Alfred – Ato I

Publicação: 13 de abril de 2010

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Um Casamento, um Javali e uma Noite de Verão

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Há muito tempo atrás, durante um verão extremamente quente nas terras do velho reino de Wessex, um grupo de jovens se divertia caçando javalis. O som dos cascos de seus cavalos fazia o chão estremecer e as pontas de suas lanças refletiam a luz intensa do sol, assustando os pobres animais da região, que não compreendiam o que havia de tão divertido em perseguir um javali. Para a maioria deles aquilo era uma grande covardia, ou no mínimo algo enfadonho. De qualquer maneira, todos eles agradeciam ao Criador por não tê-los feito como javalis.

Os caçadores que estavam ali não eram meros camponeses. Eles eram jovens guerreiros da corte do rei Egbert de Wessex que estavam lá reunidos em função das comemorações de um casamento, e quem liderava o bando era o próprio noivo, o príncipe Aethelwulf. O príncipe se orgulhava de descender de uma longa linhagem de reis guerreiros, que por muitas gerações governaram as terras do sul da Bretanha. Segundo o venerável Asser de St. David, o príncipe Æthelwulf era filho do rei Egbert, que era o filho do rei Ealhmund, o filho de Eafa, o filho de Eoppa, o filho de Ingild. Ingild e Ine, o famoso rei dos saxões do oeste, eram irmãos; Ine viajou para Roma, e honradamente findou esta vida presente lá e entrou na terra celeste. E eles eram filhos de Cenred, o filho de Ceowold, o filho de Cutha, o filho de Cuthwine, o filho de Ceawlin, o filho de Cynric, o filho de Creoda, o filho de  Cerdic, o filho de Elesa, o filho de Gewis (devido ao qual os galeses chamaram todo aquele povo de gewisse), o filho de Brand, o filho de Bældæg, o filho de Woden, o filho de Frithuwald, o filho de Frealaf, o filho de Frithuwulf, o filho de  Finn, o filho de  Godwulf, o filho de Geat (a quem os pagãos adoraram por muito tempo como um deus), o filho de Tætwa, o filho de Beaw, o filho de Sceldwa, o filho de Heremod, o filho de Itermon, o filho de  Hathra, o filho de Hwala, o filho de  Bedwig, o filho de  Seth, o filho de  Noé, o filho de Lamech, o filho de Methuselah, o filho de Enoch (filho de Jared), o filho de Mahalaleel, o filho de Cainan, o filho de Enos, o filho de Seth, o filho de Adão. Amém!

Aethelwulf iria se casar dentro de três dias com Osburh, filha de Oslac, que era o conselheiro do rei Egbert. Ela não era muito bonita, mas também não era feia, era reconhecidamente de linhagem nobre, descendente do próprio rei Cerdic, e também muito cristã e muito piedosa. Aos olhos do rei Egbert, uma boa noiva para se casar com o herdeiro do trono e lhe dar muitos netos. O rei gostava tanto dela que se fosse viúvo ele mesmo casaria com a jovem. Porém, ele já era muito bem casado com sua nobre esposa Redburga, descendente do grande imperador Carlos Magno, e separar-se dela ou mata-la seria uma grande desfeita para a família do senhor dos francos.

Osburh e Aethelwulf se conheciam desde a infância, mas o príncipe nunca havia pensado nela de outra forma além de ser a filha do conselheiro de seu pai e com quem gostava de conversar… às vezes. Ela era tão desprovida de qualquer charme que isso chegava a se tornar o seu próprio charme, fazendo com que as pessoas gostassem dela e de seu sorriso infantil na primeira vez que a viam. Mas também era comum ninguém se lembrar dela depois. Apesar disso, era uma boa moça.

O jovem príncipe não estava nem um pouco empolgado com o casamento, mas sabia também que não havia nenhuma possibilidade de mudar a decisão de seu pai. Aethelwulf era um jovem aguerrido, feroz em combate e de espírito impetuoso. Mas nada disso lhe adiantava quando se tratava de enfrentar seu pai. Egbert era o único que conseguia dobrar a vontade do príncipe. E assim se fazia necessário. Há muito tempo os nobres de Wessex confabulavam contra o rei. Diziam que sua esposa influenciava em suas decisões e que necessitavam de um homem forte no trono. Por outro lado, eles gostavam e apoiavam Oslac, considerando-o um homem sábio e de valor. Temendo o perigo de uma revolta e de ser traído pelo próprio conselheiro, Egbert viu que a melhor solução seria acertar um acordo que agradasse a todos: um casamento entre seu herdeiro legítimo ao trono e a filha de Oslac. Isso agradaria a ele, pois teria um filho seu no trono, e também aos nobres e a Oslac, que teria sua filha como uma legítima princesa no salão real de Wessex. Sendo assim, o casamento foi declarado e juramentado perante o rei, seus conselheiros e Deus, durante o final do inverno do ano anterior. O tempo passou e quando o verão chegou já estava tudo acertado, os convidados de muito longe já começavam a se reunir na corte e muita comida e bebida estava sendo preparada para a festa. Enquanto isso, como não podia ir contra a vontade do pai, a única saída do príncipe era descarregar sua frustração contra os pobres suínos das florestas.

