O Armário das Mil Portas

Publicação: 6 de junho de 2010

Como já era de costume às sextas-feiras, me dirigi ao bar. Há muito tempo que repetíamos este ritual semanal de nos encontrarmos no “Templo” (apelido carinhoso que demos para o bar), ao final da tarde de toda sexta-feira, para colocarmos a conversa em dia, beber despreocupadamente e contarmos alguma novidade uns para os outros. Nosso bar era um lugar curioso, um misto de estilo europeu genérico, ou melhor, um pub inglês com toques nacionais. Por vezes pensávamos que se não fosse por aquele bar, talvez não realizássemos aqueles nossos conclaves com tamanha regularidade. Já era praticamente uma tradição secularmente sagrada naquela década.

Naquele dia fui o segundo a chegar, e imediatamente acompanhei Fred num copo grande de cerveja preta e amarga. Conversamos sobre as mais diversas bobagens que as pessoas costumam falar quando não querem se lembrar do trabalho e das preocupações que tiveram durante a semana. Não demorou nem meia hora para que os demais integrantes de nossa sociedade quase secreta chegassem. Éramos seis no total. Falávamos sobre tudo que nos vinha à mente. História, filosofia, ciências em geral, política, cervejas e vinhos; sobre o clima, futebol, mulheres; alguma piada nova, algum filme novo que por alguma razão levaria a conversa para o campo da bruxaria, para culminar com batalhas da Segunda Guerra Mundial – antes passando por temas folclóricos – até que alguém pedisse uma porção de batatas fritas, calando temporariamente a todos os famintos. Mas logo que a última batata desaparecesse, alguém retomaria a conversa, lembrando de algum livro sobre mitologia ou, como costumamos dizer, “biografias teológicas aplicadas”. Realmente parecíamos um simples grupo de homens mortais aproveitando o momento. Foram séculos de convivência para adquirirmos tamanha habilidade de mimetismo aos hábitos dos demais seres ao nosso redor.

Foi durante uma dessas noitadas de bar que começamos a falar sobre uma onda de crimes que aterrorizou a comunidade de imigrantes orientais na cidade. Alguém estava atacando os imigrantes, principalmente de origem coreana e chinesa. Invadiam suas casas e lojas, levavam mercadorias e por vezes assassinavam as testemunhas. Entretanto, já fazia pelo menos uns dois meses que não se tinha mais notícias de nenhum caso. Na noite em questão chovia muito, mas bastou o sr. Félix entrar no bar para a chuva cessar. Todos olhamos para ele, que apenas respondeu com um sorriso de canto de boca. Aquilo era o suficiente para sabermos que tanto a chuva quanto o seu fim repentino era obra dele. Às vezes era muito difícil contermos nossas naturezas e não realizarmos coisas que iriam maravilhar as pessoas ou deixa-las congeladas de terror. Ninguém acreditava mais em nós, mas mesmo assim continuávamos a existir por nossa pura teimosia ou força de vontade. Durante essas nossas reuniões semanais, além dos assuntos de costume, às vezes também contávamos sobre alguma coisa que tínhamos feito nos últimos tempos, relembrando nossos dias de glória e de nossas verdadeiras identidades. Mesmo a tanto tempo entre os mortais, era inevitável algum deslize de nossa parte.

Os “seis invisíveis”, como Sax costumava nos chamar, era formado por mim; por Sax, um grandalhão ruivo de cabelos compridos, óculos fundo de garrafa e rosto taciturno (até a terceira cerveja), o homem certo para se ter ao lado quando se está no lugar errado e na hora errada; sr. Félix, um rapaz magricela que aparentava não mais que vinte anos de idade, sempre de jaqueta de couro preta e o cabelo baixo raspado à maquina (o mais velho entre nós), um amante da noite; Éfriros, um homem quase tão grande quanto Sax, de pele negra e gosto refinado, sempre muito bem vestido com sua gravata de cetim e seu terno cinza escuro, um bibliófilo inveterado; dr. Huang, sempre calado e com ar de sábio da Manchúria, extremamente tímido, aparentava ser o mais velho de nós (mas era o mais novo), especialista em acupuntura e I Ching; e finalmente Fred, cabelo loiro encaracolado, baixinho, sardento, falante e capaz de beber todo o estoque de uma adega antes de começar a ficar bêbado, praticamente morava no bar que frequentavamos.

