Circe-H1

Publicação: 25 de fevereiro de 2010

Domingo de manhã a senhora Goldmann foi acordar os netos, que passavam o final de semana em sua casa, para o café-da-manhã. Ao entrar no quarto, ela encontrou três leitõezinhos deitados nas camas, dormindo profundamente. Desceu as escadas correndo, desesperada, e foi até a cozinha onde estava seu marido e em prantos informou a ele que seus netos tinham pegado a gripe. Esta foi uma situação que aconteceu por diversas vezes ao longo daquele ano por todo o mundo, para a infelicidade de amigos e familiares. Ninguém soube como começou a epidemia. Uns falavam que surgiu no México, outros que ela veio do sudeste asiático, outros da África e alguns diziam até que ela teria sido fabricada em laboratórios iranianos para ser utilizada como uma forma de arma biológica. Apesar das mais variadas especulações, no fundo, ninguém sabia ao certo o porque as pessoas começaram a virar porcos da noite para o dia.

Os primeiros casos se pareciam com um resfriado comum. Nariz escorrendo, olhos vermelhos, dores pelo corpo, enxaqueca e febre alta. Depois vieram as mortes. Por volta de duzentas pessoas acabaram morrendo na América do Norte. Umas cinqüenta na América do Sul, cento e cinqüenta na Europa, outras trezentas na África e pouco mais de quatrocentas em toda a Ásia. Incentivado pela mídia e pela internet, isso criou um pânico geral pelo globo, fazendo as pessoas correrem para as farmácias em busca de remédios e máscaras cirúrgicas, na tentativa de se prevenir contra o contágio. Os governos do mundo afirmavam que a contaminação se dava por meio do contato com os infectados, o que começou a esvaziar as ruas e fazer com que as pessoas passassem a ficar trancadas dentro de suas casas. Principalmente nas grandes cidades. Os contatos entre as pessoas começaram a se restringir a parentes de uma mesma família e que morassem juntos. Um sentimento de xenofobia cresceu entre as pessoas. Qualquer um podia ser um infectado em potencial. Fanáticos religiosos culpavam a falta de fé das pessoas. Enquanto isso, grupos racistas culpavam os imigrantes e cometiam atos de vandalismo e violência contra eles.

Entretanto, mesmo com a maioria das pessoas tomando o máximo de cuidado e se mantendo encarcerados em seus lares, cada vez mais continuavam os indícios de contaminação da gripe. Passaram algumas semanas até que os cientistas viessem a público para dizer que o vírus havia sofrido algum tipo de mutação, alterando a forma do contágio. Na verdade, desde o princípio, eles nunca souberam com certeza como se dava a contaminação. Disseram que o vírus tinha se alterado e desenvolvido a capacidade de infectar através do ar. O mundo, que já estava alarmado, entrou num tipo de histeria coletiva. Os estoques de remédios desapareceram rapidamente, farmácias eram saqueadas. Foram registrados alguns suicídios também. Cidades inteiras começaram a ser evacuadas, criando verdadeiras cidades fantasmas. Foi neste momento que as autoridades passaram a exigir que a imprensa não divulgasse mais informações sobre a doença para evitar um pânico ainda maior. Mas não foi isso que acalmou as pessoas, e sim o fato que de repente cada vez menos pessoas morriam vítimas da gripe.

Apesar de sua forma de contaminação ter se aprimorado, sua letalidade tinha enfraquecido. Após esta mudança do vírus, tornaram-se raros os casos fatais de infectados. A partir de então apenas crianças muito pequenas, idosos e adultos muito debilitados pereciam. O controle da pandemia começava a mostrar sinais de progresso. A gripe, apesar da poderosa capacidade de contaminação, estava se tornando apenas mais um tipo novo de gripe forte que surgiu naquele ano. Aos poucos as coisas estavam se acalmando e o mundo parecia estar voltando ao normal. Mas foi aí que tudo mudou, quando as mutações começaram a aparecer e os primeiros porcos apareceram.

