O Deus do Labirinto

Publicação: 29 de outubro de 2010

þa wearð se brema on mode
bliðe burga ealdor         þohte ða beorhtan idese
mid widle ond mid womme besmitan.

Judite (versos 57 – 59)

A garoa cai desde cedo, tornando o chão perigoso de se andar. Subo os degraus de pedra com cuidado e bem devagar para não escorregar. Cada passo é um ato heróico de força e equilíbrio, mas por fim consigo chegar onde antes se erguia o grande complexo do palácio imperial. Hoje em dia, ao invés de nobres cavaleiros com seus estandartes imponentes, aristocratas ostentando sua riqueza e poder aos seus pares, mercadores de todos os cantos do mundo, pedintes sujos e descalços e mais uma multidão de pessoas vivendo suas vidas em torno dos altíssimos muros brancos do imperador, restam apenas ruínas, trepadeiras se esgueirando sobre blocos de pedras brancas e ninhadas de ratos do campo. Agora são eles que vivem soberanos do que restou daquilo que um dia foi o coração do mundo, e que hoje não passa de uma carcaça de pedras, uma vaga lembrança a nos assombrar.

À minha frente seria onde ficava o portão principal. Mais adiante o pátio central e os alicerces das torres do lado sul do palácio e além delas todo o espaço das demais partes do prédio, se estendendo por uma área enorme. Fico tentando imaginar como deveria ser a construção em seus tempos áureos, mas é difícil visualizar algo a partir de tão poucos vestígios. Restaram tão poucas imagens deste lugar após a guerra que a maior parte de meu trabalho se resume em pura conjectura. Mesmo assim, tudo me parece estranhamente familiar.

Continuo a percorrer sozinho a região das ruínas e identifico onde antes ficavam as estrebarias, os banhos termais, os silos de armazenamento, oficinas, a arena imperial, o lendário harém, as docas e – para minha surpresa – encontro o que sobrou de algumas das naus-celestes que nunca partiram da ilha. No passado elas cruzavam os céus de Sépia, ajudando a garantir a soberania do trono sobre as províncias e as colônias com o poder de seus canhões de disparo contínuo. Um dos dois maiores trunfos do império: as naus-celestes e a Guarda Imperial. Meu bisavô havia sido capitão de naus-celestes e me contou diversas vezes, com um brilho nos olhos, sobre os tempos em que navegava sobre as nuvens durante a noite como se fosse um mar branco, tendo sobre si apenas as estrelas. Poderosas e elegantes máquinas de guerra que foram condenadas à destruição e ao esquecimento pelas almas retrogradas de fanáticos durante os tempos da Revelação. Dizem que algumas foram salvas e que estão escondidas, mas acredito que isso são apenas boatos. Eles preferiram destruí-las a utiliza-las para fins mais nobres, assim como boa parte de outras obras e informações daquela época. Contento-me em saber que aquelas pessoas mereceram o fim que tiveram.

Porém, o que encontro aqui não são as naus-celestes das quais meu bisavô falava. Aqui vejo apenas restos enegrecidos e calcinados daquelas que foram deixadas para trás, por pessoas que nunca conseguiram chegar até elas para salvarem suas vidas do dilúvio de fogo que engoliu a ilha há décadas. “Samaath’gioth”, foi o que disseram centenas quando viram fogo desabando dentre as nuvens sobre suas cabeças. Um nome apropriado para o terror que lhes abateu. Segundo a crença da Igreja Metsarda, “Samaath’gioth” é o nome de um dos duques de Taath, o Mundo Inferior, comandante das fúrias aladas e das hostes flamejantes de Tah’irioch; propagador de conflitos e assassino de inocentes. Contudo, para meu bisavô tudo isso não passava de bobagens. Toda vez que me contava a história do dilúvio, afirmava que não foi um demônio do ar que incinerou a capital imperial e quase um quarto do subcontinente, mas uma bomba: ALGHAN-7. A maior força destruidora que o mundo já viu. Seu nome foi dado em homenagem a Alghan, o Justo, um dos Santos Imortais de Din’ch; por ironia do destino, justamente a antítese espiritual do duque demoníaco. A construção da bomba foi tão complexa e perigosa, e seu poder tamanho, que foi utilizada uma única vez, como uma medida desesperada do inimigo. Meu bisavô viu quando ela foi jogada sobre a cidade. Ele estava em sua nau-celeste e presenciou estupefato o fim da guerra e a vida ser varrida da ilha do imperador num grande clarão de fogo e rajadas de vento. Ele dizia que nunca esqueceu o som que ouviu quando a bomba caiu. Para ele, o estrondo da explosão lhe pareceu como o rugido de um demônio que havia se libertado. De certa forma ele tinha razão.

Continuo meu passeio entre as pedras e as trincheiras naturais feitas no solo pela chuva e o tempo. Passo pelo o que reconheço como uma das duas grandes colunas da entrada do Grande Templo de Agat que ainda estão de pé. Procuro, mas não consigo encontrar sinais da coluna irmã. Não é à toa que a ilha era o coração do império. O palácio era o seu coração político e o Grande Templo o coração religioso. Era daqui que o Grande Patriarca e seu concilio de sacerdotes controlavam a fé de toda Sépia que jorrava para o mundo. Poucos sabiam, ou acreditariam, que a igreja a qual veneravam e depositavam suas esperanças estava alicerçada em sombras, mentiras e corrupção.

