Alfred – Ato III

Publicação: 3 de novembro de 2010

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Ato III:
Morte e Nascimento
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O verão chegou e com ele vieram os vikings. Saqueadores, piratas, pagãos, o flagelo de Deus. Assim eram os novos inimigos de Wessex. Desde antes de Offa ser rei de Mercia que estes homens vindos das terras do norte atacavam a velha Bretanha. Como uma peste, por onde passavam deixavam um rastro de morte e destruição. Apareciam de repente, saqueavam a região, matavam os homens e os velhos e levavam ouro, prata, mulheres e crianças consigo para vende-los como escravos. Por fim, incendiavam tudo o que restava. Nem mesmo as igrejas escapavam de sua ira. Enquanto isso, o povo rezava e clamava: “Oh, Senhor, livrai-nos da ira dos homens do norte!”. Mas os apelos pareciam em vãos.

Ninguém estava a salvo da fúria dos homens do norte. Northúmbria, Anglia Oriental, Wessex e Mercia. Não havia nenhum reino que já não tivesse sofrido com os vikings. Entretanto, os atacantes sofreram mais do que em outras partes ao tentarem enfrentar o rei de Wessex. Diziam que ele era brutal e implacável contra seus inimigos. Mesmo os vikings, com toda sua valentia, temiam o rei Aethelwulf de Wessex.

Naquele verão, agora perdido no tempo, quando ele se deitou com a princesa de pele pálida no meio da floresta, Aethelwulf voltou para salão real de seu pai e se casou com a piedosa, cristã e doce Osburh.  Com ela teve quatro filhos (Athelstan, Aethelbald, Aethelbert e Aethelred) e uma filha (Aethelswith). Viviam felizes, mas nada invejável. Tinham muito carinho um pelo outro, mas definitivamente não eram apaixonados. Na verdade, haviam apenas se acostumado um com a presença do outro. Assim como Aethelwulf, Osburh também possuíra um amor secreto no passado, mas nunca pode concretiza-lo como o de seu marido. Após o casamento, só lhe restou se conformar e esquece-lo. O tempo passou, e o jovem príncipe envelheceu e por fim tornou-se rei de Wessex, depois que seu pai partiu desta vida. Como rei Aethelwulf governou por muitos anos, mas em nenhum deles voltou a ver sua bela princesa Monah. Até uma certa noite, muito anos depois…

Aethelwulf era conhecido como um homem de coragem e nunca oferecia misericórdia aos seus inimigos. Muitos que o conheceram no passado diziam que o jovem e impetuoso príncipe acabara se tornando um rei velho e amargo. Apenas seus amigos mais próximos, aqueles que estavam com ele naquela caçada de javalis há muitos anos, ousavam comentar que alguma coisa havia acontecido naquela noite. Herewald, seu amigo e futuro conselheiro, dizia que o príncipe Aethelwulf tinha ficado em meio aquelas árvores, e quem voltou com eles havia sido outro Aethelwulf, aquele viria a se tornar rei. Até seus próprios homens passaram a temê-lo com o tempo.

Era comum ver o rei sempre envolvido em caçadas no meio de florestas e bosques. Ninguém sabia, mas o que ele caçava era ela: Monah. O máximo que conseguia de tais empreitadas era alguns javalis e gamos que acabava doando a seus homens. Não tinha nenhum interesse pelos pobres animais. Aos poucos as caçadas do rei foram diminuindo enquanto sua atenção se voltava contra os invasores. Como nos tempos de seu pai eram ataques violentos e esporádicos, mas eles começavam a ser mais freqüentes e a preocupar o rei. Por diversas vezes ele se viu envolvido em confrontos diretos contra os vikings. Ele gostava daquilo, da batalha, da fúria tomar conta de seu espírito, do sangue do inimigo manchando o chão. Se não fosse um cristão e saxão, certamente Aethelwulf seria um grande chefe viking. Sua esposa não concordava com o marido. Por ser muito religiosa, acreditava que deviam se voltar para o Senhor e pedir por Seu auxilio e Ele os ajudaria. Acreditava que as derrotas impostas pelo inimigo eram nada mais do que o resultado da falta de fé do povo e do próprio rei. Por ser muito piedosa, reprovava as batalhas e a execução de prisioneiro. Acreditava que assim como dizia no Livro Sagrado, deveríamos dar a outra face e amar nossos inimigos.

