Curso de Literatura Árabe

Publicação: 13 de maio de 2010

Há três dias as coisas se acalmaram. Ainda terei de dar maiores esclarecimentos à polícia, mas há três dias que tudo parece ter terminado. Já não sei ao certo. Na verdade, até agora, nem mesmo eu sei dizer com certeza o que acabou. Poucos acreditam em mim, e os poucos que disseram isso, tenho certeza, só o disseram para me acalmar. Mas eles não sabem o que eu vi, o que tive de fazer. Em nome de minha sobrevivência, física e mental. Em nome de Ana.

Escrevo este registro de minhas memórias como o último recurso que me resta, para que saibam tudo o que ocorreu. Tentei explicar ao policial que primeiro chegou ao prédio, após os clarões que tomaram o edifico naquela noite. Percebi que ele ignorou tudo o que lhe disse. Provavelmente pensou que eu estava em choque e delirando. Antes fosse isso. Sei que não poderei dizer a verdade a ninguém. Logo, este é o único meio que tenho para revelar os acontecimentos ocorridos naquele prédio. Talvez nunca ninguém leia estas palavras. Mas ao menos é a forma que encontrei para desabafar. É claro que nunca poderei esquecer ou ignorar tudo o que passei, mas se torna menos doloroso colocar tudo no papel. É quase como se fosse uma terapia.

Acredito que, se algum dia encontrarem esse pequeno diário, não irão me levar a sério. Talvez pensem que tudo isso é fruto de meu atual suposto desequilíbrio emocional. Se investigarem, descobrirão que nunca apresentei nenhum tipo de comportamento estranho ou tive qualquer problema emocional ou psicológico. Muito pelo contrário. Nunca precisei tomar qualquer tipo de medicação mais forte do que um antitérmico ou um analgésico comum disponível em qualquer farmácia, ou utilizei qualquer tipo de droga. Quero deixar claro que nunca utilizei nada que pudesse alterar a minha percepção ou meu estado de consciência a ponto de ter alucinações ou surtos esquizofrênicos. Principalmente naquela noite, quando fui encontrado perambulando pelos corredores do prédio da faculdade de Letras. Não foram remédios ou drogas que me deixaram balbuciante e desorientado. Foi algo sobre o qual ainda não me atrevo a falar em voz alta, e da qual as únicas pessoas que podiam confirmar o que aconteceu estão mortas. Obviamente eu sou o principal suspeito. Na verdade, sou suspeito de apenas uma morte. Os outros corpos não foram encontrados. Logo, se não há corpo não há crime. Mas creio que não vai adiantar eu dizer à polícia que eles nunca acharão os cadáveres. Que seu trabalho é em vão, e que não adianta eles me interrogarem uma, duas, três ou cem vezes. Não vou confessar algo que não sei. Na verdade eu sei, mas não posso e não sei como explicar. O fato é que por mais que eles procurem, nunca encontrarão o corpo do professor Jonatas B. Neto. Nunca!

Prefiro omitir o exato local onde tudo aconteceu. Quero evitar que alguém que leia isso e decida ir atrás dos tais lugares e das pessoas que estiveram de alguma forma envolvidas. É preferível que o tempo se encarregue de varrer para baixo do tapete tudo o que aconteceu. Certas coisas devem permanecer ocultas. Escondidas da luz do dia. De forma que nunca ninguém saiba que elas existem. Pois se um dia, por descuido, elas vierem à superfície, será preferível abraçar o conforto da loucura a ter de encarar a realidade.

Tudo começou no dia em que resolvi me matricular num dos cursos do Departamento de Letras Orientais. Amaldiçoarei este dia até o fim de minha vida. Espero que, se possível, algum dia Ana me perdoe. Estava no último ano de meu curso de graduação e ainda precisava cumprir alguns créditos para me formar. Bastava ser aprovado em um último curso e estaria formado. Dentro de meu próprio departamento eu já havia concluído todos os cursos que me interessavam, o que me fez ir buscar esses meus créditos finais em outras unidades da universidade. Mas ao saber disso, Ana, minha namorada, insistiu para que eu me matriculasse no mesmo curso que ela iria fazer naquele semestre. Tentei resistir, aleguei que aquela matéria não fazia muito meu gênero, mas ela foi irredutível. No final acabei me matriculando em dois cursos. Em uma matéria na faculdade de antropologia e na que Ana queria que eu fizesse com ela. Pensei em dizer mais tarde para ela que não havia gostado do curso e o largaria, me concentrando assim apenas na matéria de antropologia.

