua sede por vingança. “Malditos! Malditos! Malditos! Três vezes malditos! Eu terei o sangue deles em minhas mãos, assim como eles tiveram o seu, meu pequeno e lindo príncipe! Eu lhe prometo por essas paredes ancestrais que nos cercam! Os malditos saberão porque eles temem a noite!”.

O choro da rainha ecoou pelas paredes de seu salão de pedra, e despertou a atenção de seus súditos. Criaturas abissais e disformes, seres esguios e escamosos, súditos munidos de garras e presas. Todos eles emergiram das águas sombrias e reverenciaram sua primeira e única rainha. Em seus braços eles viram seu campeão. Aquele que se aventurou nas terras da superfície e enfrentou os invasores de pele pálida. Lá estava o corpo do grande herói, desprovido do sopro da vida pelas mãos de seus inimigos. A rainha depositou o cadáver de seu herdeiro no chão e virou-se para os que haviam atendido seu chamado.

“Povo das profundezas, o príncipe jaz morto! Assassinado pelos demônios da superfície. Os mesmos que invadiram nossas terras e nos obrigaram a se esconder nas águas profundas!”, gritava a rainha em seu desespero. Seus súditos se aproximavam cada vez em maior número. Seres das sombras e das brumas. Andarilhos dos ermos. Toda a corte do pântano havia se reunido ali para ver se era verdade o que diziam. Para ver se de fato o mais poderoso guerreiro dentre eles havia perecido.

No chão, junto à parede onde foi depositado por sua mãe, estava o corpo. Maior do que todos os presentes, um gigante de pele escura e rija como pedra. Aqueles que se aproximavam em respeitoso silencio fúnebre logo percebiam a causa da morte do jovem. Faltava um dos braços do valoroso príncipe. Tendões arrebentados, a carne retorcida, dilacerada na altura do ombro. O outro estava ali, forte como um tronco de árvore e munido de garras afiadas como o aço, prontas a dilacerar e rasgar a carne de seus oponentes. Mas o outro havia desaparecido. Quando se questionavam sobre o paradeiro do membro faltante, alguém respondia, dizendo em voz baixa, que certamente o príncipe o havia perdido em combate com o demônio da superfície.

Os seres presentes rosnavam ao ouvir o pranto de sua rainha. Arranhavam as paredes de pedra, socavam o chão, urravam e pulavam. A fúria costumava se acender rapidamente nos corações do povo das sombras. Toda a corte estava reunida, clamando por vingança, exigindo o pagamento de sangue por tal desgraça. De repente eles se calaram e aos poucos se afastaram, dando passagem a uma criatura pequena e de andar vagaroso. O fogo que iluminava a caverna real refletia a cor de musgo de sua pela enrugada, como se esta fosse de pedra polida. Ela era muito velha e por isso caminhava com dificuldade, apoiando-se num pequeno bastão de freixo. Atravessou a multidão e se postou frente à rainha. A senhora do pântano conhecia a bruxa de longa data e se aproximou para ouvir o que ela tinha a dizer para ajudar seu filho. A bruxa coçou seu longo nariz viscoso e passou a língua nos lábios, exibindo seus grandes dentes amarelados, antes de falar. “Onde está ele, minha senhora? Onde está o príncipe?”, dizia a bruxa.

Sem dizer palavra alguma, a rainha a pegou pela mão e a conduziu até o corpo do filho. Sua visão das coisas do mundo havia se perdido há muito tempo. Antes ela a usava para atrair pequenos infantes e viajantes perdidos para dentro de sua morada, depois se banqueteava com a carne tenra de seus ossos e preparava ungüentos com sua gordura. Mas um dia ela se enganou e cometeu um erro terrível. Ela foi enganada e acabou por devorar sua própria prole. Quando percebeu o que havia feito, em desespero, arrancou seus próprios olhos e rogou sobre si mesmo uma maldição. Não teria mais a visão dos olhos, mas teria a visão profética. Só que com ela só poderia profetizar a própria morte.

Ao chegar ao corpo do gigante, a bruxa começou a tateá-lo e tocou na ferida exposta. Tocou a grande poça de sangue negro com dedos trêmulos e o provou com sua língua desbotada. “É a profecia!”, ela sussurrou para a rainha. “Ela está se cumprindo! Exatamente como lhe disse naquela noite, muitos invernos atrás. Não se lembra? Nosso fim se aproxima. NOSSO FIM SE APROXIMA!”, disse a bruxa em voz baixa, mas gritando a última frase para todos os presentes, o que os fez se entreolharem com espanto e clamarem novamente por vingança. A rainha segurou a bruxa fortemente pelo ombro e puxou seu pequeno corpo frágil para junto de si. “Não! Eu não permitirei que isso aconteça! O povo das sombras ainda vive, e a corte do pântano ainda tem uma rainha! Eu vingarei meu filho, farei com que eles paguem com o sangue de seus filhos por isso!” A velha, curvada e intimidada pela ira na voz da rainha apenas disse, “O destino é inexorável, minha querida”. A rainha soltou a bruxa, que caiu no chão com um som abafado, e lembrou-se de quando ouviu aquelas palavras pela primeira vez, enquanto observava uma grande espada que jazia no fundo de sua caverna, refletindo a luz do fogo.