–    Essa é a vontade Dele! E só Nele teremos a salvação! – costumava dizer.

Quando a esposa lhe dizia tais coisas, o rei se irritava e apenas dizia que era uma pena que os vikings não soubessem do que ela falava.

Aethelwulf não gostava de permanecer muito tempo em sua corte, preferia viajar, viver em acampamentos de batalha. Nesses locais ele se sentia verdadeiramente em casa. Devido a isso, Osburh mantinha em torno de si uma verdadeira multidão de mulheres e freiras que lhe faziam companhia e a serviam da melhor forma que podiam. Os homens de Aethelred costumavam zombar, chamando-as de “o exército de Osburh”, o único que o rei temia enfrentar.

O tempo passou e tanto o rei como sua esposa estavam ficando velhos, como é comum acontecer entre as pessoas. O efeito claro disso foi que após o nascimento de seu filho Aethelred, Osburh nunca mais havia conseguido manter uma gravidez até o final. Por três vezes ela tinha engravidado e em todas às vezes perdera a criança no terceiro mês. Isso debilitou muito a rainha. Apesar dos conselhos de que era melhor não arriscar uma nova gravidez, Aethelwulf acabou engravidando Osburh mais uma vez, no inicio da primavera.

A rainha ficou feliz quando descobriu sua nova gravidez, ela sempre ficava feliz. Dizia que se o Senhor assim desejava que mais uma criança nascesse na casa real de Wessex, quem era ela para contrariar o próprio Deus? Entretanto, quando o terceiro mês se aproximou ela começou a temer. Surpreendentemente nada aconteceu, e ela agradeceu aos céus por aquilo, fazendo uma bela doação em dinheiro para a igreja de Canterbury e Winchester. Para assegurar que havia agradado o divino, fez jejum por quinze dias do nascer ao pôr-do-sol.

Tudo parecia bem, e até o rei passou a acreditar que a fé de sua esposa realmente poderia ter força para manter a gravidez, até que no quinto mês ela começou a ter sangramentos e quase perdeu a criança e a própria vida. Aethelwulf mandou que fosse chamada ajuda para sua esposa de todos os cantos da Bretanha e do reino dos francos. Nada parecia recuperar sua saúde. Seguindo o conselho de um de seus homens o rei mandou que chamassem uma famosa feiticeira da Cornualha, em segredo, para ajudar na gravidez de Osburh e salvar sua vida. Após chás, ungüentos e antigas preces meio pagãs e meio cristãs, tudo se resolveu. A rainha sobreviveu e a criança permaneceu em seu ventre. Mesmo assim ela estava muito debilitada. Evitava sair da cama ou qualquer esforço desnecessário. Poucos acreditavam que daquela vez ela sobrevivesse até o final da gravidez.

Osburh então começou a orar mais do que costumava e fez uma promessa. Disse que se ela e a criança sobrevivessem, que ela faria com que a criança pertencesse a Igreja para dedicar sua vida ao Senhor Deus. Se fosse menino um padre, se fosse menina uma freira. Apesar de Aethelred não apreciar muito a idéia, era a única solução uma vez que todas as outras possibilidades haviam falhado. Assim, o destino da criança parecia estar selado.

Após ter feito a promessa, milagrosamente Osburh não teve mais problemas. Pelo contrário, ficou mais dispostas, mais corada e com uma aparência mais saudável. Para ela, aquilo era uma prova incontestável de que o Senhor estava lhe abençoando. Isso também alegrava muito Aethelwulf, que já tentava pensar num nome para o filho, pois para ele não haviam dúvidas de que seria outro menino.

Já era outono e Osburh ostentava uma barriga bem grande e redonda, ocasionalmente tendo crises de enjôo e vomitando, mas nada fora do comum para uma mulher em sua condição. Enquanto isso, Aethelwulf viajava pelo norte de seu reino caçando vikings. No meio do ano eles haviam surgido e realizaram diversos ataques no sul de Mercia e norte de Wessex. Segundo os espiões do rei, os dinamarqueses estavam começando a reunir um grande exército e tentariam varrer o coração da Bretanha.