Naquele dia Aethelwulf acordou com o raiar do sol, ainda sentindo um pouco os efeitos da cerveja que havia bebido no banquete da noite anterior. Ele não apenas estava desgostoso em ter de se casar como estava ficando cada vez mais irritado com todos aqueles preparativos. Assim, quando os primeiros raios de sol bateram sobre o telhado do salão real e os outros guerreiros despertaram, o príncipe Aethelwulf já estava impaciente em seu cavalo com armas em punho e aguardando por seus companheiros. Ainda sonolentos, eles se vestiram rapidamente e partiram com o príncipe rumo ao oeste. Hareth, um dos caçadores de Aethelwulf, disse que havia visto um grupo de javalis andando nas proximidades de um bosque a meio dia de viagem de lá e foi para onde cavalgaram.

Chegaram logo no local indicado, sem maiores problemas e com a brisa da manhã. Mas rapidamente as coisas mudaram. O sol havia atingido seu zênite, inibindo qualquer tipo de sombra de se manifestar no solo. Os cavalos, que corriam desde o amanhecer, estavam cansados e seus cavaleiros completamente suados e exaustos. Já era meio-dia e até àquela hora eles não haviam parado um momento sequer ou visto um único javali para poderem levar de volta para o salão de Egbert, nem mesmo um simples leitãozinho. Aethelwulf reconheceu que também estava cansado demais para continuar e decidiu desmontar e descansar um pouco. Quem sabe assim os javalis pensariam que eles haviam desistido e saíssem de seus esconderijos? Provavelmente não. Mas de qualquer forma, resolveram desmontar e comer.

Saciados com o que tinham trazido consigo, decidiram descansar mais e esperar o sol baixar um pouco, poupando-os do calor inclemente. Nenhum deles se recordava, mesmo o caçador que era o mais velho dentro eles, de um verão tão quente quanto aquele. Sendo assim, cada um escolheu seu próprio recanto sob as sombras das árvores próximas para tirar um cochilo revigorante. Todos menos Aethelwulf. O príncipe estava inquieto e já havia declarado que não voltaria sem um belo e gordo javali na ponta de sua lança, que deveria ser servido no banquete da festa. Aproveitando o sono dos demais, o príncipe resolveu caminhar pelos arredores e ver se encontrava rastros de uma possível presa. Eles tinham parado próximos da borda de um bosque e, sem perceber, o príncipe começou a se embrenhar por entre as árvores, mesmo não conhecendo muito bem a região.

Dentro do bosque o ar era muito mais agradável, o que estimulou ao príncipe a continuar explorando a região. Ia andando com cautela, tentando memorizando árvores, pedras ou qualquer outra coisa que o ajudasse depois a voltar para junto de seus companheiros. Já caminhava há algum tempo quando de repente, ouviu um barulho atrás de si. Imediatamente se escondeu entre algumas folhagens e ficou observando. Para sua surpresa, de trás de alguns arbustos surgiu um grande e imponente javali. Ele era enorme, bem maior do que os cães que os acompanhavam na caçada, seu pelo reluzia a luz do sol como bronze e seus dentes eram tão grandes que poderiam arrancar a mão de alguém num único golpe.

Aethelwulf ficou deslumbrado com o animal. Aquele deveria ser o pai de todos os javalis, o animal que ele via quando caçava em seus sonhos. Certamente nunca ninguém havia capturado um javali como aquele. Aquele seria um magnífico troféu para seu casamento. Lentamente ergueu sua lança e a posicionou de forma adequada em sua mão, mirando num ponto no meio do pescoço do suíno. Segurava a arma acima do ombro com a mão firme, imóvel, o outro braço esticado para frente para ajudar na mira e no contra-peso da arma, enquanto olhava atentamente sua presa, aguardando o melhor momento para o ataque. Ele estava preste a atirar a lança quando um pardal pousou numa árvore próxima dali e começou a cantar freneticamente. Alertado pelo canto do pássaro, o javali percebeu o homem ali parado com sua lança e correu em disparada, fazendo Aethelwulf errar e atingir um formigueiro que estava oculto atrás de seu alvo, causando o Dia do Juízo Final para os pequenos insetos.

O príncipe ainda não havia desistido. Correu até o formigueiro, recuperou sua lança e começou a perseguir o javali, que fugia o mais rápido que podia se embrenhando cada vez mais para dentro do bosque. Os galhos da vegetação chicoteavam seu rosto, mas isso não lhe incomodava naquele momento. Tudo o que queria era pegar o javali. Após muito correr, Aethelwulf parou e percebeu que o javali o tinha despistado e que ele não tinha a menor idéia de onde estava. Olhou ao seu redor diversas vezes, mas não reconhecia nada ali, nenhum caminho, nenhuma árvore ou trilha. Tentou se orientar pelo sol, mas as copas das árvores confundiam sua visão impedindo-o de localizar o astro. Além disso, não se lembrava exatamente por quanto tempo havia entrado no bosque, mas lhe parecia que começava a escurecer rápido demais para aquela época do ano. Ele ainda estava confuso e pensando no que fazer para voltar para junto de seu grupo quando ouviu o grunhido do javali muito próximo dele. Ao se virar viu o javali atrás de si, olhos injetados, a boca cheia de dentes aberta e gritando vindo a toda velocidade. O javali furioso deve ter esperado o homem ficar desprevenido e vendo-o ali, desorientado, resolveu se vingar acertando-o com uma forte cabeçada. “Nunca dê as costas para um javali, principalmente quando você não sabe onde ele está”, já dizia um velho ditado da época.

