Maya

Publicação: 6 de abril de 2010

Depois de três lances de escada, estou frente à porta. Confirmei com o porteiro o número do apartamento: 303, não havia dúvida. Respiro fundo e, mais ansiosa do que receosa, pego as chaves em meu bolso e testo uma por uma na fechadura, até que uma delas consegue abrir a porta. Abro apenas uma fresta e sinto um cheiro de ar viciado, de um lugar que não é aberto há muito tempo. Antes de entrar, recolho correspondências antigas e folhetos que se amontoam no batente da porta. Ao entrar, abro todas as janelas e deixo que um ar novo e fresco renove o ambiente. Depois de algum tempo acendo um incenso que achei jogado numa gaveta, o perfume suave ajuda a livrar o lugar de seu cheiro de fundo de malha velha.

Além dos livros que preenchem todas as paredes do apartamento, pilhas deles também se espalham por todos os cantos do chão, como se fossem prédios de uma cidade em miniatura. Com certeza ele passou anos dentro de livrarias e sebos, amontoando aquele seu tesouro como os dragões dos contos de fadas. Um tesouro contabilizado não em ouro, como nas lendas. Afinal de contas, ele não deixou nada para ninguém. Todo o dinheiro que um dia havia conseguido estava ali, convertido em milhares de páginas e tinta impressa.

Com dificuldade, perambulo pelo labirinto de poeira e livros e chego a sua mesa, onde está seu computador. Num canto vejo um colchão velho, onde ele devia passar as poucas horas de sono que se permitia fora dos livros. Pego um envelope em meu bolso e de lá retiro um pedaço de papel com uma senha de acesso. Ligo o computador e digito os seis números. O programa continua a funcionar e finalmente tenho acesso às informações que estão guardadas ali.

Trata-se de um tipo de diário, narrando dia a dia seus estudos, reflexões e como ele estava lidando com tudo aquilo. São muitas informações, das quais não tenho total conhecimento para lidar com elas de forma adequada. Para falar a verdade, demoro para compreender o que se passava com Antunes O. Delveccio. Não lembro o que “O.” significava.

Meu ex-marido não era um homem muito religioso, mas tinha sua própria crença. Ele dizia que cada um de nós possui um dom, uma habilidade só nossa que nos impulsiona através da vida. Uns sabem desenhar, outros cantam, uns escrevem, outros constroem coisas e assim por diante. Na primeira vez que ele conheceu Delveccio o achou estranho. Não necessariamente de uma forma negativa, mas dizia que havia algo diferente com ele. Delveccio tinha um dom raro, muito falado, mas muito pouco compreendido. Seu dom era a onisciência. Onisciente sobre a própria vida. A principio pode-se pensar que isso seria excelente de se ter, mas ao se pensar melhor, isso significa uma vida sem surpresas, sem descobertas e sem novidades. É viver um eterno presente. Pode-se pensar isso, mas Delveccio demonstrou que seu dom era muito mais do que nossas mentes podem imaginar.

Conheci Delveccio nos tempos de escola. Lembro-me dele como um menino calado, tímido, sentado no fundo da classe. Não falava com ninguém, apenas com alguns poucos amigos próximos. Ele parecia estar sempre em outro lugar, distante, pensando profundamente em alguma coisa. Se lhe perguntássemos sobre o que pensava, desconversava e mudava de assunto. Com o passar do tempo ele não mudou muito. Sempre que se queria encontra-lo bastava ir até a biblioteca da escola e encontra-lo debruçado sobre um amontoado de livros dos mais variados assuntos. Ele os lia e tomava notas num caderno pequeno de capa preta. Nunca deixava que víssemos o que anotava nele.

Como disse, estudamos juntos desde criança, crescemos, nos formamos e mesmo tendo feito faculdades diferentes, continuamos amigos. Perdi um pouco o contato com ele quando comecei a namorar meu futuro marido. Nos afastamos mais ainda quando me casei. Às vezes tinha notícias dele através dos poucos amigos que ainda tínhamos em comum. Por fim, Delveccio desapareceu de minha vida. Sempre senti muita falta dele.