Lembro que o primeiro dia do curso estava frio e chovia desde o amanhecer. Ao chegar no corredor, Ana já me aguardava em frente à porta da sala de aula. Cumprimentou-me rapidamente com um beijo e me entregou uma cópia do programa do curso. Na primeira linha estava escrito em letras maiúsculas e em negrito: “CULTURA E LITERATURA ÁRABE – MÓDULO I”. Nos sentamos em lugares no meio da classe, e não demorou muito para que ela me cutucasse e me apontasse o professor Jonatas, “É aquele ali!”. Ao olhar para onde apontou, o que vi foi um homem por volta de seus quase sessenta anos, cabelos cinzentos meticulosamente penteados para trás, revelando uma testa calva, óculos grandes e de aros grossos cor de âmbar. Andava levemente curvado para frente, com a cabeça incrustada entre os ombros. Num dos braços carregava um conjunto de livros que aparentavam ter décadas de uso, e na outra mão carregava uma pasta preta de couro, talvez da mesma idade dos livros. Ao chegar a sua mesa, se desfez do longo casaco de lã, lançando-o sobre o encosto da cadeira, e do bolso da calça retirou um lenço e o usou para abafar um acesso repentino de tosse.

Após se acomodar, começou a explicar os tópicos do curso, como seriam as aulas e como se dariam as avaliações. Minha primeira impressão dele não foi nada má. Parecia ser atencioso com os alunos e muito seguro de si naquilo que explicava. Como fiquei sabendo ao decorrer do curso, sua especialidade era a literatura pré-islâmica, principalmente a poesia. Com o tempo passei a realmente me interessar pelo curso, e deixei de lado meu plano inicial de abandona-lo. Cheguei até mesmo a comprar um dicionário de árabe para poder acompanhar melhor as aulas.

Ao final de cada aula, uma multidão de alunos costumava se concentrar em torno da mesa do professor Jonatas, dentre eles sempre estava Ana. Notei que ela e outros alunos do curso haviam se tornado muito próximos do professor. Tanto que ele chegou a convida-los para um grupo de estudos, que ocorria todas as quartas-feiras, em sua sala no departamento de letras orientais. Cheguei a participar de algumas destas reuniões a pedido de Ana, mas nem sempre eu podia acompanha-la uma vez que elas ocorriam no mesmo horário que meu curso na faculdade de antropologia. Chegamos a ter uma discussão por causa disso, pois ela queria que eu largasse o curso de antropologia, o que me neguei a fazer.

Nessas reuniões eles liam e estudavam textos que não seriam usados durante o curso. Não por que não fossem interessantes, mas por necessitarem de uma atenção especial e maior conhecimento do idioma para trabalha-los. Uma atenção que o professor Jonatas não poderia dar num curso tão introdutório quanto o daquele semestre. Em geral tais reuniões começavam com o professor lendo um pequeno trecho do texto em seu idioma original e depois ele ajudava os alunos a traduzi-lo e interpreta-lo. Do pouco que pude acompanhar, os vi traduzirem e estudarem passagens do Corão, trechos das Mil e Uma Noites, poemas e textos sufistas e outros textos e autores que eu nunca tinha ouvido falar. Para dizer a verdade, ao se falar em literatura árabe, uma das poucas coisas que me vinham à mente eram as histórias de Ali Baba e os quarenta ladrões e de Simbá o marujo. Mesmo assim, nunca tinha lido as histórias, apenas visto os filmes.

Nas últimas reuniões que participei, eles começavam a estudar poemas que me faziam lembrar um pouco os de Augusto dos Anjos, mas muito mais místicos, sombrios e escatológicos. Segundo o que pude ver depois no caderno de Ana, tais poemas pertenciam a um livro chamado “Al Azif”, um livro medieval de cujo autor não me recordo o nome. Quase todos os poemas falavam sobre morte, espíritos que viviam além das estrelas, demônios e certas preces a eles. Mesmo tendo nascido numa família não muito religiosa e não ser supersticioso, ver o professor recitar aqueles poemas e todos aqueles alunos os repetindo, palavra por palavra, me causava um certo desconforto que não sabia explicar. Eles, os alunos, por outro lado ficavam fascinados por tais textos macabros. A pedidos deles, o professor Jonatas chegou a levar alguns para o curso e estuda-los com toda a turma em uma de suas aulas. Creio ter sido o único a notar isso, o que pode pesar ainda mais contra minha pessoa para aqueles que ainda duvidam de minha sanidade, mas tenho absoluta certeza que enquanto a classe toda lia os versos do tal “Al Azif”, havia um brilho estranho de satisfação que pairava no olhar do professor contemplando a classe.