Pego de surpresa, o príncipe foi atingido em cheio pelo animal com uma poderosa cabeçada. A sorte de Aethelwulf foi de que, ao ser atingido pelo javali, ele escorreu e caiu num barranco atrás de si, o que impossibilitou o javali de continuar a atacar e dilacera-lo com suas presas. O azar dele ter caído no barranco foi de ter rolado diversos metros e só parado quando bateu a cabeça num troco de árvore caído no chão. Ao bater no tronco, o mundo começou a girar para Aethelwulf e ficar cada vez mais escuro. Antes de desmaiar, a última coisa que viu foi o javali olhando para ele lá de cima do barranco, e ao vê-lo pensou que iria morrer. Ao ver aquilo, pensou que certamente o animal iria vir atrás dele e que aquele seria seu fim.

O príncipe permaneceu desacordado por muito tempo. Ao despertar, já era noite profunda. Estava numa clareira coberta por um céu estrelado e sem nuvens, iluminada por uma grande lua-cheia. Sua cabeça doía muito e ainda estava com um pouco de tontura. Quando conseguiu enxergar com clareza, a primeira coisa que viu foi o rosto mais belo que já havia visto e que nunca encontraria outro igual em toda a sua vida. Concluiu então que estava morto e que aquele só podia ser um anjo.

A face tinha os traços delicados e harmoniosos de uma linda jovem, que estava sentada de joelhos ao seu lado. Talvez tivesse a mesma idade de Aethelwulf ou um pouco mais jovem. Sua pele era muito branca, pálida, tinha grandes olhos verdes e intensos e seus cabelos eram compridos e escuros como carvão. Assim que fixou os olhos nos dela a jovem sorriu, um sorriso franco e de dentes alinhados. O príncipe teve a impressão de que um leve brilho envolvia a moça, mas ainda estava muito tonto para ter certeza daquilo e sua visão podia estar lhe confundindo. Ainda desorientado, perguntou:
–    Estou morto?
A jovem sorriu novamente e olhou fundo nos olhos de Aethelwulf, que tentava se sentar. Ela o ajudou e abaixou sua cabeça para frente, para ver como estava o ferimento.
–    Se você está morto, eu também estou. Mas sinceramente, não me recordo de ter morrido, e acho que isso não é o tipo de coisa da qual nos esquecemos assim tão fácil.
O príncipe sorriu com aquela observação e sentiu que ela retirava alguma coisa que estava grudada sobre a ferida, repuxando sua pele e seus cabelos. Eram folhas e ervas, agora sujas de sangue coagulado, que ela colocava sobre seu colo. Ao vê-las, Aethelwulf olhou desconfiado, mas percebendo seu olhar ela disse:
–    São para diminuir a dor e para ajudar a estancar o sangue.

Ele não respondeu nada, mas logo emitiu um grito abafado quando a jovem encostou um pano úmido sobre o ferimento de sua nuca. Ela o olhou de soslaio e fez um muxoxo.
–    Curioso, para caçar um javali indefeso você é muito corajoso, mas para me deixar limpar um corte do tamanho de uma ervilha reclama como um bebê!
Aethelwulf ficou surpreso com aquela declaração e ficou quieto o resto do tempo que a jovem continuou a limpar seu ferimento. Ao terminar, ela apertou com força ao redor do ferimento, o que fez o príncipe gritar novamente.
–    Pronto! Deixe que ele sangre um pouco mais para facilitar na cicatrização. Acho melhor não enfaixar nem fazer nada, para que o ferimento possa respirar. Logo o sangue secará e fechará o corte.

Depois que ela terminou, ele disse tentando se redimir:
–    Não era um javali tão indefeso assim!
–    O quê?
–    O javali! Ele quase me matou e…

Antes que terminasse a frase a jovem começou a rir, olhou novamente para ele e depois começou a gargalhar. Aethelwulf se calou, confuso, e viu ela se levantar e limpar as folhas secas presas em sua roupa. Ela uniu a ponta do polegar e do indicador junto à boca e deu um assobio grave e vibrante, como se ela tivesse assobiado de dentro de um tronco oco. Algum tempo depois ele ouviu que alguma coisa se aproximava deles. Ouvia um rosnado e um barulho de patas ficando cada vez mais alto e tomou um susto quando do meio da vegetação surgiu o javali que o havia atacado. O animal passou por ele e o encarou com desprezo, da forma que apenas os javalis e os porcos sabem fazer, e se posicionou ao lado da bela jovem. Ela passou a mão sobre o dorso do animal, que chegava a passar da altura de sua cintura, e lhe disse algo numa língua que o príncipe não conhecia.
–    Não tenha medo, ele não lhe fará nenhum mal. A não ser que você ainda queira acerta-lo com sua lança. – ela dizia de forma sarcástica.
–    Não, acho que já cacei o bastante por hoje.