Após cinco anos de convivência, meu casamento afundou no pântano da rotina, o que nos arrastou a um lamaçal de infidelidades de ambos os lados e a solução foi aceitar os fatos e nos separarmos. Passei algum tempo sozinha e navegando por relacionamentos rápidos e as vezes intensos. Mas nenhum deles me parecia que iria se transformar em algo promissor. Nesses momentos lembrava das conversas que tinha com Delvecchio. Ele sempre sabia o que dizer quando eu estava deprimida e confusa, a palavra certa na hora certa, mesmo que eu não gostasse muito de ouvi-las na hora. No final sempre lhe dava razão, mesmo que não admitisse isso para ele. Sentia saudades dele.

Uma semana atrás recebi um telefonema que mudou completamente minha vida. O telefone tocou e fingi que não o ouvia. Sempre tive a política de nunca estar disponível para o mundo antes das onze horas da manhã de um sábado. O telefone se calou e voltou a tocar novamente e repetiu o mesmo durante quase dez minutos. Decidi abrir uma exceção e atende-lo naquele dia. Um homem, se identificando como policial, me perguntou se eu conhecia alguém chamado Antunes Delveccio. Fiquei assustada e não respondi de imediato, o que fez o policial repetir a pergunta. Após confirmar que o conhecia, o policial pediu para que eu me apresentasse para a identificação de um corpo que possivelmente seria o de Delveccio.

Apavorada, me dirigi o mais rápido possível até o necrotério que o policial me indicou. Após me apresentar na recepção, um policial me levou até uma sala refrigerada, cheia de macas e corpos cobertos por lençóis brancos. Fui levada até uma delas e o policial descobriu o rosto do cadáver. De fato era ele. Meu amigo estava morto. Estava tão chocada que no momento não consegui esboçar qualquer tipo de reação, paralisada por uma apatia nervosa.

Segundo as informações da policia, Delveccio estava de madrugada num ponto de ônibus próximo de sua casa. Pouco antes das seis horas, um carro descontrolado apareceu e avançou sobre a calçada, atropelando os pedestres que estavam no ponto. Quatro das vítimas tiveram ferimentos leves, uma foi hospitalizada com diversas fraturas pelo corpo, mas estava fora de perigo; e uma morreu imediatamente: Delveccio. O motorista, um rapaz de vinte anos, foi preso e constataram que ele estava dirigindo embriagado. A polícia havia chegado a mim porque quando verificaram o corpo de Delveccio, descobriram que ele segurava um papel na mão com meu nome e telefone. Aquilo era muito estranho.

Assim que sai do prédio encostei em um poste para fumar um cigarro, mas antes de conseguir acende-lo já estava chorando compulsivamente. Comecei a caminhar sem destino por um bom tempo, tentando acreditar que o que havia acabado de acontecer era real. Quando minhas pernas não agüentavam mais, entrei num táxi e voltei para casa. Ao chegar, o porteiro me entregou uma caixa que o carteiro havia acabado de entregar. O remetente era Delveccio! Entrei correndo em meu apartamento e a primeira coisa que fiz foi abri-la. Dentro encontrei um molho de chaves, um envelope com a senha do computador, um cartão postal com uma ilustração de Salvador Dali e uma carta. Tanto o cartão quanto a carta haviam sido escritos de próprio punho por Delveccio. No cartão ele havia escrito três linhas num idioma que eu desconhecia. Parecia um poema, mas não tinha certeza. A carta era grande e a primeira frase era “Maya, o tempo é uma mentira!”, uma frase repetida diversas vezes por ele desde que nos conhecemos. Era seu grito de guerra. Ele sempre soube que isso era verdade…

