O Arguile de Prata

Publicação: 18 de maio de 2010

O arguile sempre esteve lá e sempre estará, ao menos para mim. Não sei por mais quanto tempo conseguirei suportar o gosto amargo do tabaco, misturado ao sabor doce e enjoativo do mel. Só sei que se eu parar, tudo irá desaparecer numa simples baforada de cor esmeralda. Ainda posso ver a face morena do velho, seu sorriso de dentes amarelos incrustado no meio de sua espessa barba branca, os olhos injetados e sonolentos contemplando o nada enquanto falava comigo e a nuvem de fumaça que nos envolvia. Gostaria de nunca tê-lo encontrado, mas se não tivesse feito isso, será que ainda estaria aqui? Será que tudo ainda estaria como está?

Na época eu estava realizando pesquisas para o meu doutorado sobre a arquitetura dos prédios construídos pelo escritório de Ramos de Azevedo, entre o final do século 19 e começo do 20. Havia passado o primeiro semestre daquele ano de 198… andando pela cidade e visitando prédios, procurando por suas plantas originais e tirando fotos. Os conhecia intimamente, muito mais do que minha própria casa. A Pinacoteca do Estado, Teatro Municipal, Palácio das Indústrias, Palácio da Justiça, Palácio dos Correios, o Colégio Nossa Senhora de Sion e outros. Falava deles como se eles fossem amigos íntimos ou parentes próximos. Claro que o prazer em falar deles era algo exclusivo meu. Não que eu me negasse a falar sobre o assunto com outras pessoas, muito pelo contrário. Quando me perguntavam sobre minha pesquisa, eu prontamente iniciava meu discurso quase ensaiado sobre as nuances de estilo, as características arquitetônicas do período, a história da vida de Ramos de Azevedo e da origem de seu escritório. Não é difícil imaginar que após alguns minutos as pessoas já tivessem se arrependido de ter me perguntado sobre o assunto e logo se entediassem, o que é natural ao se tratar de um assunto específico o qual poucos conhecem.

Após ter feito meu levantamento inicial, decidi que o melhor seria eu me focar num único prédio e estuda-lo a fundo, utilizando as informações obtidas com os outros como material de apoio. O problema foi escolher o prédio. Depois de muito pensar e passar noites dormindo por apenas três horas, finalmente havia conseguido me decidir. O prédio sobre o qual iria desenvolver minha pesquisa seria o grande Mercado Municipal. A escolha se deveu ao estilo eclético do edifício, além de poder estudar também o trabalho de outros dois nomes importantes para o prédio. Felisberto Ranzini, responsável pelo traço das fachadas e Conrado Sorgenicht, que elaborou os vitrais internos do Mercado.

Quase todos os dias eu ia até lá, ao Mercado Municipal, para estuda-lo, copiar esboços de detalhes interessantes que encontrava em meio a barracas de frutas, carnes e peixes. Rolos de filmes se amontoavam em minha mochila conforme eu registrava cada parte do edifício. Com o tempo, acabei ficando amigo de alguns vendedores e demais funcionários. Alguns dias, com um pouco de sorte e gentileza, economizava meu dinheiro do almoço de tanto provar o que me ofereciam em cada uma das barracas que passava. Provava um pouco de frios e queijos numa barraca, depois amostras de frutas e terminava gastando apenas com um copo d’água no final do dia. Às vezes comprava alguma coisa, para não parecer que eu estava me aproveitando da boa vontade deles.

Nem sempre era possível utilizar a benevolência dos vendedores do Mercado, o que me obrigava a visitar os entornos da região, em busca de uma lanchonete ou restaurante que cobrasse um preço justo. O que não era uma tarefa assim tão difícil se você soubesse aonde ir e como procurar. Na maioria das vezes acabava comendo em algumas das lojas e restaurantes árabes das redondezas. Por alguma razão, havia um grande número de lojas de artigos e comidas árabes na região, o que por si só poderia render uma outra pesquisa acadêmica, talvez sociológica ou até mesmo antropológica.

