Alfred – Ato II

Publicação: 14 de julho de 2010

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Uma Lua sob o Céu, Um Rei sobre a Bretanha

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Como era de costume, o verão chegou ao fim. Entretanto, aquele em específico levou consigo muito mais que apenas o calor e o verde das folhas das árvores. Com ele também se foi o coração de um príncipe saxão e a paz sobre a Bretanha. Naquele verão o príncipe havia conhecido a única mulher com quem realmente gostaria de ter se casado e por quem ele passou muitos anos desejando um dia voltar a ver. Ao invés dela, naquele verão Aethelwulf se casou com Osburh, satisfazendo a vontade de muitos no reino, exceto a ele mesmo. Após o casamento a paz voltou ao coração do reino de Wessex. Isso agradou muito aos lordes do reino e trouxe a tranqüilidade que o rei Egbert precisava para dar inicio a um sonho antigo de juventude. O rei desejava tornar-se um grande rei de toda a Bretanha. E foi quando a terra mal havia esfriado para a chegada do outono que o rei de Wessex reuniu seu exército e rumou para o norte, invadindo as terras do reino de Mercia e espalhando a guerra pela ilha.

No passado Mercia havia sido um poderoso reino, governado pelo temido rei Offa que, apesar de não ser reconhecido por muitos como um bretwalda, sempre agiu como tal. Tudo começou quando o velho rei Herebald de Mercia foi assassinado por sua guarda pessoal, devido a seus atos ímpios. Os lordes do reino se reuniram e decidiram coroar seu sobrinho Beornred como o novo rei. Porém, nem todos concordaram com esta escolha. Offa, que também era descendente dos reis de Mercia, filho de Thingfrith da linhagem do rei Eowa, reuniu seu próprio exército, tomou o trono e baniu seu parente das terras da Bretanha. Nunca mais ninguém viu ou ouviu falar de Beornred, mas muitos boatos surgiram em torno de seu nome. Dentre as histórias que se contavam, algumas diziam que por temer seu primo, ele fugiu para as terras de Espanha, onde se converteu a fé dos infiéis, se casou com uma mulher de olhos escuros e passou a viver como um deles. Outros, que ele buscou refúgio na corte de Carlos Magno, onde foi assassinado por um peregrino rumo a Jerusalém devido a uma aposta sobre a verdadeira natureza dos anjos. Uma outra versão da história diz que Carlos Magno apenas enviou o parente de Offa para um monastério, onde viveu até o fim de seus dias. E uma outra história que contam sobre ele é de que teria reunido um grupo de homens dispostos a derrubar Offa do trono. Mas o plano teria sido descoberto, os traidores capturados e executados. Beornred também acabou sendo morto e seu corpo deixado insepulto na floresta de Arden, para o deleite das feras selvagens. De qualquer maneira, seja lá qual for a verdade, Beornred desapareceu e Offa era o rei de Mercia.

Com o devido tempo, Offa estabeleceu a paz em seu reino e não demorou muito olhar ao seu redor e querer começar a impor sua autoridade sobre os demais reinos vizinhos. Mas antes de mais nada, primeiro ele levou a guerra aos galêses. Mercia e os reinos de Gales sempre foram inimigos, mas Offa os odiava muito mais que seus antecessores. Quando ainda garoto, ele foi levado como prisioneiro para o reino de Powys, durante um ataque muito mal sucedido realizado por seu tio contra o reino galês. Offa viveu cinco anos como servo do rei. Uma vez que os galeses, em especial os de Powys, possuíam um ódio recíproco pelos saxões de Mércia, ele foi tratado com um escravo, submetido às mais horríveis tarefas, maus-tratos e havia muitos boatos sobre outras coisas terríveis que teriam feito com ele durante seu cativeiro. Offa não gostava de falar sobre o assunto e se enfurecia facilmente com a menção de qualquer coisa relacionada àquele reino das terras de Gales. Devido a isso, quando se tornou rei, por muitos anos as montanhas galesas foram banhadas com o sangue de seus filhos sob as lâminas das espadas de Mercia. Ainda assim, mesmo tendo um poderoso exército, a fúria de Offa não conseguiu derrota-los por completo. Sua solução foi construir uma grande muralha, dividindo os reino de Gales das terras de Mercia. Isolando-os do restante da Bretanha. Esta ficou conhecida como “a Muralha de Offa”, e ainda está de pé nos dias de hoje.