Ela ainda era jovem e seu filho apenas um filhote grunhindo na escuridão quando chegaram ao pântano. As águas haviam acabado de baixar, após terem lavado o mundo e levado consigo muitas almas. Poucos sobreviveram, mas para aqueles que escaparam à ira das águas uma nova era começava. Não tão gloriosa quanto aquela que acabara de findar. Onde os gigantes caminhavam sobre a terra e grandes heróis viveram. Esta nova era seria mais simples, mais frágil, mas ao mesmo tempo mais sombria. Aquele era o momento das oportunidades e foi que ela fez. Tornou-se líder dos sobreviventes que haviam escapado da ira divina. Sob suas ordens um novo reino nasceu, num local onde apenas eles sobreviveriam. Nos alagadiços, nos charcos eles construíram seu reino e sob as águas do lago proibido constituíram sua corte. Por gerações eles viveram em paz, intocados e soberanos dentro dos limites de seu reino.

Um dia, muito tempo depois de surgir a corte do pântano e da aclamação de sua rainha, logo que a noite se fez presente e a lua cheia nasceu no firmamento, um pequeno ser de pele enrugada e olhos amarelos caminhava sobre a lama macia do pântano em busca de seu desjejum. Ele farejava o ar com seu focinho canino e seguia um leve cheiro azedo que havia percebido. Conforme seguia seu nariz, o cheiro foi se tornando cada vez mais forte e rançoso, e mais faminto ele ficou. O aroma da carne putrefata o fazia salivar de prazer e começava a sonhar com a carcaça que deveria encontrar em breve. Pela intensidade do que farejava, devia ser um animal grande. Talvez um cervo que se perdeu no solo lamacento e incapaz de se libertar daquele domínio das brumas, se entregou a própria morte. Poderia ser também um membro do povo das sombras, solitário, emboscado, assassinado por seus inimigos e deixado para que outros como o pequeno ghoul o encontrasse e se fartasse com sua carne. Entretanto, para sua surpresa, não foi isso que ele encontrou. Sob a luz do luar brilhava uma grande massa, que o ghoul demorou a identificar. Se aproximou com cautela e só então pode compreender o que havia encontrado. Parcialmente submerso no solo úmido do pântano se encontrava um ser de proporções nunca antes vistas pelo pequeno devorador de cadáveres. Curioso, ele contornou o corpo. Parecia-se com um homem, mas não poderia ser um deles. Este era muito maior e muito mais forte. Certamente era um gigante dos tempos antigos. Um sobrevivente dos tempos antigos, como o povo das sombras. Mas o que ele fazia ali, era algo que o ghoul não conseguia nem mesmo imaginar.

O corpo estava inchado, sua pele havia escurecido, os olhos arregalados como se fossem saltar para fora. Sinais muito bem conhecidos pelo ghoul nos corpos em decomposição. Ele então pensou em enterra-lo, esconde-lo para si e passar as próximas semanas se banqueteando com tamanha fartura de carne. Rapidamente ele começou a cavar a lama em torno do corpo com suas próprias mãos. Precisava ser ligeiro antes que outros ghouls também sentissem o cheiro e viessem até ali. Antes de terminar o serviço, retirou um belo pedaço da coxa do gigante para devorar naquela noite.

Enquanto terminava de esconder seu tesouro, ele notou um brilho que vinha da barriga do morto. Com muito esforço ele tentou virar o gigante de barriga para cima, mas por mais que fizesse força o cadáver não se movia. Decidiu por outra abordagem. Ao invés de virar o corpo, tentaria apenas puxar o que quer que estivesse ali. Novamente fez muito esforço, quase desistiu, mas por fim conseguiu puxar parte daquilo para fora. O ghoul ficou surpreso ao ver que era uma espada. Pelo tamanho dela, uma espada de gigantes. Ele puxou o restante dela para fora e contemplou aquela arma enorme à luz da lua.

Era uma arma impressionante. Muito maior do que qualquer outra que já havia visto. Sua lâmina era larga e pesada, maior do que a palma da mão do ghoul aberta; e era tão comprida que com certeza era mais alta que ele. Seu punho era um bloco dourado maciço e continha diversos desenhos e inscrições que ele não compreendia. O cabo era mais grosso que seu braço e terminava numa grande pedra escura. O ghoul colocou o pedaço da coxa do gigante na bolsa que carregava às costas e decidiu arrastar a espada para sua toca. Se há uma coisa que um ghoul goste mais do que da carne dos mortos, é acumular coisas em sua toca.