Ana, assim como os outros alunos, idolatrava o professor. Foi quando percebi que havia algo de estranho. Não nego que tive ciúmes e que até mesmo pensei em coisas que poderiam estar acontecendo que hoje não apenas me envergonho de ter pensado dela como me arrependo. Se não estivesse cego por minhas desconfianças, talvez pudesse ter impedido o que estaria por vir.

Estávamos na metade do curso quando um dia, ao final da aula, o professor Jonatas passou uma folha de papel e disse a todos aqueles que estivessem interessados em participar de um programa de monitoria e de seu grupo de pesquisa deveriam colocar seus nomes na lista. Seriam escolhidos aqueles que tivessem as melhores notas ao final do curso e que fossem aprovados por ele numa entrevista. Ana ficou esfuziante com a notícia e assim que a folha chegou a suas mãos ela escreveu seu nome. Eu hesitei, mas por fim acabei colocando o meu também. Segundo soube mais tarde, o professor estava trabalhando numa pesquisa sobre antigos poemas de origem árabe e persa, anteriores ao período islâmico (como era sua especialidade) e precisava de um ajudante para revisar suas traduções dos textos. No ano anterior ele havia viajado pelo Oriente Médio (principalmente Iêmen, Irã, Síria e as ruínas da cidade de Irem), levantando material para sua pesquisa. A partir daquele dia, Ana passou a se dedicar em dobro ao curso para poder conseguir uma vaga junto ao professor.

O curso foi terminando e aos poucos já era possível saber quem ainda eram aqueles que estariam no páreo para a tal vagas. No último dia de aula, um vasto grupo cercava a mesa do professor, mas apenas três foram os escolhidos. O que gerou choros, reclamações e até mesmo o principio de uma briga corpo a corpo entre dois alunos, que foram rapidamente contidos por mim e outro rapaz. Os três contemplados a participar de uma entrevista final com o professor haviam sido uma menina ruiva e obesa que sempre esperava o professor Jonatas na porta, todos os dias de aula, para ajuda-lo a carregar seus livros; um rapaz franzino e sorridente que se sentava sempre na primeira cadeira da sala ao lado da porta; e minha Ana.

Para mim, o curso havia terminado e eu tinha conseguido ser aprovado. O que significava que mesmo que eu fosse mal no outro curso, o de antropologia, estaria formado. Isso seria motivo o suficiente para estar feliz, se não fosse por Ana. Ela já tinha feito a entrevista com o professor Jonatas, mas ele ainda não havia declarado um resultado. Durante uma semana ela não dormiu direito e mal nos falávamos. Quando saiu o resultado, ela quis ir comigo até a universidade, pois eu ainda precisava acertar toda minha documentação para a formatura. Ela correu até a porta da sala dele onde estava afixado o resultado, e ao voltar tinha um sorriso que não lhe cabia no rosto. Aquilo era o suficiente para saber qual havia sido o resultado.

Na semana seguinte ela começou a trabalhar com o professor Jonatas. Quase todos os dias eu lhe dava carona até a faculdade. No começo eu ainda ia busca-la, mas depois ela começou a ficar cada vez mais tarde lá e começou a voltar junto com algumas amigas e por fim com o próprio professor. Isso só piorou a situação entre nós. As brigas foram se tornando cada vez mais constantes e inflamadas. Ela achava um absurdo meu ciúme e minhas suspeitas sobre o professor, e eu dizia que ela estava cega e obcecada por ele.

