Happy Hour

Publicação: 5 de novembro de 2010

“In her eyes
A distant fire light
Burns bright
Wondering why
It’s only After Dark”

Tito & Tarantula, “After Dark”

Ainda não são seis horas da noite, mas já está escuro do lado de fora. Os motoristas nos carros parados que subiam a rua Augusta acendem seus faróis, mudam as estações do rádio ou falam ao celular para inutilmente ignorar o congestionamento. Enquanto isso, pessoas bebem e riem alto dentro do bar. Mentem umas para as outras, alegando que estão matando o tempo até o trânsito melhorar, mesmo aquelas que irão embora a pé para casa.

Uma das mesas mais animadas está ocupada por cinco pessoas. Quatro homens jovens com cabelos brilhantes de gel, os colarinhos das camisas abertos e gravatas bem guardadas no bolso da calça ou na mochila; além de uma loira de cabelo tingido dentro de um terninho cinza claro, um pouco mais apertado do que ela deveria usar. Já haviam bebido o suficiente para que as formalidades do escritório descessem pela garganta junto com a cerveja e a timidez evaporasse com o álcool. Um dos rapazes perto da loira finge ter muito barulho no ambiente para poder ter o pretexto de falar com ela ao pé do ouvido, rente ao seu rosto. Ela finge que acredita nisso e vez ou outra aproveita para pôr a mão na perna dele, dizendo não ter ouvido direito o que ele disse. Outros dois estão envolvidos num debate acalorado sobre as vantagens e desvantagens de se trabalhar usando o novo modelo do Windows ou um Macintosh. Discussão repetida diversas vezes por eles e que os levava sempre a mesma conclusão: pedir outra cerveja à garçonete. O último elemento, um rapaz grande e forte, mas ainda com cara de moleque de escola, cujo maior orgulho dos últimos tempos era conseguir levantar mais de 100kg no supino e ter transado com a recepcionista musculosa da academia, ignora seus colegas e olha para a morena sentada sozinha junto ao balcão.

Os barulhos ao seu redor não o incomodam. Na verdade servem como trilha sonora para ajuda-lo a se concentrar nela. Ele observa cada detalhe de seu corpo, o jeito como ela se move em cima do banco, a quantidade da porcaria azul que ela toma do copo com um canudo, a forma como ela olha as horas a todo minuto em seu relógio. Ele pensa que ela está arrumada demais para alguém que viria ao bar só para tomar uns drinques e ir embora. Deve ter marcado com alguém, com um outro homem que não é ele. Quando pensa nisso, o álcool faz seu sangue ferver de ciúmes, sem nem mesmo saber quem ela é. Ela toma mais um gole de seu copo e ele mais um de sua cerveja.

A moça loira de riso frouxo com as bobagens que o outro lhe diz ao ouvido, olha para o outro canto da mesa e, percebendo que há algo estranho no ar, pergunta ao rapaz se está tudo bem. Ele diz qualquer coisa e a ignora. Está focado na morena do balcão. Como um predador prestes a avançar. Esperando qualquer sinal dela para poder dar o bote. Toma mais um gole de cerveja e abre outra garrafa na seqüência. Já perdeu a conta de quantas foram. Só sabe que foi o suficiente para saber que não vai parar de beber tão cedo.

A moça chama um homem careca que está atrás do balcão. Um homem alto, na casa dos cinqüenta, com jeito de gringo. “Será que é ele?”, o rapaz se contorce na cadeira ao pensar que aquela beldade de cabelos escuros possa deixar ser tocada por um velho como aquele. Os dois conversam rapidamente. O careca sorri e parece concordar com alguma coisa. Ela também sorri. O rapaz se mantém atento e mentalmente xinga o homem atrás do balcão de tanto nomes que nem mesmo ele lembrava que sabia todos eles. O careca se afasta quando outra pessoa faz um pedido. A morena tira um isqueiro e um maço de cigarros da bolsa. O rapaz se tranqüiliza, não era nada daquilo que ele estava pensado. No fundo, nem mesmo sabe mais o que ele estava pensando. Enquanto ela coloca o cigarro na boca, ele observa a forma como ela acende o isqueiro, o jeito dela dar a primeira tragada e o modo como ela inclina a cabeça para trás para soltar a primeira baforada, jogando os longos cabelos cacheados sobre os ombros. Para ele é como se tudo acontecesse em câmera lenta, o que atiça sua imaginação e o excita.

