O Nephilim

Publicação: 25 de fevereiro de 2010

“If the doors of perception were cleansed every thing would appear to man as it is, infinite. For man has closed himself up, till he sees all things through narrow chinks of his cavern.”
William Blake, “The Marriage of Heaven and Hell“.

Ao consultar o verbete “Childless, William” na Enciclopédia Britânica, talvez vocês não encontrem ninguém. Porém, certa vez, durante a ociosidade surgida no meio daquele ano, devido ao período de férias na faculdade, comecei a folhear alguns livros antigos que tinha em casa, e sem nenhuma razão especial me veio o nome de Childless à mente. O nome chegou sorrateiramente, furtivo como um felino, um sussurro ao ouvido, uma lembrança perdida que voltava à tona em minha consciência. Movido por tal impulso, fui até a enciclopédia e ao consultá-la não havia nada a respeito dele. Porém, algumas semanas mais tarde, consultando um manual de literatura inglesa que havia recém adquirido, mais precisamente o Cambridge Companion of English Literature, constatei que no índice remissivo existia o nome de Childless: “Childless, W., 235”. Fui até a página em questão e a percorri rapidamente com a ponta do dedo até encontrar o nome na antepenúltima linha.

Aquele capítulo específico tratava dos principais escritores da primeira metade do século XIX, com um enfoque especial sobre William Blake. A referência a Childless era breve, mas dizia que ele havia sido não só contemporâneo como também amigo de Blake em seus últimos anos de trabalho, e falava sobre a influência do velho Blake para a composição da mais famosa obra do jovem escritor Childless. A tal obra seria um poema obscuro e de cunho um tanto místico intitulado, “The “nephilim” Under the Veil”. Para falar a verdade, não me recordo se era exatamente isso que o artigo dizia. Há algum tempo que minha memória não se tornou confiável e devido aos últimos fatos, passei a duvidar de muito daquilo que ainda me lembro. Certeza mesmo era de que Childless teria sido contemporâneo de William Blake, que talvez tenham se encontrado várias vezes até a morte do último, e que também teriam contribuído um para o trabalho do outro. Durante sua obscura carreira, Childless também teria conhecido Coleridge, Wordsworth e Lord Byron, assim que este retornou da Grécia. Consultei outros manuais de literatura inglesa mais antigos e quase se desmanchando ao toque. Visitei quase todas as livrarias da cidade, sebos e a biblioteca de três faculdades, mas em nenhum deles encontrei qualquer outro tipo de menção a Childless ou a tal poema. Por fim, desisti.
Durante um ano o nome de Childless não me incomodou mais, era como se eu tivesse apenas sonhado com seu nome e nada mais do que isso. Talvez fosse isso mesmo que tivesse acontecido. Ou era isso que eu gostaria que tivesse acontecido. Refletindo agora sobre isso, não saberia dizer ao certo. Entretanto, após um ano decorrido, fui ao cinema e na volta para casa parei na frente de uma livraria, e foi lá que eu vi aquele nome novamente. Foi quase como uma visão sobrenatural quando identifiquei aquelas letras através do vidro da vitrine, como que pairando no ar. Era um livro grosso, capa dura, com mais de quinhentas páginas. A capa exibia a imagem de um homem de meia idade de perfil, ruivo e com uma barba farta, leonina. Sua testa estava levemente enrugada, suas sobrancelhas quase se unindo, como alguém compenetrado ou que tenta enxergar alguma coisa que está muito longe. Um retrato que em muito lembrava as pinturas inglesas dos pré-rafaelitas. Acima dele, o título do livro em letras douradas: “The Collected Proses and Poems of William Childless”.

Mais tarde descobri que o homem da capa não era Childless, pois não existem fotos ou qualquer outro tipo de imagem dele que tenha sobrevivido. É certo que os editores decidiram publicar a imagem de qualquer um que tivesse cara de escritor vitoriano, só para chamar a atenção do leitor, como foi o meu caso. Uma ansiedade súbita tomou conta de mim. Estava tão excitado com a existência de tal livro ali na vitrine que esqueci o cigarro ainda não aceso pendurado no canto da boca, enquanto entrava correndo na livraria. Só o percebi quando perguntei à vendedora o preço do livro e senti algo se agitando sob meu lábio superior enquanto falava.