Naquela mesma noite uma velha bruxa de pele verde estava tendo um pesadelo com a morte de seus filhos, quando de repente teve uma visão. A imagem de seus filhos desesperados e em pedaços foi logo substituída pela de homens armados invadindo seu lar, abatendo o povo das sombras como animais. Na visão ela viu um homem em especial, um que tinha a força de trinta homens, e ele empunhava uma espada gigantesca. Com esta espada ele punha um fim não apenas à corte do pântano, como também matava a própria rainha. E num canto do salão de pedra da rainha, sobre uma pilha de ossos, a bruxa viu seu próprio corpo sem vida. Ela acordou assustada e decidiu que devia contar imediatamente sua visão à rainha. Logo ela estava frente de sua grande senhora e de seu filho, príncipe Grendel. A bruxa lhes contou tudo o que viu e alertou que aquela espada certamente já estava no pântano, por isso ela teve a visão. A rainha ordenou então que quem encontrasse tal espada seria recompensado e teria sua eterna gratidão. Em pouco tempo a notícia sobre a espada e as ordens da rainha haviam se espalhado por todo o domínio das brumas. Mas anos se passaram sem que ninguém encontrasse a espada vista pela bruxa em seus pesadelos.

Na noite que o pequeno ghoul achou a corpo do gigante e a espada, ele voltava muito satisfeito para seu lar, sem perceber que estava sendo seguido. Por todo o caminho de volta para sua toca, um vulto o acompanhava oculto nas sombras das árvores. Ele tinha sido atraído pelo brilho do objeto reluzente que o ghoul estava arrastando, mas depois ficou muito mais interessado no cheiro de carne que vinha da bolsa que este carregava. Em nenhum momento o ghoul desconfiou de sua companhia. Quando já estava na borda da entrada de sua toca, o pequeno ghoul tirou sua bolsa e a jogou no buraco. Depois, olhou ao redor para se certificar que não havia ninguém por ali, e puxou a espada de uma vez só e a jogou em sua toca. Por fim, quando ele se preparava para pular no buraco e passar o resto da noite devorando sua suculenta carne pútrida, ele ouviu um barulho vindo de cima. Um som alto, repentino e assustador para o pequeno ghoul. Antes que pudesse fazer alguma coisa, o vulto bateu suas grandes asas membranosas e num vôo rasante capturou-o com suas garras, subindo às alturas rapidamente. Quem estava por perto naquela noite ainda pode ouvir os grunhidos desesperados do ghoul, sendo levado através do céu para alimentar os filhotes daquele terror noturno que os aguardavam em seu ninho. Enquanto isso, a espada do gigante permaneceu esquecida dentro da toca.

Muitos anos se passaram, e aos poucos os filhos dos homens surgiram nas proximidades do reino das brumas. Eles vinham em cada vez maior número e se multiplicavam com grande rapidez, infestando aquelas parte do mundo com sua presença. Entretanto, todos aqueles que se aventuravam em demasia no interior do pântano eram caçados e executados pelos enviados da rainha e pela corte do pântano. Logo surgiram boatos e histórias, falando daqueles que habitavam as sombras pantanosas e do prazer que eles tinham pelo sangue e pela carne humana. Dentre aquelas pessoas poucos tinham coragem, mesmo durante o dia, de se aproximar do bosque que contornava o pântano, servindo como uma muralha de galhos e troncos secos e espinhosos, um aviso aos intrusos. Quando acontecia de algum convidado indesejado entrar nos domínios do pântano, seu cheiro se espalhava ao vento e imediatamente uma caçada se iniciava. Na maioria das vezes, o líder de tal caçada era o próprio príncipe Grendel, que tinha grande prazer de persegui-los.