Até aquele momento eles haviam conseguido boas vitórias sobre os invasores, mas algo o incomodava. Ele começou a perceber que os vikings não estavam mais pilhando e indo embora com seu butim. Ao que parecia alguns deles estava tentando se fixar nas regiões atacadas, trazendo suas famílias e tomando as terras conquistadas, o que fez Aethelwulf ter a certeza de que eles pretendiam tomar os reinos dos anglo-saxões em definitivo. Antes do que o outono chegasse ao fim, Aethelwulf e seus homens acabaram voltando para casa e mesmo antes de chegarem, ordenou que mensageiros fossem para Mercia, convidando o rei e seus nobres a estabelecerem uma aliança contra os vikings.

Para a alegria de Osburh o rei estava de volta, uma vez que ela já estava nos últimos dias de gestação. A qualquer momento a criança poderia nascer e o rei fazia questão de estar por perto quando acontecesse. Nos dias que se sucederam, uma comitiva real veio de Mercia para tratar com Aethelwulf. O debilitado rei Beorhtwulf de Mercia não estava na comitiva, devido a problemas de saúde que o impossibilitavam de longas viagens. Em seu lugar estava o príncipe Beorhtric, seu filho mais velho e conselheiro, e o príncipe Beorhtfrith, seu irmão.

Assim que chegaram foram recebidos por Aethelwulf e seus conselheiros e imediatamente começaram a tratar dos assuntos sobre a futura aliança e como enfrentar a ameaça dos nórdicos. Foi um longo debate que se estendeu até o cair da noite. Os príncipes de Mercia, que falavam em nome de seu pai, achavam que a melhor solução para enfrentar os invasores seria oferecer-lhes dinheiro. Afinal, era isso o que eles buscavam na Bretanha! Com isso eles voltariam para sua terra-natal com seus barcos cheios de riquezas, onde se tornariam grandes senhores entre o seu povo.

A temeridade dos dois irmãos irritou Aethelwulf a ponto de quase mandar expulsar os dois príncipes de seu salão real. Coisa que só não o fez graças ao bom senso de seu amigo e conselheiro, lorde Herewald, e do padre Ciwdryg. Todos sabiam que Mercia não possuía um grande exército e que os poucos confrontos que já haviam tido contra os vikings não foram muito bem sucedidos. Mas, além disso, os boatos que vinham de Anglia Oriental e da Northúmbria eram o que realmente os aterrorizavam. Como se não fosse o bastante as histórias sobre a coragem e a crueldade dos pagãos em batalha, começaram a correr notícias de que entre os nórdicos haviam feiticeiros capazes de amaldiçoar qualquer um com apenas um olhar, e ainda sobre guerreiros misteriosos que se transformavam em lobos e ursos, dilaceram suas vítimas em combate e depois se alimentavam de sua carne.

Tais boatos também haviam chegado em Wessex, mas nem o rei nem seus homens acreditavam nelas. De todas as batalhas que travou contra os vikings, Aethelwulf nunca tinha visto qualquer tipo de homem-fera lutando entre o inimigo ou qualquer tipo de feitiçaria pagã. Entretanto os homens de Mercia afirmavam que eram verdadeiras as histórias.

Para comprovar o que dizia, o príncipe Beorhtric mandou que chamassem um de seus homens que cuidava se seus cavalos. Pouco tempo depois entrou no salão de Aethelwulf um homem calvo e de barba cinzenta. Ele se apresentou ao príncipe e depois ao rei com uma reverência. Disse se chamar Hama e depois permaneceu em silêncio. Beorhtric pediu então para que ele dissesse o que havia visto no começo da primavera. O homem, de cabeça baixa, ergueu os olhos para seu príncipe e depois para o rei de Wessex e, esfregando as mãos de forma nervosa, começou a falar.