Offa tornou-se um rei muito temido e respeitado. Tanto que cada um dos reis anglos e saxões acabaram se subjugando e lhe jurando lealdade. Desta forma, Mercia ascendeu sobre toda a Bretanha. Entretanto, ainda havia reinos que se recusavam a se submeter à vontade do grande Offa. Um deles era a Northumbria, governada pelo rei Alhred, que estava muito mais preocupado com os ataques do povo dos pictos que vinham constantemente atacar as terras de seu reino e levar suas crianças para as sombras do norte, do que com os guerreiros de Mercia. Sendo assim, despreocupado com seu vizinho, Offa deixou as terras da Northumbria imersa em seus próprios problemas e se voltou para uma ameaça muito maior e imediata que vinha do sul. O ponto fraco do poder de Offa na Bretanha: o reino de Wessex e seu aliado, o reino de Kent.

Offa marchou com seus homens, um poderoso exército, para o sul e confrontou as forças do rei Cynewulf de Wessex, derrotando-o. O rei de Wessex sobreviveu, mas com ela Offa pode tomar algumas partes daquele reino, principalmente as terras fronteiriças ao seu próprio reino, e assumiu o controle absoluto da cidade de Londres. Ainda assim, o restante de Wessex não se submeteu. Entretanto, pouco tempo depois, durante uma viagem entre as cidades de Wantage até Reading, Cynewulf foi emboscado e morto sob as ordens de Offa e com o auxílio de seu espião e aliado em Wessex, um homem chamado Beorhtric. Não por coincidência, após a morte do rei Cynewulf, esse mesmo Boerhtric foi aclamado rei e estabeleceu imediatamente a paz com Mercia, que não surpreendeu ninguém ao reconhecer como legítima sua coroação. Por fim, como último golpe para assegurar seu poder, Offa ajudou Beorhtric a se livrar do único rei que ainda resistia. Este era Ealhmund de Kent, aliado de Cynewulf.

Com a morte de Cynewulf, o reino de Kent tornou-se o último a estar livre da influência de Mercia. Beorhtric então levou seu exército até lá e atacou as terras de Ealhmund. Kent há muito não era um reino poderoso e não poderia resistir por muito tempo às investidas de Wessex. Mas mesmo que conseguisse, o rei sabia que Offa enviaria reforços para Beorhtric derrota-lo a qualquer custo. Sendo assim, desesperançado, o rei reuniu alguns de seus guerreiros mais leais e ordenou que eles levassem seu filho, o jovem príncipe, em segurança para o exílio na terra dos francos. Naqueles tempos, a relação entre o reino dos francos e Mercia não era muita boa. No fundo, foi isso que impediu Offa de continuar sua campanha contra a Northumbria, aliada de Carlos Magno. O que era de se esperar, uma vez que o grande Alcuíno, mestre da Escola Palatina, líder dos homens-sábios de Aachen e conselheiro do senhor dos francos, era natural de York, o coração da Northumbria. Diziam que o conselheiro de Carlos Magno era tão poderoso que, certa vez, havia conseguido ajudar seu senhor a derrotar todo um exército mouro voltando os raios do sol contra os soldados, cegando-os por mais de uma hora. A última coisa que Offa gostaria era ter um homem como esse direcionando suas artes secretas contra ele.

Os guerreiros de Ealhmund então seguiram as ordens de seu rei e, mesmo contra a sua vontade, o príncipe foi levado para além mar e recebido com honras na corte franca. Enquanto isso, Ealhmund caía em batalha e Beorhtric tomava as terras de Kent como parte de seu reino.

Egbert filho de Ealhmund, príncipe de Kent em exílio, permaneceu na corte de Carlos Magno por treze anos. Ele viveu entre os francos, ganhando sua simpatia e a estima de seu soberano. Viajou por quase todas as terras governadas pelos francos, viu as sombrias florestas onde viviam os selvagens saxões, que descendiam dos mesmos ancestrais de seu povo e que se negavam a aceitar o rei dos francos como seu senhor. Chegou a ir à grande Roma, onde foi recebido pelo Santo Patriarca, o Papa Adriano I e visitou outros exilados como ele que viviam no bairro anglo-saxão da cidade, incrustado em meio a prédios muito altos e antiqüíssimos dos lendários tempos imperiais romanos. Ele também conheceu as terras de Espanha, lar de destemidos guerreiros descrentes da santidade de Nosso Senhor, mas fiéis às palavras de seu dito Profeta. Egbert também teve a oportunidade de conhecer o povo que vivia nas fronteiras do mundo conhecido, próximo à Terra Santa, quando uma comitiva veio até a corte de Carlos Magno acompanhando a bela princesa de Constantinopla. Além, claro, das maravilhas, dos animais e das coisas inacreditáveis que lhe foram mostradas na própria corte dos francos. Coisas que fizeram o filho de Ealhmund desacreditar em seus próprios olhos e em sua razão. Certamente o príncipe havia se tornado um homem conhecedor de muito mais coisas do mundo que seu pai, ou qualquer outro de sua linhagem antes dele, havia conhecido em seus dias de vida.