Ela continua a olhar para o relógio. Cada vez que alguém entra no bar, sua cabeça se vira com ansiedade, mas acaba retornando frustrada para seu drinque. “Ela está esperando alguém!”, conclui o rapaz, incomodado com a idéia de que dentro em breve ela estará com alguém ali, um outro homem, com certeza algum idiota, como seus dois colegas ali ao seu lado. “E se ele chegar e ela sair de lá com ele?”. Ele pensa em tomar uma atitude, mas não sabe direito o que fazer. Não consegue pensar em nada com clareza.

Ela chama o careca de novo e aponta para o copo. Este faz sinal de positivo e começa a preparar outro drinque. Enquanto espera, ela olha para os lados e seus olhos cruzam com os do rapaz. Não passa de algumas frações de segundo, algo casual, mas para um homem bêbado aquilo foi uma eternidade e o sinal que ele tanto esperava. Toma um último gole de cerveja e se levanta rumo ao balcão. A loira o vê se levantar e comenta alguma coisa com o homem agarrado a ela. O rapaz chega ao balcão no mesmo instante que o careca entrega o novo drinque da morena. Antes que ela toque no copo, o rapaz estica uma nota e diz ao careca, “Deixa que eu pago esse!”. O careca olha desconfiado para a moça, que olha surpresa para o rapaz, que por sua vez olha para ela com um sorriso de canto de boca, estilo galão de novela.

Após um rápido “Não, pode deixar” e “Eu insisto…” seguido de “É meu drinque, pode deixar que eu mesmo pago” e um “Faço questão…” e por fim “Desculpe, não te conheço”, o careca pega o dinheiro que a moça lhe entrega e se afasta. Os olhos do rapaz estão vermelhos e piscam vagarosamente. Quando fala, a moça sente o seu bafo de amargo de cerveja e o cheiro de álcool que transborda do corpo do rapaz. Ele tenta puxar assunto, mas ela evita responder. Monossilábica, lhe diz apenas “sim” ou “não”. Na verdade mais “não” do que “sim” e às vezes alguns “não é da sua conta”. Por três vezes ele tenta passar a mão no cabelo dela, mas ela se esquiva. Na quarta vez ele finge tentar acertar o cabelo, mas toca as costas dela e tenta continuar descendo mão além de sua cintura. Ela afasta a mão dele e lança um olhar furioso. Se levanta com o punho fechado, pronta para fazer alguma coisa, mas o careca se intervem e diz: “Acho que o senhor bebeu demais”. O outro rapaz que está com a loira, se aproxima rapidamente e enquanto se desculpa com a morena e o careca, conduz amigo de volta para a mesa.

Ambos voltam aos seus lugares e a loira pergunta de novo se ele está bem e mais uma vez ele responde qualquer coisa e a ignora. Os outros dois agora discutem quem seria o super-herói mais rápido: o Super-Homem ou o Flash. Nem perceberam o que estava acontecendo.

Em sua cadeira, o rapaz se mantém alheio às conversas e continua olhando para a morena do balcão. Está furioso! “Quem ela pensa que é?”, pensa com raiva e murmura consigo mesmo. Em voz baixa a chama de vadia, vagabunda e etc. Não consegue aceitar que ela não queira nada com ele. Logo ele, que conseguiu transar com a recepcionista musculosa da academia e com as três novas estagiárias do escritório!

A morena do balcão termina seu drinque e fica olhando para a porta do bar, esperando que alguém apareça. Mas não surge ninguém que ela conhece. Ela chama o careca e pede por mais um daquele drinque azul e faz um sinal apontando para cima. Ele sorri e balança a cabeça de forma positiva. Ela desce do banco, arruma a bolsa no ombro e puxa a barra do vestidinho preto para baixo, logo acima do joelho. O rapaz escuta o barulho de salto-alto estalando no chão e a vê subir a única escada do lugar que leva aos banheiros.

Ele espera e, assim que ela desaparece no topo da escada, se levanta e vai à mesma direção. “Vou mijar, porra!”, diz em resposta a nova pergunta da loira. Por causa do equilíbrio que lhe falta no momento, sobe os degraus devagar, se agarrado ao corrimão. Chega ao topo da escada e olha para os lados, para ver se não tem mais ninguém lá em cima. Mesas vazias e nem uma alma viva na mesa de sinuca. A música ali em cima é bem mais alta do que no resto do bar. Ele sorri ao perceber isso e vai para o banheiro feminino.