Numa dessas vezes, um rapaz havia invadido o pântano em busca de um porco que tinha lhe fugido. Ele correu atrás do animal até cansá-lo e mal percebeu onde estava quando finalmente o capturou. Ao olhar ao seu redor, o sangue congelou em suas veias de pavor. O porco se debatia e gritava, enquanto o rapaz tentava controla-lo e amarra-lo o mais rápido que podia. Ele estava tão entretido com tal tarefa que notou tarde demais as garras que o envolveram e o arrancaram do chão de uma só vez. O porco fugiu novamente, e os gritos agora partiam do rapaz. Gritos de horror ao ver que havia sido capturado por um daqueles que seus pais e seus avós sempre disseram para evitar. Seu captor o ergueu sem dificuldades e por mais que ele se debatesse, os dedos do príncipe pareciam que eram feitos de aço. O rapaz gritava e chorava, clamando por sua vida e por socorro. Mas logo tudo cessou, quando Grendel devorou sua cabeça numa única abocanhada. Depois de terminar com o corpo do pobre rapaz e jogar seus restos para os outros integrantes de seu bando de caça, ele percebeu um brilho estranho vindo de dentro de um buraco no chão. Grendel então se aproximou e enfiou a mão dentro do buraco e de lá retirou a maior arma que já havia visto em sua vida. Ele já tinha visto outros homens portando armas semelhantes àquela, mas nenhuma era como a espada do gigante. Assim que a empunhou o príncipe lembrou-se do sonho que a bruxa lhes contou muitos anos antes. Naquela mesma época, a pedido da rainha, a bruxa realizou um poderoso feitiço sobre ele e sua mãe. Um feitiço que faria com que nenhuma arma feita pelo homem poderia feri-los. Grendel segurou a espada e tocou a ponta de sua lâmina, para se certificar de que aquela era a espada que tanto procuravam. De imediato sentiu uma fisgada e uma pequena gota de sangue brotou em seu dedo. Mesmo após tanto tempo, seu corte era como se tivesse sido recém amolada. Agora ele tinha certeza, aquela era a espada do gigante, feita antes que as águas do Dilúvio cobrissem a terra e a qual nenhum homem poderia empunhar.

O príncipe e seu séqüito de criaturas correram para o covil de sua mãe e lá apresentou a espada a ela. A rainha mandou que chamassem imediatamente a bruxa e em pouco tempo ela se apresentou para a corte do pântano, onde foi levada à arma ancestral. A velha tateou a espada com seus dedos trêmulos até chegar ao punho da arma, e mesmo sem enxergar conseguiu decifrar a mensagem ali gravada. “Esta arma é antiga. Mais velha do que eu ou você, minha rainha. Muito mais antiga que este seu salão de pedra. Esta arma foi feita num tempo após a queda dos rebeldes do Reino Celeste e antes dos homens se dividirem nas diversas tribos do mundo. Numa época, minha rainha, em que nosso povo ainda era nada mais do que um sonho”.

Todos a ouviam com muita atenção. A bruxa continuava a tatear as inscrições com seus dedos longos e magros. Vez ou outra ela sussurrava algo incompreensível, talvez na língua original das inscrições. Finalmente, ao terminar, ela baixou a cabeça e se afastou da espada. “Como eu sempre temi, minha visão dizia a verdade. Há uma profecia nesta arma. Uma profecia terrível!”

Estavam todos calados, aguardando a revelação da bruxa sobre o que seria tal profecia. “Aqui está escrito que um dia surgirá um reino numa terra distante. Este será um reino de sombras e névoas”. Todos começaram a cochichar e afirmar que este reino só poderia ser o pântano em que viviam. Começaram a falar cada vez mais alto e especular. Só se calaram quando Grendel soltou um urro que vez tremer as paredes do salão de pedra.
“E o que mais diz a espada?”, perguntou a rainha.
“Ela também diz que um dia será erguido um grande salão. Um salão de madeira, construído pelos filhos da linhagem de Set, e de lá virá um príncipe, um grande herói. Ele será conhecido como ‘o filho do urso’, e trará a morte para a corte do reino das brumas. Este guerreiro irá empunhar a espada do gigante, esta mesma espada, e por meio dela virá o fim dos filhos da linhagem de Caim. Exatamente como eu havia profetizado anos atrás.”

Um silêncio perturbador tomou conta do salão. Apenas o príncipe se atreveu a quebrá-lo, com sua voz gutural. “Mas como um homem, da linhagem de Set, poderá erguer esta espada que eu mesmo sinto pesar demais ao manuseá-la? Nenhum homem pode ergue-la!”.
Ao ouvi-lo, a bruxa exibiu suas presas amarelas e disse, “Mas este, meu caro príncipe, conseguirá. Pois ele não será um homem comum”.

A rainha, que até aquele momento estava calada, se pronunciou. “Eu não permitirei que esta profecia se cumpra. Se for através desta espada que virá o nosso fim, que assim seja. Mas até lá iremos esconde-la! Nunca mais ela deverá abandonar este meu salão de pedra. Nunca mais ela será vista pela luz do sol. A espada do gigante permanecerá para sempre em meu covil, nas sombras das águas do lago proibido e aqueles que vierem em busca dela sentirão minha ira”. Com estas palavras, toda a corte começou a urrar em aprovação.