Ele se levantou, ainda tonto, tentando firmar um acordo entre seus pés e o chão. Como foi mal sucedido na negociação, começava a desabar sobre os joelhos quando ela correu em sua direção e o ajudou.
–    É melhor você continuar sentado por mais algum tempo.
–    Também acho…

Aethelwulf olhava ao redor e tentava reconhecer algo que lhe dissesse onde estava, mas nada ali lhe era familiar. Voltou-se para a jovem e viu que ela arrumava uma coleira presa ao pescoço do javali, coisa que ele não lembrava de ter visto ali quando o perseguia. Sua estranheza não era tanto pelo fato de não ter visto a coleira antes, mas sim pelo animal ter uma. Já tinha ouvido falar de um velho em Oxford que tinha um corvo de estimação, mas um javali era a primeira vez. Como ainda estava com dor de cabeça, fechou os olhos e recostou-se para trás para descansar mais um pouco.

Não demorou a dormir e sonhar com lugares e pessoas. Sonhou que estava no salão de seu pai e que estava no banquete de comemoração de seu casamento com Osburh. Ele se sentia angustiado e temia por algo que ele não sabia o que era. Bebia e comia fartamente até que ele dirigia o olhar para a cadeira de seu pai e via que ela estava vazia. Desesperado, procurava-o por toda parte, mas não o encontrava e também parecia que ninguém além dele havia notado a ausência do rei. Ao olhar novamente, viu uma sombra enorme atrás do trono, que aos poucos ia ficando cada vez maior e envolvendo todo o salão. Enfurecido, ele levou a mão à cintura por sua espada, mas ela não estava lá. Sendo assim, de mãos vazias, investiu contra a figura com o desejo de mata-la. Em meio a sua angústia o sonho se perdeu e então ele se viu em pleno campo de batalha, lutando contra os pagãos do norte. O sol se punha e o horizonte estava vermelho como sangue; via a sombra de dragões que cruzavam o céu e ondas enormes que se chocavam contra a costa. Os pagãos vinham cada vez em maior número e muitos guerreiros jaziam mortos pelo chão, servindo de banquete aos corvos e aos lobos. O horror tomava conta de sua alma. Mas então ele ouviu uma trompa de guerra soar e ao buscar onde ela estaria, ele viu sobre uma colina próxima um homem pálido de armadura brilhante. O homem tocou mais uma vez sua trompa e um exército surgiu atrás dele, desceu a colina e como uma onda tragou o exército dos homens do norte. O homem pálido então tocou pela terceira vez sua trompa, fazendo com que seu exército recuasse para trás da colina, deixando para trás um campo de morte e carnificina. Assim que o exército desapareceu, o homem pálido se virou e olhou diretamente para Aethelwulf, que estremeceu e caiu ao chão. Por fim, sonhou com a moça que o havia ajudado ali no bosque. Eles andavam de mãos dadas pelos corredores de algum lugar que ele desconhecia, mas que ao mesmo tempo ele sentia familiar. As paredes eram de blocos de pedras esverdeadas e polidas. Diferente dos outros sonhos, naquele momento ele se sentia tranqüilo, calmo, como se estivesse no lugar que ele sempre deveria estar. Como se tivesse acabado de voltar para casa após uma longa viagem. Eles conversavam sobre coisas que ele não sabia do que se tratavam e numa língua que ele nunca tinha ouvido antes, mas naquele momento lhe parecia tudo muito claro. Eles chegavam até o final deste corredor e de lá era possível ver o mar aberto. Estava nublado, o cheiro salgado das ondas preenchia suas narinas e ela o abraçava. Por fim sorriam um para o outro e tudo se transformava em nada mais do que brumas.

Quando acordou tentou se lembrar dos sonhos, mas eles iam lhe escapando conforme tentava segura-los em sua mente. Por fim, lhe restou algumas poucas e vagas lembranças e sensações do que havia lhe ocorrido durante o sono. Percebeu então que a garota não estava por perto e que também não sentia mais dor. Olhou no entorno e viu que ela havia deixado uma pequena fogueira acesa e que o javali estava ali também, deitado ao lado do fogo. Logo, pensou, ela não deveria estar muito longe. Assim que se mexeu para se levantar, sentiu um cheiro agradável de flores das quais nunca tinha sentido, e ao procura-las percebeu que o cheiro vinha do manto que o cobria. Não era muito grande, mas era muito bem bordado e cheio de detalhes; certamente pertencia a ela. Cheirou-o para confirmar a origem do perfume e viu que era mesmo dele que vinha aquele aroma. Recolheu o manto e se apoiou sobre o joelho para se levantar. Devia estar deitado há muito tempo, pois ao se por de pé sentiu as costas e as pernas doloridas e formigando um pouco.

Quando se levantou o javali ergueu a cabeça e o ficou encarando, deu uma fungada, e só voltou a deitar-se quando o príncipe se afastou. Aethelwulf procurava por ela, mas não conseguia imaginar onde poderia estar, e não queria se aventurar pelo bosque e se perder ainda mais. Mas foi então que ouviu ao longe alguém cantando. Parecia com uma voz feminina. Pensando ser ela, guiou-se pelo som até chegar às margens de um riacho não muito longe de onde estavam. Ele se aproximou devagar, pisando com cautela para não fazer barulho, da mesma forma que fez ao ver o javali pela primeira vez. Aproximou-se de uma árvore e se agachou para evitar ser descoberto e poder vê-la melhor. Lá estava ela, desnuda da cintura para cima e se banhando a margem das águas. Aethelwulf permaneceu ali, encantado, observando o banho da jovem.