Assim como quase todas as demais ruínas da ilha, as paredes e o teto do Templo não existem mais, restando contemplar apenas algumas poucas vigas que faziam parte da estrutura interna e resquícios dos mosaicos que decoravam o solo, representando passagens do Livro Sagrado. Enquanto exploro o local, me espanto ao dar de cara com uma mão branca enorme, com a palma voltada para o céu, como um mendigo gigantesco a me pedir esmola. Esta mão solitária deve ser a única parte da estátua de Agat que deve ter sobrevivido ao dilúvio e ao passar dos anos. Penso que se a mão está ali, o altar principal não deve estar muito longe. De fato, a poucos passos depois da mão encontro os restos de uma grande mesa cerimonial de mármore. Seus dois apoios principais, também feitos de mármore e esculpidos na forma de leões, ainda estão de pé contemplando eternamente as ruínas da ilha com um olhar opaco, mas o restante da mesa está espalhado em dezenas de pedaços pelo chão. Sinto que estou na trilha certa e sigo em frente, rumo ao que seria os fundos do Templo, e então me deparo com uma cena que eu sonhava desde criança.

No passado toda aquela região atrás do Grande Templo era um vasto campo gramado, cercado por um jardim com um labirinto feito de arbustos. Bem no centro do jardim, no centro do labirinto verde, existia um mausoléu onde eram depositadas as cinzas dos sacerdotes falecidos na ilha. Como pude verificar nos registros remanescentes da época, era um prédio muito alto e circular de teto abobadado. Seu exterior era decorado com nove colunas de mármore, representando os nove profetas de Megara e em seu interior continha estátuas de cada dos velhos sábios. Em suas paredes, centenas de nichos onde se encontravam pequenas urnas ou jarras com as cinzas dos sacerdotes. Ao que parece, o mausoléu havia sido construído com sua entrada voltada para o leste. Desta forma, no início de cada ano, durante o festival religioso de Caermean, a pequena estátua de Agat que ficava no fundo do mausoléu seria inteiramente iluminada ao nascer do sol do primeiro dia do ano, representando o triunfo da luz sobre as trevas. Ao lembrar disso, penso o quão irônico era ter um monumento como este justamente ali, ocultando algo tão nefasto.

Obviamente nem o mausoléu nem o jardim existem mais. Há muito tempo o chão havia cedido e o que estava amostra ali a céu aberto era o que antes seriam os subterrâneos do jardim e do Grande Templo. Um labirinto, duas ou três vezes maior que o próprio jardim; com paredes feitas não de arbustos ou do alvo mármore das construções da superfície, feitas para todos admirarem. Aquelas paredes não haviam sido feitas para serem vistas, mas para aprisionarem e permanecerem ocultas. Paredes feitas de blocos de basalto escuro e sem vida, pedras vindas do interior mundo. Curiosamente, aquela era a única construção de toda a ilha que parecia intacta. Estava tão bem conservado, que se poderia dizer que aqueles quilômetros de corredores que se estendiam por debaixo do coração do império pareciam ter sido erguidos apenas há poucos dias.

Desci até um de seus corredores com a ajuda de uma corda, sem grande dificuldade. Antigamente, a única forma de se descer até aqueles corredores era por meio de uma escada circular, através de uma passagem secreta que se encontrava dentro do mausoléu. Mas hoje em dia qualquer um pode ter acesso a ele, até mesmo os poucos seres que atualmente habitam a ilha, mas que curiosamente não o fazem. Nenhum animal se aproxima do labirinto e em seu solo nenhuma planta consegue crescer.

Pego meu estojo e dele retiro um pincel. Com sua ajuda, limpo a poeira de décadas de uma das paredes, revelando uma superfície repleta de sulcos e reentrâncias. Continuo a fazer isso por mais alguns metros e chocado confirmo minhas expectativas ao ver que suas paredes estão recobertas por inscrições num idioma muito antigo, do qual quase não se têm mais vestígios, além de muitos símbolos místicos de natureza obscura. Exatamente como eu sempre vi em meus sonhos. Sempre achei que eles eram fruto de histórias ouvidas na infância que fizeram seus ninhos em meu inconsciente, mas agora vejo que pode haver algo maior ali. Só quando toco as paredes pela primeira vez com as pontas de meus dedos é que me dou conta de que, após tanto tempo, eu devo ser a primeira pessoa a por os pés naquele lugar desde os tempos imperiais. Neste mesmo instante, instintivamente, verifico as medições do contador preso ao meu cinto. Na tela escura, vejo o brilho esverdeado dos medidores de escala e uma linha vermelha horizontal que ondula vagarosamente, da esquerda para a direita, no topo da tela. Pelo o que vejo, os níveis de radiação estão seguros, para meu alívio.

Continuo a caminhar pelos corredores, virando em suas esquinas, entrando em novos corredores, às vezes chegando a becos sem saída e retomando o caminho anterior. Conforme ando, marco as paredes com um giz, identificando o caminho de volta até onde está a corda. Uso este método mais como precaução do que por necessidade. Ao percorrer os corredores sinto como se de alguma forma eu já tivesse estado ali. Reconheço alguns trechos do caminho de meus pesadelos e sigo em frente.

Não existem mapas do labirinto, creio que nunca existiram. Era proibido vir até aqui. Sempre foi. Para falar a verdade, até pouco tempo também era proibido vir até a ilha. Se não fosse por meus contatos com o Alto Conselho, acho que nunca teria conseguido a permissão para vir até aqui estudar as ruínas.