Em certo dia, resolvi aparecer de surpresa na faculdade para ir busca-la. Estava decidido a esperar o tempo que ela demorasse com o professor, mas não sairia de lá sem ela. As horas se passaram e inquieto subi até a sala dele. Cheguei frente a sua porta e já havia erguido a mão para bater na porta quando me contive e decidi fazer outra coisa antes. Abaixei-me e aproximei minha orelha para ouvir o que eles diziam. Enciumado, esperava ouvir qualquer tipo de coisa, menos aquilo que acabei ouvindo. De fato havia duas vozes na sala. Uma era a do professor, mas a segunda não saberia dizer de quem era. Esta segunda voz era vibrante e distorcida, como se houvesse algum tipo de eco na sala, juntamente a um tipo de chiado, como um som de estática de rádio. Já a voz do professor soava clara e normal. Eu tentava entender o que diziam, pois eles pareciam falar baixo, mas de repente a conversa cessou e percebi que alguém se aproximava da porta. Sai correndo o mais rápido que pude até alcançar o outro corredor do andar. De lá, pude ver que a porta se abriu e a face do professor surgiu, observou o corredor por alguns instantes e voltou para dentro. Nunca comentei esse episódio com Ana, a qual ficou muito surpresa e agradecida pela carona que lhe dei naquele dia.

Semanas depois Ana adoeceu e eu fui visitá-la em sua casa. Estava pálida, os olhos fundos e os lábios ressecados. A mãe dela me disse que a tinha levado ao médico, que não soube diagnosticar o que era, mas o mais provável seria uma gripe aliada com má alimentação e excesso de trabalho. O médico lhe recomendou uma semana de repouso. Creio que aquela deve ter sido a última semana em paz que tive com Ana, como éramos antigamente. Antes de literaturas antigas, grupos de pesquisa e do tal professor. Aos poucos ela foi se recuperando e voltando ao normal.

Após uma semana fui visitá-la, como estava fazendo habitualmente naqueles dias, mas a mãe me disse que ela não estava. Na verdade ela achou estranho eu estar procurando por Ana. Como não entendi o que ela queria dizer, me explicou que Ana havia dito que iria se encontrar comigo naquele dia e que ela dormiria na minha casa. Eu disse que não era possível, pois eu ainda não tinha falado com ela naquele dia. “Bom, sem querer eu estava por perto na hora, e eu a ouvi falar no telefone com você e combinar de vocês se encontrarem ‘no lugar de sempre’ hoje à noite.” Imediatamente tive uma sensação estranha, de que algo estava errado. Algo muito mais forte que um simples palpite, quase uma certeza. A mãe de Ana percebeu isso também e me olhou com olhos arregalados, mas antes que ela dissesse qualquer coisa eu já tinha ido embora. Entrei no carro e comecei a ligar para ela no celular, mas não tive sucesso. Comecei a dirigir a esmo enquanto pensava. Já era tarde da noite e não conseguia imaginar onde ela poderia estar, mas foi quando tive um palpite e o segui.

Ao chegar no estacionamento da faculdade, estava tudo escuro e vazio, a não ser por um outro carro que também estava parado lá. Corri até ele, mas estava vazio. Pelo menos confirmei minha suspeita, pois aquele era o carro do professor. Enfurecido e tomado pelo ciúme, fui até a porta principal do prédio, mas estava trancada. Acabei conseguindo entrar através de uma janela de uma das salas do piso térreo que havia sido deixada destrancada. Uma vez dentro, subi como louco até a sala dele. Dezenas de imagens estouravam em minha mente, cenas deles dois juntos, do que poderiam estar fazendo, de que forma e como eu reagiria ao flagra-los. A cada degrau eu me martirizava com o sentimento de traição que me consumia. Cheguei até a sala dele, mas estava trancada. Bati algumas vezes e por fim, com a ajuda de um extintor eu arrombei a sala. Não havia ninguém lá. Por um segundo pensei que havia enlouquecido, envenenado pelo meu próprio ciúme. Mas então lembrei do carro dele. Se o carro estava aqui ele também estaria. Assim, continuei minha busca, andando pelos corredores e olhando cada sala de aula no caminho. Como se estivesse numa caçada. Meu destino era a sala onde tivemos o curso com ele.

Logo que entrei no corredor da sala do curso, percebi que havia luz saído através do vidro da porta da sala. Era uma luz fraca e amarelada, provavelmente de velas. Aproximei-me devagar, andando rente a parede e evitando qualquer barulho mais alto que minha respiração, até chegar ao lado da porta. Podia ouvir vozes vindo lá de dentro. Mais de uma, com certeza, e uma delas era a mesma que havia ouvido na sala do professor. A voz estranha e com chiados. Na parede em frente a mim, a luz refletia as sombras daqueles que estavam lá. Não podia dizer quantos eram. Suas formas me pareciam como fantasmas disformes. Decidi esticar o pescoço e ver o que estava acontecendo lá dentro.