A morena está preocupada. Acha que vai tomar um “bolo”. Retoca o batom, arruma o vestido sobre os ombros e ao abrir a porta do banheiro é surpreendida pelo grandalhão bêbado de agora a pouco. Como um trator ele avança para dentro do banheiro levando-a junto. Ela tenta gritar, mas a mão dele tapa sua boca. Ela reluta, mas ele é bem maior que ela. Com dificuldade ele consegue trancar a porta atrás de si e agora, com as duas mãos livres, a agarra.

Ele a espreme na parede e tenta beija-la, mas ela vira o rosto e lhe dá uma bofetada. Ele tenta de novo e recebe um soco fraco no rosto, mas forte o bastante para machucar sua boca. Ao sentir o gosto de sangue, dá três bofetadas nelas e volta a agarra-la. Se esfrega em seu pescoço, sentindo o perfuma adocicado que ela está usando e enfia uma das mãos debaixo de sua saia, enquanto aperta seus seios com a outra. Ele consegue levantar o vestido quase até a cintura. Ela reluta, se debate e ele lhe dá outra bofetada. De repente ela para de lutar e se cala por alguns segundos. Ele continua a se aproveitar, mas sente que há algo estranho e olha para o rosto dela. Ela está sorrindo.

Devagar, ela leva a mão à boca e tira o dedo levemente manchado de sangue. “Mordi a língua”, ela diz de forma calma e doce. O rapaz toma consciência do que estava fazendo e fica sem palavras. Ele sente que há algo estranho ali, mas não sabe o que. “Não era minha intenção…” – ele diz – “Acho que bebi demais… foi sem querer”. Ela sorri e lhe dá uma piscadela com o olho esquerdo, “É mesmo?”. Aquilo o deixa paralisado, extremamente constrangido.

A morena lambe lentamente o dedo sujo de sangue, olhando fundo nos olhos dele. Ele se afasta um passo para trás e ela avança, enlaçando os braços em torno de seu pescoço e sussurra um acordo em seu ouvido. Ela diz que já que ele é tão valente, o desafia a uma aposta. Se ele acertar a pergunta, ela será toda dele. Ali mesmo, no banheiro, e ela não contará nada a ninguém do que se passou ali. Aquilo instiga o rapaz, que imediatamente leva as mãos à cintura dela e logo depois começa a apertar suas nádegas. “E se eu errar?”, ele diz. “Você será meu!”, ela responde e enfia a mão dentro das calças dele. “Fechado! Eu topo!”, o rapaz sorri, ela sorri e os dois se beijam rapidamente. Ela se aproxima da orelha dele novamente e sussurra a pergunta. “O quê?”, ele diz fazendo uma careta. Ela repete a pergunta, falando mais devagar e ao final lhe dá um beijo no pescoço. Ele pensa um pouco e por fim diz, “Acho que já sei… é aquele filme, não é? Das duas irmãs? Passou esses dias na televisão! Esqueci o nome…”.

Ela olha para ele e balança a cabeça fazendo beicinho, “Não. Você errou. Agora você é todinho meu!”. Ele tenta dizer alguma coisa mas, quando percebe, ela já o está beijando. “Ela beija bem, muito bem!”, ele pensa. Nunca tinha conhecido uma mulher que beijasse tão bem assim em toda sua vida. Sua boca é macia, quente. Ele a puxa para mais perto de si e ela se enrosca em seu corpo, os braços novamente em seu pescoço.

Suas mãos começam a puxar o vestido dela para cima de novo, mas ela não se importa nem um pouco. Ele continua. Faz tanto tempo que estão se beijando que começa a ficar sem ar. Tenta respirar, mas não consegue. Alguma coisa está errada. Leva as mãos à nuca e segura os braços dela para se desvencilhar, mas também não consegue. Eles parecem ser feitos de aço. Ele tem certeza que há algo errado naquilo tudo. Para de beija-la e quando tenta gritar com ela sua voz não sai. Sente gosto de sangue em sua boca, muito sangue. O rapaz entra em desespero ao perceber que sua língua foi mastigada por ela. Ele usa toda sua força para se livrar de seu abraço, mas é em vão. Grita novamente e o que sai é apenas um grunhido, que soa abafado pela música alta do lado de fora.