Os anos passaram e um dia viajantes frísios trouxeram uma grande notícia para o príncipe. Eles lhe disseram que o rei Offa havia acabado de falecer e que Beorhtric de Wessex estava muito adoentado. O príncipe enxergou ali a chance que a tanto esperava não apenas para vingar seu pai, como também para reclamar o trono que lhe era de direito. Imediatamente ele começou a organizar um pequeno exército, enviou a notícia para outros exilados como ele e foi auxiliado pelos francos com dinheiro, alguns poucos homens e a promessa de ter a mão de Redburga, sobrinha de Carlos Magno, caso ele se tornasse rei.

Ao final de um ano de planejamento tudo estava preparado e o príncipe Egbert decidido a partir para a Bretanha, a “Terra dos Anglos” como os francos a chamavam. Porém, devido às intempéries do clima e do mar, Egbert teve de atrasar sua viagem por quase três meses, até que finalmente tivesse condições de partir em segurança. Quando finalmente foi possível, eles embarcaram e atravessaram as águas que separavam a ilha da Bretanha do continente. Durante a viagem eles falavam sobre antigas batalhas, de como iriam fazer para derrotar os homens de Wessex, sobre as riquezas que conseguiriam e as armas e armaduras que iriam tirar dos cadáveres dos vencidos. Mas acima de tudo, falavam de sua vingança contra aqueles que os expulsaram de seus lares e de sua terra.

Estavam animados e ansiosos pelo confronto, mas assim que pisaram nas praias da Bretanha, ao invés de um exército com bandeiras e tambores, com homens armados com machados, lanças e lordes guerreiros a cavalo, o que viram foi um grupo pequeno de soldados e um padre que os aguardavam. Dentre eles surgiu a figura de earl Leofric, um dos lordes das terras de Kent, velho amigo do pai de Egbert, que lutou na resistência contra Beorhtric e Offa. O príncipe se aproximou, um tanto temeroso pela hospitalidade, temendo que aquilo pudesse ser uma emboscada. Leofric o cumprimentou com um sorriso e o abraçou. Nenhum dos guerreiros de Egbert entendiam o que estava acontecendo, e os francos que os acompanhavam se questionaram se aquele seria algum tipo de costume anglo-saxão antes da batalha. O lorde saxão então revelou que o rei Beorhtric era recém falecido, sem herdeiros, e que todos os lordes de Wessex e Kent souberam do retorno do príncipe e o aguardavam ansiosamente. Estupefato, Egbert passou a informação a seus homens, que ficaram muito decepcionados com aquela vitória sem luta. Eles rumaram juntos com Leofric até Canterbury para dar graças pelo falecimento de seus inimigos, no santuário de Santo Agostinho e depois de lá foram para Gloucester onde, perante os principais lordes de Wessex e Kent, Egbert foi aclamado rei sobre a antiga “pedra dos reis”.

O então rei Egbert retornou ao reino dos francos e ao voltar trouxe consigo a princesa Redburga para a Bretanha e se casou com ela. Em pouco tempo tiveram seu primogênito, o pequeno Aethelwald, e logo depois Aethelwulf. Infelizmente, ainda na infância, Aethelwald ficou muito doente e veio a falecer, sem que nada pudesse ser feito por ele. Assim como ocorreu a muitas crianças com a mesma idade pelo reino naquele inverno, o pequeno príncipe agonizou durante dias, pálido, definhando, com febre e pesadelos. Nenhuma das orações que os padres lhe dirigiam surtiram efeito. Eles diziam nos sermões aos domingos às famílias aflitas que aquilo era um castigo que Deus enviara sobre eles, como havia enviado sobre o povo do Egito através de Moisés, pois o povo da Bretanha se negava a abandonar os velhos costumes dos tempos pagãos. Mas por mais devotos que os pais fossem, isso não impediu que seus filhos partissem deste mundo. Quando Aethelwald finalmente morreu, uma das servas de Redburga disse que aquilo com certeza havia sido obra do Povo Pequeno. Ela encheu a cabeça da rainha de histórias sobre o povo que habitava as matas e as florestas, azedando o leite, perturbando os animais, confundindo o caminho das viajantes e atirando doenças nas pessoas e nas crianças. Por causa disso, a abalada Redburga ordenou que um bosque inteiro próximo ao salão de Egbert fosse derrubado e transformado em pasto para os animais. E assim foi feito. E foi assim que Aethelwulf se tornou o príncipe herdeiro de Wessex.