Entrei e fui direto até o livro, como um animal faminto com medo que sua presa fugisse. Foi bom que tivesse feito isso, pois aquele era o único exemplar que eles tinham. Alguns minutos depois, estava andando devagar pela calçada, rente aos prédios e desviando das pessoas, enquanto seguia em meu caminho folheando o livro compulsivamente. Corri rapidamente os olhos pelo índice e lá estava o poema, supostamente famoso, “The “nephilim” Under the Veil “. Comecei a ler imediatamente enquanto caminhava. Quando cheguei em casa, já o tinha lido três vezes do começo ao fim. Não faz muito tempo quando eu podia citar cada um de seus versos de cor, mas hoje só o que me restou na memória foi o título e o argumento de seu conteúdo. Ainda me recordo de um ou outro trecho, mas a maior parte dele esqueci. Na verdade “esquecer” não é exatamente o termo correto. O melhor seria dizer que poema se “diluiu” em meio a outras tantas lembranças de minha vida, as quais eu também não me lembro. Como um sonho que você sabe que teve durante a noite, mas ao acordar não sabe exatamente como descreve-lo com clareza. A lembrança do sonho não foi esquecida, mas está diluída em meio a outras.

É um poema estranho, mesmo para escritores românticos oitocentistas. O tipo de texto que William Blake escreveria com Goethe se John Milton lhes ditasse numa casa de ópio. Childless dividiu seu poema em três partes intituladas como “Gan Eden”, “Babel” e “Yerushalayim”, tendo cada uma delas exatamente mil novecentos e oitenta e três versos, por vezes aliterativos, por vezes livres. Isso sempre me passou a imagem de um poeta não muito experiente em seu ofício, ou um que apenas queria provocar o leitor mais regrado e apegado à métrica tradicional ou era simplesmente um escritor excêntrico. A primeira parte do poema começa contando sobre como Deus criou o mundo, os anjos e os homens, e logo trata da rebelião de Lúcifer e seus seguidores insurretos. Mas, diferente de outras obras que tratam do mesmo assunto, no poema de Childless os anjos rebelados fogem para a terra onde fundam as primeiras cidades e passam aos homens o seu conhecimento sobre os diversos tipos de ofícios, de artes mágicas e sobre a natureza do universo. Finalmente, como está no trecho do livro do Gênesis (6: 1 – 4), copulam com as filhas dos homens e delas nascem grandes seres. O enlace dos corpos, os gestos, as sensações, o êxtase… Esta parte do poema é descrita com tantos detalhes e de forma tão explícita que beira o pornográfico. Os filhos desta união não são gigantes, como algumas especulações de biblístas costumam dizer, mas seres de grande poder os quais Childless identifica como sendo os “nephilim”; que acabam por criar um tipo de novo Paraíso sobre a Terra. A partir de então, estes seres passam a ser vistos com grande temor pelos demais povos da Terra e com ódio por Javé, pois os considera como uma afronta a sua autoridade. Algo que lembra muito o embate dos Titãs contra os deuses da mitologia grega. O poema então narra uma grande batalha entre os “nephilim” e os seus pais contra as hostes celestiais javéticas, que se encerra com o advento do Dilúvio e com a vitória do exército divino. É curiosa a idéia de Childless neste ponto do poema, porque após a batalha celestial não ocorre o aprisionamento dos anjos rebeldes no Inferno, mas sim a sua total aniquilação. Dentro do poema não existe a figura de Lúcifer transformado no Diabo ou de algum lugar para onde os derrotados foram mandados como punição.