Como estava sempre por ali, também acabei fazendo amizade com alguns garçons e donos de algumas lojas. Aprendi sobre comidas, temperos e iguarias árabes que nunca havia nem mesmo imaginado que poderiam existir. E foi numa dessas lojas, em meio a cheiros exóticos e pratos com nomes curiosos para os ouvidos ocidentais, que conheci o senhor Hassan.

Recordo que era um dia bem quente. O calor beirava o insuportável, o que fazia com que eu transpirasse como se estivesse correndo uma maratona. Já havia tirado mais algumas fotos do último andar do Mercado, mas ainda precisava de mais justamente quando acabou o filme de minha máquina. Aproveitando a oportunidade, decidi ir almoçar e deixar para trocar o filme depois. Fora do Mercado, o sol não perdoava a ninguém. Vi os carregadores retirando a carga dos caminhões parados ao redor do prédio e dei graças por não ser um deles, ali, naquele calor, tendo de trabalhar levantando caixas e sacos pesados.

Sai pelo portão principal e comecei a pensar em onde iria comer. Conhecia praticamente todos os restaurantes, lanchonetes e lojas da região. Caminhei um pouco mais do que o habitual para ver se me surpreendia com alguma coisa de novo. Depois de algum tempo, e com a barriga roncando de fome, desisti de minha busca e achei melhor escolher qualquer uma das opções já conhecidas e aprovadas por mim. Afinal de contas, ainda tinha trabalho a fazer durante o restante daquela tarde. Por fim, acabei almoçando um sanduíche com refrigerante num dos poucos locais não árabes do quarteirão, há poucos metros do Mercado.

Ali mesmo no balcão do bar eu troquei o filme de minha máquina e tomei um café, antes de voltar para o Mercado. Bastava que eu atravessasse a rua e estaria de frente para a grande entrada do prédio, mas alguma coisa me fez olhar para o lado. Não sei exatamente o que me chamou a atenção, se foi o vermelho intenso da placa suspensa sobre a entrada ou o cheiro do fumo que vinha lá de dentro, mas fato é que quando me dei conta estava entrando na tal loja.

A placa, que talvez tivesse chamado minha atenção, era grande e emoldurada com complexos arabescos cor de sangue pintados com grande precisão. No centro, sobre um fundo cor de areia, estava escrito também em vermelho: “Alah Amut: artigos e presentes”. Lá dentro havia uma variedade imensa de objetos. Vasos, abridores de cartas, facas, punhais, tapetes, tabuleiros, espadas, estátuas, pinturas, mapas, baús de variados tamanhos, arguiles de diversas cores e estilos e incensos dos mais variados aromas. Como disse, havia muitas lojas semelhantes na região, mas aquela tinha algo diferente. Olhando de fora ela não parecia ser muito grande. Era estreita e se aprofundava para dentro do quarteirão. Entretanto, uma vez lá dentro ela parecia muito mais ampla do que aparentava. Talvez isso se devesse pelos espelhos que existiam atrás das prateleiras.

Entrei e fui caminhando pela loja, admirando tudo que via como se estivesse num museu. De fato, o que via realmente parecia coisa de museu. Diferente de outras lojas, onde os objetos costumavam ser simples reproduções e cópias decorativas de artigos reais, tudo o que estava ali à venda parecia real e ao mesmo tempo aparentava certo uso. Aos poucos fui me dando conta que mais do que uma loja de presentes estava dentro de um legítimo antiquário árabe.

Conforme ia admirando as prateleiras, também ia me deixando levar cada vez mais para o fundo da loja e quanto mais me aproximava de lá, mais forte se tornava o cheiro do fumo que impregnava todo o ambiente.

–    Precisa de ajuda? – ouvi dizerem às minhas costas.