–    Eu vi os pagãos, meu senhor…
–    Onde você estava? – disse Beorhtric.
–    Próximo à floresta de Bromswold e do mosteiro de Fenwic… Um dos meus filhos ainda vive ali por perto. Ele é filho de minha primeira mulher, antes dela…
–    O que você viu? – interrompeu Aethelwulf.
–    Bem, meu senhor… Eu estava na estrada e ao longe vi muita fumaça vindo da direção do mosteiro. Com medo do que pudesse ser, eu entrei na floresta e me aproximei pela mata. Eram eles, meu senhor. Dezenas deles! O mosteiro estava em chamas e havia muitos corpos pelo chão. Alguns dos monges que ainda estavam vivos tinham sido amarrados numa fila e seguiam três homens a cavalo que os puxavam pela corda. Os outros monges que ficaram foram postos de joelhos na frente do líder dos pagãos. Um homem de barba escura e forte como um touro. Vi quando ele sacou de sua espada e se preparava para matar os monges, mas então alguém gritou algo e ele parou.
–    O quê foi que disseram a ele? – perguntou o padre Ciwryg, se aproximando do homem.
–    Eu… eu não sei ao certo, senhor – dizia o homem, com olhar fixo no padre – não entendo a língua deles, mas creio que era o nome do líder.
–    E qual era o nome dele? Você se lembra? – perguntou Ciwryg.
–    Sim, padre. Creio que era Ragnar, senhor. Ragnar Sigurdason, foi o que ouvi.

Padre Ciwryg olhou assustado para Aethelwulf e os demais. Com exceção dos príncipes de Mercia, os demais ainda não compreendiam o que estava havendo e por quê aquele nome teria impressionado tanto ao padre galês. Por fim, Beorhtfrith rompeu o silêncio.

–    Vocês não entendem? Ragnar veio para a Bretanha! – ele gritava.
–    Mas quem é esse Ragnar? – perguntou um dos conselheiros de Aethelwulf.
–    O homem que saqueou todo o norte do reino dos francos. O homem que saqueou Rouen, Carolivena e Paris. Eu estava com outros de meus irmãos em Saint Denis, voltando de uma peregrinação a Roma, quando ele e seus homens atacaram a região. Foi há quatro anos, majestade. Nem mesmo após o rei franco ter lhes pagado 10 mil libras de prata foi o bastante para ele cessar os ataques.

Aethelwulf ouvia as palavras do padre intrigado por ainda não saber quem era o homem de quem falavam, mas de repente um nome surgiu em sua mente como um raio:

–    Ragnar Lothbrok! Vocês estão me dizendo que Ragnar Lothbrok está na Bretanha? – perguntava o rei indignado por não terem avisado a ele antes sobre o líder pagão, e consigo mesmo por não ter percebido logo sobre quem se tratava.
–    Sim, majestade. O próprio – disse Ciwryg.
–    Mas não é só isso, majestade. Conte-lhe mais o que você viu – disse o príncipe Beorhtric ao homem.
–    O líder dos pagãos, Ragnar, após ser chamado pelo nome, guardou a espada e virou-se. Os outros homens se afastaram e deram passagem a um outro homem. Ele era muito magro, estava muito sujo e vestia trapos. O rosto era quase preto, tamanha a sujeira. Só conseguia enxergar seus olhos! Seu cabelo era duro, estava cheiro de barro seco nele. Ele também empunhava uma lança, enfeitada com contas e ossos pequenos pendurados nela. Atrás dele vinha um outro homem, muito mais alto que qualquer outro ali presente. Não vi nenhuma arma com ele, além de uma faca. Ele usava um manto feito de pele de urso e um elmo prateado. Quando ele se abaixou para falar com o primeiro homem, vi um colar, feito de garras de urso. O homem que tinha a lança começou a pular e a dançar na frente dos monges. Ele pulava e chacoalhava a lança sobre as cabeças deles, falava diversas coisas que não entendia e gritava para o céu; depois cuspiu nos rostos de cada um dos monges. Um rapaz que estava lá traduzia o que o homem dizia para os monges, para que eles soubessem o que estava acontecendo.
–    E o que ele estava falando? – perguntou Ciwryg.
–    O homem com a lança estava dizendo que daquele dia em diante eles pertenceriam a ele. Que seus espíritos iriam servi-lo após a morte no reino de Hela – disse o homem nitidamente apavorado – Nesse momento um dos monges tentou sair correndo, mas de repente um urso surgiu e atacou o monge e começou a devora-lo vivo. Ragnar e os outros homens começaram a ir embora quando o monge começou a gritar. Enquanto isso, o feiticeiro começou a sacrificar os outros prisioneiros. Ele atravessou seus peitos com a lança e depois cortou suas cabeças. Quando olhei novamente, o urso tinha ido embora, e em seu lugar estava o homem com a pele de urso, carregando a cabeça do monge fugitivo. Os dois colocaram as cabeças dentro de um saco e foram embora. Como já era noite, esperei até amanhecer e fui embora de lá o mais rápido que pude sem ser visto por ninguém – ao final do relato, todos no salão de Aethelwulf estavam perplexos. Os boatos de fato eram reais.