“Além disso, não iremos dar paz a eles. Se este salão de madeira surgir e os homens vierem a habita-lo, nós iremos persegui-los. Iremos caça-los! Iremos caçar a eles e suas crianças. Não permitiremos que este ‘filho do urso’ venha a crescer para nos amedrontar!” E mais uma vez a corte fez uma grande algazarra em aprovação às palavras de sua rainha. Entretanto, enquanto o barulho era alto o bastante para encobrir sua voz, a rainha voltou-se para a bruxa e lhe perguntou, “Nós podemos impedir esta profecia, não podemos?”
A bruxa disse de forma calma para a rainha, “O destino é inexorável, minha querida”. A rainha então se calou e observou a espada na mão de seu filho, que a analisava com curiosidade.

Apenas três invernos depois daquela noite em que a corte do pântano ouviu a bruxa falar sobre profecias e gigantes, o príncipe Grendel vagava sob a luz das estrelas nas bordas do pântano quando ouviu um barulho que lhe chamou a atenção. Ele reconheceu vozes de homens que cantavam e conversavam e riam. Ele se aproximou um pouco mais, se embrenhou entre as árvores, e pode ver que onde antes era um grande campo aberto próximo ao mar, agora estava ocupado por diversas casas de homens. Mas o que mais lhe chamou a atenção foi que no meio delas despontava o telhado de um salão de madeira enorme, e a maior parte do barulho que ouvia vinha lá de dentro. Naquele momento ele foi tomado pelo medo e pela raiva. A visão daquele salão era o sinal de que a profecia começava a se cumprir. Ao invés de retornar e contar a todos sobre sua descoberta, ele aguardou até que o sono embalasse os homens do salão. Quando isso aconteceu, e teve certeza de que não ouvia mais nenhuma voz, ele saiu de seu esconderijo e foi até o salão. Não foi difícil entrar, já que não havia ninguém vigiando e todos estavam dormindo profundamente, entorpecidos pelo álcool. Com facilidade ele andou pelo salão e pode mostrar do que era capaz de fazer. Naquela noite ele assassinou e devorou trinta homens. Arrancou-lhes as cabeças, devorou-os inteiros com suas mãos e pés e se fartou ao beber seu sangue, sem que ninguém ali pudesse fazer nada para impedi-lo. Como prova de seu feito, ele levou as cabeças de suas vítimas para o salão de sua mãe, onde elas foram penduradas como troféus.

Sua atitude foi muito elogiada e com isso o príncipe ganhou muita honra e prestígio entre o povo das sombras. Certamente ele demonstrava que um dia seria um grande rei para seu povo. Na noite seguinte ao ataque de Grendel, o povo do grande salão de madeira estava em pânico. O maior de seus temores parecia ter se concretizado na escuridão da noite. Ainda assim, eles não esperavam um segundo ataque tão breve. Mas foi exatamente o que aconteceu na noite seguinte, e na outra também. Noite após noite o príncipe da corte do pântano atacou o salão dos homens e seus arredores. Os gritos de horror e morte ecoavam pela noite, quando Grendel e seu bando de caçadores saíam do pântano em busca dos corpos dos filhos de Set. Aqueles que tentavam fugir eram capturados e arrastados para o coração do reino das brumas e feitos em pedaços. Não havia compaixão para eles. O povo das sombras estava disposto a seguir sua rainha cegamente para evitar que a profecia se cumprisse. Os principais alvos de tais ataques em eram os mais jovens entre eles e, se existisse alguma, as grávidas também. A idéia era não apenas extermina-los, evitando que o tal ‘filho do urso’ nascesse. Desta forma, ninguém era poupado.

E assim o tempo passou. Doze invernos haviam passado e durante esse tempo, não houve uma noite sequer de paz para os filhos dos homens. Aos poucos as casas foram abandonadas, muitos partiram para outras terras e o grande salão tornou-se vazio e silencioso. A música e os risos que Grendel havia ouvido no passado agora haviam desaparecido, para a alegria do reino das brumas. Durante todos esses anos, nenhum dos guerreiros que viviam no salão foram páreos para a força do príncipe. Ao contrário, a corte do pântano celebrou banquetes com a carne de suas vítimas, regados com o seu sangue. Aqueles foram tempos felizes para o povo das sombras. A cada noite de ataques liderados pelo príncipe Grendel, mais distante a ameaça da profecia ficava. Os guerreiros sobreviventes eram fracos, temerários, seres assombrados pelo medo e governados por um rei idoso e desesperançado. Seria uma questão de tempo para que os últimos deles partissem ou perecessem.