Virei depressa, assustado com a pergunta repentina, procurando por alguém. Ainda sob a influência do susto, não achei ninguém por perto. Mas conforme me acalmei, pude começar a identificar os contornos de um vulto no meio da nuvem de fumaça que vinha de um arguile sobre uma mesa no fundo da loja. Afastei a fumaça com a mão e ao me aproximar, vi um homem sentado ao lado da mesa. Era um senhor de idade avançada, tinha uma barba farta e muito branca, menos ao redor das narinas e da boca, que estava amarelado; obviamente fruto de anos de fumo. Usava trajes tipicamente árabes, completamente de preto. Era como se ele tivesse saído de um livro antigo das “Mil e Uma Noites”. Ao seu lado, sobre a mesa, estava um tabuleiro de gamão com uma partida pela metade e um grande arguile prateado. Em seu topo era possível ver a brasa do carvão que queimava o fumo, e ligada ao arguile, como uma serpente, a mangueira que o velho segurava avidamente junto à boca para poder fumar. Sua base de vidro era de um verde muito escuro, quase fosco, cheia de água e cada vez que o velho sugava pela mangueira, um turbilhão de bolhas surgia lá dentro; enquanto nuvens esverdeadas saiam da boca e das narinas do homem.

–    Precisa de ajuda? – ele perguntou novamente, com uma voz extremamente rouca e vibrante.

Fiquei ali parado alguns instantes, sem saber o que dizer. Assim que consegui dizer alguma coisa, me desculpei e disse que estava apenas admirando a loja. Ele, por sua vez, sorriu, exibindo arcadas de dentes amarelos, e disse para que eu ficasse a vontade em sua loja. Continuei minha visita, um pouco incomodado, consciente que estava sendo observado e não era apenas pelo velho. Notei que um rapaz, também com trajes árabes, inteiramente de branco, me observava de trás do balcão de vidro da loja, ao lado da maquina registradora.

Tentando disfarçar meu embaraço, me aproximei do jovem e inventei a história de que eu estava procurando um presente para um amigo. Na verdade, até hoje eu não sei porque fiz aquilo e de onde veio aquela idéia. Eu poderia simplesmente ter saído da loja e tudo estaria acabado. Mas não foi o que aconteceu. Prontamente o rapaz deu a volta no balcão e se colocou ao meu lado, sugerindo alguns artigos próximos de nós. Obviamente eu recusava cada uma de suas sugestões, dizendo que aquilo não era muito o estilo de meu suposto amigo, ou qualquer desculpa do gênero. Enquanto estávamos percorrendo a loja, o velho apenas nos observava, atento ao que dizíamos. Em certo momento, ele parou de fumar, soltou uma grande nuvem de fumaça no ar e disse em meio a um pigarro:

–    Mostre os arguiles para ele!

O rapaz voltou-se para ele e disse algo em árabe, ao que o velho respondeu apenas com uma expressão de desdém e um gesto com a mão, que entendi que independente da opinião do rapaz era para ele fazer o que o velho havia dito.

–    Venha por aqui, por favor. – disse o rapaz, indo para o fundo da loja.

O acompanhei até o final do balcão, a poucos metros da mesa do dono. Ele pediu que eu esperasse ali e se dirigiu para uma passagem atrás do velho, oculta por uma cortina feita do que pareciam ser contas e sementes do tamanho de uma nós. Quando ele a atravessou, a cortina fez um som de chocalho e logo ele havia desaparecido. Fiquei sozinho, na companhia apenas do dono da loja que não parou de fumar nem por um segundo. Sem conseguir disfarçar meu desconforto, pensei que aquele poderia ser o momento perfeito para sair correndo dali e voltar para o Mercado, ou até mesmo para casa. Mas o velho olhava fixamente para mim e aquilo inibia qualquer tipo de atitude evasiva de minha parte. De repente me vi dizendo:

–    Acho que o senhor está perdendo, não?