Enquanto perambulo pelos corredores e tento registrar o máximo de imagens possíveis das inscrições das paredes, começo a me sentir estranho. Um sentimento de ansiedade e medo toma conta de mim. Como se não estivesse sozinho ali, como se algo mais me acompanhasse. Então recordo dos pesadelos que tinha desde pequeno. Por diversas vezes sonhei e ainda sonho estar andando por aqueles mesmos corredores. Diferente de hoje em dia, o labirinto de meus sonhos ainda está oculto no subsolo. Perambulo a esmo na escuridão e de repente eu corro, sem saber exatamente o porque nem para onde. Meu coração dispara e corro ainda mais rápido. Quase posso sentir o chão úmido sob os meus pés. Sei que não estou sozinho. Há mais alguém ali, posso ouvir os passos. Ouço gritos que ecoam pelos corredores e em certo momento eu mesmo começo a gritar e acordo assustado em minha cama. Em todos esses anos o susto nunca foi menor. Pelo contrário, os sonhos só tenderam a piorar.

Das lendas que eu conhecia sobre o labirinto, as três mais populares dizia que aqui era onde o imperador guardava seu tesouro e os espólios obtidos em guerra. Havia uma outra que dizia que ali seria um tipo de calabouço, onde os principais e mais perigosos inimigos do imperador eram mandados para passarem o resto da vida junto de feras estranhas que os caçavam na escuridão. Talvez essa história fosse a fonte de meus pesadelos. Já uma outra lenda falava de uma criatura, um monstro que habitava o local e para o qual eram ofertadas vítimas, jovens mulheres. Um ser a quem, um espírito sombrio, a quem chamavam de “O deus do labirinto”. De qualquer forma, ambas as lendas concordavam em dizer que o labirinto era protegido pessoalmente por membros da temível Guarda Imperial. Os soldados de elite do império, seres praticamente sobrenaturais. Diziam que eles não dormiam e nem comiam. Criaturas amaldiçoadas que viviam apenas para servir ao imperador e matar quem cruzasse seu caminho. Boatos criados para assustar os inimigos. Contudo, acredito que a verdade sobre eles não seja menos assustadora do que as fábulas. Independente da veracidade de tais lendas, como já disse antes, graças à eficiência da Guarda Imperial foi possível ao império existir por tantos séculos sem ser desafiado. E desde o fim da guerra, nunca ninguém se atreveu a vir aqui para descobrir a verdade, com medo dos possíveis efeitos causados pelos resquícios de radioatividade do local ou simplesmente por medo dos fantasmas que dizem assombrar a ilha.

Até então é um mistério a finalidade para qual foi construído o labirinto. Entre meus colegas do mundo acadêmico, havia um consenso de que o lugar deveria ser algum tipo de ambiente cerimonial para a iniciação dos sacerdotes. Essa teoria havia sido elaborada pelo professor Xer Kër-Yrrma, da Universidade Real de Omphar. Segundo o professor Yrrma, o labirinto serviria como um rito iniciático para os noviços. Estes seriam vendados, levados até lá e largados na escuridão. Depois, sua tarefa seria encontrar a escada no centro do labirinto e chegar até ao mausoléu, voltando à superfície. Este ritual seria um tipo de morte simbólica do noviço para sua vida mundana e seu renascimento para a sua nova vida religiosa.

Essa teoria parecia fazer muito sentido – inclusive para mim – afinal de contas, ela se encaixava perfeitamente dentro de um modelo genérico religioso, presente em formas semelhantes de muitos cultos ao redor do planeta. Contudo, o primeiro ponto falho de sua teoria era o fato de que ela fora concebida a partir de registros de cerimônias religiosas de outros templos espalhados pelo império e de suposições pessoais do professor, sem qualquer tipo de embasamento documental. Além disso, ela possuía mais outros dois pontos fracos que, diferente de mim, muitos ignoravam: primeiro, o professor Yrrma nunca havia posto os pés na ilha e, em segundo lugar, em nenhum outro lugar do mundo, sob qualquer outro templo, existia um labirinto como aquele. Nem maior, nem menor ou mesmo parecido.

Nunca concordei com a teoria de Yrrma e declarava abertamente minha posição, até ser advertido pelo conselho da universidade. Na época o professor Yrrma já era uma figura muito conhecida do meio acadêmico e com aspirações políticas. Logo, qualquer crítica a ele seria sumariamente reprimida. Ninguém podia discordar da “grande inteligência e do julgamento deste ilustre acadêmico e pensador de nossos tempos”, como eu ouvi do diretor de minha faculdade. Por isso, durante meus anos de estudante tive de me manter calado e aceitar a teoria de Yrrma, como uma verdade que apenas eu e minha mente atrasada não conseguia aceitar. Hoje em dia ele não é apenas famoso, como se tornou um dos membros vitalícios do Alto Conselho para questões do setor de Cultura e Moral. Por isso digo que estou colocando em risco minha carreira, hoje como pesquisador e professor, ao estar aqui em pessoa no labirinto subterrâneo da ilha imperial.

Enquanto caminho, retiro minhas anotações da mochila. Está começando a escurecer e não está em meus planos sair daqui no meio do escuro. Por sorte o caderno é leve e pequeno o suficiente para que com uma das mãos eu possa buscar o que procuro, enquanto com a outra continuo a marcar as paredes do caminho, sem ter de fazer nenhuma parada desnecessária. Com o polegar esquerdo viro as páginas até que em meio a diversas outras informações dos mais variados tipos, acho uma transcrição de vídeo que eu fiz quando ainda era apenas um estudante.