O jantar não foi dos mais alegres. O rei Aethelwulf e os príncipes de Mercia ainda não haviam chegado num acordo sobre qual seria a melhor decisão a se tomar contra os vikings. Beorhtric e Beorhtfrith ainda insistiam em pagar a Ragnar Lothbrok para que ele fosse embora, enquanto o rei de Wessex insistia na idéia dos dois reinos juntarem forças e enfrentarem os invasores em batalha. O padre Ciwryg se mantinha como um mediador, buscando uma terceira possibilidade que agradasse a ambos. Após o banquete o debate continuou, assim como o impasse. Os príncipes não queriam arriscar os poucos homens que tinham num confronto que iria enfraquece-los ainda mais e por em risco o trono. Por outro lado, Aethelwulf dizia que o único caminho era se arriscarem, pois era melhor morrer correndo o risco de vencer o vikings do que perder sem lutar e acabar sendo amaldiçoados a se tornarem escravos de um feiticeiro por toda a eternidade.

A discussão estava extremamente acalorada, com insultos sendo disparados por ambas as partes, quando um dos serviçais se aproximou do rei e lhe disse que havia alguém que desejava vê-lo. Aethelwulf ignorou a mensagem e voltou a discutir com os príncipes, mas o serviçal insistiu mais uma vez e novamente foi ignorado. Mesmo com medo, o serviçal insistiu mais uma vez, sendo dessa vez observado pelo semblante furioso do rei.

–    Desculpe meu senhor, mas me parece ser sobre seu filho. Mandaram-me dizer que seu filho precisa de ajuda… – dizia o rapaz, implorando pela piedade de seu senhor.
–    Qual deles? – disse o rei sem olhar para ele.
–    O que está para nascer, meu senhor.

O rei olhou para o rosto do rapaz, não com raiva, mas dessa vez espantado e abandonou o debate, que acabou sendo assumido por lorde Herewald e o padre Ciwryg. O rei saiu a toda velocidade em direção aos aposentos onde estava a rainha, mas no meio do caminho ele ouviu lhe chamarem.

–    Aethelwulf! Aethelwulf, filho de Egbert!

O rei virou-se assustado, buscando sua espada que não se encontrava em sua cintura. Fechou o punho com força e permaneceu onde estava. Só havia sombras atrás de si.

–    Quem está aí? Quem chama meu nome?
–    Seu filho precisa de ajuda.
–    Eu sei! É para onde estou indo…
–    Não, Aethelwulf. Ele não está aí. Ele está lá fora. Venha comigo.
–    Quem está aí? Apareça, antes que chame meus homens.

Das sombras surgiu um homem um pouco mais velho que o rei. Seu cabelo ruivo já demonstrava sinais da velhice, assim como o enorme bigode que possuía. Com a exceção de um dente de animal que usava pendurado ao pescoço, estava nu; o que permitiu a Aethelwulf ver que seu corpo era quase todo recoberto por desenhos e linhas negras e azuis.

–    Venha comigo, Aethelwulf. Seu filho precisa de ajuda. Antes que seja tarde demais.

O rei não estava entendendo o que acontecia. Chegou a pensar se não estava sonhando.

–    Que brincadeira é essa?
–    Não é brincadeira alguma, filho de Egbert. Venha comigo agora. Caso contrário, você nunca mais terá a chance de falar com ela.
–    Com “ela”? Osbuhr! Se você fizer qualquer coisa contra ela, juro…
–    Não sei de quem fala. Estou me referindo à princesa Monah.

Aquilo só poderia ser um sonho, pensou Aethelwulf. Ele não conseguia sair do lugar. Sentiu-se estranho, tonto, e levou a mão ao rosto, tentando despertar daquele delírio. Quando abriu os olhos novamente, o homem havia desaparecido. Porém, um javali enorme estava ali, olhando para ele. O animal saiu correndo por um dos corredores e quando Aethelwulf se deu por si estava correndo atrás dele.

Aquele caminho dava para uma saida atrás do salão principal. Não muito longe dali havia um pequeno bosque. Assim que o rei saiu ao ar livre, pode ver a sombra do javali correndo no meio da noite para dentro do bosque. Não havia ninguém ali por perto, nenhum de seus serviçais ou de seus guardas.