Os poucos “nephilim” sobreviventes então decidem se esconder e preparar sua vingança. Para tanto, eles ocultam suas naturezas semi-divinas e passam a viver escondidos entre os homens, como pessoas comuns. Enquanto isso, após sua vitória e sem a influência dos anjos rebelados e seus filhos, Javé passa a governar o mundo utilizando-se de um artifício, um “Véu Oculto” (termo utilizado por Childless) que esconde a verdadeira natureza do universo. O poema passa a idéia de que após a batalha celestial o mundo, que antes havia sido um paraíso, uma utopia, o Éden propriamente dito, é transformado no Inferno, uma prisão mística para a humanidade que partilhou dos ensinamentos dos anjos rebeldes e dos “nephilim”. Nesta sua releitura, Adão aparece como um “nephilim”, sábio e conhecedor da língua dos animais, das plantas e das forças da natureza, e não como o primeiro homem. Não há nenhuma menção a frutos proibidos e serpentes. Ao invés disso, Adão conversa com seu pai angelical o qual lhe apresenta sua consorte, Eva. Childless utiliza o nome Eva não como o nome de uma mulher específica ou a esposa de Adão, mas como um termo geral para todas as mulheres também fruto da união entre os anjos e as “filhas dos homens”. Ao mesmo tempo, o poema também dá a entender que Adão era um dos líderes dos “nephilim” e que todos foram aliados da humanidade durante a guerra. O autor deixa claro que a linhagem dos “nephilim” e de Adão e sua Eva não é exatamente a mesma que a dá origem à humanidade. Uma idéia no mínimo blasfema para um escritor do século XIX.
A segunda parte do poema, “Babel”, começa descrevendo como os sobreviventes escaparam da ira divina das águas do Dilúvio, mas se restringe a dizer apenas que “os filhos dos filhos de Deus se refugiaram em regiões ermas e altas do oeste, onde ficaram livres das águas malignas de Javé” (tento citar aqui como me lembro. Como já disse, não recordo claramente das palavras originais em inglês). Este trecho sempre me intrigou, pois, assim como em outras partes de sua obra, Childless sempre parece fazer questão de utilizar os termos “Deus” e “Javé” como sendo duas personagens diferentes e opostas. Quando fala sobre aquele que criou o universo e tudo o que existe nele, inclusive os homens e os anjos, ele se refere a Deus. Recordo-me dele até mesmo utilizar o termo “the Everlasting” algumas vezes ao se referir ao Criador. Mas quando ele fala sobre contra quem os anjos se rebelaram, que criou o Dilúvio, que perseguiu os “nephilim” e submeteu os homens a sua adoração, ele emprega o nome Javé. Como descobri depois, William Childless era profundo conhecedor das idéias do cristianismo primitivo gnóstico, que tratam justamente deste tipo de dualismo divino, e de demais tradições esotéricas. Após se salvarem, os sobreviventes então ocultam suas naturezas e passam a viver entre os homens através dos séculos. A partir daí, o poema narra uma série de episódios marcantes ao longo da história da humanidade de forma anacrônica, sempre girando em torno de certas pessoas que teriam de alguma maneira ligação com os “nephilim”. A escrita de Childless é estranha, porque não fica claro em nenhum momento se estas pessoas seriam os “nephilim” antidiluvianos que ainda estariam vivos ou se seriam pessoas que estariam sob influência deles, aliados. Em um dos trechos que ainda me lembro, ele chega ainda chega a dizer “the oldborns shall live again in perpetual births of new aeons on the minds of mankind”, o que sempre me fez pensar que Childless quisesse dizer que os “nephilim” teriam na verdade a capacidade de renascer a cada nova geração entre os homens. O fato é que ao ler o poema, a impressão que temos é que as três coisas ocorrem simultaneamente. Todos os grandes heróis, salvadores, profetas e pensadores citados (e aqueles criados) por Childless são os que em tempos de obscurantismo surgem para trazer algo que mudaria o mundo, para subverter a realidade estabelecida por Javé, para rasgar o “Véu” que ele criou. Mas em geral estas pessoas acabam sempre encontrando um final trágico. Alguns conseguem cumprir com sua missão, outros são destruídos antes disso.

O final desta segunda parte é o momento menos místico do poema, mas não necessariamente mais realista. Ele termina de forma abrupta, com a crucificação de Jesus e a fuga de Judas para o deserto. Na versão de Childless, não há nenhum traidor que trocou seu mestre por algumas moedas. Muito pelo contrário, Jesus simplesmente pede a Judas para ir para o deserto encontrar-se com o “Pai”. No poema Judas é descrito como o verdadeiro discípulo, enquanto os demais apóstolos são retratados como seres temerosos e confusos. Não é narrada a prisão nem a paixão de Cristo. Ele se despede de Judas em segredo, e nos versos seguintes ele já está crucificado. O fato mais perturbador deste trecho é o de que Jesus não diz nada parecido com aquilo que nos relata os evangelhos. Preso à cruz, ele não pronuncia palavras de consolo ou pedidos de perdão a ninguém. Ele simplesmente ergue os olhos ao céu e começa a rir, de forma cada vez mais intensa, mais alta, até culminar numa gargalhada de triunfo que só cessa quando finalmente morre.