Foi durante o meu terceiro ano na universidade de Omphar que descobri o vídeo. Não recordo exatamente como eu cheguei a ele, mas estava na biblioteca, buscando material para uma pesquisa a respeito da crise econômica durante o período do Baixo Império e sua relação com os movimentos religiosos radicais, que culminaram com a guerra e o advento da Revelação. Enquanto checava os nomes de diversas obras e estudos sobre o assunto, um nome na tela de meu terminal me chamou a atenção: “Eykeen-Imm”. Exatamente o sobrenome de minha família durante os tempos pré-guerra. Devido às perseguições etno-religiosas da época, muitas famílias acabaram mudando seus sobrenomes a fim de escapar dos “pogroms”. Famílias, e até mesmo comunidades inteiras, foram assassinadas naquela época nas mãos de turbas de fanáticos. Por isso, meu bisavô, ao final da guerra, abandonou a carreira militar e juntamente com minha bisavó e meu avô – um adolescente na época – fugiu para as montanhas do norte, atravessando as fronteiras de sua província natal e adotaram novos nomes e sobrenome.

O nome que eu havia encontrado se referia a um vídeo, datado do período do início do pós-guerra. Busquei a referência do registro e tentei encontrar o tal vídeo nos arquivos da faculdade. Descobri que o vídeo de fato existia, mas estava guardado numa seção restrita da biblioteca e para poder acessa-lo precisaria de uma autorização especial do diretor da faculdade. Não solicitei a autorização, pois teria de justificar o porque estaria interessado em ter acesso a um arquivo da seção restrita, o que poderia levantar suspeitas sobre mim e minha família. Geralmente apenas professores têm acesso a esse tipo de material. Tentei esquecer o assunto, mas não conseguia. Sempre que ia à biblioteca, me lembrava do vídeo e pensava em porque o nome de minha família estava nele.

Um dia, já no quinto ano, o destino sorriu para mim. Eu preparava minha pesquisa para a conclusão de meu curso e estava então sobre a tutela científica do professor Alim Vur-Köss. Meu mentor e mais tarde um grande um amigo. Ele havia sido indicado ao cargo de subdiretor de nossa faculdade e aproveitando de sua posição, alegando precisar consultar certas obras da área restrita da biblioteca, pedi a ele uma autorização especial de acesso. Ele a concedeu a mim sem pestanejar. Apenas preencheu o formulário de autorização com seu nome, assinatura e o carimbo da faculdade, deixando em branco o espaço para as obras a serem consultadas, para que eu mesmo selecionasse o que fosse precisar. Preenchi o formulário com algumas obras aleatórias e entre elas o vídeo. Assim que terminei, me dirigi o mais rápido possível à seção restrita da biblioteca e entreguei o formulário à atendente responsável. Ela me olhou com uma cara desconfiada e depois para o formulário. Lembro que comecei a suar e temi que tudo fosse por água abaixo. Mas ela então me devolveu o formulário e liberou minha entrada. Finalmente podia consultar o tal vídeo.

Não fui direto até ele, pois não queria transparecer minha ansiedade e levantar suspeitas. Consultei outras obras, folheei alguns livros e só depois disso eu fui para onde estavam os vídeos. Procurei-o seguindo as indicações de referência que tinha em mãos, mas não conseguia localiza-lo em nenhuma das estantes da sala. Já estava quase perdendo as esperanças, quando o descobri escondido atrás de outros vídeos da antepenúltima estante, na última prateleira de baixo para cima. Estava numa caixa de papelão grosso e pardo. Em um de seus lados exibia diversos carimbos, inclusive do governo imperial e também as siglas que – como descobri mais tarde – identificavam o antigo e extinto serviço secreto de inteligência imperial. Na caixa havia seis cilindros, além daquele que eu procurava. Não tenho a menor idéia de como eles foram parar lá. É possível que a Universidade Real de Omphar tenha servido de centro estratégico da inteligência imperial durante a guerra, e aquela caixa acabou sendo esquecida ao final do conflito. Mas por se tratar de uma gravação feita após o final da guerra, descartei esta minha teoria. Diferente dos demais vídeos da sala, estes estavam armazenados em antigos cilindros de Quartz-DDN. Coisa muito antiga, tecnologia desenvolvida nos tempos pré-guerra e que deixou de ser usada há pelo menos uns trinta ou quarenta anos. Por sorte a faculdade ainda possuía um leitor de quartzo. Uma verdadeira peça de museu.

Inseri o cilindro no leitor e após alguns segundos um chiado estranho começou a sair das caixas de som. Comecei a mexer nos moduladores de som e imagem aleatoriamente, até que consegui obter uma imagem relativamente nítida na tela. A imagem era instável, cheia de chuviscos e por diversas vezes sumia. O som estava em melhores condições, apenas com um ruído constante e metálico em segundo plano que não consegui eliminar, mas pelo menos o deixei baixo o suficiente para poder deixar a gravação inteligível. Na tela do leitor, em meio a muitos chuviscos, vi um homem, por volta da mesma idade que tenho hoje em dia. Ele estava sentado, frente a uma mesa em um lugar de paredes escuras e teto baixo. Parecia um tipo de abrigo antibombas. A imagem era azulada, talvez devido ao tipo de filtro utilizado na época da gravação ou mais provavelmente fruto da má conservação do cilindro. Às vezes outras pessoas passavam atrás dele, mas não era possível identifica-las. O começo do vídeo era a parte mais comprometida, cheio de falhas e cortes. Devido a isso, nunca consegui identificar a identidade do homem. Ele falava em enoano, mas com um leve sotaque sulista o que me ajudou a entender melhor o que dizia. Quando o vídeo estava quase na metade, a imagem permaneceu mais estável e nítida, e foi quando senti um calafrio percorrer meu corpo e senti minhas mãos gelarem. Era como se eu estivesse vendo a mim mesmo ali naquele vídeo. A semelhança era tamanha que por alguns segundos eu realmente cogitei a possibilidade. Era idêntico!