Nunca havia visto uma mulher como aquela, o jeito como a luz da lua refletia sobre sua pele fazendo com que ela realmente se parecesse com um anjo. Não que Aethelwulf já tivesse visto um anjo, mas se ele viesse a ver um algum dia o imaginava daquela forma. O príncipe não sabia direito o que se passava com ele, que sensação estranha era aquela que surgia e se apossava de sua alma. Sensação que o fez se lembrar do último sonho. Ela era perfeita aos seus olhos, de uma maneira que nem ele mesmo entendia. Seu corpo esguio, pequeno e delicado, suas costas nuas, seus braços, seus seios, seu pescoço! Aethelwulf prestava atenção a cada detalhe do corpo da jovem. Ele nunca tinha sentido aquilo antes, principalmente por uma desconhecida. Ele estava imerso num mundo de sonhos, imaginando como seria ter ela em seus braços, em correr até lá e possuí-la naquele instante ou até mesmo leva-la consigo para o salão de seu pai e cancelar o casamento com Osburh.

Divagava tomado por seus desejos quando foi trazido de volta à realidade ao ouvir um grunhido alto de reprovação às suas costas. Virou-se rápido e viu que o javali estava bem ali atrás dele, mais uma vez olhando-o furioso. Nesse instante a jovem falou alguma coisa em voz alta, que novamente não significou nada para Aethelwulf, ao que o javali correspondeu com grunhidos estridentes, delatando onde estavam. O príncipe tentou fugir, mas o javali se colocou em seu caminho. Logo ela surgiu junto a eles e disse mais alguma coisa para animal, que se afastou apenas alguns passos.
–    Vamos para perto do fogo. Eu preciso me secar. – ela disse docemente, como se nada tivesse acontecido.

Ela enroscou-se em seu braço direito, enquanto o javali o acompanhava pela esquerda e vez ou outra o encarava nos olhos. Tomou o manto das mãos de Aethelwulf e o estendeu no chão e sentaram-se junto à fogueira lado a lado. Ela ajeitou a roupa úmida sobre seu corpo e mais uma vez enroscou seu braço ao dele e pousou sua cabeça em seu ombro. O príncipe Aethelwulf, filho do rei Egbert de Wessex, que já havia lutado ao lado do pai contra os pagãos vikings e outros inimigos de seu reino, que já havia sentido o que era o inferno do campo de batalha na muralha-de-escudos e já havia matado homens duas vezes maiores que ele, simplesmente não sabia o que fazer nem o que dizer naquele momento para a jovem de cabelos negros recostada a ele. Aquele era um adversário que ele nunca pensou que ficaria paralisado algum dia.

Um tanto hesitante, ele disse em voz baixa seu nome. Ela ergueu os olhos na direção dos dele com uma expressão confusa, e ele repetiu mais alto:
–    Aethelwulf. Meu nome é Aethelwulf, filho do rei Egbert de Wessex.
Ela sorriu e lhe respondeu:
–    Muito prazer, Aethelwulf filho de Egbert.
Naquele momento ele percebeu que ela possuía um leve sotaque que não conseguia identificar de onde poderia ser, e algum tipo de encanto no jeito dela agir que o fazia deseja-la cada vez mais. Ela continuou olhando para ele, calada. Aethelwulf não entendia o que estava acontecendo, havia algo diferente no ar, então decidiu se aproximar dela. Ainda olhava em seus olhos, seu coração estava disparado e seus lábios estavam quase se tocando quando ela disse:
–    Acho que agora seria a hora em que você deveria dizer “E você? Qual é o seu nome?”, não?
O príncipe recuou e perguntou tentando disfarçar o embaraço:
–    Claro… Qual é o seu nome?
Ela baixou o rosto e riu baixinho daquilo.
–    Meu verdadeiro nome é muito difícil de se dizer.
–    Como assim?
–    É que seria difícil para você dizer e além disso, não sei se posso confiar em dize-lo a você.
–    Ora, e por quê desconfia de mim? – ele disse com seu habitual tom impetuoso, como costumava fazer frente aos convidados na corte de seu pai.
–    Entre meu povo só dizemos nosso nome para aqueles que realmente confiamos. Os nomes tem poder e se você souber o nome de alguém ou de alguma coisa, você tem poder sobre essa pessoa ou coisa.
Aethelwulf olhou curioso para ela, tentando entender.
–    Se vocês só dizem seus nomes para quem confiam, como vocês fazem para se chamar quando precisam? Mesmo que não confiem nessa pessoa?
–    Nós usamos um segundo nome, o qual todos podem ficar sabendo.
–    Vocês então possuem dois nomes?
–    Sim. Um para poucos e outro para o mundo.
–    E qual seria o seu outro nome?
–    Monah.
–    Mona? – ele repetiu intrigado e apontou para a lua acima deles (mona: “lua” em inglês-antigo).
Ela olhou para onde ele apontava e sorriu.
–    É assim que vocês a chamam?
–    Sim.
–    É isso mesmo. Mas entre meu povo se diz “Monah”, no final você deixa que o som flua como se levado pelo vento, como o chiado de um gato; e não como você falou, “Mona”, parando de falar de repente, como se tivesse tomando uma bronca e o mandassem se calar. Entendeu?
–    Mona… Monaa… Monah?
–    Isso! – disse quase num grito – Está com fome? Deve estar! Dormiu o dia inteiro – ela disse já se levantando e retirando algumas maçãs de uma bolsa que estava ali por perto. Entregou uma para Aethelwulf e comeu a outra. Aethelwulf ficou confuso com aquilo, e ficou pensando em como seria ter dois nomes, e qual poderia ser o seu outro nome e também qual seria o outro nome dela. Mas então aquela última frase que ela disse finalmente fez sentido e ele se assustou.
–    Você disse que eu dormi o dia inteiro?
–    Sim. Pensei acorda-lo quando amanheceu, mas achei melhor deixa-lo descansar mais um pouco. Quando vi, já havia anoitecido de novo!
Aethelwulf se perguntou se ela dizia a verdade e pensou que provavelmente seus homens deviam estar lhe procurando desesperadamente. De qualquer forma era noite mais uma vez, e não seria uma boa idéia tentar se embrenhar numa floresta desconhecida no meio da escuridão.