Demorou a meu cérebro conseguir assimilar o que estava acontecendo. Não parecia real, era como se fosse um tipo de encenação mórbida de teatro. As carteiras haviam sido empurradas para os cantos da sala, as cortinas das grandes janelas de vidro estavam fechadas e a luz que eu tinha visto vinha de uma dúzia de velas espalhadas pela classe, formando um grande círculo. No meio, doze pessoas nuas, seis homens e seis mulheres, corpos pintados em azul com formas e símbolos diversos se amontoavam uns por cima dos outros, numa orgia caótica, ao mesmo tempo em que cantavam continuamente uma canção monótona que a primeiro momento não pude identificar. Dentre eles, pude reconhecer alguns alunos do curso. Os mesmo que costumavam se aglomerar em torno da mesa do professor Jonatas. Fora do círculo estava sua mesa, com duas velas de cada lado e ao lado de cada uma delas havia uma pessoa. Imediatamente reconheci a garota ruiva e o rapaz sorridente. Eles também estavam nus e seus corpos também estavam pintados da mesma forma que os outros. Na lousa, diversos símbolos tinham sido desenhados, juntamente com palavras e desenhos estranhos. Bem no meio, havia sido desenhado um círculo que ocupava toda a altura da lousa, e em seu interior um símbolo estranho, mas ao mesmo tempo familiar. Foi então que percebi o que era aquilo. A canção que estavam cantando, os símbolos em seus corpos e na lousa. Tudo aquilo estava nos textos que eles estudavam com o professor em suas reuniões particulares e no material que Ana o estava ajudando a traduzir. No momento só pude pensar que o homem era um louco, um pervertido que enganou a todos, os seduziu e os convenceu àquela loucura.

Eu estava chocado e com mais raiva daquele tal professor e de mim mesmo por não ter impedido Ana de continuar a se aproximar dele. Os membros do círculo continuavam a cantar cada vez mais alto e aquela voz estranha os acompanhava no mesmo ritmo, mas eu não conseguia identificar de onde ela vinha. Eles cantavam aqueles versos do “Al Azif” cada vez mais rápido e mais alto até atingirem um ponto que apenas mantiveram aquele ritmo. Enquanto isso, eles continuavam a se esfregarem uns nos outros, a se acariciarem e se beijarem. Foi então que eu os vi. Aquele amontoado de corpos e lascívia se afastou e do meio deles, sobre onde todos estavam realizando aquele absurdo, emergiu a figura do professor e junto dele estava Ana. Como os demais, nus e com seus corpos pintados.

Ele a pegou pela mão e se dirigiram calmamente para a mesa frente à lousa. O grupo do círculo voltou a sua orgia e a sua cantoria, assim como os outros dois próximos da mesa, Ana e o professor. Foi então que pude identificar de onde vinha a voz estranha. Era a do próprio professor, que de alguma forma a reproduzia, como se estivesse possuído por algo. Ana também não parecia normal. Seu rosto estava apático, seu olhar vazio, como se estivesse em transe. Ao chegarem à mesa, ele a fez se deitar enquanto ele começava a recitar versos diferentes daqueles que todos cantavam. O professor recitava os versos aos berros. Com os braços erguidos, voltado para a lousa, ele dizia com sua voz gutural e disforme, “Iä, oghu’ah bphag’n bholuah! Iä, Yog-Sothoth! Iä, oghu’ah bphag’n bholuah! Iä, Yog-Sothoth! Venha! Ó, senhor do tempo e espaço! Aquele-Que-É-Uno! Venha! Venha e faça-se carne! Eu vos ofereço um portal! Venha! Traga-nos o escolhido! Ó, Umr at-Tawil! Iä, oghu’ah bphag’n bholuah! Iä, Yog-Sothoth! Iä, oghu’ah bphag’n bholuah! Iä, Yog-Sothoth!”