O velho me olhou confuso e soltou outra baforada, fazendo sua boca se parecer com uma grande fornalha.

–    Como?
–    O jogo. Parece que o senhor está perdendo o jogo, não está?

Ele então olhou para o jogo de gamão a sua frente e depois olhou novamente para mim. Sugou a mangueira do arguile e soltou mais fumaça no ar.

–    Você está certo. Estou perdendo.

Nesse momento o rapaz retornou com três caixas de papelão de diferentes tamanhos nos braços e as colocou sobre o balcão de vidro. De dentro de cada caixa ele retirou um arguile, um maior que o outro, embrulhados com um papel branco e muito fino. Os três arguiles eram idênticos em todos os detalhes, exceto pelo tamanho de cada um. Comparados com o que o velho estava fumando, estes eram extremamente simplórios. Bonitos, mas nada excepcionais.

O rapaz os posicionou a minha frente e explicava as possíveis diferenças e vantagens de cada um deles. Informações que sinceramente não me interessavam nem um pouco, mas mesmo assim fingia estar interessado olhando-os com curiosidade. Quanto mais o rapaz falava, mais aumentava meu desespero e menos idéias eu tinha de como me desculpar com ele e sair daquele lugar. Cada oferta feita eu recusava com um sorriso sem jeito. Entretanto, aquilo não surtia nenhum efeito e só fazia o garoto falar ainda mais e baixar o preço dos arguiles. Foi então que a voz do velho soou novamente, como um trovão, fazendo o rapaz se calar no meio de uma frase. Ele havia dito alguma coisa em árabe, acredito eu, e em seguida se dirigiu a mim.

–    Não deixe que ele o confunda, meu jovem. Iblis fala demais, confunde as pessoas e por fim elas acabam comprando qualquer coisa que ele oferece, só para se livrarem dele. Escolha o que você quiser levar, não se apresse.

O rapaz, que agora sabia chamar-se Iblis, olhava de soslaio para o velho com certo embaraço. Agradeci ao velho e voltei a olhar para os arguiles sobre o balcão e para Iblis, que agora estava calado e de cabeça baixa. Mais do que antes, me sentia preso em minha mentira e não sabia o que dizer para o rapaz e para o velho. Não tinha coragem de ir embora sem levar nada após o tempo que permaneci dentro da loja e da intervenção do dono. Perguntei novamente o preço do menor dos arguiles, pouco menor que uma garrafa de cerveja. Ainda com os olhos baixos, Iblis me informou o preço, que não era tão caro quanto eu pensava. Disse que iria leva-lo e imediatamente o rapaz começou a guarda-lo na caixa novamente.

–    Você sabe fumar um desses, meu jovem? – perguntou o velho. Sua voz vindo sorrateiramente do meio de uma nuvem de tabaco e vapor d’água.

Disse a ele que sim, sem muita convicção, o que fez o velho sorrir e dizer novamente algo que não entendi para Iblis.

–    Por favor, sente-se e eu lhe mostrarei como se faz. – disse o velho, apontando para a cadeira vazia do outro lado de sua mesa.

Um tanto hesitante, me aproximei e sentei-me. O cheiro do fumo ali era muito forte e a fumaça suspensa no ar fez com que meus olhos começassem a lacrimejar. Logo em seguida o rapaz se aproximou de nós, trazendo uma segunda mangueira a ser acoplada ao arguile do senhor Hassan, como ele se apresentou a mim assim que me sentei e o cumprimentei. Rapidamente o senhor Hassan me explicou sobre o funcionamento de um arguile como o dele, como colocar o fumo, a água, como limpar e tudo mais que achou que eu deveria saber naquele momento. Por fim, me fez fumar um pouco. Como nunca havia fumado nem mesmo cigarros, foi uma sensação estranha sentir sua boca e suas narinas se encherem de fumaça quente e perfumada. Sem tragar, expeli a fumaça numa baforada que me cegou por alguns instantes, fazendo com que eu perdesse de vista tudo ao meu redor. Era como se o senhor Hassan, Iblis a loja e todo o mundo tivessem desaparecido. Aos poucos a nuvem foi se dissipando e à minha frente surgiu a face morena e de barba branca do velho, exibindo seu sorriso amarelado novamente para mim.