Como disse, naquela noite sr. Félix havia acabado de chegar e feito parar a chuva.
Depois que ele entrou, percebemos que ele não tinha um pingo de chuva sobre sua jaqueta. Muito diferente das pessoas que entravam ensopadas pela porta do bar. A única explicação que ele se dignou a nos dar foi, “A chuva é minha amiga”. Isso foi o bastante para a maioria de nós nos calarmos, Fred gargalhar e Éfriros balançar a cabeça em reprovação à atitude do sr. Félix. Depois que todos estávamos acomodados junto ao balcão e servidos, começamos a conversar. Foi quando Éfriros citou o caso dos crimes contra os orientais. Quase todos dissemos que tínhamos visto alguma coisa sobre os casos ou lido nos jornais. Éfriros, que tinha contatos com alguns jornalistas policiais, disse que os crimes haviam cessado da noite para o dia e que a polícia não tinha nenhuma pista de quem poderia ser o responsável. Ficamos ali, especulando e arquitetando diversas teorias sobre quem era o criminoso, ou os criminosos, e porque eles teriam parado de agir.
A conversa já se desenrolava há muito tempo quando percebemos Fred olhando fixamente para Huang. Conforme fomos percebendo a cena, fomos ficando quietos, até que todos estivéssemos olhando para os dois. Huang olhou para nós, depois para Fred, depois para nós de novo.

–    O quê foi? – ele disse.
–    Você está mais quieto que o de costume hoje. – disse Fred, insinuando alguma coisa em sua afirmação.
–    E daí?
–    É verdade, doutor. Aconteceu alguma coisa? Você não abriu a boca desde que chegou. – afirmou Sax, antes de tomar um gole de seu segundo copo de cerveja.
–    Huang, está tudo bem? – eu perguntei, mas já convencido que realmente havia algo de diferente com o velho chinês.
–    Está, claro que está! Por quê não estaria?

O sr. Félix levantou-se de seu banco, se aproximou de Huang e ficou olhando para ele diretamente nos olhos. Ele fez isso como se estivesse procurando por alguma coisa dentro da cabeça do chinês, vasculhando cada canto possível. Por fim, ele se virou para nós e disse, com um sorriso debochado:

–    É lógico que ele está mentindo.
–    Não! Eu não estou mentindo! Juro! – gritava dr. Huang desesperado.
–    Você está mentindo, chinês! Eu sei reconhecer um mentiroso a quilômetros de distância.
–    Como se atreve a me chamar de mentiroso! Seu… seu… – Huang tentava descobrir a palavra mais ofensiva ao sr. Félix, mas não conseguiu.
–    Diga! O quê você ia dizer? Meu caro, admita que você está mentindo. Eu pude ver sua mentira lá no fundo de sua cabeça, girando, dançando e rindo de nós. Huang, eu ensinei você e aos seus a mentirem. Ensinei, mas não tudo. Então, eu sei quando alguém está mentindo.
–    É verdade, doutor. Chega disso e conta logo o que está acontecendo. Tem haver com os crimes contra os chineses que o Éfriros estava falando, não é? Foi quando ele começou a falar disso que eu percebi que você ficou estranho. Foi isso, não foi? Você sabe o que aconteceu não sabe? Conta logo! Fala! Diz de uma vez! – disse Fred, tentando acabar com aquele momento desconfortável e irritando a todos nós.

Huang abaixou a cabeça, respirou fundo e com uma cara de “tá bem, vocês venceram” ele começou a falar. Ele demorou a começar a contar, se enrolava com as palavras, gaguejava e se perdia no meio das frases. Foi só depois que o sr. Félix gritou com ele que finalmente a conversa engrenou.