Neste momento todos os presentes, inclusive Ana, repetiam as palavras do professor numa litania insana. Não podia mais suportar ver tudo aquilo calado e estava decidido a por um fim naquilo. Ainda com o extintor que usei para arrombar a porta da sala do professor Jonatas comigo, abri a porta devagar e começava entrar na sala quando aconteceu. Da lousa começou a sair um tipo de fumaça branca, como gelo seco, e as próprias inscrições pareciam brilhar. Inicialmente era um brilho esbranquiçado fraco, mas logo se tornou um tom estranho de azul e muito intenso. Neste momento o professor percebeu minha presença e se virou para a porta. Seu rosto não era o mesmo que eu conhecia das aulas. Era uma máscara distorcida de loucura. Ele estava pálido e seus olhos injetados de sangue. Ele sorria, seus dentes refletiam o brilho azulado que vinha da lousa, e sua língua se movia de forma obscena. Nunca me esquecerei daquele rosto. Comecei a ouvir um zumbido, que foi aumentando até se tornar insuportável, não apenas para mim, mas como para todos os presentes que também gritavam e levavam às mãos aos ouvidos devido a dor. Os únicos que pareciam imunes ao som eram o professor e Ana, que continuava deitada em transe. De repente um clarão azul veio da lousa, me cegando por completo.

Levei alguns segundos para recobrar a visão, mas talvez tivesse sido melhor a cegueira. Assim que voltei a enxergar, me levantei rapidamente temendo algum ataque contra minha pessoa. Mas ninguém vinha na minha direção. Pelo contrário, todos estavam parados e voltados em direção da lousa, contemplando aquela monstruosidade. Não sei descrever exatamente o que vi. Talvez meus olhos ainda estivessem afetados pelo clarão, mas infelizmente não é o que minha mente diz. Lá estava Ana, sobre a mesa, gritando, desesperada, e ao seu lado o professor. Ele estava de joelhos e recitava os malditos versos de forma rápida e muito alta, com os braços levantados. As pessoas do círculo gritavam e pulavam em regozijo, enquanto os dois que seguravam as velas ao lado da mesa haviam desaparecido. Em seu lugar se encontravam dois grandes montes de um estranho pó azul. Sobre Ana, como se saindo da lousa, havia uma… coisa. Era como se a lousa não fosse mais o que era. Como se ela ainda fosse uma lousa, mas ao mesmo tempo uma janela, uma entrada para algum lugar escuro, preenchido por milhares de grandes pontos ou globos de luz. Estes pontos de luz pareciam vir de muito longe de dentro daquela escuridão, fazendo um rastro até a sala de aula, atravessando a lousa e se depositando sobre o corpo nu e tremulo de minha namorada. Cada uma desses pontos de luz pulsava num ritmo diferente e parecia se mover, ainda que de forma quase imperceptível. Cada palavra dita pelo professor parecia ecoar naquela coisa e cada vez que um de seus pontos pulsava, ecoava a voz do professor.  Não saberia dizer como nem o porque, mas aquilo parecia estar vivo, pois cada vez que Ana tentava se desvencilhar ela era contida.

Tomado de fúria e horror, levantei-me e avancei contra o professor e aquela coisa que possuía Ana. As pessoas do círculo tentaram me deter, mas num único golpe consegui acertar dois deles com o extintor e imediatamente caíram inconscientes. Nesta minha manobra, também acabei acertando umas três ou quatro velas, que acabaram se apagando. Nesse momento, todos que estavam no círculo começaram a gritar desesperados e o próprio professor se virou. Pude ver o medo em seu rosto e entendi que havia encontrado um ponto fraco naquele espetáculo de horrores. Disparei o pó químico do extintor contra o grupo, o que fez mais velas se apagarem e as pessoas começaram a correr desesperadas, tentando fugir. Entretanto, por alguma razão elas pareciam não conseguir sair do círculo. Virei-me para a coisa sobre Ana e com toda minha força arremessei o extintor contra aquilo. Para minha surpresa, o objeto apenas o atravessou, como se não houvesse nada ali, caiu dentro da escuridão além da lousa e desapareceu. Entretanto, a coisa começou rugir e largou Ana. De alguma forma eu a havia afetado. Imediatamente corri até minha namorada e a arrastei para longe daquilo.

Todos pareciam desesperados, inclusive o professor. Ele gritava de joelhos palavras que não me lembro mais, mas com certeza ele suplicava por sua vida. A coisa-criatura rugiu novamente e com um golpe poderoso, seguido de um clarão, desabou sobre o professor. Pensei que aquilo o havia esmagado, mas quando olhei vi seu corpo sendo levado em meio aos globos de luz, rodopiando, para dentro da lousa e para a escuridão sem fim além dela. Enquanto era levado através da criatura, o professor gritava. Mas seus gritos foram diminuindo à medida que ele viajava pela criatura, até desaparecer. Em seu lugar, ali no chão da sala, só restou um monte de pó azul.