Porém, nunca ninguém percebeu que as crianças só pararam de morrer depois que um velho andarilho foi pego durante uma noite na casa de um lenhador, curvado sobre seu filho doente, com sua boca sobre a pequena boca da criança. Se debatendo e gritando coisas incompreensíveis, o velho foi arrastado pela população até debaixo de uma árvore, no meio da noite, e o enforcaram. Duas horas já haviam se passado e, para a surpresa de todos, ele ainda não havia morrido. O esfaquearam na barriga e nas costas e lhe espancaram com paus e pedras, mas ele continuava a se levantar e amaldiçoar a todos. Decidiram então decapita-lo. Dois homens fortes o seguraram no chão, enquanto um terceiro mirava o pescoço do velho. Com muito custo conseguiram cortar-lhe a cabeça, mas como se debatia demais, três dedos da mão de um dos homens foram junto com o golpe do machado. Apesar disso, finalmente o velho morreu, ainda que a cabeça continuasse a piscar e a mover os lábios por muito tempo após ser cortada. Depois de morto, tanto o corpo quanto a cabeça foram queimados numa grande fogueira, que queimou até o amanhecer. Ninguém percebeu que depois daquela noite, as crianças pararam de morrer como o príncipe Aethelwald havia morrido.

Aethelwulf cresceu, se tornou um grande guerreiro e se casou, como e com quem seu pai queria. Mas seu pai queria mais. Apesar de ter odiado Offa e Beorhtric durante seus anos de exílio, ele queria ser exatamente como o antigo senhor de Mercia havia sido. Ele queria ser um bretwalda, um senhor de toda a Bretanha. Sendo assim, reuniu todo seu exército e antes que os ventos do inverno congelassem os rios ele partiu para as terras de Mercia. Sem oferecer muita resistência ou grandes perdas de vidas, em poucos meses o trono que um dia pertencera a Offa agora estava nas mãos de Egbert. Ele ainda avançou mais para o norte, até as fronteiras da Northumbria. Lá, na região de Dore, o rei Egbert e seu filho lutaram e venceram, ganhando o reconhecimento de sua autoridade e a paz. O reino de Anglia Oriental, por sua vez, imediatamente se submeteu e jurou lealdade a Egbert, sem que uma gota de sangue fosse derramada. Tendo assegurado seu poder entre todos anglos e saxões, o rei voltou seus olhos para Gales. Mas seus planos tiveram de esperar o fim do inverno.  Ainda assim, quando a neve chegou e cobriu a tudo de branco, Egbert já se considerava o novo senhor da Bretanha.

Naquele inverno as tropas de Egbert permaneceram acampadas em Gloucester, próxima a fronteira com Gales, e lá celebraram o Natal. A população da velha cidade estava em polvorosa com a visita não só do exército, mas também de toda a corte de Wessex. Egbert não apenas decidira realizar as festividades em honra a natividade de Nosso Senhor lá, como também fez com que trouxessem sua esposa e seus outros filhos, a esposa de Aethelwulf, e convocou os principais lordes do reino de Wessex, Mercia e Anglia Oriental para se juntarem a ele; além de ordenar que os trechos da antiga muralha de pedra que os romanos haviam construído em torno da cidade fossem reerguidos ou reforçados com paliçadas, tornando a cidade novamente numa verdadeira fortaleza. As longas noites do inverno ainda iriam demorar a passar, mas o rei já estava pensando na primavera e na guerra contra os reinos galeses. Apesar dos sonhos de conquista de Egbert, todos puderam aproveitar os poucos dias de paz que o inverno e as celebrações traziam, principalmente as mulheres, que estavam a tanto tempo longe de seus maridos; fossem eles reis, príncipes ou simples guerreiros do exército de Egbert.

Todos os dias a cidade despertava com um sol mortiço e a neblina úmida que pairava sobre as ruas. Aos poucos as pessoas surgiam sonolentas e se dirigiam para a igreja. Após a missa, o rei Egbert, o príncipe Aethelwulf e os demais lordes e comandantes das tropas se retiravam para um dos maiores prédios da cidade, uma reminiscência romana com um salão amplo o bastante para acomodar a todos os homens do rei, alguns padres, sentinelas armados e uma mesa ampla coberta por mapas. Lá o rei sonhava com sua Bretanha unida sob sua coroa e como fazer para mantê-la para seu filho, seus netos e para todos aqueles de sua linhagem que viessem depois dele. Ao dormir, seus sonhos eram repletos de devaneios onde ele se via vitorioso em campo de batalha e, assim como Carlos Magno, sonhava ser chamado “Egbert o Grande”!