Ele continuou a correr e assim que começou a se embrenhar dentro do bosque, perdeu o animal de vista, se guiando pelos sons de seus grunhidos. Aos poucos o som do javali foi diminuindo, até que desapareceu por completo, deixando Aethelwulf perdido no meio das árvores. Ele gritou, tentou ouvir qualquer coisa, mas nada parecia funcionar. De repente uma sombra surgiu de trás de uma árvore.

–    Por aqui.

Acreditando se tratar do mesmo homem de antes, ele seguiu o vulto. Caminharam por mais alguns passos até um grande carvalho. O vulto, que de fato o rei confirmou tratar-se do estranho homem nu de antes, parou ao lado da árvore e indicou uma entrada que havia no troco. O rei tentou ver o que havia no buraco, mas estava muito escuro. Ele se abaixou e engatinhando se esgueirou até o buraco. Para sua surpresa, ele conseguia enxergar com clareza lá dentro. Como numa noite de lua cheia e céu limpo. E o mais impressionante era que lá dentro o tronco da árvore era duas vezes maior do que do lado de fora.

Aethelwulf engatinhou para dentro através da passagem, mas não conseguiu ficar completamente de pé. Mas isso não lhe incomodava, pois a sua frente, encolhida e envolta num manto de pele cinzenta, estava Monah. Ela, com quem sonhou tantas e tantas noites. Ele se aproximou devagar e viu que ela estava dormindo. Sentou ao seu lado e permaneceu ali em silêncio, apenas olhando para ela. Desde a última vez que se viram, ela não havia mudado nada. Não parecia ter envelhecido um ano sequer. Aethelwulf ainda não acreditava que ela estava de volta para ele.

Monah se mexeu e abriu os olhos bem devagar. Apesar de não estar tão claro lá dentro do tronco, ela parecia incomodada com a luz. Piscou muito e quando finalmente estava enxergando, encontrou os olhos de Aethelwulf e sorriu.

–    Wes yï anst, ellemin nynn? – ela disse num sussurro, quase inaudível para o rei.
–    O quê?
–    Disse “como você está, meu principe?” – ela respondeu com olhos sonolentos.
–    Bem, estou bem… – disse Aethelwulf sorrindo e passando a mão sobre a testa de Monah, sem saber mais o que dizer. Por ele, ficaria ali, apenas olhando para ela.
–    Você está diferente. Parece mais velho. Seu rosto tem rugas que não tinha antes – ela disse, passando a mão pela barba do rei.
–    Foram muitos anos, minha princesa. Mas você não mudou nada.
–    Imaginei que pudesse ser assim – ela sorriu.
–    Imaginou?
–    Sim… Estou cansada… A viagem… longa…
–    Descanse, então.
–    Sim… ellemin nynn…

Ela fechou os olhos novamente. Parecia que havia voltado a dormir. Aethelwulf, inebriado pela visão do rosto da princesa, sorria e passava a costas da mão sobre a bochecha dela. Foi então que sentiu sua pele gelada. Tocou a outra bochecha e depois o pescoço. Desesperado, gritou para o homem do lado de fora. O rosto deste logo surgiu na entrada do tronco do carvalho e se esgueirou para dentro. Ele também tocou o rosto da princesa e depois de algum tempo se sentou ao seu lado e permaneceu imóvel, segurando sua mão.

–    Hal fleana yï ann Anrharwyen Eldoryaht’ tagharinna…– dizia o homem, enquanto uma lágrima escorria pelo seu rosto, desaparecendo sob os fios do bigode – Hal fleana…

Aethelwulf observava tudo aquilo, e aos poucos foi sendo tomado por um sentimento de angústia e desespero. Aos poucos começa a entender o que havia acabado de acontecer e o que antes era felicidade foi se tornando em horror.

–    Não! Não! O que aconteceu? O que você disse a ela? O que está acontecendo? – gritava o rei ao homem.
–    Ela se foi, senhor. Estava apenas lhe desejando uma boa viagem para as Terras Imortais. – dizia enquanto enxugava as lágrimas dos olhos.
–    Mas como? O quê aconteceu? O que você fez? – Aethelwulf sacudia o homem pelos ombros.
–    Como disse, o senhor teria pouco tempo com ela. Fugimos. Fomos perseguidos. Queriam matar seu filho, senhor. Mas para protege-lo, ela tomou a flecha em seu lugar.