Eu havia arrastado Ana para debaixo de algumas carteiras e tentava nos escondermos daquilo. Tentei fechar meus olhos e esperar tudo aquilo acabar, mas meus olhos não obedeceram e eu vi o que aconteceu às pessoas que estavam no círculo. Só posso dizer que seus destinos não foram melhores que o do professor. Após liquidar com eles, a coisa ainda ficou lá pairando no ar, até que houve um novo clarão e quando abri os olhos novamente ela tinha desaparecido. Fiquei abraçado a Ana, olhando para todos os lados, me certificando que aquela coisa tinha ido embora. Só então me levantei e pude ver que a lousa havia voltado ao normal e não havia mais ninguém ali. Por outro lado, a sala inteira estava coberta por aquele estranho pó azul, inclusive eu e Ana.

Voltei até ela e tentei acorda-la. Aos poucos ela foi recobrando a consciência. Estava confusa e me perguntava o que tinha ocorrido. Ela não se lembrava de nada, a não ser da criatura e do que aquilo estava fazendo com ela. Eu a abracei e tentava acalma-la. Ela então começou a chorar e a gritar. Havia alguma coisa errada, ela dizia. Alguma coisa estava acontecendo. Ela olhou em meus olhos, em pânico, e disse, “Ah, meu Deus! Ele está aqui! Ele está aqui!”. Eu tentava acalma-la e dizia que aquela coisa já tinha ido embora, que ela não precisava mais se preocupar. Mas ela continuava gritando, “Não, ele está aqui! Como dói! Como dói! Ele… ele está se mexendo! Eu posso sentir! Ah, meu Deus!”. Foi só então que percebi o que estava acontecendo. Ela se virou e pude ver que sua barriga crescia como um balão. Percebi que eu estava tremendo. “Por favor, faça parar! Faça parar!”, ela gritava. Eu olhava para ela, sem saber o que fazer. Ela se agarrou em mim, tendo espasmos de dor enquanto sua barriga ficava cada vez maior. “Acabe com isso! Eu não quero isso! Por favor, me ajude! Faça! Faça, logo!”. Eu entendia o que ela queria dizer, mas não tinha coragem para aquilo. Ela soltou um grito agudo de dor e olhou para mim com seus olhos cheios de lágrimas. Sem dizer uma palavra, ela me pediu por misericórdia. E assim, fiz a única coisa que podia fazer. Foi rápido, mais rápido do que imaginava. Levantei-me e fiquei ali, contemplando seu corpo sem vida estirado no chão, coberto de pó azul, enquanto sua barriga começava a diminuir até que por fim voltasse ao normal.

A partir desse momento não me lembro direito o que aconteceu. Lembro de ter ficado ainda na sala, sentado ao lado de Ana e depois de estar andando por um dos corredores do prédio, quando fui abordado por um policial. Fui levado à delegacia e interrogado. Segundo o parecer do médico que primeiro me atendeu, eu estava em choque e delirando. Como já disse, fui interrogado diversas vezes, mas é claro que ninguém acreditou na minha versão. Para a polícia, disse que o professor Jonatas era louco e havia aliciado seus alunos para um tipo de culto onde acabaram assassinando Ana. O apartamento dele foi revistado e lá encontraram livros e objetos que realmente levaram a polícia a crer que ele estivesse envolvido com algum tipo de grupo religioso ou culto. Além disso, também encontraram diversas fotos de jovens, principalmente de alunos, acompanhadas de anotações e informações sobre a vida de cada um deles. Entretanto, isso não explica as minhas impressões digitais no pescoço de Ana. Como poderia explicar que o que fiz a ela foi para salva-la?

Não durmo há três dias, desde o incidente. Cada vez que fecho os olhos eu vejo aquela coisa e o rosto desesperado de Ana. Estou numa cela, isolado dos outros presos. Não tenho medo deles, pois sei de coisas muito piores que se escondem por trás de nossa realidade. A lua está cheia e alta no céu. Um disco prateado sobre o mundo. Brilhante como os globos daquilo que levou o professor. Não me importa o meu futuro ou que farão comigo. Só espero que, onde estiver, um dia Ana possa me perdoar.




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