O primeiro caso registrado apareceu nos arredores da cidade de Budapeste. Segundo relatos oficiais, Victor Sebaty era operário de uma fábrica automotiva e estava de licença por causa da gripe. Há uma semana que tinha febre, olhos lacrimosos, muita fraqueza, catarro e já tinha infectado a esposa e os dois filhos. Nada muito alarmante, uma vez que isso aconteceu nos tempos da segunda fase da contaminação, quando as mortes se tornaram raras. Certo dia a família do operário acordou e encontrou um porco no quintal de casa e nenhum sinal do operário. Procuraram por todos os lugares possíveis que imaginaram. Não havia voltado ao trabalho na fábrica, não estava na casa de amigos nem de parentes; nem no velho bar que costumava freqüentar. Victor Sebaty havia simplesmente desaparecido. Evaporado! Entraram em contato com a polícia. Como ele não tinha levado nenhuma roupa ou pertence, disseram à família para aguardar 48 horas antes de declara-lo desaparecido, pois em situações assim era muito comum a pessoa voltar a aparecer. Mas passado o tempo, Victor não voltou para casa. Para a esposa e os dois filhos Victor os tinha abandonado. Era a única explicação plausível. Sobre o porco eles não sabiam o que dizer. Três dias depois o porco foi morto, temperado, assado e sua carne repartida entre parentes e vizinhos. No quinto dia a mulher e os dois filhos tinham virado porcos também. Nunca ficou claro o aconteceu com eles depois. Tenho para mim que eles também foram devorados pelos vizinhos.

Outros porcos começaram a aparecer em outros países e numa escala assustadora. Desde a Inglaterra até o Chile, dos Estados Unidos ao Japão. Não havia um só país que não tivesse ao menos uma dúzia de casos de infectados pelo Circe-H1, nome oficial que os cientistas deram para o novo vírus. Em geral a pessoa apresentava os sintomas de uma gripe, semelhantes a qualquer outro tipo de gripe mais forte, e cinco dias depois acordava como um porco. Patas, focinho, orelhas, rabo e etc. Alguns médicos chegaram a dizer que tal mudança estaria relacionada com o sono, pois as pessoas costumavam acordar transformadas. O que fez as vendas de estimulantes, energéticos e o consumo de café aumentar por todo o mundo. Mas a falta de sono não impediu que os porcos continuassem a aparecer. A única coisa que se sabia com certeza era que antes de se transformarem em porcos as pessoas ficavam gripadas.

Seguindo as instruções de organizações de saúde, os governos ao redor do globo decidiram tomar medidas como as utilizadas no início da gripe. Isolamento de pacientes, máscaras e vacinação. Como não surtiu efeito, a opção adotada foi interditar casas de contaminados, e depois áreas residenciais e finalmente bairros inteiros começaram a ser isolados. Devido à velocidade de propagação da epidemia e da incapacidade de um tratamento, ou um melhor método preventivo, uma medida drástica foi tomada. Os infectados começaram a ser recolhidos e levados para “centros de concentração epidemiológica”. Estes guetos de porcos eram vigiados pelo exército e monitorados por agentes de saúde de diversas áreas. Diziam que nestes chiqueiros gigantes os infectados seriam tratados e que seriam desenvolvidas pesquisas para se achar uma cura. Os primeiros destes “centros” surgiram no interior dos Estados Unidos, Rússia e Austrália. Em poucos meses outros países adotaram modelos semelhantes, numa atitude desesperada de controlar a situação. Mas é óbvio que isso não deu certo.

A maioria das famílias (quase todas para falar a verdade), que tinham um parente transformado em porco, se negavam a entregar o animal para as autoridades responsáveis pelo controle da doença. Apesar de diferenças regionais e da forma de atuar em cada nação, tais agentes ficaram conhecidos como os “esquadrões lobo-mau”. Chegavam às casas do infectados através de investigações e denúncias anônimas. Sem muita conversa, arrancavam os suínos de seus lares mesmo com contra a vontade dos familiares. Havia começado uma verdadeira temporada de “caça aos porcos” e àqueles que se negavam a entrega-los. Os que acobertavam os infectados costumavam ser presos e acusados por coisas como estarem colocando em risco vidas alheias, conspiração e até mesmo terrorismo.

Não é difícil imaginar que isso logo gerou uma onda de indignação e revoltas por parte da população. Primeiro foram confrontos contra a polícia e tentativas de invasão aos guetos suínos, para libertar os animais. Grupos de “lobo-maus” tiveram que andar sob escolta depois que começaram a sofrer ataques dos mais diversos tipos. Em alguns lugares eles eram recebidos com cartazes, ovos e tomates podres. Mas em outras situações eram manifestantes armados e até mesmo carros-bomba. Mas não foram todos que partiram para o confronto direto. Surgiram pessoas puxando porcos por coleiras nas ruas, gritando palavras de ordem e clamando por medidas mais humanas das autoridades para com os porcos. Associações de defesa dos animais faziam pressão para que os porcos fossem reconhecidos como cidadãos legítimos, uma vez que eles já haviam sido humanos. Nos jornais, denúncias de “canibalismo” ocupavam as seções policiais.