Ele, dr. Huang, possui uma loja no centro da cidade. Não é muito grande, mas lhe agrada fingir ser um vendedor comum, como os seus vizinhos. O lugar é um pouco de papelaria e de antiquário chinês. Ele vende cadernos, papéis avulsos, canetas, lápis, lapiseiras e tinta. Este estoque havia sido comprado junto com a loja, há uns trinta anos atrás, quando Huang resolveu que queria ter um negócio. Ao mesmo tempo, a loja está repleta de objetos chineses, estatuetas, punhais, tabuleiros e outros souvenires. Tudo muito velho e empoeirado. Raramente alguém entra em sua loja e quando isso acontece é alguém perdido pedindo alguma informação. Uma ou duas vezes ao ano ele vende um caderno e um punhado de lápis. Mas ele não se importa com o fluxo de caixa da loja. Fica contente em poder ficar atrás do balcão fumando seu cachimbo tão comprido quando seu braço, e representar seu papel de mero vendedor. Graças a isso havia ganhado a simpatia dos vizinhos, mas ao mesmo tempo a desconfiança. Como ele conseguia manter aquela loja se ele não vendia coisa nenhuma? Existiam fofocas que diziam que o velho dr. Huang estaria envolvido com a máfia chinesa, que sua loja era uma fachada para negócios excusos e etc. Nenhuma dessas afirmações eram verdadeiras, como bem sabemos.

Na época dos casos contra os imigrantes, Huang acompanhou pelos jornais e se indignava com o que lia. Achava tudo aquilo um grande absurdo. Não se conformava que ninguém tivesse feito nada ainda a respeito. O tempo passou e os crimes continuaram. Um dia aconteceu o que ele não esperava. Diferente do que ocorre para as pessoas comuns, o tempo para nós se passa mais lentamente e para gente como nós fazia pouco tempo que Huang havia chegado ao país, e ainda estava se acostumando com a idéia de viver incógnito, sem levantar suspeitas.

Neste ponto Huang ficou novamente acanhado, mas com um pouco de pressão ele continuou a contar o que havia acontecido. Ele então contou que por volta de uns dois meses atrás, dois homens entraram em sua loja. Ele estava, como sempre, atrás do balcão fumando seu cachimbo e estudando o I Ching, como sempre fazia às terças-feiras. Quando um de nós zombava dele e lhe perguntava se ele não se cansava daquilo, ele dizia que o estudo do I Ching é um estudo eterno. Não há um começo ou um fim, apenas o contínuo. Quando o Yang se ergue no horizonte, o Ying se põe. Não há um intervalo, apenas o constante movimento… Geralmente antes dele terminar de explicar isso, nós já estávamos pedindo outra rodada de bebidas e mudado de assunto.

Os dois sujeitos entraram na loja, quietos e observando tudo ao seu redor. Os dois eram jovens, não muito mais velhos do que o sr. Félix. Roupas boas e ao falar demonstravam um bom grau de educação. Jovens que não necessitavam roubar e matar, mas mesmo assim o faziam por puro prazer. Dr. Huang pode sentir neles algo estranho. Sentiu cheiro de medo e ao mesmo tempo excitação. Ele sabia que estavam prestes a fazer alguma coisa que consideravam perigoso, mas que mesmo assim eles gostavam de fazer. Eles se aproximaram do balcão e perguntaram se ele era o dono. Huang fingiu não entende-los, falou algo em mandarim e sorriu. Os dois sorriram também e lhe apontaram um revólver. Éfriros lhe perguntou qual era o calibre, mas o chinês só soube dizer que era uma arma grande. Eles perguntaram novamente se ele era o dono e ele respondeu que sim. A partir daí, Huang nos disse que eles passaram a ser violentos. O xingaram, diziam que o lugar dele não era aqui neste país, e lhe deram diversos tapas em seu rosto e socos. Por fim lhe deram uma coronhada na testa e o jogaram ao chão, onde começaram com uma sessão de chutes e pontapés. Neste momento Sax se levantou furioso (e bêbado) e perguntou onde estavam esses dois, pois ele daria cabo deles naquele momento. Mas eu e Fred conseguimos conte-lo e dissemos que seria melhor Huang terminar de contar sua história antes de fazermos qualquer coisa. Sax concordou e se sentou novamente.

Huang continuou a contar a história. Ele disse que os dois rapazes gritavam com ele, lhe batiam e diziam que queriam o dinheiro dele. Depois de algum tempo lhe agredindo, eles pararam e esperam a resposta de Huang. Ele disse que tinha um cofre, num quarto nos fundos da loja. Os dois o ergueram e o arrastaram até os fundos. Huang indicou o caminho e eles seguiram até uma porta no fundo de um corredor, atrás da loja. Ele disse que o cofre estava lá dentro, não estava trancado e que podiam levar o que quisessem, só pedia para não lhe fazerem mal algum. Os dois bateram de novo em Huang, abriram a porta e entraram. Dias depois a polícia foi até sua loja, pois um vizinho disse ter visto dois suspeitos entrarem lá e talvez pudessem ser os suspeitos dos crimes contra os outros chineses e coreanos. Ele disse à polícia que realmente dois homens haviam entrado em sua loja, mas que vieram apenas para pedir informações sobre uma rua ali do bairro e foram embora. E fim de história, segundo Huang.