O vídeo não era muito longo, o que me permitiu assisti-lo umas duas vezes em menos de uma hora. Nas duas vezes fiquei chocado com o que vi e ouvi. Parecia ser como um tipo de mensagem de alerta, um aviso. Mas exatamente sobre quê? Infelizmente, apesar de várias tentativas, não pude recuperar o início do vídeo, que era a chave para minha dúvida. Tanto o áudio quanto as imagens estavam muito danificadas. A partir do trecho onde começava a ser possível compreender melhor o que dizia meu sósia ou parente, passei a anotar tudo. Para minha surpresa, ele começou a falar sobre o labirinto e sobre sua relação com um segredo que garantia ao velho império o exército mais poderoso e aterrorizante do mundo. O vídeo acabava de forma abrupta, no meio de uma frase. Cheguei a pensar que fosse algum problema do leitor, mas na segunda vez que o assisti pude ver que de fato o vídeo terminava daquela forma.

Após aquele dia, perturbado pelo conteúdo do vídeo, meus pesadelos se intensificaram, tornando-se cada vez mais reais. Os corredores escuros, o cheiro de umidade e o calor que fazia dentro do labirinto pareciam muito mais reais. Podia sentir o vapor suspenso no ar. Sempre correndo, me guiando pelos sons dos passos, pelos gritos. Desesperado eu também gritava e já não sabia se o que ouvia eram outras pessoas ou o eco de minha voz. Em algum momento eu sempre voltava para o mesmo lugar, às margens de um lago fumegante de águas turvas. Atrás de mim, gritos desesperados e de sofrimento. Como sempre, acordava assustado e desorientado. Numa das vezes acordei e vi, sem entender, que estava com os pés molhados e sujos de limo.

Foram anos relendo a transcrição daquele vídeo. Hoje sei de cor cada uma de suas palavras. Nunca mais o assisti. Já como professor, o procurei para talvez fazer uma cópia, mas tanto ele quanto a caixa contendo os demais cilindros havia desaparecido. Desde aquele dia direcionei toda a minha pesquisa em busca de esclarecer o que de fato era o labirinto subterrâneo. Por isso estou aqui, não para derrubar teorias acadêmicas ou ficar famoso, mas por uma questão pessoal.

O ar começa a ficar mais quente, sinto uma brisa morna em meu rosto e acredito que estou chegando perto do tal lago. Continuo por mais alguns corredores e percebo que a temperatura está muito mais alta nesta parte do labirinto. Noto formações cristalinas nas paredes, fruto de séculos de precipitação da condensação do vapor do lago sobre o basalto. Sigo em meu caminho e de repente o corredor se abre para uma área aberta gigantesca. Certamente ali devia ser uma caverna subterrânea, cujo teto desmoronou quando caiu a bomba. A minha frente, um grande lago escuro. Exatamente como aquele que sempre vi nos sonhos. Vejo também que o labirinto contorna o lago e dele também partem outros caminhos de outros pontos de sua margem. Só então percebo as verdadeiras dimensões desta construção. Provavelmente ainda existem parte que estão escondidas sobre o solo. O labirinto é muito maior do que eu pensava. Na verdade, creio que ele não está apenas sob o Grande Templo e o jardim, mas que ele se estende por toda a ilha. Percebo que o labirinto não fora construído sob a capital do império. Foi o império que foi construído sobre as paredes do labirinto.

Aos poucos me aproximo da margem do lago. Com a pouca luz que ainda resta do dia, consigo ver as nuvens de vapor bruxuleando e se erguendo da superfície. Ali o calor é intenso e o ar possuiu um cheiro forte e ácido que arde a garganta ao respirar. Mesmo assim, chego mais perto.

Ao chegar às margens do lago, olho para suas águas e vejo meu reflexo ondulando na superfície. Não tinha reparado antes, mas as paredes do labirinto também estão estranhas. Começo a ouvir um som agudo e contínuo próximo a mim, mas não consigo identificar o que é, até notar que se trata de meu contador de radiação. Retiro ele da cintura e vejo uma confusão de números correndo de cima para baixo e a linha de intensidade no topo está tão agitada que se transformou em um borrão vermelho. De repente a tela se apaga e o aparelho para de funcionar. Estou tonto, talvez intoxicado por gazes vindos do lago. Sinto um formigamento pelo corpo, os pelos dos meus braços estão arrepiados. Levo a mão à cabeça e sinto que meu cabelo também está arrepiado, elétrico. Começo a ficar enjoado e zonzo, como se estivesse bêbado. Apóio as mãos nos joelhos e começo a vomitar. Não consigo andar, o mundo está girando ao meu redor.