Com os olhos cheios de lágrimas, Aethelwulf olhava nos olhos do homem, mas não entendia o que ele queria dizer. Este, então, abriu o manto que envolvia o corpo da princesa e em seu colo se encontrava uma criança, um bebê com poucos dias de vida. Hesitante, Aethelwulf pegou a criança e sentiu o sangue que ensopava o manto que a envolvia. O rei olhou assustado para o homem.

–    Não se preocupe. Ele está bem. O sangue é dela, veja – e apontou o ferimento onde a flecha havia penetrado. Depois pegou algo no chão e mostrou ao rei. Era uma flecha de haste negra e lustrosa, com penas brancas e uma ponta afiada de metal, brilhante como prata polida.

Aethelwulf ergueu o bebê em seus braços e logo este começou a chorar. Sua pele era tão pálida e leitosa quanto a da mãe, mas seu cabelo era loiro. Os olhos eram cinzentos, e chamaram a atenção do rei.

–    Iguais aos do pai dela – disse o homem.
–    Como?
–    Os olhos. Estava prestando atenção neles. São iguais aos do avô, o antigo alto-rei.
–    Meu filho… ? – sussurrou o rei.
–    Sim. Ela queria que ele ficasse com o senhor.
–    Obrigado por me trazer até aqui.
–    Era o meu dever.
–    Era você, naquele dia? Na floresta? Com ela?
–    Sim.
–    “Swim…”
–    Swynnmaewr ap Odwynn.

Ao saírem da árvore, Aethelwulf queria levar o corpo de Monah consigo e lhe dar um sepultamento digno. Entretanto, Swynnmaewr o dissuadiu da idéia. Como o rei iria explicar o aparecimento de uma princesa morta em suas terras? Ele disse que cuidaria de tudo, que seu lugar era ali e que nenhum animal profanaria o corpo dela.

–    E a criança? Ela… tem nome? – perguntou o rei.
–    Não, ela queria que o senhor escolhesse um nome-comum para ele.
–    É mesmo? – disse Aethelwulf, observando o filho em seus braços.
–    Mas ao nascer, ela lhe deu seu nome-verdadeiro. Quer saber qual é?
–    Sim, eu gostaria.
–    Ela o chamou de “Aschere”.
–    “Aschere” – disse o rei pensativo – é um bom nome.

E assim, Swynnmaewr permaneceu no bosque, longe dos homens e guardando o grande carvalho onde se encontrava o corpo da princesa de pele pálida.

[Obs.: Desde então, havia se tornando proibido (sob pena de morte) caçar naquele bosque sem a autorização expressa do rei e até hoje a lenda da princesa do bosque permanece em várias regiões da Inglaterra. Ninguém sabe com certeza onde seria o bosque onde Aethelwulf teria se encontrado com Swynnmaewr, mas existe um pequeno bosque preservado desde os tempos medievais, próximo a cidade de Wantage, chamado Ideswood. Segundo estudos, seu nome vem do inglês antigo “Idesewudu”: “bosque da princesa”].

Naquela noite, após deixar Swynnmaewr no bosque, Aethelwulf retornou para seu salão com seu filho escondido debaixo de seu manto e entrou as escondidas pelo corredor o qual havia saído com o javali. Quando estava a meio caminho de seus aposentos, ouviu gritos e correu até lá. Ao chegar, uma das freiras do “exército de Osburh” falava com dois de seus homens. Eles diziam que não haviam encontrado o rei em parte alguma e ela esbravejava de que em algum lugar ele devia estar, a menos que o Senhor Deus o tivesse arrebatado aos céus como fez com a Virgem Maria. A freira ficou muito envergonhada com a comparação ao perceber o rei parado na porta. O rei dispensou os dois guardas e entrou no aposento. De fato, todas as acompanhantes da esposa estavam lá dentro, desesperadas e chorando. Assim que entrou, todas elas saíram. A velha começou a lhe explicar que o parto havia sido muito difícil, que Osbuhr quase não resistiu, mas que ela estava bem. Mas havia um problema com a criança. Aethelwulf ordenou que ela também se retirasse.