Nós nos entreolhamos desconfiados. Olhamos de novo para Huang, sem acreditar no que ele havia contado. O sr. Félix então tomou a iniciativa por nós e disse:

–    Tá, e o resto da história?
–    Que resto? Foi isso que aconteceu. Eles entraram na loja e foram atrás do cofre!
–    Só que nós sabemos muito bem que você não tem cofre nenhum, dr. Huang. Nem dinheiro você carrega! – disse Éfriros.
–    Vai, pode contar o resto da história. O que aconteceu com os dois? Por acaso eles estão presos lá na sua loja até hoje? – disse sr. Félix de forma sarcástica, fazendo todos nós rirmos.

Mas assim que olhamos para a expressão no rosto de Huang, paramos de rir imediatamente. Ele estava sério, olhos arregalados, mãos unidas e dedos inquietos.

–    O quê é que você fez com eles? – eu perguntei, temendo a resposta.

Huang então contou que os dois de fato entraram no tal quarto do cofre. Mas como Éfriros disse, não havia cofre algum lá dentro. Assim que entraram, ele se levantou e fechou a porta e os prendeu lá dentro. Na verdade, aquele não era um quarto. Aquele, segundo Huang, era o “armário das mil portas”.

–    “Armário das mil portas”? – exclamou Fred.
–    Isso. Não é um quarto. É um armário que eu coloquei lá, embutido, quando cheguei da China.

Dr. Huang explicou que o tal armário era um antigo artefato, dos tempos do primeiro imperador da China. Lá dentro não havia tempo e nem espaço. Era como um lugar entre os mundos, ele disse. Você podia colocar qualquer coisa lá dentro, um pato assado, por exemplo, e mesmo passado séculos, quando você o tirasse de lá ele estaria tão quente e suculento como quando foi colocado. Além disso, ele disse que lá dentro existem infinitas portas para outros armários, subdivisões desse armário principal, compartimentos infinitos, para guardar qualquer coisa e quantas quiser.

–    É um tipo de armazém mágico? – perguntou sr. Félix.
–    Mas se são portas infinitas, por quê chama “armário das mil portas”? – disse Sax, já na metade de sua terceira cerveja.
–    Sim, é como isso que você disse, Félix. E não sei porque o nome dele é esse. Quando me deram o armário ele já se chamava assim. Lembro que eu estava às margens do Rio Amarelo. Naquela época eu vivia numa gruta, não muito distante do rio. Estava me banhando pela manhã, como sempre fazia na época, quando um monge apareceu e espantado com o que viu me perguntou…
–    Ei! Pode parar! Primeiro termina de contar o que aconteceu com os dois caras presos na sua loja e depois você conta a história do armário! – interrompeu Fred.
–    Está certo. Onde estava mesmo?

Após ter trancado os dois criminosos no armário, ele foi ao banheiro, limpou o rosto e se recompôs. Voltou para o balcão da loja e continuou a fumar seu cachimbo e estudar o I Ching. Enquanto isso, deixou os dois dentro do armário, presos entre dimensões e tentando fugir de lá sem saber para onde ir. Huang nos disse que dentro do armário é um lugar completamente escuro. Não é quente nem frio. Não existem paredes, teto ou chão. Você pode se mover para qualquer lugar sem nunca encontrar um obstáculo. O máximo que você enxerga são as silhuetas de outras portas, que o levarão para lugares exatamente iguais onde você estava. Provavelmente cada porta que os dois encontrassem lá dentro os encheria de esperança para logo em seguida desaponta-los e leva-los à loucura. Uma fuga eterna para lugar nenhum. Um labirinto feito apenas de portas.