Consegui falar com alguns amigos antigos que ainda tinha contato e no dia seguinte fomos no enterro. Além da família de Delveccio, apenas uma tia e um primo, compareceram dois amigos nossos e eu. Foi uma cerimônia simples e sob chuva. Logo que terminou, nos despedimos e cada um foi para sua casa. Eu voltei para meu apartamento e li novamente a carta que ele havia me enviado. Li a carta e agora leio o seu diário no computador em sua casa. Delveccio não foi vítima de um acidente, mas também não foi um ato de suicídio como sugerido por sua tia durante o enterro. Ela disse que ele vivia deprimido, isolado. Raramente falava com ele. Para ela, tudo isso indicava que ele teria pulado na frente do carro. Eu sabia que ela estava completamente equivocada. Ela não conhecia Delveccio como eu o conhecia.

Quase todos os livros que estavam naquele apartamento eram citados em seu diário. Todos em sua maioria livros sobre filosofia, tradições antiqüíssimas, conhecimentos gnósticos e demais textos de conteúdo hermético. Ele havia passado todos aqueles anos isolado, mas  estudando, tentando compreender seu dom, e não pensando em se matar como acreditava a tia. Creio que por fim ele havia solucionado o enigma que era sua mente.

Quando terminei o diário, levantei-me e folheie alguns dos livros. Fui abrindo-os como que seguindo um rastro que me levou ao dormitório que deveria ser seu quarto. Entretanto, ao invés de uma cama e mais livros, encontrei um quarto vazio. Por outro lado, suas paredes, o teto e o chão estavam completamente preenchidos com números, datas, horas, nomes, símbolos e frases escritas por ele. Tudo aquilo era como uma versão física e caótica de seu diário.

Tanto no diário quanto nas paredes do quarto ele dizia que em breve estaria livre para atravessar o “véu da existência” e viajar pela “rede de Indra”. Ainda não sabia o que tudo aquilo significava, mas sentia que era algo importante. Os nomes mais improváveis apareciam em suas anotações e se mesclavam. Filósofos, pensadores, místicos, escritores, poetas, cientistas… Alguns me eram familiares, outros completamente obscuros. Mas em seu diário ele conseguia demonstrar como, no fundo, todos eles estavam harmonicamente falando da mesma coisa. Me sentia como uma exploradora que havia acabo de descobrir uma caverna ou um templo antigo cheio de inscrições milenares. Tentei ler cada uma das mensagens ali gravadas com a maior atenção possível. Conforme lia, sentia como se uma força, como se algo estivesse me conduzindo para a resposta de uma pergunta que eu nunca havia tido capacidade de formular.

Ao terminar de explorar as paredes do quarto, repeti a frase: “O tempo é uma mentira!”. O tempo é o engodo no qual nos fizeram acreditar. Agora eu consigo compreender o que ele queria dizer. Desde a infância notava um brilho intenso em seu olhar. Uma faísca, uma energia oculta. Seu olhar por vezes era perturbador. Mas hoje o entendo.

“O tempo é uma mentira!”, era por isso que ele estava com meu nome em suas mãos quando foi atingido pelo carro. Ele iria me encontrar para me mostrar sua descoberta, mas ele sabia que tentariam detê-lo.

Não sei como, mas ele o fez, rompeu a prisão do tempo. Sua mente era livre. A mesma mente oculta por trás daqueles olhos quando jovem era a mesma quando adulto e seria a mesma quando velho. Não me refiro a sua personalidade, mas a sua mente em si.

Para ele não havia mais passado, presente ou futuro, pois o tempo não existia mais para ele. De alguma forma ele rompeu com a ilusão temporal e sua mente coexistia ao mesmo tempo com todos os momentos de sua vida. Isso explicaria o porque ele não envelhecia. É claro que os efeitos físicos dos anos se abatiam sobre ele como sobre qualquer um de nós. Mas ainda assim, apesar de sua aparência, ele sempre parecia mais jovem, mais bem disposto que qualquer outra pessoa. Era como se ele simplesmente ignorasse o passar do tempo ou envelhecesse num ritmo diferente. Posso dizer que, de fato, era mais ou menos isso!