Osbuhr dormia profundamente. Parecia um pouco abatida, mas estava bem, pelo o que podia ver. Sobre uma mesa próxima havia algo envolto com um pano sujo de sangue. O rei se aproximou e desfez o embrulho, revelando o corpo de um bebê, um menino recém-nascido. Aethelwulf tocou a criança, mexeu em suas mãozinhas, tentou faze-lo se mover, obter qualquer sinal de vida, mas nada aconteceu. Neste mesmo instante, a criança sobre seu manto começou a se mexer e a chorar. Era como se ela soubesse da tristeza do rei e demonstrasse que ele ainda estava vivo. Aethelwulf descobriu o filho e o admirou.

–    Aethelwulf?

O rei se virou e viu a esposa acordada, com ar de muito cansada, tentado se ajeitar na cama. Ela estendeu os braços e sorriu para o marido.

–    Quero vê-lo. Traga-o aqui.

Aethelwulf olhou para a criança chorando em seus braços e pensou em contar a verdade, mas se calou. Sua esposa queria um filho, então ele foi até ela e lhe entregou a criança. Osburh olhou feliz para o bebê e começou a amamenta-lo. Enquanto isso, Aethelwulf enrolou o corpo natimorto de seu outro filho e o levou embora, para o bosque. Nunca soube que fim Swynnmaewr deu ao corpo.

Uma semana havia se passado e Osburh estava muito feliz por ter um filho e por acreditar que o Senhor havia ouvido suas preces. Ela já havia pensado em dezenas de nomes para o filho, mas nenhum deles agradava ao marido, que não conseguia escolher nenhum nome que lhe agradasse. As mulheres do “exército de Osburh” não comentavam na frente da rainha, mas todas achavam a criança muito estranha, mesmo para um recém nascido. Na verdade, ele não se parecia com um recém nascido. No fundo, mesmo Osburh achava seu novo filho pálido demais e aqueles olhos… Mas ela reconhecia os traços da família do marido nele. O que importava para a rainha era que ele estava vivo, e um dia se tornaria um homem de Deus, como ela havia prometido. Portanto, a primeira coisa que ela quis fazer foi batizar o filho o quanto antes.

Em menos de quinze dias depois eles se encontravam na catedral do mosteiro de Winchester. Toda a aristocracia de Wessex estava presente, além de representantes de Mercia, dos reis galeses e até mesmo da Cornualha. A cerimônia foi conduzida pelo próprio arcebispo de Winchester. Houve grande comoção, principalmente entre os mais devotos, com o sermão da missa. O arcebispo disse que o nascimento de uma criança era sempre um milagre, mas principalmente quando apesar de tantas dificuldades ele ocorre com a graça do Senhor. Ele disse que aquele era um sinal, de que assim como pelo poder da fé da rainha, foi possível o nascimento do novo príncipe, se o povo da Bretanha também se voltasse à verdadeira fé eles também conseguiriam ser vitoriosos sobre os pagãos.

Já durante o batismo, o arcebispo Wulfred perguntou aos pais o nome da criança e rapidamente Osbuhr respondeu:

–    Abrahame! – ela disse com um sorriso estampado no rosto.
–    Como o patriarca? – perguntou o bispo surpreso.
–    Sim! – respondeu a rainha.
–    Não… – disse o rei, com a mão pousada sobre o braço da esposa.

Fez-se um grande silêncio no templo. As pessoas cochichavam sem entender o que estava acontecendo e o arcebispo olhava para o rei e para a rainha, claramente constrangido.

–    Qual será o nome da criança, majestade? – perguntou o arcebispo ao rei, mas olhando para Osburh. Ela olhava para Aethelwulf, o rosto vermelho. Sentia que havia sido ultrajada na frente de todos, na frente de toda a Bretanha.
–    Seu nome será Alfred. – disse o rei, sem olhar para Osburh.

O bispo olhou para a rainha que agora não olhava mais o rei, mas fixamente para algum ponto perdido na pia batismal. Em silêncio. Sussurros enchiam a nave central da igreja como um enxame de abelhas. O bispo olhou novamente para o rei e então concluiu a cerimônia.

– Eu te batismo Alfred! Em nome do Grande Pai, do Fillho e do Santo Espírito, que assim seja!

~ * ~

Continua…

<<Alfred – Ato II



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