Foi uma grande surpresa para todos quando na manhã do dia anterior da véspera de Natal, logo ao nascer do sol, anunciaram ao rei que um grupo de homens chegava à cidade vindo das terras galesas. Eles carregavam lanças e entre eles haviam guerreiros a cavalos portando escudos pintados e espadas. Apesar disso, não pareciam vir como inimigos. Aquele não era um exército, mas uma comitiva real. Ali, entre os guerreiros, se encontrava o rei Atrys ap Cewrig de Gwent, reino mais ao sul de Gales e próximo a Gloucester. Eles se aproximaram das muralhas da cidade e se apresentaram, dizendo virem em paz e como amigos do senhor dos anglos e saxões. O rei e seus homens foram muito bem recebidos por Egbert, que os convidou para permanecerem na cidade durante as festividades vindouras. Eles traziam presentes ao rei dos anglo-saxões, como sinal de amizade. Animais, anéis de prata, um colar de ouro e uma cópia dos Evangelhos, encadernado em pele de carneiro e incrustado com ouro. O livro, segundo o rei galês, estava há muito tempo em sua família, desde os tempos que seus ancestrais ainda eram pagãos e atacavam monastérios no coração da Bretanha. Egbert ficou muito satisfeito com os presentes e durante o banquete daquela noite ele presenteou sua rainha com o colar de ouro e o doou o livro ao arcebispo que ali se encontrava. Atrys e Egbert juraram manter a paz entre seus reinos e também prometeram a aliança mútua entre seus povos. Isso agradou muito a ambos, pois pouparia maior derramamento de sangue entre eles e para Atrys garantiria um forte aliado contra os outros reinos galeses, e para Egbert um ponto estratégico dentro de Gales.

A manhã já despontava e finalmente chegava o dia mais importante dos festejos, a véspera do Natal. Antes do meio-dia todos se reuniram fora das muralhas da cidade em torno da famosa “pedra dos reis”. Esta se tratava de um bloco de pedra, com a altura da metade de um homem adulto e tão largo quanto um escudo. Três degraus esculpidos na pedra levavam ao topo, e sobre ela haviam entalhes antiqüíssimos, anteriores aos romanos e aos antigos bretões. Desenhos e inscrições feitos nos tempos dos gigantes, era o que diziam. Próximo da “pedra dos reis” se encontravam quatro pequenos pilares, menores que a pedra principal, localizados exatamente no norte, sul, nascente e poente. Ali haviam subido todos os grandes reis da Bretanha. Desde o velho Aella até o temido Offa, todos haviam subido seus degraus e lá foram coroados reis da Bretanha, e antes deles os antigos reis bretões que governavam a ilha antes dos anglos e dos saxões atravessarem o mar para aquela terra. Diziam as lendas que até mesmo alguns governadores romanos, nos tempos em que a Bretanha esteve sob seu poder, também subiram na “pedra dos reis”.

A cerimônia de coroação sob a pedra representava muito mais que uma simples ascensão de um novo rei, pois apenas se fossem coroados ali sobre a pedra poderiam ser de fato chamados de legítimos reis de toda a ilha. Segundo a tradição, aquele que fosse coroado sobre a “pedra dos reis” asseguraria seu poder até o fim de seus dias e seria sempre vitorioso. Sendo assim, todos os anos o cerimonial de coroação era repetido, garantindo a sorte do rei. E lá estava Egbert, portando sua espada e sua lança, ajoelhado sobre o joelho esquerdo e curvado para frente, para que Wulfred, o arcebispo que se encontrava de pé no chão, pudesse coroa-lo. Quando o rei então se ergueu, mais uma vez coroado como senhor da Bretanha, uma salva de palmas, gritos de saudação e o cadenciado som de lanças batendo contra escudos encheu o ar em torno da “pedra dos reis” em honra a Egbert.

Ao longo do dia tanto a corte de Egbert quanto a população celebraram a renovação da coroação de seu rei naquele ano e se preparavam para a noite. Assim que o sol se escondeu e a noite fria avançou sobre a cidade, todos se dirigiram para a igreja para os ritos em honra do nascimento do Salvador. Após a missa, todos se retiraram e foram ávidos para os festejos organizados sob as ordens do rei. Comida e bebida em fartas quantidades para todos os presentes, fossem eles de nascimento nobre ou simples homens do povo. Todos menos os irmãos eclesiásticos que se encontravam na cidade, e o representante da família real que os acompanhariam em vigília durante aquela noite. Era um costume antigo que alguém importante da família real deixasse as festividades mundanas de lado e se juntasse em oração e jejum aos representantes do Senhor neste mundo ao longo de toda à noite de Natal, como um sinal de lealdade e devoção. Naquele ano, a pedido da própria princesa Osburh, Aethelwulf faria a vigília acompanhado de sua pia esposa.