Por muito tempo me questionei sobre isso enquanto lia o diário. Se era realmente verdade, como foi possível que viesse a morrer de forma tão inesperada e acidental? Se ele possuía a onisciência de sua vida, como ele não previu que o carro o atropelaria? A resposta que encontrei foi a de que se realmente o tempo é uma farsa, o espaço também o há de ser. Assim, sua morte acabou sendo sua libertação. Sua mente era livre, mas seu corpo ainda não.

Não há dúvidas de que tinha falecido, eu mesmo fui ao necrotério para o reconhecimento do corpo. O que quero dizer é que esta foi a forma que encontrou para se libertar desta nossa realidade. Não estou aqui insinuando que sua alma tenha ido para um Paraíso ou Inferno ou ainda qualquer outro tipo de mundo espiritual. Nada disso! Seu corpo morreu neste universo como o conhecemos, mas não sua mente. Ele se livrou de tudo isso que nos cerca. Apenas isso.

Nas paredes do quarto, entre os milhares de registros havia um com a data de sua morte e a palavra “apocalipse”. Se sua tia tivesse visto aquilo certamente diria que aquele era um indício de que ele teria de fato se suicidado, poderia dizer que aquele era um sinal de sua insanidade. Mas na verdade “apocalipse”, como eu sabia, significa “revelação”. Delveccio sabia que iria se libertar desse mundo naquele dia. Por isso me enviou a caixa com seus pertences um dia antes. Ele queria que eu soubesse de tudo, mas por quê?

Continuei a ver as inscrições na parede, e acabei encontrando uma com a data de hoje e um horário. Verifiquei o relógio e me surpreendi em ver que faltava dois minutos para o horário marcado na parede. Logo abaixo, as três frases que estavam no cartão postal estavam lá também:

Asato ma sad gayama
Tamaso ma jyotir gayama
Mrutyor ma amritam gayama

Logo abaixo, a tradução:

Da ignorância me guie à verdade
Das trevas me guie à luz
Da morte me guie à imortalidade

(Brihadaranyaka Upanishad, 1.3.28)

Sentei-me no chão e chorei. Apesar de agora acreditar em tudo aquilo, não podia conter a emoção que estava sentindo.

Penso que é provável que neste exato momento ele esteja nos observando, seja lá onde esteja, não como um anjo olhando para os homens na Terra, mas como um observador que se diverte com pequenos ratos brancos presos num labirinto de testes. Presos em nossa ilusão que chamamos de realidade.

Enxugo as lágrimas e ergo o olhar para a parede novamente. Sinto um pressentimento estranho, como uma presença e olho às minhas costas. Estou sozinha. Volto para a parede e exatamente na altura de meus olhos vejo uma inscrição com um novo horário. Dois minutos haviam se passado desde que tinha lido o registro anterior. A inscrição dizia: “Não chore! Acalma-se!”.

Ainda estou terminando de ler a última frase quando sinto uma mão pousando em meu ombro. Eu sei quem é, mas não me viro.
–    Maya, o tempo é uma ilusão!
As paredes do quarto começam a se desmanchar.
–    Não tenha medo…
O apartamento também se desmancha.
–    Para onde vamos?
–    Para onde nunca deveríamos ter saído…
O mundo inteiro se desmancha, creio que eu mesmo tenha desaparecido, mas agora eu estou em outro lugar com Delveccio e sei que não apenas o tempo é uma ilusão.



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Uma Resposta para
     “Maya”

  • disse: 6 de abril de 2010

    Elton, muito bom este texto! Muito bom mesmo!

    Li o pequeno trecho no “Assim Falou Eosm…” e vim correndo para cá para terminar de ler.
    O texto é completamente envolvente e lhe dou os parabéns por escrever através de uma personagem feminina sem cair em trejeitos ou “sentimentalismo barato de novela”.

    Parabéns!

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