–    Isso é o que eu chamo de tortura chinesa. – ria Fred.
–    Você nunca se perdeu dentro desse seu armário, dr. Huang? – perguntou Éfriros.
–    Ó, não! Não se você é o dono dele. Na verdade, nem mesmo é preciso entrar nele para pegar o que se quer, basta pensar no que está procurando dentro dele e ao abrir a porta a coisa estará lá. Isso, como eu disse, se você for o dono.
–    Mas e depois? O quê aconteceu? Eles estão presos lá até agora? –perguntei.
–    É claro que não. Olha só para o rosto dele. Ele fez alguma coisa com esses dois. –disse sr. Félix.

Nitidamente envergonhado com a observação do sr. Félix, Huang disse que no dia seguinte ele teve certeza que os dois que estavam no armário eram de fato os mesmos que estavam apavorando os imigrantes da região, depois que viu seus retratos falados no jornal. Naquela primeira semana ele abriu o armário e pegou um deles. No mês seguinte pegou o outro. Sax, que já estava pensando se devia ou não partir para sua quarta cerveja, interrompeu dizendo:

–    Como assim você os pegou?
–    É, como assim? – todos nós perguntamos.
–    Bem, eu não podia deixa-los soltos para eles voltarem a fazer o que estavam fazendo contra aquelas pessoas. Então eu… dei um jeito para que eles não ameaçassem mais ninguém! – explicou Huang, claramente tentando esconder mais alguma coisa.
–    Você os matou, Huang?! – Sax perguntou, com sua quarta cerveja em mãos.
Todos olhamos de Sax para Huang sem acreditar que era exatamente isso que havia acontecido. O sr. Félix estava certo, Huang não sabia mentir. Estava escrito na testa dele que ele tinha matado aqueles dois homens.
–    Quem diria, Huang! Você, que sempre foi o mais quieto, o mais pacífico de nós, fazer uma coisa dessas. – comentou Éfriros estupefato.
–    Bem, mas ao menos ele resolveu o problema dele e de muitas outras pessoas. – eu tentava consolar Huang e apaziguar a situação – Imagine quantas outras vítimas eles poderiam estar fazendo agora?
–    Entendo seu ponto de vista, mas acho que o mais correto que ele podia ter feito seria deixar os dois no tal armário por um tempo, para lhes dar uma lição, e depois entrega-los à polícia. Não que eu não concorde que mata-los foi algo muito mais eficiente, mas isso pode trazer suspeitas no futuro para ele. Podem começar a desconfiar dele. – argumentava Éfriros.

Enquanto debatíamos o que Huang poderia ou não ter feito, Fred coçava o cavanhaque milimetricamente aparado enquanto uma dúvida o corroia por dentro.

–    Tem uma coisa que eu não entendi. Por quê você “pegou” um logo na primeira semana, e o outro só no outro mês?

A pergunta nos atingiu como um raio. Ficamos em silêncio pensando naquilo. Tentando entender o mistério ali contido. Todos menos sr. Félix, que ria enquanto comia uma batata frita gelada que havia sobrado.

–    Qual é a graça? – perguntou Sax emburrado.
–    Vocês ainda não entenderam? Ele comeu os dois. Comeu um na primeira semana e guardou o outro para o mês seguinte. Por isso que ele nem tocou nas batatas hoje. Ainda deve estar digerindo o rapaz.
–    É verdade, o Huang é sempre o primeiro a atacar as batatas! – disse Éfriros com os olhos arregalados, assim como todos nós que olhávamos para o doutor. Este, por sua vez, estava com o rosto abaixado e evitava a todo custo olhar para nós.
–    Huang, olhe para mim. Você devorou os dois? – eu perguntei a ele, apesar da resposta óbvia.
–    Sim. – ele respondeu em voz baixa – Mas o que mais eu podia fazer? Mata-los e jogar os corpos onde? Além do mais, fazia tempo que não provava de carne…
–    Viva? – completou sr. Félix.
–    Isso. – respondeu o doutor, ainda de cabeça baixa.

O silêncio voltou a reinar por alguns instantes, até que todos nós começamos a gargalhar.

–    É como dizem, “um tigre, mesmo sem as listras, continua sendo um tigre”! – falou o sr. Félix.
–    Bem, neste caso não são bem listras, mas sim escamas! – disse Sax, rindo, escorado no balcão e na metade da cerveja.
–    Dragões não tem listras, não é mesmo? – disse Huang de repente, com um sorriso tímido, o que fez com que todos nós ríssemos ainda mais e Sax engasgar com o último gole de seu copo.




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