A terceira e última parte é onde a obra de William Childless atinge o seu clímax e também onde se torna ainda mais insólita e confusa que o restante do poema. Nesta parte do poema, o texto toma proporções apocalípticas. Tem início uma grande rebelião liderada pelos “nephilim” e seus aliados contra Javé. O poema diz que após tanto tempo de reclusão e vidas ocultas, “the hidden ones has awoke in the minds of mortal souls, to the celestial shores”. Eles se reúnem num local que não fica muito claro onde é pela leitura do texto. Childless diz: “to escape from the Warder Eye, the sons and daughters of the Eternal had gone beyond the Veil, gathering under the shades of Nod”, e de lá eles iniciam finalmente sua vingança. Segundo o que me lembro, o poema diz que a batalha travada entre os “nephilim” e os agentes de Javé acaba consumindo a humanidade num novo dilúvio, mas diferente do primeiro que inundou o mundo, Childless faz com que dessa vez os responsáveis pelo dilúvio sejam os “nephilim” e ao invés de água o mundo é tomado por fogo. Este dilúvio de fogo não é algo real, não é exatamente um incêndio, pelo o que as palavras de Childless indicam, mas um fogo místico. Ele cita este novo dilúvio como sendo aquele que consome os ignorantes, os cegos e os frágeis demais para contemplar aquilo que se esconde por trás do véu que encobre a “verdadeira Jerusalém”, a realidade oculta do universo. A “Jerusalém Celeste” não estaria por vir, mas já estaria ao nosso redor, só que não conseguimos enxerga-la devido ao “Véu”.

O poema termina com a vingança dos “nephilim”, que finalmente derrotam Javé e com a queda de seu Reino (“the Kingdom”, com “K” maiúsculo) através deste “fogo libertador”, como Childless se refere ao novo dilúvio. Com a destruição do Reino, é revelado para todos os panoramas desconcertantes dos domínios do Eterno, de Deus, e o retorno de antigas potestades, poderosas entidades do passado da humanidade, que são os verdadeiros responsáveis pela morte de Javé e as reais manifestações da essência do Criador. Childless concluí o poema dizendo: “The old marks are vanished, the ilusion is broken, the frontiers are lost, the mortals no more dead. The perception is wide, the knowledge is deep, the mind is free”.

Assim que entrei em casa, tranquei a porta, desliguei o telefone, deitei na cama e comecei a ler o livro avidamente até terminá-lo. Além do poema principal, o livro também continha um outro poema, intitulado “The Carrion Wings of Midnight” (que juntamente com “Barnaby Rudge” de Dickens, segundo descobri, teriam inspirado Poe a escrever o seu “O Corvo”), pequenos contos de qualidade questionável inspirados no folclore escocês e do norte da Inglaterra, alguns ensaios sobre a literatura européia do final do século XVIII, um breve estudo de casos de licantropia que teriam se alastrado por Londres na década de 1820, um pequeno ensaio sobre o magnetismo dos corpos vivos, geomancia, uma análise sobre as origens do tarô e as anotações da viagem que teria feito quando foi ao Egito na década de 1840. Neste breviário de viagem, há um pequeno trecho que me chamou a atenção e me lembrou seu poema “Under the Veil…”. Childless diz que enquanto visitava algumas ruínas em Luxor teve um encontro inesperado: “Na antiga al-Uqsur encontrei-me com um de meus irmãos há muito recluso. Tomamos café e em meio a nuvens de fumos adocicados, me disse que estava preparado para realizar a sua passagem para além dos caminhos do Reino. Naquela noite ele me mostrou o que fazer e por fim eu o vi partir”.

Como disse, Childless tinha interesse por assuntos místicos e, como muitos artistas do período, circulou por grupos esotéricos e sociedades secretas. Provavelmente este tal irmão que encontrou no Egito fosse também um destes ocultistas vitorianos. Tempos depois descobri que o nome de Childless é muito mais conhecido no submundo esotérico do que literário. Entre alguns fatos inusitados, o famoso Aleister Crowley teria se encontrado com ele quando tinha por volta de 19 anos, pouco tempo antes de ir para a Universidade de Cambridge. Crowley não deixa muito claro quando exatamente e onde isso aconteceu, mas diz que teria passado toda uma tarde e uma noite conversando com o senhor W.C. (como Crowley o chama em seus diários).