Neste instante, também começo ouvir uma voz bem distante. Uma voz desconhecida. Aos poucos ela vai ficando cada vez mais próxima e mais alta. A princípio eu não compreendo o que diz, mas com o tempo as palavras se tornam familiares. Alguém me chama, mas não sei para onde. Giro sem sair do lugar, procurando pela pessoa. Talvez ela possa me ajudar a sair de lá. Viro a cabeça e a tontura fica pior e acabo caindo de joelhos. Continuam a me chamar, mas não consigo sequer me levantar. Novamente ouço a voz me chamar, só que dessa vez ela possui um tom imperativo. Reúno forças e me concentro em manter o equilíbrio. Consigo me erguer. De pé, e com os olhos fechados, respiro fundo tentando não cair de novo no chão. A voz chama por meu nome. Abro os olhos e vejo que já escureceu. O céu está estrelado, sem nuvens.

Sinto muita dor. Ela começou na cabeça e se espalhou para o resto do corpo. Uma dor aguda, como se fossem agulhas quentes atravessando a carne. Tento enxergar o corredor que me levou até lá, mas está muito escuro para ver qualquer coisa. Com as mãos estendidas procuro a esmo pelas paredes do labirinto. De repente sinto meu corpo desabando e ouço barulho de água. Errei o caminho e devo ter caído no lago. A água quente me envolve e já não consigo mais respirar. Desesperado, me debato na tentativa de voltar à margem, mas só consigo me afogar ainda mais. Estico o braço e por sorte sinto tocar em algo sólido. Agarro com as duas mãos e percebo ser a margem. Tento me acalmar e começo a sair. Estou cansado demais para me levantar, então saio rastejando de dentro da água. Arrasto-me até tirar os pés do lago e finalmente relaxo, estirado no chão.

Após alguns instantes, alguém chama meu nome. É a mesma voz que ouvi antes, mas dessa vez ela está bem mais próxima. A voz ordena que eu me levante e por alguma razão eu me sinto obrigado a obedecer. Há um homem a minha frente. Ele sorri e se curva, como um tipo de cumprimento. Ele possui uma longa barba escura e está trajado com roupas estranhas, antigas. Em uma das mãos ele segura um cajado dourado e na outra uma faca ou punhal. Ainda sorrindo, ele diz meu nome e faz uma nova reverência. Ainda sem entender, tento lhe perguntar o que está acontecendo, mas não consigo falar. Ao invés de minha voz, de minha boca sai um grito horrendo. Tento mais uma vez e o urro se repete. O homem, ainda curvado frente a mim, agradece a alguém por minha presença ali e mais uma vez se dirige a minha pessoa. Ao se levantar, ele se refere a mim como “aquele que conhece as coisas passadas e futuras” e também como “o sábio explorador dos caminhos tortuosos”. Confuso, avanço em sua direção, mas não consigo. Algo me detém. Olho para baixo e vejo que estou no meio de um grande circulo desenhado no chão. Ao seu redor há diversos símbolos, números e letras. Em meio àquela confusão reconheço meu nome, ainda que escrito de forma estranha, antiquada. Próximo dali, corpos de animais e de pessoas jazem espalhados entre eu e o homem. Estripados vivos. Alguns ainda estão vivos, agonizando entre sangue e vísceras.

Chocado com aquela cena de terror, tento gritar, sair correndo! Mas novamente o som que sai de minha garganta não é humano e algo me impede de cruzar a linha do círculo. Estico-me ao máximo para agarrar o homem sem sair do maldito círculo, e é nessa hora que vejo minha mão e percebo o que está acontecendo. O que vejo não é minha mão, mas uma garra grande e forte. Olho para meu corpo e o que vejo é uma monstruosidade, uma aberração. Na margem do lago procuro por meu reflexo e o que vejo não é meu rosto, e sim uma face animal, com grandes orelhas e chifres. Uma imagem saída de histórias antigas. Não existem mais estrelas quando olho para cima, apenas o teto curvo de uma caverna e ao meu redor os conhecidos corredores de basalto. Pensamentos estranhos invadem minha mente, não consigo mais pensar direito. Sinto raiva e ao mesmo tempo desejo. O homem ri e agradece aos senhores de Taath por terem me enviado. Eu havia me tornado no deus do labirinto.

EPÍLOGO:

Excerto retirado dos relatórios da “Expedição Kër-Yrrma” à ilha de Ascher,  #103120109:

Seguindo as indicações do mapeamento do alto conselheiro Kër-Yrrma, na data de hoje finalmente exploramos a região oriental da ilha. Como citado em relatório, ontem ficamos impossibilitados de trabalhar devido ao mau-tempo e a intensidade dos ventos.

Ao amanhecer partimos em três aerópteros e em menos de 10 (dez) minutos estávamos sobrevoando as ruínas do complexo palatino. Após a captura de imagens da topografia da área, pousamos numa planície a pouco menos de 500 (quinhentos) metros do local e rumamos a pé até as ruínas.

(…)

Por volta do meio do dia (aproximadamente marco 15.42.380) iniciamos o levantamento de materiais da área do Grande Templo (…) O trabalho neste setor foi prejudicado por algum tipo de interferência de natureza desconhecida nos equipamentos. Ao que parece, o epicentro desta perturbação se localiza dentro do labirinto (…) Às margens do lago que fica no interior do labirinto, quase toda nossa aparelhagem parou de funcionar e as células de energia de uma das câmeras entraram em fusão e explodiram. Além da perda do equipamento, o auxiliar (Rür Diel-Llin, aluno U.R.O.) que estava com ela teve alguns ferimentos leves e queimaduras de primeiro grau nas palmas das mãos. Ninguém mais se feriu.