Em resposta, segundo um acordo internacional, decretou-se a proibição do consumo de carne suína e aquele que fosse flagrado comercializando ou consumindo tal produto seria acusado de ter realizado um crime do mesmo peso que um assassinato com requintes de crueldade. Criadores tiveram de encerrar suas atividades e esvaziar os chiqueiros, sob a ameaça de serem processados pela justiça por estarem mantendo os animais sob cárcere privado. Como sempre acontece com algo que se torna proibido, novos criminosos surgiram. O temor não era mais por assaltantes e seqüestradores, mas sim ladrões de porcos. Um mercado negro de carne suína surgiu, para o terror de famílias de contaminados e de grupos de “amigos dos porcos”.

Apesar das reivindicações dos mais diversos setores da opinião pública, os porcos não foram elevados à categoria de pessoas. Mas logo a imprensa criou uma terminologia politicamente correta para se falar dos porcos, agora chamados de “para-humanos” ou “meta-humanos”. Dezenas de estudos foram realizados ao redor do mundo, mas não foi possível comprovar que as vítimas transformadas mantivessem qualquer traço de lembrança de sua condição humana anterior. Para o espanto de todos, exames fisiológicos revelaram que os porcos eram porcos mesmo, sem qualquer traço humano em seus cromossomos. Mas mesmo com estes estudos, os laços afetivos de parentes e amigos pelos porcos não desapareciam. Assim, eles foram classificados como inimputáveis. Ou seja, eles não poderiam ser considerados responsáveis por seus atos. Não eram pessoas, mas também não eram vistos mais como animais. Os porcos entraram então numa estranha categoria social, onde também se encontram as crianças, os loucos, idosos senis e outras pseudo-pessoas; ou na nova termilogia, “para-humanos”.

Não demorou muito para surgirem os primeiros casos de casais e casamentos interraciais: humano-suíno. Houve até mesmo um grupo de ambientalista que, sob o nome de “Simpatizantes da Causa Suína”, elaboraram um estatuto universal dos direitos dos porcos. Proliferaram declarações de outras minorias em apoio aos porcos, assim como discursos ainda mais inflamados por parte de radicais e extremistas políticos e religiosos contra os pobres suínos. Alguns pastores e tele-evangelistas pregavam que os porcos eram pecadores que estavam sendo punidos por Deus. Mas pararam de dizer isso assim que o líder de uma das maiores igrejas evangélicas acordou numa certa manhã como um belo porco de pelo castanho e olhos azuis.

Enquanto isso, a ciência não conseguia encontrar uma cura ou determinar exatamente como o Circe-H1 atuava no organismo humano, a ponto de altera-lo para a forma suína. Teorias da conspiração nasciam todos os dias. Desde as mais clássicas, dizendo que o um governo ou organização secreta estaria por trás de tudo como parte de um plano maligno, até as que afirmavam estarmos sendo vítimas de experiências alienígenas ou uma invasão de outra dimensão. A única coisa que se sabia era que de alguma maneira, as transformações estavam ligadas com a gripe. Mas foi ai que as coisas pioraram ainda mais.

Pessoas começaram a se metamorfosear em porcos sem ter apresentado qualquer tipo de sintoma de gripe ou contato com outro infectado. Algumas se transformavam lentamente, para o sofrimento e desespero de todos. Dia a dia o infectado via seu rosto no espelho se metamorfoseando, suas orelhas se deformando, pelos crescendo, o focinho se alongando e a capacidade de falar se tornando cada vez mais difícil. Outros se transformavam imediatamente. Em um instante era humano, um espirro e depois já era um porco. Um caso clássico foi o de um avião que caiu no Egito, matando mais de duzentos e cinqüenta passageiros. Ao analisarem a caixa-preta da aeronave, era possível ouvir, poucos minutos antes da queda, vários guinchos suínos na cabine de comando. Acidentes semelhantes aconteciam nas ruas e estradas de vários países, causando acidentes terríveis e situações inusitadas. Como uma senhora que estava no caixa de um supermercado no Rio de Janeiro. Ela disse que foi só o tempo de abaixar a cabeça para pegar o dinheiro na bolsa e quando olhou novamente para a moça do caixa, quem estava lá era uma porquinha vestida com o uniforme da loja. Durante aquele ano, o mundo havia se transformado num grande chiqueiro.

Pouco a pouco os porcos foram ocupando o espaço que antes pertencia a gatos, cachorros e outros animais de estimação.  O mundo da moda sofreu uma revolução, com roupas próprias para eles e agências com porcas top-models. Livros de auto-ajuda para uma vida mais harmoniosa com os suínos chegavam todos os dias nas livrarias. Nasceu toda uma indústria de cosméticos e a proliferação de clínicas veterinárias chiques para os suínos mais abastados. Até agências matrimonias entre porcos surgiram para que os suínos pudessem procriar e constituir família, para a alegria de seus parentes humanos.