–    Gostou? – perguntou entusiasmado.
–    É… diferente. – respondi receoso de dizer algo que pudesse desagrada-lo.

Mais uma vez ele falou com Iblis em sua língua e segundos depois o rapaz retornava com um pequeno carvão em brasa, e o colocou no topo do arguile para queimar o fumo.

–    Você joga? – ele me perguntou de sopetão.

Surpreso pela pergunta, demorei a compreender sobre o que ele estava falando. Então me lembrei do jogo de gamão e o procurei sobre a mesa. Era um tabuleiro grande e portátil. Daqueles divididos em duas partes articuladas, com pequeninas dobradiças no meio para que quando fechado se tornasse uma caixa para guardar as peças e os dados. Ele era decorado seguindo o padrão tradicional de um tabuleiro de gamão, pintado nas cores branca e preta, assim como as peças. Elas eram redondas e do diâmetro de uma polegada, decoradas com formas abstratas de arabescos. Nas peças pretas estes detalhes eram amarelos, e nas brancas eram em vermelho. Os dados por sua vez eram verdes, de um tipo de madeira que não consegui identificar e os buracos dos números eram dourados.

Respondi timidamente ao senhor Hassan que sabia jogar, mas que não era muito bom. Havia aprendido na infância com um tio, mas desde aquela época que não praticara; a não ser em algumas raras ocasiões em reuniões familiares. O velho Hassan disse para que eu não me preocupasse, que ele também não era muito bom e me convidou a uma partida. Antes que eu recusasse, o que provavelmente estava já estampado em meu rosto, ele fez uma proposta. Caso ele vencesse, eu apenas levaria o arguile pequeno que já havia comprado e que já estava embrulhado em cima do balcão, ao lado de Iblis. Entretanto, se eu vencesse eu poderia ficar com o arguile de prata dele, sem ter de pagar nada. Logicamente aquilo me deixou muito surpreso e não nego que a ganância se apossou de mim naquele momento. Mesmo não sendo um fumante de arguile, ainda assim aquela era uma peça muita bonita e valiosa por seu valor como uma antiguidade. Ele me disse que o havia adquirido há muitos anos, quando ele era mais novo que eu, em sua cidade natal no Irã. E naquela época aquele arguile já era velho. Quando o questionei o por quê ele estaria arriscando a perder um artefato como aquele, ele me disse que era um homem velho, que logo chegaria o dia em que ele não poderia mais fumar e que, além disso, de que valeria uma competição se nada estivesse em risco? Minha cobiça foi maior que minha razão e acabei aceitando o desafio.

O velho falou com o rapaz mais uma vez, enquanto arrumava as peças para o começo do jogo. O senhor Hassan pediu para que esperássemos alguns instantes antes de começar a jogar, enquanto Iblis nos preparava um chá para tomarmos ao longo da partida. Ele dizia que não conseguia jogar gamão sem fumar e beber chá. Enquanto aguardávamos, conversamos. Eu lhe perguntei se fazia muito tempo que ele tinha aquela loja naquele local, já que nunca havia reparado nela. Ele me respondeu que sim, que há muito tempo estava por ali, o que me deixou intrigado por nunca te-la visto em minhas caminhadas pela região. O velho riu e me disse que talvez eu apenas ainda não estivesse pronto para enxergar sua loja. Observação essa que naquela época não cheguei a compreender.