Junto ao lago também encontramos evidências da presença do professor Orbas Pan-Ymon, desaparecido desde o início da primavera (…) entre os pertences da mochila (…) um diário de pesquisa, onde achamos o seguinte registro que aqui reproduzimos exatamente como o encontramos:

[#início#]……. horas da manhã………….sobre a ilha………é de suma importância………ir…….na ilha……………..não sei quanto tempo fiquei lá, mas se pareceram com………….que os Deuses me perdoem……….perdoem………..sabia……..contar………ouça…atenção…

Cada um………………A Guarda Imperial…….Você saberá a verdadeira origem dos membros da Guarda Imperial.

Sob o Grande Templo do império existe o labirinto, construído em torno de um lago subterrâneo de água quente, do calor que vem das entranhas da terra. O lugar era abafado, escuro e úmido. E lá dentro vivia um ser, uma criatura, uma entidade. Você…. Que os Deuses tenham piedade!

Há muitos séculos o primeiro imperador – maldito seja! – encontrou o lago subterrâneo e ordenou que fosse construído um labirinto secreto ao seu redor. Utilizando seus conhecimentos das Artes Secretas Sombrias, ele preencheu suas paredes com símbolos de proteção e poder. Por fim, às margens das águas negras do lago ele realizou um rito de invocação, sacrificou animais e escravos para que emergisse o seu escolhido, o deus do labirinto. Algo transmutado, animalesco, primitivo, violento. Um ser impregnado de puro desejo e luxúria. Uma criatura sem vontade própria.

Seu rosto era animalesco, com uma longa barba e cabelos compridos, grandes orelhas de touro, olhos como de um carneiro e um grande par de chifres em sua testa que se torciam altivos para trás. Suas presas reluziam à pouca luz do labirinto. Seus braços e torso eram de um homem, mas suas pernas eram como as de um bode, cobertas por uma pelagem escura e espessa. Impossibilitado de falar pela feitiçaria, ele podia apenas gritar e rugir para aterrorizar suas vítimas e demonstrar quando tinha seu prazer saciado. O demônio foi então confinado no labirinto, impedido de sair devido às barreiras místicas que cercavam a construção, e lá permaneceu como o maior segredo e tesouro do império nos últimos cinco séculos. Até que por fim se viu livre após o dilúvio de fogo.

Seu papel no império era nefasto. Todos os anos, doze jovens mulheres eram escolhidas no harém do imperador. Sempre as mais bonitas, por volta de quinze e vinte e cinco anos de idade. Como fiquei sabendo, por todas as partes do império e além, emissários do imperador viajavam em busca de novas aquisições para o harém de seu senhor. Ao encontrar uma moça que satisfazia as exigências necessárias, eles conversam com a família da escolhida e tentavam convence-los de que aquele seria um destino melhor para a jovem. Que ela seria muito bem cuidada, tratada como uma princesa. Como em geral eram famílias pobres, acabam aceitando a proposta e entregando suas filhas em troca de um punhado de moedas grossas e brilhantes, animais, mercadorias ou qualquer outra coisa que aceitassem e que trouxesse o alívio de ter uma boca a menos a alimentar em casa.

Fechado o acordo, elas então eram levadas para o coração do império, onde seriam avaliadas pelos sacerdotes do Templo. Sendo aprovadas, elas eram levadas ao harém para serem banhadas e arrumadas de forma adequada e depois apresentadas ao imperador. Lá, elas permaneciam durante um ano na companhia de outras novatas e das mais velhas, à disposição das vontades do imperador. As que eram rejeitadas acabavam vendidas como escravas para outras casas nobres ou no grande mercado de escravos.

Após um ano todas elas se tornavam elegíveis ao “Ritual da Lua Nova”. Para cada período de lua nova do ano uma delas era escolhida. Sendo assim, era comum que quase todas – tanto as mais jovens quanto as mais velhas – se candidatassem a participar do ritual. Era uma cerimônia tão importante que muitas passavam a maior parte do tempo que possuíam estudando as passagens do Livro Sagrado de Megara para não cometerem nenhum erro caso chegasse o seu dia de ser escolhida para a cerimônia. A cada mês, os sacerdotes entravam no harém imperial para escolher aquela que representaria a virgem Batsé, na encenação cerimonial da vitória e ascensão de Agat aos céus. Assim que eles entravam na ala principal, todas elas se colocam em fila, sorridentes, uma ao lado da outra, cada uma delas ansiosa para ser a nova escolhida. O grupo sacerdotal analisava as candidatas cuidadosamente. Depois selecionavam algumas e pediam a elas para recitarem trechos do Livro Sagrado.

Após delibarem em segredo, os sacerdotes declaravam sua decisão de quem seria a afortunada a participar do “Ritual da Lua Nova”. A excitação em participar da cerimônia se dava principalmente porque além de ser uma cerimônia extremamente importante dentro do cânone religioso do império, a jovem escolhida costumeiramente ganhava um indulto que lhe garantia o direito de ir para qualquer parte do império durante o verão. E caso o imperador apreciasse a interpretação, a jovem poderia ser escolhida para se tornar uma de suas concubinas, o que garantia que caso tivesse um filho dele, este seria reconhecido com um de seus herdeiros e um dia poderia vir a se tornar o próximo imperador. Assim, todos os anos dúzias de moças sonhavam em poder deixar os limites do harém e quem sabe passar a viver no palácio com o seu senhor.