Já era por volta das seis da manhã quando terminei de ler o livro. Estava cansado, mas não necessariamente com sono. De qualquer maneira, meus olhos ardiam como se estivessem cheios de areia e sentia muito calor e dor de cabeça. Há quase uma semana estava gripado com eventuais estados febris, e aquele era um desses momentos. Definitivamente eu precisava descansar. Pelo menos fechar os olhos. Era estranho, pois não me lembro se tinha de ir trabalhar naquele dia, o que preocuparia a maioria das pessoas que tem um emprego e passam a noite em claro. Para falar a verdade, hoje em dia nem mesmo me recordo se eu tinha um trabalho ao qual devesse ir. Isso já não importa mais. Tendo um emprego ou não, precisava descansar. E foi o que eu fiz. Tive sonhos estranhos com lugares e pessoas que nunca tinha visto antes. Influenciado pela leitura do poema, sonhei com antigos deuses mortos lutando em terras distantes. Vi hostes angelicais guerreando sob um céu púrpura e sendo vigiados por um grande olho aterrorizante e reluzente, cercado por símbolos brilhantes. Ao fundo ouvia um som estranho. Era como se várias vozes gritassem e discutissem ao mesmo tempo em voz baixa, enquanto uma única voz grave e ensurdecedora urrava palavras que eu desconhecia, mas que mesmo assim soavam aterrorizantes. Em meio a tudo isso eu vi William Childless.

Bem diferente da imagem da capa do livro, ele era magro, esguio, de estatura mediana. Seu rosto tinha uma expressão calma e esboçava um leve sorriso. Ele não se apresentou nem disse nada, eu apenas sabia que era ele. Estava vestido completamente de negro, exatamente o estereótipo de um cavalheiro inglês vitoriano. No sonho ele caminhou até mim, balançando sua bengala de forma despreocupada. Parecia bem mais jovem do que eu o imaginava, talvez por volta dos trinta anos. Sempre pensava nele como um velho barbudo e gordo, usando óculos. Uma versão mais rechonchuda e desleixada de sir Arthur Conan Doyle. Ele se aproximou, tirou a cartola e sorriu novamente. Fiquei parado como uma estátua. Este era um daqueles sonhos que nós não temos controle sobre nossas ações. Apesar de nos vermos fazendo e falando coisas, não conseguimos interferir, apenas assistimos a nós mesmos como meros espectadores. Childless então chegou junto ao meu ouvido e disse alguma coisa em voz baixa. Não me lembro o que ele disse. Mas naquele momento fui tomado por uma grande ansiedade. O restante do sonho foi muito confuso e não me recordo direito. Por fim acordei.

Estava muito mais cansado do que imaginava, pois acabei dormindo até o final da tarde. A febre já tinha baixado. Levantei, tomei um banho e fui até a casa de um casal de amigos que havia me convidado para jantar. Era um jantar em homenagem a alguma coisa a qual eu não tinha certeza o que era. Aniversário de namoro, noivado, casamento ou algo do gênero. Não tinha prestado atenção quando eles me convidaram e não tive coragem de lhes perguntar, pois seria meio embaraçoso. Esperava que em algum momento do jantar eles fizessem um brinde, o que esclareceria o motivo da ocasião. Mas não aconteceu. De fato houve um brinde, mas foi simples, como qualquer outro que fazemos quando temos alguns amigos por perto e um copo na mão. Talvez eu apenas tivesse me enganado com o motivo do jantar. Não seria tão improvável que eu tivesse imaginado ou lido algo sobre jantares e casamentos no livro de Childless e acreditado que tivesse sido meus amigos que disseram isso para mim. Como disse, minha memória naqueles tempos estava definhando e por vezes se entrelaçando com outras lembranças.

Após o jantar, permanecemos à mesa conversando sobre assuntos diversos. Assim que foi possível, introduzi o nome de William Childless na conversa. Meus amigos me olhavam curiosos, pois me disseram nunca ter ouvido falar dele nem sobre nenhuma de suas obras. Empolgado com essa declaração, passei as horas seguintes lhes contando sobre os poemas, contos e crônicas que tinha lido na noite anterior. Lembrando disso agora, acho que eles ficaram um pouco entediados comigo naquela noite. Recordo-me de estar falando sem parar e eles me olhando com certo olhar de sonolência. A certa altura, meu amigo pediu desculpas e disse que precisa ir dormir porque acordaria muito cedo no dia seguinte. Continuei conversando com minha amiga por mais algum tempo, até que notei seu olhar de impaciência e sono. Decidi que o melhor era ir embora.Voltei para casa, tomei mais analgésicos, e deitei na cama. Logo estava dormindo e mais uma vez sonhei com lugares e pessoas desconhecidas em meio a uma história muito confusa para conseguir lembrar em detalhes no dia seguinte.