Havia decidido que só lhe restava naquele momento aguardar pelo amanhecer.
–    De onde você é? Ouvi você falando com o javali, me parecia galês.
–    Swynnmaewr…
–    Não conheço, é muito longe daqui?
Ela sorriu para o príncipe e entregou uma outra maçã para o javali.
–    Não é um lugar. É o nome dele, Swynnmaewr ap Odwynn. Ele serve e protege minha família desde os tempos de meu avô. Ele sim é galês, eu acho – ela voltou-se para o javali e lhe perguntou algo naquela língua que Aethelwulf não entendia, e o animal respondeu com seus grunhidos e fungadas – sim, ele é galês.
Aethelwulf olhava impressionado para o javali, que retribuiu o olhar e grunhiu baixo, concordando com Monah.

Permaneceram em silêncio, comendo as maçãs. O príncipe não tirava os olhos dela, enquanto ela entregava outra fruta para o javali. Acompanhava seus movimentos com o olhar, observava como a roupa molhada ainda grudava em seu corpo e a forma como ela caminhava de forma leve, como se estivesse flutuando sobre o chão. Ela percebeu o olhar do príncipe e disse de repente:
–    “Aethelwulf”! – ele se assustou e olhou rapidamente para a fogueira – Gostei de seu nome. – ela disse – “Aethelwulf, o caçador de javalis”! – os dois começaram a rir, enquanto Swynnmaewr soltou alguns grunhidos de indignação.
–    Não seja ranzinza Swynny! – ela disse ao javali.
–    Também gostei do seu nome. – ele disse em meio a uma mordida na maçã.
–    É? Por quê?
–    Não sei, simplesmente gostei. Combina com você. Acho que por causa de sua pele, a forma como ela reflete a luz realmente lembra o brilho da lua.
–    Gostou da mesma maneira que gostou de me ver ainda há pouco lá no riacho enquanto me banhava?

Ela fez a pergunta e se sentou novamente ao lado de Aethelwulf. Olhava em seus olhos e entrelaçou os dedos de sua mão com os dele. O jovem se sentia desnorteado, tomado por um sentimento que estava prestes a devora-lo. Sentia que se não fizesse nada naquele momento morreria. Ele então a puxou para si e a beijou. Não demorou muito para estarem envoltos uns nos braços do outro, numa confusão de beijos, mãos e carícias, isolados no coração do bosque, e ali eles se amaram como se aquele fosse um reencontro há muito desejado por ambos.

Permaneceram deitados ali, abraçados, nus, em silêncio próximos ao fogo. A paz só foi interrompida quando Aethelwulf falou.
–    Você não me disse ainda de onde veio.
–    Isso não tem importância agora.
–    Mas eu gostaria de saber, já que você sabe de onde eu venho.
–    De longe, um reino muito distante daqui.
–    Você é da Irlanda?
–    Não. Sou de um lugar que talvez você nunca tenha ouvido falar e o qual você nunca venha a ver em sua vida.
Um pensamento passou por sua cabeça, de que ela talvez fosse um ser das florestas, um espírito sombrio que as lendas falam, que vagam pelas matas em busca de vítimas, seduzindo os viajantes e roubando suas almas. Como se tivesse lido os pensamentos do príncipe, ela lhe disse:
–    Não se preocupe, não sou um fantasma que veio atrás de sua alma. Se fosse, você já estaria morto.
–    Sim, é verdade…
–    Ou eu poderia estar mentido para que você acreditasse nisso, para depois tomar sua alma quando estivesse desprevenido. – ela disse e se apoiou no peito do jovem para ver melhor seu rosto.
–    Não seja tolo Aethelwulf! Estou apenas brincando com você! – ele também sorriu e depois se abraçaram.
–    Mas o que digo é verdade. Venho de um reino muito distante daqui.
–    E como foi que você chegou aqui?
–    Eu me perdi. – ela se sentou e se envolveu com o manto de Aethelwulf.
–    Assim como eu. Aliás, não lhe agradeci pelo o que fez.
–    Agradecer-me pelo o quê?
–    Por ter me ajudado quando bati a cabeça, fugindo de seu amigo. – ele disse passando a mão sobre o ferimento.
–    Não me agradeça – disse sem olhar para ele. Pegou um graveto e atiçou o fogo, o que fez voar diversas fagulhas como um enxame de vagalumes – Foi tudo de propósito.
Aethelwulf franziu a testa e sentou-se.
–    O que você quer dizer com isso?