Na parede atrás dele vi um quadro de um homem trajando um tipo de manto comprido e um tipo de chapéu cilíndrico e alto. A pintura passava a impressão de movimento, como se o homem ali retratado de braços abertos, estivesse girando no próprio eixo. Notei também certa semelhança entre o quadro e o velho a minha frente. Ao comentar sobre isso, o senhor Hassan disse que era ele mesmo, há muitos anos atrás. Ele então iniciou uma pequena aula filosófica e religiosa para mim. Falou sobre os mistérios divinos de Deus, sobre como às vezes aquilo que temos como uma grande certeza por vezes não passa de uma ilusão criada por nossos corações, e que é preciso então um sinal, uma epifania ou qualquer outra coisa do gênero para enxergarmos a verdade. Ele contou que era um adepto do pensamento sufista, e que quando jovem conheceu homens importantes desta corrente filosófica e mística do Islã. Participava assiduamente de reuniões, cerimônias e demais atividades das comunidades sufistas, inclusive como um dervixe dançarino como o quadro retratava.

Nesse momento da conversa, Iblis retornou com uma bandeja contendo um bule e duas xícaras. Nos servimos do chá e continuamos a conversar, enquanto iniciávamos o jogo. De fato, a conversa estava muito mais interessante que o jogo e minha atenção estava mais nas palavras de Hassan do que no tabuleiro. Provavelmente aquilo poderia ser uma tática dele para desviar minha atenção e assim manipular o resultado do jogo a seu favor. Certamente foi que ele fez, mas não da forma esperada por mim.

Continuamos a falar sobre sábios árabes, dervixes e a busca pela verdade divina. Em nenhum momento paramos de fumar o arguile, que me parecia cada vez mais interessante com o passar do tempo. Ocasionalmente o jovem Iblis aparecia com uma nova pedra de carvão para reacender o fogo e para reabastecer o arguile com mais fumo. Este tinha um gosto estranho, um sabor forte e amargo, mas que era suavizado pelo mel que estava misturado a ele. O senhor Hassan dizia que aquele era um fumo muito especial de sua terra natal e que ele só fumava daquele tipo. Um velho costume dos tempos em que era um sufista praticante, se é que se pode dizer isso. Ele contou que alguns deles consumiam altas quantidades daquele fumo em arguiles, como ele fazia, ou mascando-o. O efeito seria semelhante ou até maior do que realizado pelos dançarinos dervixes, que rodopiam até a perda da consciência e assim estabelecem uma conexão espiritual com as esferas divinas da Criação. Ao ingerir aquele fumo adocicado, o senhor Hassan dizia que a mente se desprendia de nós mesmos e enxergava tudo mais claramente. Naquele momento acreditei que certamente aquele fumo seria algum tipo de droga, talvez com propriedades alucinógenas, sem nada haver com revelações sobrenaturais. Isso explicaria meu leve estado de entorpecimento que começava a sentir. Meus dedos pareciam muito mais sensíveis ao toque, sentia também calor e meu rosto parecia formigar, principalmente nas têmporas. Iblis apenas nos observava, e o jogo continuava com o rolar dos dados e o constante movimento das peças de um lado a outro do tabuleiro. Por mais incrível que parecesse, eu estava ganhando.

Hassan então começou contar uma história, uma lenda sufista, que falava sobre um jovem adepto da doutrina, muito esperto, mas também muito impulsivo e impetuoso. Segundo ele, este tal jovem buscava pela verdade oculta de Deus e estava disposto a fazer qualquer coisa para atingi-la. Ele então decidiu se isolar e ir para onde não pudesse ser perturbado de maneira alguma. Sozinho, o jovem foi para o topo de uma montanha onde se encontravam as ruínas de uma antiga fortaleza e lá ele realizou uma seqüência de orações durante dias seguidos, jejuando, fumando aquele fumo estranho e tomando apenas água. Em um transe contínuo que durou dias, o jovem teria ido a lugares e visto coisas que nenhum homem jamais teve a oportunidade. Algo que apenas os profetas tiveram a permissão de testemunhar. Durante esse período, ele teria descoberto um dos segredos do Altíssimo e decidiu realiza-lo: o segredo da Criação. Assim como teria dito o penúltimo dos grandes profetas de Deus, “a casa de meu pai tem muitas moradas”, e foi esse segredo que o jovem sufista teria descoberto.