Alguns dias depois, descobri um livro publicado no ano anterior pela universidade de Oxford que tratava-se justamente de uma biografia literária de Childless. Comprei-o imediatamente e em dois dias já tinha terminado. Por ser da editora de uma universidade conceituada, acreditava ser um bom trabalho. Mas não foi o que me pareceu. Aquela talvez fosse uma das biografias mais não biográficas que já li. O autor do estudo restringia suas análises a partir do ano de 1809, quando Childless desembarcou na Inglaterra vindo dos Estados Unidos. Qualquer coisa anterior foi ignorada. Os relatos de seus trabalhos eram áridos, assim como os detalhes de sua vida pessoal, sendo a maioria meras deduções por parte do biografo, nem sempre verossímeis. Mas felizmente esta não foi a única biografia de Childless a ser publicada naquele ano. Outras duas biografias sobre ele foram lançadas, além da reedição de uma de suas obras há muito tempo esquecida: “The Philosophical History of Magic and Witchcraft”, em dois volumes, sendo que a última edição tinha sido publicada em 1877. Rapidamente a obra se tornou um best-seller entre grupos new-age, esotéricos e curiosos pelo assunto. Logicamente comprei todos esses livros e cada vez mais me via envolvido pela figura de Childless. Aquilo definitivamente já havia se tornado uma obsessão, tinha consciência disso, mas não conseguia parar.

A partir destas publicações o nome de William Childless tinha se tornado muito popular. Para todos os lados que eu olhava tinha alguma coisa, algum texto ou trabalho sobre ele. Comecei a me questionar como nunca ninguém tinha percebido tudo isto antes? Era como se ele tivesse retornado dos mortos. E a cada dia que se passava eu ia me tornando cada vez mais obcecado por Childless. Passei a comprar qualquer coisa que publicavam sobre ele.

Na mesma proporção que crescia meu interesse por William Childless, minhas crises de dor de cabeça também aumentavam. Os momentos febris foram ficando cada vez mais intensos e analgésicos e outros medicamentos já não surtiam tanto efeito quanto antes. Já não ia mais trabalhar, o que provavelmente me custou o emprego (seja lá qual era) e raramente saía de casa. De vez em quando algum amigo vinha me visitar e costumava me trazer alguma para comer. O que era bom, pois assim tinha mais tempo para estudar. Eles reclamavam, dizendo que eu devia procurar um médico, que devia sair de casa, passear. Mas os ignorava e evitava qualquer coisa que me desviasse de minhas leituras sobre Childless. As coisas pioraram quando começaram os surtos de amnésia e sonambulismo.

Numa manhã acordei na sala, todo vestido (calça jeans, camisa, casaco…) e com as mãos sujas com cinzas. Fiquei confuso, pois tinha certeza que na noite anterior tinha ido para cama de pijamas. A barra da minha calça estava úmida. Olhei pela janela e vi que estava garoando. Fui até a cozinha, tomei um copo de água, lavei as mãos ali mesmo, me troquei e fui tentar dormir de novo. Só no dia seguinte fui notar o estranho símbolo que estava desenhado com cinzas no espelho do banheiro. Se pareciam com duas serpentes, uma mordendo a ponta do rabo da outra, dentro de um círculo rodeado de outros símbolos e letras menores. Abaixo do espelho, a pia estava imunda. Alguma coisa havia sido queimada ali. Se bem me lembro, pelos restos que ainda estavam lá, havia sido papel. Tudo indicava que vinham dali as cinzas para o desenho no espelho. Se eu fiz aquilo, não me recordava e nem sabia o que significava. Mas ao olhar novamente para o espelho, me incomodei com o fato de ver meu rosto refletido dentro daqueles círculos. Uma sensação estranha de apreensão. Abri a torneira e joguei uma borrifada de água para limpar aquilo de lá. Minha cabeça estava explodindo e a febre tinha voltado. Infelizmente aquele não foi o único caso de sonambulismo. Outros aconteceram nos dias seguintes.