Ela suspirou e lhe explicou que havia chegado ali junto com suas irmãs, em busca de ingredientes raros para a festa que seu pai, o alto-rei de Caerleyrh, iria realizar dentro de três dias. Elas buscaram por toda parte tais ingredientes, mas não conseguiam acha-los em seu reino. Então, decidiram ir até além das fronteiras dos domínios de seu pai para encontra-los, viajando incógnitas antes que dessem pela falta delas. Elas haviam percorrido muitos reinos antes de chegarem naquele bosque. Ali ela e suas irmãs encontraram os ingredientes restantes para a festa e estavam prestes a partir, mas como estavam muito cansadas, resolveram descansar um pouco antes de voltar para casa. Todas adormeceram do outro lado do bosque, no lado oeste, menos ela. Enquanto as irmãs dormiam, ela quis explorar a região, acompanhada de Swynnmaewr, caso acontecesse algum imprevisto ou fosse atacada por alguma coisa. Afinal de contas, ela não conhecia bem a região, apenas boatos que ouvia na corte de seu pai.

Enquanto passeava, ouviu vozes de homens e de cavalos e decidiu ver mais de perto. Ao chegar na borda da floresta, viu o bando de Aethelwulf e seus homens desmontando para descansar também. Furtivamente se aproximou deles e ficou encantada com o que viu. Disse que assim que botou seus olhos em Aethelwulf ela o quis para si. A forma como andava, seu cabelo dourado, sua barba rala; a forma decidida como falava com os outros… Enfim tudo nele a atraia de uma forma tal que ela nunca havia experimentado. Então, ouviu o príncipe dizendo que não voltaria sem ter um javali em suas mãos. Imediatamente correu de volta para dentro do bosque e esperou que ele também entrasse. No momento certo, mandou Swynnmaewr aparecer na sua frente e atraí-lo até o barranco.
–    E o resto da história você já sabe. – ela disse apontando com a mão o lugar onde estavam.

Aethelwulf estava pensativo, repassando a história que Monah lhe contará.
–    Quer dizer que… Enquanto eu achava que caçava o seu javali, era eu que estava sendo caçado?
–    Bem, se você prefere colocar as coisas nestes termos, sim! Preferiria pensar que foi mais como uma mosca atraída para a teia da aranha. – ela sorria como uma criança que tinha feito uma travessura que acabava de ser desmascarada.
Ele olhou para Swynnmaewr, que dessa vez estava fuçando e cavoucando a terra e resmungando coisas javalinescas.
–    Mas e suas irmãs? Devem estar preocupadas com você.
–    Não se preocupe com elas. Estavam tão cansadas da viagem que devem estar dormindo até agora. Antes delas acordarem eu estarei de volta e nunca saberão que eu estivesse aqui com você. Ouviu, Swynny? – advertiu ao javali, que apenas grunhiu alguma coisa e continuou em sua tarefa de fuçar o chão.
–    Mas quer dizer então que você é uma princesa?
–    Sim. – ela disse sem muita empolgação.
–    E que festa é essa que seu pai dará que necessita de ingredientes tão especiais?

Ela se calou e não olhou mais para ele. Levantou-se, se afastou e começou a se vestir, de costas para ele. Sem entender, ele também se levantou e foi até ela. Quando olhou em seu rosto, viu que lágrimas escorriam de seu rosto formando uma pequena gota na ponta de seu queixo.
–    O que foi? Eu disse alguma coisa errada?
–    Não, não disse.
–    Então?
Ela ficou em silêncio por mais alguns instantes e o abraçou.
–    A festa de meu pai, na verdade é para mim.
–    Para você?
–    É costume em meu reino que a noiva prepare uma guirlanda de ervas, flores e raízes para ela e para o noivo. Quanto mais raros forem os ingredientes das guirlandas, mais boa sorte e maior prestígios terão os noivos.
Athelwulf olhava para ela sem entender o que ela queria dizer com aquilo, mas num instante tudo se fez claro para ele e ela percebeu o espanto em seu olhar.
–    Sim. Dentro de três dias devo me casar. Um casamento arranjado, para estabelecer a paz entre nosso reino e de nossos vizinhos. Eu nem mesmo sei quem é o noivo. Por isso escapei de minhas irmãs, para aproveitar a última vez que poderei andar livre por entre os reinos e fazer o que bem entender.