Enquanto Hassan falava, a fumaça de nossas baforadas havia dominado completamente o ambiente e eu poderia dizer que quase podia ver o que o velho dizia reproduzido nas formas que as nuvens a minha frente tomavam. De repente, sem uma razão em específico, lembrei-me de um gato que tive quando criança. Era inteiramente preto, com exceção da pata esquerda dianteira que era branca. Estava ouvindo ao velho e pensando no gato quando senti algo roçar minha perna. Ao me curvar para ver o que era, para minha surpresa, lá estava um gato exatamente igual ao que eu tinha. Tomei um susto e me levantei rapidamente. Iblis e Hassan ficaram me olhando sem entender, e lhes expliquei o que havia ocorrido. Enquanto falava com eles, o gato reapareceu no meio da loja e com um salto subiu no balcão e ficou me observando por algum tempo, até que começou a se lamber e se limpar. Iblis continuava quieto, ignorando a presença do gato, e o velho apenas ria de mim e pedia para que eu voltasse a me sentar para que ele continuasse a história e o jogo.

Ele contou que o jovem sufista da história começou a consumir quantidades ainda maiores do fumo, até que sua mente caísse em profundo torpor. Nesse momento o ele começou a sonhar. Ele sonhou primeiramente com o mar, depois com praias, com montanhas, com florestas e com desertos. Sonhou com o céu, com nuvens e com o sol, a lua e as estrelas. Sonhou com os animais que vivem nas águas e com os da terra e do ar. Ele sonhou com pessoas, e com cidades, reinos, tribos. Sonhou com reis, príncipes, exércitos, fortalezas e batalhas. Sonhou com crianças, com velhos, homens e mulheres. Sonhou com nascimentos e mortes. Enfim, ele sonhou com tudo o que existe. Então ele olhou para tudo aquilo e percebeu que ele havia conseguido. Ele havia alcançado a glória da Criação. Entretanto, ao mesmo tempo em que ele se encheu de orgulho e comemorava seu feito, ele despertou e toda sua obra se desfez. Acordou exausto e aflito com sua perda. Desta forma, no dia seguinte ele tomou mais do fumo e voltou ao transe e a sonhar. Mais uma vez ele concebeu o universo segundo seu transe onírico, mas desta vez ele tentou fazer parte dele para que tudo aquilo não voltasse a desaparecer. De fato, ele conseguiu adentrar sua Criação. Por algum tempo ele viveu naquele mundo, falou com as pessoas, as tocou, inspirou o ar, sentiu a chuva e andou sobre a terra. Ele comemorou entre os homens, participou de banquetes, de festas e cansado adormeceu, se esquecendo que ele mesmo estava num sonho. Ao despertar, descobriu que sua obra mais uma vez havia sido perdida. Ele meditou por dias em busca de uma solução para seu dilema, até que lhe veio uma resposta. Pela terceira vez ele tomou do fumo e adormeceu. Não demorou muito e já havia encontrado o caminho dos sonhos. Rapidamente pôs-se a construir sua grande obra. Dessa vez sonhou com cada minúcia da Criação, com os mínimos detalhes.