A lua já se encontrava quase no meio do céu quando Aethelwulf e Osburh se apresentaram na igreja para o inicio da cerimônia de vigília pelo nascimento de Nosso Senhor. Ao baterem na porta do templo, um padre os recebeu e os acompanhou em silêncio até a nave central da igreja. Era tão jovem que mal tinha barba. Logo chegaram onde se encontravam outros padres realizando suas orações silenciosas. Todos trajados de negro e concentrados em elevar seus pensamentos ao Todo-Poderoso. O casal real sentou-se num local previamente reservado para eles e logo todos começaram a entoar as orações conduzidas pelo arcebispo. Aquilo iria se estender pelas próximas horas, sem intervalo e repetindo as mesmas palavras de novo e de novo. Vez ou outra Aethelwulf, que era um príncipe guerreiro e não um sacerdote, não conseguia resistir àquilo tudo e sucumbia ao sono, sendo acordado pelo peso de sua própria cabeça pendente ou pelo delicado cotovelo de sua esposa. Ele acordava de repente e se ajeitava em seu lugar, sentindo como se suas pálpebras pesassem tanto quanto as paredes da igreja e fingindo estar atento ao que ocorria. Mas logo algo mais importante chamaria a atenção de todos.

Por volta da meia noite, durante a vigília, Aethelwulf percebeu que havia algo errado ocorrendo fora da igreja. Parecia ouvir pessoas falando alto e até mesmo gritando. Mesmo que fossem apenas bêbados que haviam se refestelado demais durante os banquetes natalinos, ainda assim havia algo de estranho em suas vozes que ele não conseguia identificar devido ao som das vozes dos padres. Ele se levantou e, mesmo com a relutância de Osburh que tentou faze-lo se sentar de novo em seu lugar, Aethelwulf foi até uma das janelas e tentou descobrir o que acontecia.

Lá fora, pessoas se reuniam nas ruas, horrorizadas. Olhavam para cima e apontavam para algo que Aethelwulf não conseguia imaginar o que poderia ser. Os padres, a essa altura, também haviam deixado sua vigília de lado e se aglomeravam nas janelas tentando ver o que se passava lá fora. Apenas Osburh, o arcebispo e um padre velho e quase cego continuavam sentados, se esforçando para manter a concentração em suas orações apesar do barulho. Por fim, um dos padres mais jovens, o que havia recebido o casal de príncipes, não mais se conteve, abriu a porta da igreja e foi para a rua.

–    Nosso Senhor Jesus Cristo! – exclamou o jovem assim que saiu e olhou para céu.

Aethelwulf correu até lá também para ver o que ocorria, sendo seguido por um pequeno grupo de padres que ignorava os apelos do padre mais velho e da esposa do príncipe, ordenando que todos voltassem para dentro para continuar a vigília.

Na rua, dezenas de pessoas se aglomeravam, com rostos lívidos e olhos voltados aos céus. Amedrontados, alguns choravam enquanto outros gritavam que o Dia do Juízo Final havia chegado. Aethelwulf ainda não entendia o que estava acontecendo, até que também olhou para cima. Diferente das outras noites, não havia uma nuvem sequer no céu, exibindo assim centenas de milhares de estrelas. Isto já seria o suficiente para qualquer um se deter e contemplar a beleza celestial, mas o que causava temor nas pessoas era a lua. Lá estava ela, bem no centro da abóbada celeste e vermelha. Assim como a Bíblia dizia que ocorreria nos últimos dias, a lua estava rubra como sangue, como um grande olho maligno sobre o mundo.

Alguns dos padres haviam se prostrado de joelhos e oravam por suas almas. Algumas pessoas acompanhavam os padres em seu desespero e outras corriam para suas casas, tentando se esconder do que estaria por vir. Aethelwulf ignorava o caos ao seu redor e apenas observava a lua, inerte e curioso. Parecia uma estátua erguida no meio da rua. Ele nem mesmo percebeu quando Osburh se aproximou dele e agarrou sua mão com medo do que via no céu. Para ela, assim como para todos ali, aquele era um sinal divino de que o pior estava por vir. Mas para Aethelwulf aquilo era outra coisa. Um sentimento estranho tomava conta do príncipe. Não sabia explicar, mas de fato ele sentia que algo ruim estava para acontecer. Só sabia que não era o Fim do Mundo.