No dia da primeira lua nova, a jovem era conduzida ao amanhecer ao Grande Templo para uma cerimônia em louvor dos deuses e ensaios, supervisionados pelo Grande Patriarca em pessoa. Depois, ao longo do dia ela teria um tratamento todo especial para prepara-la para a noite. Entre outras coisas, iriam banha-la com água e sais aromáticos, depois passariam óleos perfumados e um outro banho, com leite de cabra e pétalas de rosa; depois um novo banho com água e sais aromáticos e por fim seria perfumada e maquiada. Suas companheiras de harém iriam vesti-la com uma túnica branca de linho, muito fina e leve, com detalhes bordados em azul. Sem maiores enfeites ou jóias, como o Livro Sagrado diz. A escolhida era levada para a ala principal do harém, onde ela e até outras doze mulheres convidadas por ela participavam de um rico banquete. Por fim, logo após o anoitecer, a buscavam para finalmente ir ao Templo e participar da cerimônia.

Ao chegar ao templo, o Grande Patriarca e demais sacerdotes conduziam a escolhida a uma sala especialmente preparada para ela, com bandejas com frutas e vinho. Pouco antes de iniciar a cerimônia, um dos sacerdotes repassa as falas que ela deveria dizer ao interpretar a virgem do Livro Sagrado. Por fim, lhe traziam uma grande taça prateada contendo um líquido verde escuro e de gosto forte. Nenhuma delas jamais soube o que era a tal bebida, mas trata-se de uma poção feita de sementes avitrera. Tomado em pequenas quantidades era um conhecido afrodisíaco, mas em grandes quantidades causava sonolência e até mesmo torpor. Sem saber disso, a escolhida ingeria a solução e poucos minutos depois estava num sono profundo que duraria algumas horas.

Enquanto estava adormecida, a jovem era levada até o labirinto subterrâneo. Ao acordar, a escolhida perceberia que a história da cerimônia e tudo mais era uma grande farsa. Ela havia sido enganada. Acordara num lugar escuro, abafado, suando muito ainda devido aos efeitos da poção e sem saber onde estava ou para onde ir. Em geral elas se levantavam e enquanto seus olhos ainda não se acostumavam com a pouca luz do lugar, tateavam as paredes tentando em vão achar a saída. Assim que começavam a fazer barulho, ele despertaria e a caçada começava. Primeiramente o deus do labirinto ia se guiando pelos sons dos passos da escolhida e outros barulhos que fizesse. Finalmente, ele sentiria o cheiro dela. O perfume era propositalmente feito para atraí-lo. Assim, tomado pelo cheiro que entrava por suas narinas, o demônio começava a perseguir a jovem, farejando-a por onde passava. Não demoraria muito para ela ouvir os sons dos cascos dele contra as pedras do chão e perceber que alguma coisa vinha atrás dela.

Desesperada, ela começaria a correr e sem enxergar direito acabaria tropeçando e batendo nas paredes numa fuga desesperada. As mais espertas e rápidas ainda conseguiriam postergar por mais algum tempo seu destino. Mas em algum momento ele as alcançaria e, se debatendo e gritando, ela seria levada para o covil do deus do labirinto, junto ao lago fumegante. Lá ele iria possuí-la imediatamente, por diversas vezes seguidas, incessantemente, até que ele ficasse satisfeito. Enquanto isso, os sacerdotes iriam aguardar até o último dia de lua cheia para voltar ao labirinto. Ao longo dos dias que se passariam, a pobre jovem continuaria a ser estuprada pelo demônio. Muitas não resistiam e acabavam morrendo. Que os Deuses sejam misericordiosos!

Dias depois, na lua cheia, três sacerdotes desciam até o labirinto. Munidos de amuletos e relíquias para evitar serem feitos em pedaços pela criatura, eles adentravam nas trevas dos corredores e se dirigiam para onde o demônio se escondia. Quando chegavam ao covil, eles resgatariam a jovem. Se estivesse morta, seu corpo seria cremado e as cinzas espalhadas no mar. Caso estivesse viva, estaria fraca, machucada e grávida. Ela então seria levada ao monastério da Ordem de Beliaah para ser cuidada e auxiliada durante a gestação. Diferente do comum, as gestações destas jovens durariam por volta de seis meses. Sempre davam à luz a gêmeos, em sua maioria meninos e não era raro um deles não sobreviver mais do que alguns dias após o nascimento. Quando nascia uma menina e esta sobrevivia, ela era sacrificada. Acreditava-se que elas poderiam ser extremamente perigosas e cresceriam para se tornar feiticeiras, devido a natureza sobrenatural do pai. As mães costumavam morrer ao dar a luz. Aquelas que não morressem eram assassinadas para assim manter-se o segredo do labirinto. Os bebês sobreviventes eram então deixados aos cuidados de amas de leite, sob a supervisão dos irmãos do monastério, até completarem……[#final#]



Categorias O Deus do Labirinto

Deixe um Comentário

Baixe em PDF

Quer este material em PDF?

Basta clicar no link abaixo!

O Deus do LabirintoClique baixar esta publicação

aoLimiar

Divulgue você também sua obra no aoLimiar.

O aoLimiar - Rede Social de Editoras, Escritores e Leitores de Literatura Fantástica.

Hospedagem aoLimiar | Projeto dotWeb