Quando tudo estava pronto, ele sonhou com uma última coisa. Sonhou com o fumo esverdeado e amargo misturado com mel, o mesmo que consumia quando desperto, e sonhou com um arguile de prata, único em toda sua Criação. A partir de então, o sufista passou a saborear seu fumo em seu arguile de prata dentro de seu sonho. Assim ele mantinha os efeitos místicos e entorpecedores que o fumo lhe proporcionava, impedindo dele despertar e do mundo que criou desaparecer. E assim o jovem sufista passou a viver dentro de sua própria Criação, em meio a criaturas e pessoas sonhadas por ele, contemplando o passar dos anos e mais tarde dos séculos. Mesmo sendo o seu criador, ao que parecia o tempo é algo inexorável que não poupa a ninguém, seja no mundo desperto ou nos sonhos de um homem. Ele mesmo, ainda que muito mais lentamente que qualquer outra pessoa, também envelheceu em seu mundo. Viu sua pele se tornar flácida, o surgimento de rugas em seu rosto, sua barba se tornar grisalha e seus olhos começarem a se embaçar. Com o passar dos anos, o gosto do fumo foi se tornando cada vez mais amargo e ele passou a ter cada vez menos fôlego para o arguile. No final, o sufista estava cansado e sabia que se seus dias findassem ali em sua Criação, toda ela iria com ele. Então ele passou a buscar por um sucessor, alguém que continuasse a fumar o arguile de prata e sonhar com o mundo. Um escolhido dentro daquele grande sonho que mantivesse a si mesmo e a seu mundo. E foi o que ele finalmente conseguiu fazer.

Quando o senhor Hassan terminou de contar a história, eu estava completamente entorpecido pelo fumo do arguile. Tanto que eu demorei a entender quando ele me disse que eu havia vencido a partida. De fato, após soltar uma baforada, ao olhar para o tabuleiro era inegável que eu havia ganhado. Mais uma vez senti algo em minha perna e não me espantei ao ver o gato ali novamente.

–    Ele é seu? – perguntou Hassan com sua voz cavernosa.
–    Sim, eu o tinha quando criança. – respondi a ele, enquanto acariciava o gato, fazendo-o arquear as costas e ronronar.
–    Ótimo, meu rapaz! Ótimo! Aprendeu rápido. – dizia o velho, exultante.

Hassan disse algo para o jovem Iblis que não entendi, mas dessa vez não sabia se era porque ele havia falado em árabe ou se era o efeito do fumo em minha mente que me confundia. O rapaz se aproximou do arguile e retirou a mangueira usada por Hassan, a enrolou e a guardou atrás do balcão. O velho tossiu forte umas três ou quatro vezes, uma tosse gorgolejante, e cuspiu uma massa negra e pegajosa numa escarradeira dourada que estava a seu lado. Ele se levantou com a ajuda de Iblis e lentamente ensaiou alguns passos para frente. Devia estar a muito tempo sentado e demorou às costas se habituarem à nova posição. Ele virou-se para mim e me estendeu a mão sorrindo.

–    Parabéns, meu jovem! Você me venceu. Agora o arguile é seu. Sei que você fará um bom uso dele, como já pude perceber. Cuide bem dele, pois dele depende você e aquilo que você conhece. Iblis o ajudará no que precisar.

Ele me cumprimentou com um vigoroso aperto de mão e depois a pouso sobre minha cabeça, como algum tipo de benção. Eu o vi se afastar de mim lentamente, com passos vagarosos de um homem mais velho do que aparentava. Ele ainda estava a meio caminho da entrada da loja quando de repente, como se fosse uma baforada do arguile, Hassan desapareceu frente a meus olhos se desfazendo numa grande nuvem esverdeada de fumaça. A nuvem, que até pouco tempo era o velho dono da loja, ainda pairava no ar quando Iblis passou pelo meio dela, dispersando-a por completo. Ele se aproximou de mim e do arguile, colocou mais fumo, trocou o carvão e voltou para trás do balcão, exatamente quando uma senhora idosa entrou na loja em busca de um presente para a neta.

Eu permaneci sentado à mesa, fumando o arguile. O gato, meu gato agora, pulou em meu colo e logo se aninhou para dormir. Agora eu era o portador daquele objeto que é ao mesmo tempo uma afronta à realidade e o seu coração. O mundo aos poucos estava mudando a cada nova baforada que eu soltava, pois eu tinha me tornado o grande sonhador desta nossa Criação.



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