O tempo passou e parecia que o mundo já estava se habituado a dividi-lo com o mais novo companheiro do homem: o porco. Enquanto isso, a gripe dava sinais que estava desaparecendo. Cada vez menos pessoas eram infectadas e menos ainda eram transformadas. Mesmo assim, a economia mundial e a sociedade já tinham se adaptado ao modo de vida suíno. Mesmo pessoas que não tinham ninguém próximo que sofreu a transformação, adotavam porcos comuns ou leitõezinhos que nasciam nas ninhadas das famílias dos novos suínos para-humanos que não tinham condições de cria-los. O mundo era uma grande utopia suína.

Foi quando o mundo havia encontrado seu ponto de equilíbrio novamente, a paz entre humanos e porcos, que uma nova tragédia aconteceu. Nove anos haviam se passado quando uma nova gripe surgiu. Ninguém sabe ao certo como ela surgiu. Uns dizem que os primeiros casos foram na África do Sul, outros que foi no Canadá e outros que tudo teve início na Índia. A única coisa certa era que ela só infectava suínos e era mortal. Uma vez infectados, em três ou quatro dias o doente já estava morto. Os sintomas se pareciam com uma gripe comum de porco, mas logo vinham as convulsões, espasmos, sangramento nasal e por fim o óbito. A corrida às clínicas e hospitais veterinários foi tremenda. Em poucos meses se tornou uma pandemia que se abateu sobre o mundo como uma praga bíblica. Qualquer forma de controle e prevenção era inútil.

Assim como foi a primeira gripe, esta também parecia ser transmitida pelo ar. Novas cenas de caos e desespero tomaram as ruas. Eram tantos os mortos que crematórios públicos coletivos foram construídos para evitar a propagação da doença. Linhagens inteiras de para-humanos desapareceram. Curiosamente, os “suínos naturais”, assim chamados os porcos que eram porcos e não os transformados, resistiam muito bem à doença tendo pouquíssimas mortes. Ao final de um ano, a população de suínos para-humanos havia sido varrida da face Terra devido à gripe.

Disseram novamente que havia sido algum tipo de arma biológica espalhada no ar, ira divina ou até um vírus alienígena. Teorias conspiratórias à parte, nunca ficou clara a causa da segunda pandemia. Tentativas de identificar e isolar o vírus, responsável pelo holocausto suíno, se revelaram inconclusivas. Durante meses um sentimento profundo de luto pairou sobre a Terra. Mas, fato é que sem os para-humanos o mundo começou a voltar ao normal. A vida continuou, e as pessoas aos poucos foram se recuperando da tragédia.

Cinco anos depois o consumo de carne suína foi liberada novamente, e todo o episódio das pandemias virou história para documentários, curtas-metragem e romances baratos. Ainda existem grupos preocupados com o direito dos porcos, de que talvez ainda existam sobreviventes para-humanos. Mas ninguém lhes dá muita atenção. Não houve o caso de nenhuma família que dissesse que seu parente para-humano tivesse sobrevivido.
Passamos por um certo período de recessão econômica, mas hoje em dia tudo já voltou ao normal. Exatamente como eram as coisas antes dos porcos aparecerem.

Entretanto, segundo os noticiários de ontem, uma nova gripe surgiu na Ásia. Uma versão mais forte de uma gripe vinda dos pássaros. Já existem vários casos de contaminação na Europa e Estados Unidos. Até então já morreram por volta de duzentas pessoas. Mas o que está começando a incomodar as pessoas são certos boatos. Há um boato de uma senhora em Taiwan que estava muito gripada e dizem que após alguns dias, acordou transformada em uma galinha gigante. Outro boato diz que o mesmo aconteceu no interior da Inglaterra, com um senhor de sessenta anos que foi transformado em um galo com 1,80 m de altura. Já em Sevilha, na Espanha, duas crianças teriam virado dois lindos pintinhos amarelos.

Sinceramente falando, isso pouco me importa, desde que eu possa continuar a comer minha tradicional feijoada às quartas-feiras. Seja ela de para-humanos ou não! Se bem que ontem andei espirrando muito e hoje acordei com um pouco de dor de cabeça. Na dúvida, comprei alguns analgésicos e vitamina C.



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Uma Resposta para
     “Circe-H1”

  • disse: 25 de fevereiro de 2010

    Gostaria de saber onde encontro a “erva” que aumentará a minha resistência e não deixe eu virar um porco… Mesmo pq aqui é Curintians!!!!

    Muito bom o texto.

    Bjs

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