Numa das vezes, era ainda bem cedo quando tocou a campainha e ao abrir a porta o porteiro do prédio me estendeu um pacote em papel pardo. Não entendia o que ele queria e peguei o pacote. Ele me disse que eu havia deixado cair quando entrei no prédio. Agradeci e fechei a porta. Ao abrir o pacote, me surpreendi ao ver que se tratavam uma dúzia de velas pretas e outra de brancas. Claramente havia saído de casa, mas não me lembrava o que tinha feito nem aonde tinha ido. Nem mesmo me lembrava o porque tinha comprado as velas. Quando fui à cozinha, também encontrei outras coisas que não lembrava de ter comprado, como ervas, incenso, carvão e até mesmo uma bacia de cobre. Onde havia conseguido uma bacia de cobre? Aquilo me deixou muito perturbado. Acreditei que estes surtos de amnésia e sonambulismo eram fruto de meu estado debilitado. Por mais medicamentos que eu tomasse, a febre e as dores de cabeça sempre voltavam. Fui ao médico, mas nada de errado foi detectado a não ser o diagnóstico de um princípio de anemia e possivelmente uma gripe oportunista. Receitou-me uma dieta rica em ferro, algumas vitaminas, analgésicos e um remédio para me ajudar a dormir. Melhorei por alguns dias, mas nada muito significante. Felizmente os surtos haviam cessado.

Acordei numa certa manhã e ao ligar a televisão vi o apresentador do jornal dar a notícia de que haviam encontrado os manuscritos de um livro nunca publicado por Childless. Uma senhora idosa, moradora de uma casa de repouso de Boston, nos Estados Unidos, tinha descoberto sob o assoalho de seu quarto um compartimento contendo uma caixa de madeira. Dentro foi achado um par de óculos, um par de luvas brancas, instrumentos de desenho como compasso, réguas, lápis, esquadro e algumas folhas manuscritas assinadas por William Childless. Segundo o repórter que estava no local, a casa de repouso era localizada numa antiga residência do final do século XVIII, preservada pelo patrimônio histórico local, e que teria pertencido à família de Childless. Em menos de três meses o manuscrito do livro foi revisado e publicado sob o título The Dreaming Gods, e antes do final do ano já o tinham traduzido para 6 idiomas. Assim que foi publicado eu o comprei e lhe dediquei dias de leitura e estudo.

O livro tratava-se de um romance com uma temática hermética. Um cavaleiro ruma para Jerusalém durante as cruzadas e é capturado por uma seita mística muçulmana, permanecendo preso por anos. Durante seu cativeiro, ele acaba se tornando amigo do líder da seita e inicia um longo aprendizado de tradições filosóficas e metafísicas. Ao fim de nove anos ele é libertado e começa a segunda parte do romance, onde o cavaleiro se encontra com diversas personagens estranhas e misteriosas em situações por vezes insólitas durante seu caminho de volta para sua terra-natal. No final, após diversas experiências místicas, ele volta para casa, onde adoece e morre. Entretanto, pouco antes de morrer, descobre que na realidade ele nunca deixou sua cela no esconderijo da seita islâmica. Este recém descoberto romance de William Childless logo se tornou um sucesso, rendendo resenhas, reportagens, documentários, um projeto para uma versão para o cinema e dezenas de estudos acadêmicos sobre a simbologia e a interpretação das personagens e sobre as supostas mensagens secretas contidas nas entrelinhas da narrativa. Muitos críticos literários compararam o livro de Childless com o Alice no País das Maravilhas de Carroll. Houve até um jornalista que levantou a hipótese de que talvez os dois tivessem se conhecido, mas isso nunca foi comprovado.

Mantive-me recluso lendo, relendo e estudando o livro. Uma depois semana tive um sonho perturbador. Me vi andando por ruas escuras, de pedra. O ar estava úmido e fétido, ao longe podia ouvir o som das ondas do mar. Não controlava meus atos, ainda que tentasse. Vi meus pés me levando até um tipo de estabelecimento, um bar ou restaurante cheio de pessoas. Ao entrar, um homem corpulento com um bigode enorme, face brilhante e gordurosa sorriu ao me ver e falou alguma coisa sobre “a mesa de sempre”, e me conduziu até um canto onde se encontrava uma mesa e duas cadeiras. Uma delas já estava ocupada por um homem que se sentava de costas para mim. Involuntariamente agradeci o homem de bigode, que se retirou. Dei a volta na mesa e sentei-me na outra cadeira, de frente para o desconhecido. Fui tomado de horror ao ver que o homem sentado a minha frente era eu mesmo, avidamente devorando uma coxa de frango assado e usando roupas antigas do século XIX, assim como eu também usava. Ele (que se parecia comigo) tomou um gole de vinho do copo a sua frente e me perguntou algo que não entendi. Enfiou a mão dentro de seu casaco e retirou um envelope. Entregou-me e fez mais um comentário ininteligível. Curioso, queria abrir o envelope, mas meu corpo não me obedecia. Me vi guardando o envelope em meu bolso interno da casaca e me servir do vinho à mesa. Comia e conversava descontraído com o homem que se parecia comigo, ainda que não entendesse claramente o que conversávamos. O homem e eu falávamos rápido, creio eu, em inglês. O meu duplo me explicava alguma coisa que eu deveria fazer o quanto antes, mas por mais que eu tentasse prestar atenção, não entendia o que era dito. De repente, minha atenção foi desviada para outra coisa. Olhei para cima e notei que o teto havia desaparecido. Parecia que ninguém mais além de mim tinha notado o fato. Então percebi que o teto não havia desaparecido, mas se tornado transparente. Podia observar claramente as estrelas brilhando num céu límpido. De repente, houve um clarão e uma intensa luz  e esverdeada me cegou. Como disse, parecia ser o único a perceber e a se incomodar com tudo aquilo. Quando minha visão se acostumou com a claridade, olhei novamente para cima e horrorizado vi um olho gigantesco e fantasmagórico me observando. Acordei com o barulho de um copo se quebrando no chão.