Naquela noite, como era de costume ao longo dos anos, o príncipe se preparou para mais uma vez assombrar a morada dos homens. Como sempre, ao cair da noite, Grendel emergiu do lago proibido e caminhou até as fronteiras de seu reino, seguido de perto por seu bando de leais caçadores bestiais, e continuou em direção ao grande salão de madeira. Mais uma vez entrou no salão sem qualquer dificuldade, enquanto seus companheiros o aguardavam do lado de fora. Lá fora, eles ficaram como sentinelas no caso de algum dos demônios pálidos tentasse fugir, ou aparecesse alguém para tentar impedi-los. Entretanto, dessa vez o príncipe se deparou com aquele que eles tanto temiam.

Lá estavam eles, o bando de Grendel, formado pelos mais fortes, os mais temidos, os mais sanguinários do reino das brumas. A guarda pessoal da rainha e de seu filho. Temidos até mesmo pelo povo das sombras. Eram eles que traziam a morte para os filhos do homens, enquanto o príncipe vagava pelo salão de madeira. Mas agora já não havia mais ninguém nas casas para ser atacado, portanto eles permaneciam junto ao salão, aguardando por seu líder. Foi quando eles ouviram um grito vindo do interior. Eles não souberam dizer de quem era, pois nunca tinham ouvido aquele grito antes. Um grito de pavor e dor. Eles não reconheceram, pois era Grendel quem gritava, e eles nunca ouviram-no temer nada ou demonstrar dor. Aquela era primeira vez que algo havia conseguido fazer o príncipe sentir qual era o sabor do medo. De repente eles ouviram um segundo grito e todo o salão tremeu, parecendo até que fosse desabar. Com certeza uma batalha ocorria lá dentro, mas antes que eles pudessem entrar e ajudar seu senhor, um terceiro grito e mais aterrador do que todos os outros foi ouvido. Ao mesmo tempo um som alto e estranho também pode ser ouvido, como se alguma coisa tivesse se partido, como o som do tronco de uma árvore faz ao se quebrar e cair. A porta do salão abriu-se de uma vez e surgiu o vulto gigantesco do príncipe do reino das brumas correndo como louco para o pântano. Seu bando de guerreiros o seguiu imediatamente ao ver o rastro de sangue que ele deixava pelo chão em sua fuga.

A rainha estava dormindo quando ouviu que alguém adentrava em seu salão de pedra. Ela se levantou e viu que a água na entrada de seu covil estava revolta, até que finalmente emergiu seu filho. Porém, algo estava errado. Quando ele finalmente saiu da água, deu alguns passos e caiu desfalecido ao chão. A rainha correu para socorre-lo e viu que lhe faltava o braço direito. Quando ela o amparou Grendel agonizava, lhe faltando pouco tempo de vida. A rainha chamou por um de seus súditos e ordenou que trouxessem a velha bruxa o mais rápido possível. Mas assim que partiram em busca de ajuda o príncipe faleceu, devido ao seu grave ferimento. A rainha o abraçou e amaldiçoou aquele que havia realizado aquilo a seu único e querido filho, e foi assim que a corte do pântano a encontrou.

Agora a rainha rememorava a profecia da bruxa olhando para a espada do gigante, no fundo de seu covil. O ódio e a vingança consumiam seu espírito. Ela virou-se para a bruxa, seus olhos brilhando como duas pedras em brasa. “Eles pagarão! Eles mataram meu filho e quando o sol se por eu matarei os seus filhos!”

A bruxa ainda examinava o corpo do príncipe. “Minha rainha, tenha cuidado. Compreendo sua dor, pois eu mesmo sei o que é perder um filho. Mas não seja precipitada. O feitiço que fiz sobre ele o protegeu durante todos esses anos. O ferimento que matou seu filho não foi feito por uma arma, minha senhora. Foi ele, minha rainha. O ‘filho do urso’ arrancou o braço do príncipe com as próprias mãos. É ele a quem a profecia nos advertiu!”

“Não me importa! Quem quer que seja pagará caro!”, disse a rainha. Ao ouvir essas palavras a corte se manifestou e juraram ajudar sua senhora. Todos se retiraram do salão de pedra, exceto a bruxa, deixando a rainha velar pelo corpo do filho. Durante todo aquele dia eles se prepararam para o cair da noite.

Assim que as estrelas estavam altas no céu, a rainha se preparou e nadou até a superfície do lago e respirou o ar da noite de seu reino. Sentiu o cheiro de sangue e morte. Assim que saiu da água, viu que toda a corte do pântano estava ali reunida às margens do lago, assim como outros de seus súditos. A rainha prometeu trazer a cabeça do assassino de seu filho, faze-los lhe dar o pagamento de sangue e por fim ergueu sua grande faca, feita de um metal ancestral vindo do céu, e urrou um grito de guerra. Este foi acompanhado por todos os presentes, criando um coro macabro no coração do reino das brumas.