Aos poucos uma sombra começou a pairar sobre a lua, a retirando da visão de todos. Agora, além da cor rubra, a lua também estava desaparecendo. Engolida pelas trevas. Uma velha gritou algo sobre uma antiga história, que falava sobre um lobo que devoraria a Lua e como seu irmão devoraria o Sol e por fim um tempo de inverno sem fim cobriria a terra. Outros também lembraram dessa história. Lendas pagãs das quais ninguém mais costumava falar em voz alta. Conforme a lua desaparecia, maior era o pânico entre as pessoas. Osburh então puxou Aethelwulf que, desperto de sua catatonia, a acompanhou o mais rápido que podia para seus aposentos. No caminho eles foram encontrados por alguns de seus guerreiros, que os procuravam desde que toda a confusão começara, e os escoltaram até estarem em segurança.

Assim que chegaram a seus aposentos, a princesa se juntou a rainha e suas criadas e todas mergulharam em orações de perdão e misericórdia ao Senhor. O rei havia corrido em busca do arcebispo para que este ouvisse sua confissão antes do Fim e Aethelwulf, por sua vez, apenas se dirigiu à janela de seu quarto e continuou a ver o desaparecimento da lua. Não demorou muito para que ela finalmente desaparecesse por completo. Gritos desesperados e enlouquecidos tomaram a cidade. Enquanto o desespero reinava no coração de todos, o príncipe sentia que seu coração ficava cada vez mais apertado, cada vez mais angustiado e apenas um nome lhe veio à mente: Monah. Ele tinha certeza que aquela mesma lua que ele tinha visto sobre seu reino ela também a viu no seu. Agora ele sabia que não era o Fim do Mundo que estava por vir (fosse ele cristão ou pagão), mas alguma coisa havia acontecido com aquela princesa que encontrou na floresta no último verão. Ele não sabia onde ela estava, o que estava fazendo, mas algo ruim havia lhe acontecido. Esta era a única certeza que ele tinha e lhe angustiava o sentimento de impotência, de não saber o que fazer ou para onde ir.

O mundo estava imerso em trevas. Apesar das estrelas ainda serem visíveis, era como se elas não estivessem lá. Escuridão, exatamente como dizia o Santo Livro que era o mundo antes que tudo viesse a existir. Da janela o príncipe via vultos correndo pelas ruas, sendo impossível distinguir quem ou que eram. Isso fez Aethelwulf pensar se naquele momento os seres das sombras, aqueles que habitam a escuridão, não estavam se aproveitando daquele momento para caminhar entre os homens e lhes arrastar para suas moradas abissais. Provavelmente não. Se existiam monstros na cidade, estes eram as pessoas ensandecidas pelo terror e que atacavam umas as outras em seu desespero.

A rainha rezava tão rápido, dizia as palavras tão depressa e com tanta veemência que era quase impossível entender o que dizia. Osburh orava e chorava, sendo acompanhada pelas outras mulheres tanto nas preces quantos nas lágrimas. O príncipe continuou junto à janela, pensando no rosto de Monah e orando para que nada de ruim tivesse lhe acontecido. Em suas preces, chamou-a pelo seu verdadeiro nome ao fazer isso sentiu uma dor muito forte no peito. Por um segundo chegou a pensar que morreria naquele mesmo instante tamanha a dor, como se estivessem tentando arrancar de uma vez só o coração e os pulmões com um gancho. Sentindo o espasmo em seu peito, o príncipe se ajoelhou tentando disfarçar o que lhe acontecia. Ao vê-lo de joelhos sua mãe gritou:

–    Isso meu filho! Vamos orar pela salvação de nossas almas! Ore meu filho para que o Senhor nos perdoe!
Aethelwulf olhou para a mãe, fingindo qualquer tipo de interesse no que dizia, enquanto esfregava a palma da mão com força sobre o coração para minimizar a dor. A noite continuou e o mundo ainda não havia acabado, pelo contrário. Ainda com dificuldade para respirar, o príncipe se levantou e voltou a olhar pela janela e, para sua surpresa, a lua voltava a aparecer no céu. Da mesma forma como havia desaparecido, aos poucos ela estava voltando, mas ainda vermelha. Nas ruas, as pessoas também tinham percebido e a confusão começava a se a acalmar, enquanto todos contemplavam o céu. A rainha, Osburh e as mulheres correram para junto de Aethelwulf para tentar enxergar o retorno da lua e ao verem o que ocorria, todas se abraçaram e choraram de alegria por suas preces terem sido atendidas.
–    Deus nos perdoou! – gritava uma das criadas.
–    Louvado seja Nosso Senhor! – gritava outra.