Aethelwulf não sabia o que lhe dizer, sentia um aperto no peito, como se alguma coisa o espremesse com força, doendo até a garganta. Ele se identificava com ela, sabia o que ela estava sentindo. A abraçou com força e assim permaneceram até ela parar de chorar. Só então Aethelwulf falou:
–    Eu também irei me casar, dentro de três dias como você. Para estabelecer a paz não com um reino vizinho, mas com o meu próprio reino e com meu pai – ela olhou para ele, com os olhos ainda cheios de lágrimas e lhe beijou a testa.
–    Então somos dois pobres condenados pelo destino, Aethelwulf.
–    Não, nós podemos fugir! Podemos… – ela o calou com uma mão sobre seus lábios.
–    Não podemos fugir ao que fomos predestinados. Por alguma razão fomos reunidos aqui, neste bosque nesta noite. Só nos resta aproveitar o que ainda temos por hoje e deixar para pensarmos no que será de nossas vidas amanhã, com a luz do sol. Venha. Vamos aproveitar esta noite que nos foi reservada. Por favor…

Ela o puxou pela mão até a fogueira e o beijou. Ele então retirou o crucifixo de prata que carregava pendurado no pescoço e entregou a ela. Ele era muito brilhante e tinha a cabeça de um lobo decorando o braço superior da cruz.
–    Fique com isso, caso não voltemos a nos encontrar.
Ela segurou o crucifixo na palma de sua mão e o contemplou longamente. Por fim, decidiu coloca-lo no pescoço e viu como havia ficado, pousado entre os seios.
–    Meu verdadeiro nome é Anrharwyen.
Aethelwulf se espantou quando ela disse aquilo.
–    Anaariunr… ?
–    Anrharwyen, da casa de Eldoryaht’ taghar.
Ele tentava digerir as sílabas em voz baixa e repeti-las.
–    Eu disse que era difícil, não disse?
–    Por quê você me contou isso?
–    Porque é a única coisa de valor que tenho a lhe oferecer para que se lembre de mim. Quero que você guarde meu nome como um presente depois de hoje. Sempre que você o disser eu saberei que você está pensando em mim.
Ela se calou e se despiu novamente. Naquela noite eles se amaram mais uma vez, ignorando o dia vindouro.

O sol já estava alto e o ar abafado quando Aethelwulf despertou. Estava sozinho no meio da floresta. A fogueira havia sido apagada recentemente e nem Monah nem seu javali estavam por ali. Vestiu-se rápido, pegou sua lança e começou a procurar por qualquer sinal deles. Após algum tempo achou um rastro de pegadas de javali e começou a segui-las. Ele corria o mais rápido que podia por entre as árvores, quase tropeçando nos arbustos e raízes do caminho. Seu único pensamento era de encontrar Monah e leva-la de volta consigo para o salão de seu pai, nem que para isso ele tivesse de enfrentar as irmãs dela e seu pai ou até mesmo o rei Egbert. De repente ele ouviu os inconfundíveis gritos de um javali. Desesperado, seguiu os gritos e chegou a uma nova clareira e viu um javali com uma lança atravessada no pescoço, agonizando. Horrorizado, olhou ao redor, mas não viu Monah. Ao olhar de novo para o animal que ainda se debatia, notou que era pequeno demais para ser Swynnmaewr.
–    Aethelwulf! – alguém gritou seu nome.
–    Aethelwulf! Onde você esteve? Estamos procurando você como loucos! – era um de seus homens, que caminhava rápido em sua direção. Aos poucos os outros membros de seu bando foram surgindo de dentro da floresta e se aproximando dele, como espíritos do bosque despertos pela presença do jovem príncipe.
–    Estava tentando fugir do casamento? – perguntaram a ele e todos gargalharam.
–    Venha príncipe Aethelwulf, desde anteontem lhe procuramos e não podíamos voltar sem você. Certamente o rei iria nos enforcar se isso acontecesse, ou algo pior. – dizia Hareth, o caçador do rei.
Os homens riam e escoltavam Aethelwulf, que também sorria de forma tímida, enquanto ainda tentava ver algum sinal de Monah, de Swynnmaewr ou qualquer coisa que o levasse a eles. Mas não viu nada. Alguns minutos depois já estava fora do bosque e em cima de seu cavalo, voltando para casa e para um casamento no qual ele não gostaria de ser o noivo.

No dia seguinte, por volta do meio dia, Aethelwulf estava de joelhos frente a um altar. Ao seu lado, vestida de noiva, a pia e amável Osburh. Ela chorava sem parar, levantando suspeitas entre os convidados de que havia algo errado. Até mesmo o padre se incomodou e teve de lhe perguntar se ela estava bem. Osburh por fim se controlou e engoliu o choro. O padre realizou seu sermão, falou sobre a importância do casamento e como este, uma vez consagrado por Deus, era inviolável pelos homens. Neste momento a noiva voltou a chorar, mas logo se calou. Outras mulheres também choravam, emocionadas pela cerimônia, mas não como Osburh.

Finalmente, o padre abençoou os noivos e os declarou casados. Houve grande algazarra na igreja. Todos queriam cumprimentar os noivos, desejar-lhes felicidades e tudo mais que se deseja a noivos em tais celebrações. Após a cerimônia, todos foram para o grande salão do rei Egbert e lá se fartaram com comida e bebida durante todo o resto do dia e da noite. Diversos poetas cantaram para eles histórias de grandes batalhas e sobre grandes heróis. Dizem que ao final daquele dia, quando os noivos se retiraram para seus aposentos, Aethelwulf não conseguiu consumar o casamento. Estava tão bêbado que mal conseguiu chegar à cama. Os dois homens que o levaram até lá disseram que assim que o jogaram na cama, o príncipe se virou de lado e disse um nome o qual eles não conseguiram pronunciar, mas que lhes pareceu muito um nome de mulher. O príncipe repetiu esse nome por três vezes e por fim adormeceu.

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