A rainha usou suas longas pernas e braços para correr o mais rápido que podia até o bosque no fim do pântano. Já fazia muito tempo desde que ela havia feito sua última corrida de caça noturna, mas assim que se pôs em movimento seu corpo alto e esguio lembrou como era correr sobre o solo úmido e instigar o medo em seus inimigos. Logo ela havia chegado às arvores do bosque e de lá pode vislumbrar pela primeira vez o salão onde o príncipe foi derrotado. O lar dos malditos demônios que a privaram da companhia de seu filho. Ela ordenou aos demais que a seguiam para esperarem ali, enquanto ela ia ao salão. Apesar de não concordarem, eles obedeceram.

O povo das sombras viu sua rainha avançar até a morada dos homens e entrar lá sem problemas. Pouco tempo depois gritos de pavor foram ouvidos e logo depois viram sua senhora sair de lá e entrar novamente no pântano. Ela trazia consigo o braço arrancado do príncipe Grendel e um homem de cabelos prateados. Sem lhes dizer nada, ela continuou a correr até uns rochedos na fronteira norte do reino, próximos ao mar. Eles a seguiram e quando a alcançaram, viram que ela segurava o homem acima de sua cabeça. O homem gritava e tentava se desvencilhar das garras da rainha. Ele era grande e extremamente forte mas, assim como seu filho, a rainha era muito mais forte que qualquer homem comum. A rainha gritou ao seu povo palavras de rancor e vingança. Disse que aquele era o pagamento que o povo do salão de madeira lhes devia. Para o horror de seu prisioneiro, ela o jogou sobre o rochedo e imediatamente aqueles que a seguiam caíram sobre seu corpo, dilacerando e o devorando vivo. Enquanto isso, a senhora do reino das brumas segurou o braço amputado de seu filho e decidiu retornar para seu salão de pedra sob o lago, satisfeita em saber que havia vingado a morte de seu filho e que o povo das sombras havia devorado os restos mortais de seu assassino. Mas a rainha havia se enganado, pois aquele não era o homem que havia arrancado o braço de Grendel com suas próprias mãos. Aquele era de fato o demônio de pele pálida mais forte que ela encontrou naquela noite no salão de madeira, mas aquele que havia lutado contra seu filho não estava lá naquela noite. Ele ainda estava vivo.

No fundo do covil da rainha do pântano se encontrava a bruxa. Depois que a rainha e todos os outros partiram naquela noite, ela ficou. Queria sentir a espada do gigante novamente. Queria ter certeza de que havia interpretado corretamente a profecia. Ela sentia que algo muito ruim estava para acontecer antes que aquela noite terminasse. Enquanto a rainha e sua corte iam em busca da vingança, a velha bruxa tateava a espada depositada em meio a outras armas e armaduras, espólios retirados das vítimas que um dia se aventuraram no pântano e que se tornaram pratos de banquetes nas sombras. Ela sentiu mais uma vez os sulcos das inscrições daquele idioma falado quando todos os homens falavam apenas uma única língua. Em tempos quando os céus ficavam apinhados de dragões em grandes revoadas. A velha conhecia aquele idioma ancestral. Aquele era o Idioma Antigo utilizado pelos filhos das filhas dos homens com os filhos do Rei Celestial; era através dele que ela realizava seus encantos e sortilégios. Foi com ele que todas as coisas do mundo foram nomeadas com seus nomes secretos.

Enquanto lia as inscrições com seus dedos, ela conseguia ver o que elas diziam em sua mente. Ela também conseguia ver o que havia acontecido no reino das brumas desde o princípio, viu Grendel caçando sob o luar, viu sua mãe contemplando o vasto mar sem fim com seu filhote ao seu lado. Ela viu também os homens chegando e construindo suas casas e seu salão de madeira. Ela viu seu rei, um homem velho e triste, assim como sua corte de guerreiros. Viu o terror em seus olhos quando o sol se punha a cada dia e a morte que Grendel trazia sobre eles. Ela viu também que de muito longe, além do mar, veio um homem jovem cercado por seu bando de guerreiros. De alguma maneira, ele a fez lembrar do próprio príncipe Grendel. O jovem era forte, imponente, um guerreiro de armadura. Sobre suas costas um lindo manto feito de pele de urso. Ele veio pois soube do infortúnio do rei. Ela o viu se apresentar ao velho rei e aguardar a noite, e quando o príncipe do povo das sombras veio ele o enfrentou e arrancou seu braço.

Chocada com a visão, ela tirou as mãos da espada, tremendo de medo sobre os joelhos. “Não! Estávamos todos enganados! O que foi eu que fiz?”, sussurrava a bruxa. “Estávamos enganados! Nós nunca deveríamos tê-los atacado…”, ela disse se erguendo ao ouvir que alguém saía das águas para entrar no salão de pedra. Com medo, ela correu e se escondeu no fundo do salão de pedra, debaixo de ossos e trapos de roupa abandonados. Alguém mais estava lá agora. Ela ouviu passos e então ouviu a voz de sua rainha. Ela falava baixo e, de onde vinha o som, a bruxa sabia que ela devia estar falando com o corpo de seu filho. Ainda um pouco apreensiva a bruxa saiu de seu esconderijo e foi em direção da voz da rainha.