Osburh, com os olhos inchados e cheios de lágrimas, abraçou Aethelwulf com força e chorou compulsivamente, soluçando como uma criança sobre o ombro do príncipe que a consolava.

A lua já havia retornado por completo. As trevas haviam se afastado e mais uma vez todos podiam vê-la por inteiro. Com o passar do tempo, ela também foi se tornando mais clara, mais brilhante. Não demorou muito para que sua conhecida cor pálida voltasse a brilhar sobre a Bretanha. A lua tinha voltado ao que era e a tranqüilidade retornou ao espírito das pessoas.

Na missa do dia seguinte, o sermão do arcebispo dizia que o que havia ocorrido à lua tinha sido um teste do Senhor. Deus estava colocando à prova a fé de seus filhos e lembrando que ele é Todo Poderoso. Disse também que o ocorrido da noite anterior foi apenas um exemplo do que poderá vir a acontecer, caso as pessoas não abandonem suas falsas crenças e voltem seus pensamentos e sua devoção exclusivamente a adoração do Criador e de Seu Filho que redimiu os pecados do mundo.

Aethelwulf ouvia o sermão, mas as palavras eram como um pardal que entra pela porta de um salão e o atravessa tão rápido que as pessoas nem o percebem quando ele sai por outra porta. Quando respirava fundo ainda sentia seu peito dolorido e a única coisa que preenchia sua mente era a idéia de algo ruim ter acontecido com Monah. Osburh estava sentada ao seu lado, sorridente e de pleno acordo com as palavras do arcebispo. Assim como a maioria das pessoas dentro da igreja. Mas nem todos estavam felizes como os fiéis. Sinais de má sorte e grande infortúnio ocorreram durante aquela noite de trevas.

Durante a lua rubra uma mulher nos arredores de Gloucester havia dado à luz a gêmeos natimortos. Em Bedford uma vara de porcos enlouquecida escapou do chiqueiro e todos os porcos pularam dentro do rio, morrendo todos afogados. Próximo a Bristol, pessoas disseram ter visto um bando de homens a cavalo, um grupo de caça, armados de lanças prateadas e cavalos que não tocavam o chão enquanto corriam. Os caçadores brilhavam na escuridão da noite e gargalhavam. Outros relatos surgiram por toda a Bretanha durante aquela noite de Natal, assustando a população e simbolizando o mau agouro, principalmente para o rei. Para Egbert aquela lua havia sido um péssimo sinal. Ele tinha certeza de que algo ruim estava prestes a acontecer e que ameaçaria seu poder sobre a Bretanha. Mais do que nunca, agora ele precisava assegurar seu poder sobre os reinos galeses e garantir que não houvesse nenhum perigo dentro da Bretanha.

Quando a primavera chegou às montanhas de Gales, elas trouxeram de volta os pássaros, as flores nas árvores, o verde sobre as colinas e as lanças de Egbert. A lua rubra agora assombrava os sonhos do rei e sua ânsia de poder e conquista o obcecava. Com a ajuda do rei Atrys de Gwent, Egbert marchou com seu exército e se lançou sobre os demais reinos de Gales. Entretanto, para sua surpresa, imediatamente muitos reis galeses fizeram como Atrys e ofereceram a paz. Aquilo não era o que Egbert gostaria, mas ele também sabia que levar a guerra até Gales significava enfraquecer seu poder entre os reinos anglos-saxões e os galeses também não queria ver suas terras sendo arrasadas pelos guerreiros de Egbert. Por fim, ele aceitou a oferta dos reinos de Gales. No começo do outono Egbert se reuniu com seus lordes e seus guerreiros e os demais membros de sua corte em Winchester e lá, sob as bênçãos do arcebispo Wulfred, ele foi reconhecido como o oitavo bretwalda da história da Bretanha. Agora a paz reinava por toda a ilha sob o trono de Egbert, senhor da Bretanha.

E assim foi até que chegaram notícias à corte de Egbert que homens vindos de além mar haviam desembarcado na costa do velho reino de Kent e saqueado a região. Incendiado casas, assassinado os homens e capturado mulheres e crianças. Homens vindos do norte, em barcos compridos, pagãos adoradores dos antigos deuses do norte. Egbert agora sabia que era aquilo que a lua rubra havia anunciado a ele naquele Natal.

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