Ela o arrasta para a privada, jogando-o sentado sobre o vaso. Aos seus olhos ela ainda está ali, mas ao mesmo tempo não está. A morena de cabelos encaracolados e corpo esguio ainda está ali, sorrindo para ele, como antes. Entretanto, de alguma forma sobreposta a sua imagem, também é ela, ou algo semelhante ao que ele acha parecido com ela. Seu rosto, seus ombros, seus seios nus como ele os imaginava, mas ela não tem mãos. São garras que o seguram ali. Ela possui asas! Tão grandes que tocam o teto do banheiro, projetando uma grande sombra sobre ele. Ela sorri e a cada mordida é um pedaço de seu corpo que ele vê ser engolido por sua boca cheia de dentes afiados. Com suas patas ela o estrangula e antes que perca os sentidos, pode ver horrorizado o monstro devorar suas vísceras. No último instante, quando sua visão começa a ficar turva e escura, ele vê o rosto que havia lhe atraído lá embaixo no balcão do bar sorrindo para ele uma última vez. Ela olha para ele, lhe dá um beijo, e sussurra: “Apesar de você não merecer, serei rápida. Prometo”.

A música ambiente do bar continua alta e o cantor, de voz um tanto esganiçada para seu gosto, fala alguma coisa sobre Satã abrindo suas asas ou alguma coisa do tipo. Estilo heavy metal dos anos setenta. Antes de descer a escada, ela ajeita o vestido e arruma o cabelo com as mãos. Com a bolsa a tiracolo, se segura no corrimão e desce os degraus despreocupada. Ao passar pela mesa dos colegas do rapaz, vê a loira e o outro rapaz se beijando e os outros dois conversando sobre a melhor capa da revista Playboy de todos os tempos. Nenhum deles percebe ou parece se importar que há uma quinta cadeira vazia em sua mesa. Quando chega de volta ao balcão, o careca está conversando com um homem de jaqueta preta e cabelo bem curto, sentado no banco ao lado do dela. O careca olha para ela e busca um novo drinque e os deixa sozinhos para ir atender outros fregueses.

“Está atrasado”, ela diz sem se dirigir a alguém especificamente. O homem de jaqueta, que aparenta ser mais novo ainda que o outro que estava no banheiro com ela, toma um gole de uma cerveja escura e retira o excesso de espuma do bigode com a língua. “Tive uns problemas”, ele diz. Silêncio. Depois complementa, “Foi por causa do Fred”. Ela toma um gole do líquido azul e fica quieta. Os dois continuam em silêncio por mais algum tempo, até que ele olha para ela, começa a rir e toma mais da cerveja. A morena olha para ele com uma cara irritada. Seus olhos parecem dizer “O quê foi?”. O rapaz de jaqueta ri de novo, “Nada. Só que… Você está com a cara do gato que comeu o canário da vovó”. Ela fica quieta, emburrada, e acende um cigarro. Depois da terceira tragada ela engasga e começa a rir, “Engravatado. Um dos que estavam naquela mesa ali do canto”. Ele se inclina para trás para poder enxergar e vê os quatro na mesa, “Engravatado? Você tinha bom gosto antigamente”.

Ela o olha de canto de olho com desdém e solta outra baforada. “Ele não acertou a pergunta”, ela diz em tom de desabafo. O rapaz olha surpreso para ela, “Você chegou até a propor uma pergunta para ele?!”. Ela dá mais uma tragada, soltando a fumaça para cima, tentando evitar o rosto do rapaz, “Ele me provocou. Só quis dar uma chance para ele, mas…”. O rapaz de jaqueta espanta a fumaça do cigarro que insistiu em baixar sobre ele e pergunta, “Qual foi a pergunta? A das idades?”. Ela apaga o cigarro e balança a cabeça, “Não! Essa é muito conhecida. Foi sobre as das duas irmãs. Dia e Noite. Eles nunca acertam essa. Sempre pensam que é sobre sacanagem”. O rapaz solta uma gargalhada, toma outro gole de cerveja e desce do banco rumo à porta. Enquanto ela termina depressa seu último drinque e se junta a ele, o trânsito começa voltar a fluir tranqüilo do lado de fora e os dois saem, subindo a rua.



Categorias Happy Hour

Baixe em PDF

Quer este material em PDF?

Basta clicar no link abaixo!

Happy HourClique baixar esta publicação

aoLimiar

Divulgue você também sua obra no aoLimiar.

O aoLimiar - Rede Social de Editoras, Escritores e Leitores de Literatura Fantástica.

Hospedagem aoLimiar | Projeto dotWeb