“Minha senhora, cometemos um grande erro”, ela dizia enquanto se aproximava. “Nós nunca deveríamos ter feito qualquer mal ao povo dos homens que vivem além do pântano”. Assim dizia a bruxa.

A rainha havia colocado o braço amputado de seu filho junto a seu corpo, e se assustou quando a bruxa surgiu de repente do meio de uma pilha de ossos. Ela tentava compreender o que a bruxa dizia, enquanto via aquele pequeno ser esverdeado se aproximando. “O que você está dizendo, velha? Por quê não deveríamos ter atacado aqueles malditos?”

“Minha rainha, enquanto estive sozinha aqui, eu pude ler com mais atenção as inscrições da espada. De nada adiantou levarmos a morte ao salão de madeira dos homens. Na verdade foi por causa disso que a ruína caíra sobre nós!”

A rainha se levantou e afastou-se de seu filho morto, olhando atentamente para a bruxa, “O quê você quer dizer?”

“Eu compreendi tudo agora, majestade. O ‘filho do urso’ não é um homem nascido no salão de madeira. Ele veio de além-mar para ajudar o rei que os governa e foi então que ele enfrentou seu filho, o príncipe Grendel”, explicava a bruxa.

A rainha olhava intrigada para a velha, digerindo as palavras que acabara de ouvir. “Mas a profecia dizia que o ‘filho do urso’ viria do grande salão, que ele seria o responsável por nossa ruína! Aqui está a prova disso tudo! Bem ao meu lado jaz meu filho! Como podemos estar enganados?”, esbravejava a rainha.

“Minha senhora, creio que nós acabamos provocando a realização da profecia”, disse a bruxa se calando. Mesmo não podendo ver, ela sentia o ódio que vinha da rainha.

“Quer dizer que meu filho morreu em vão? Quer dizer que se não fosse por você, naquela maldita noite, ter vindo até minha presença falar sobre seus pesadelos e visões meu filho ainda poderia estar vivo?”

“Sim minha senhora…”, respondeu a bruxa. Sem dizer mais nada, a rainha sacou de sua faca e a enterrou fundo na barriga da velha bruxa, e em seguida jogou seu corpo sobre a pilha de ossos que estava ali próxima. O golpe não doeu tanto quanto ela esperava. Era até suportável, mas ela sabia que aqueles eram os seus últimos instantes naquele mundo. Ela sentia o sangue jorrar pelo ferimento e não havia como estanca-lo. Naqueles últimos instantes, ela compreendeu finalmente o que havia acontecido. Sua visão sobre a profecia não estava errada. Ela cumpria o que dizia sua maldição. Ela tinha o dom da visão profética, mas apenas sobre sua própria morte. E foi isso o que ela havia previsto, mas não havia compreendido ainda. Ao interpretar a profecia inscrita na espada ela não apenas teria induzido esta em acontecer e levar ao fim o reino do pântano, mas também por causa disso ela mesmo seria morta por sua rainha enfurecida. Como havia previsto, todos eles acabariam sendo mortos por causa da espada do gigante, mas não necessariamente ou diretamente por sua lâmina.

Dizem que naquela noite, devido ao ataque da rainha, o guerreiro que havia derrotado Grendel, o ‘filho do urso’, invadiu o pântano juntamente com um grupo de guerreiros. Ao avançar por aquele território lamacento, eles acabaram se encontrando com o povo das sombras sobre o rochedo próximo ao mar, onde eles haviam acabado de se deleitar com a carne do homem capturado por sua rainha. Todos eles foram mortos pelos guerreiros e seus corpos jogados ao mar. Toda a corte do pântano acabou servindo de comida às feras do oceano. Mais tarde, dizem que o ‘filho do urso’ mergulhou nas águas do lago proibido e enfrentou os últimos sobreviventes do povo das sombras e chegou até o salão de pedra da rainha. Lá, eles travaram uma grande batalha. O jovem guerreiro teve grande dificuldade nesse combate, e a rainha por muito pouco não o derrotou. Entretanto, no último instante da luta ele enxergou a espada do gigante e devido sua força descomunal a ergueu sem muito esforço. Com ela desferiu um único golpe contra a mãe de Grendel. Com um único golpe ele fez a cabeça da rainha girar no ar e cair ao chão, ao lado de seu corpo. Assim, como havia sido revelado à bruxa em seus sonhos, chegava ao fim o reino das brumas.



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