Alfred – Introdução

Publicação: 13 de abril de 2010

Ele foi conhecido por muitos nomes, por alguns como Alfred de Wessex, Alfred o Grande, Alfred o Senhor das Duas Coroas; por outros como Alfred o Bastardo, Alfred o Mestiço e até mesmo Alfred o Maldito (segundo o islandês Snorri Sturluson). Mas estes são apenas alguns dos epítetos pelos quais ficou conhecido um dos mais importantes reis da Inglaterra.

Segundo uma velha lenda inglesa, durante o ano de 878, o pior período de seu reinado, o rei Alfred se viu obrigado a se refugiar anonimamente na casa de um criador de porcos que vivia nos pântanos de Somerset, enquanto pensava numa forma de enfrentar os vikings que atacavam seu reino. A veracidade da narrativa sempre foi muito questionada e muitos estudiosos afirmavam que se tratava de mera invenção medieval, resgatada nos tempos vitorianos por poetas e escritores românticos (como lorde Tennyson que dedicou seu poema The Swamp King à figura de Alfred. Mais tarde este poema e os estudos de Sir J. E. Kembleton iriam inspirar T. H. White a escrever o seu famoso livro The Once and Forever King ); o que até chegou a causar certo atrito entre os mais tradicionalistas admiradores das lendas do rei Artur e os do rei Alfred, que os acusavam de ter elaborado a história de Alfred baseada na de Artur. Já os fãs de Alfred alegavam que isso seria um absurdo e diziam que na verdade ocorria o oposto, que a figura de Artur é que foi inspirada na vida do rei Alfred, uma vez que as maiores fontes das histórias arturianas antes de Alfred são escassas e vagas, enquanto outras mais elaboradas (como a obra de Thomas Malory) só surgirão muito tempo depois dos tempos de Alfred. Polêmicas à parte, todos concordam que as semelhanças entre as vidas dos dois reis são muito grandes para serem apenas coincidência.

A versão da história reproduzida aqui foi retirada do livro do supracitado Sir Jonathan E. Kembleton, Kings, Warriors and Faeries: Histories and Legends of Anglo-Saxon England, Londres: Herbertz & Gibson, 1877. Sir Kembleton, que foi um dos grandes pesquisadores sobre a vida do rei Alfred e professor de inglês-antigo da Universidade de Oxford, diz na introdução de sua obra que sua reconstrução da história da vida do rei e sobre sua fuga para os pântanos foi baseada nos textos do monge Asser, amigo e biógrafo de Alfred, e comprovada por “achados arqueológicos recém-descobertos”. De fato, escavações arqueológicas indicam que a região da Ilha de Athelney foi utilizada como ponto de encontro de tropas, devido a evidências de armamentos e outros utensílios. Entretanto, os achados arqueológicos a que Sir Kembleton se refere haviam sido encontrados dois anos antes da publicação de seu livro, e se tratavam de pontas metálicas de flechas de ferro-frio e um broche feito em ouro e prata, gravada com a seguinte mensagem: “+ÆLFRED MEC HEHT GEWYRCAN+” [“Alfred ordenou que me fizessem”], citado na história como tendo o poder de permitir ao rei se disfarçar e se passar por qualquer outra pessoa que quisesse.

Apesar de suas afirmações e do renome de Sir Kembleton, foi apenas nos anos de 1970 que elas foram realmente levadas a sério. Em 1972 um grupo de arqueólogos descobriu na Ilha de Athelney, a 400 metros de onde foram encontradas as flechas e o broche, um pilar de pedra de três metros de altura que havia se perdido no solo do local. O pilar estava quebrado em três partes, mas após sua reconstituição, foi possível verificar que nele estavam esculpidas em alto relevo imagens que narravam os acontecimentos ocorridos ali nos tempos de refúgio do rei Alfred. A coluna já foi comparada, em sua forma de narrar os fatos, às imagens da famosa Coluna de Trajano, mas numa escala bem menor e mais rústica. Esta descoberta não apenas confirmou as informações de Kembleton como também modificou radicalmente os estudos a respeito da vida do rei Alfred e seu governo.

Anos mais tarde a Sociedade Histórica Real decidiu fazer uma homenagem ao rei Alfred por seu milésimo trigésimo aniversário de nascimento (apesar de não se ter certeza de quando ele nasceu exatamente, supõe-se que tenha sido por volta do ano 849). O projeto incluía a construção de um monumento feito inteiramente em bronze, contendo uma estátua de 2,30 metros de altura do rei, com o braço direito erguido segurando uma espada e a outra pousada sobre um escudo redondo, sobre uma base cilíndrica de 70 centímetro de altura por 1,50 m de diâmetro, retratando em seu entorno em alto-relevo os principais momentos da vida de Alfred. Para a concepção do monumento foi escolhido o artista plástico Dave O’Shea, conhecido por trabalhos semelhantes em Dublin para o memorial de Oscar Wilde e em Lisboa para um conjunto de estátuas em homenagem ao escritor Fernando Pessoa. Parte do dinheiro para a realização da obra e das festas decorrentes de sua inauguração havia sido doado pela própria família real e a outra pelo governo britânico, o que gerou críticas de certos grupos políticos que achavam aquilo uma obra desnecessária, além de alguns boatos que diziam que o artista havia embolsado parte da verba do projeto de forma indevida.

Apesar das críticas, o monumento foi realizado e inaugurado no dia 26 de outubro de 1979, no topo da ilha de Athelney, exatamente onde outrora existia o antigo monumento ao rei Alfred feito por Sir John Slade, erguido em 1801, mas destruído pelos bombardeios alemães durante a Segunda Guerra Mundial. A repercussão da inauguração do novo monumento ao rei Alfred foi muito boa, sendo muito bem aceito pela sociedade, o que acabou rendendo programas de televisão, peças teatrais, exposições, documentários e novos livros biográficos de autores oportunistas sobre a vida do rei.

Entretanto, na manhã do Dia de Todos Santos de 1994, os visitantes que chegaram a Athelney para ver o monumento se espantaram com o que encontraram. O monumento de Alfred havia desaparecido sem deixar rastros, e em seu lugar estava um obelisco reluzente de 9 metros de altura, feito inteiramente de mármore negro rajado de branco. Era como uma ponta de lança que tivesse brotado diretamente do solo da ilha. Em três de suas quatro faces foram reproduzidas fielmente em baixo relevo (e com um refinamento artístico impressionante) as inscrições do antigo pilar encontrado nos anos 70, e na última face estavam entalhados dois grandes dragões estilizados e entrelaçados, símbolo pessoal de Alfred e do antigo reino de Wessex, e a inscrição: “ÆLFRED ÆTHELWULFING BEGEN RICE ALWALDA CYNING” [“Alfred, filho de Aethelwulf, senhor todo-poderoso de ambos os reinos”].

Apesar das investigações, que chegaram envolver até mesmo a Scotland Yard, nunca foi esclarecido quem foi o responsável e para onde foi levado o monumento de bronze, quem e como trouxeram aquele obelisco até o topo da ilha sem que ninguém visse nada, e quem era o autor daquela obra? Nunca ninguém reclamou a autoria do obelisco. Atualmente, o “Obelisco de Athelney”, como ficou conhecido, é um das atrações turísticas históricas mais visitadas no interior da Inglaterra e apesar dos diversos estudos feitos a seu respeito, o mistério continua.


Prof. Dr. E. L. Ostmann
Núcleo de Estudos Medievais da Universidade de São Paulo
Abril 2010

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