Despertei assustado e desorientado. Estava no meio da sala do meu apartamento. Procurei e achei os pedaços de vidro do que um dia foi uma taça de vinho no chão, junto ao meu pé. Me ergui rapidamente e com um pano úmido retirei os pedaços da taça e limpei o vinho, que se espalhou entre o chão e o tapete. Achei estranho a presença do vinho, pois não tinha vinhos em casa e nem mesmo gostava muito de vinho e nem mesmo sabia que tinha taças como aquela. Mas o que mais me intrigou foi o que vi sobre a mesa. Ao que parecia, eu estava bebendo vinho enquanto lia sentado à mesa e acabei adormecendo. Sobre a mesa encontrei livros que não lembro de ter comprado, livros de física e sobre magia. Havia também círculos mágicos desenhados com carvão nas paredes, assim como palavras e símbolos que para mim não significavam nada. Não tinha a menor idéia de como todos aqueles objetos foram parar lá na mesa e o que eu estava fazendo com eles. Um cheiro forte de incenso pairava no ar e velas derretidas se espalhavam nos quatro cantos da mesa. Assim que comecei a recolher os livros no meio de toda aquela bagunça, de dentro de um deles caiu um envelope.

O livro de onde caiu o envelope era a 6ª edição do “Dictionnaire Infernal” de Collin de Plancy, de 1863. Na primeira página havia um carimbo da loja onde foi comprado, um sebo especializado em livros raros. Conhecia a loja, mas não lembrava de ter ido até lá e comprado o livro. Por sinal, não fazia a menor idéia de como tinha pagado por um livro raro e caro como aquele. Além do carimbo, na primeira página também havia três iniciais e uma data manuscrita: “W. M. C. – 05/20/1889”. Senti um arrepio ao perceber que o envelope era exatamente igual ao que eu tinha recebido no sonho. Temeroso, o abri devagar. Dentro se encontravam duas cartas escritas à mão em inglês. As folhas estavam amareladas pelo tempo e quebradiças. Desdobrei-as com cuidado e comecei a ler.

A primeira carta, a mais velha, datava do dia 30 de outubro de 1894. Se parecia mais com uma carta de despedida, quase uma nota suicida ou um testamento feito de última hora. Seu autor declarava que “era chegada a hora de partir para começar mais uma nova jornada pelas estradas secretas do Reino”. Especificava o que deveria ser feito de seus bens e para quem deveriam ser entregues e vendidos. Havia também uma breve menção de agradecimento a um amigo de “al-Uqsur”. A carta havia sido escrita para uma mulher chamada Catharine O’Dell, e era assinada por William Magnus Childless. Não tinha dúvidas de que era legítima. Quase não podia me conter pela surpresa e a emoção de ter em mãos uma carta escrita de próprio punho pelo homem que por tanto tempo eu estava estudando. Segundo o que tinha pesquisado, Catherine O’Dell era sua empregada e trabalhou para ele em seus últimos anos de vida. Apesar de não se ter certeza de quando ele morreu, supõe-se que Childless teria falecido por volta de 1894-1895 nos arredores da cidade de York, no norte da Inglaterra. O local de seu sepultamento é desconhecido. Boatos dizem que ele havia sido enterrado com um tesouro e com um nome falso, para evitar que ladrões de sepultura profanassem seus restos mortais. Outros boatos diziam que ele teria sido cremado e as cinzas jogadas no rio Ouse, como um último pedido. O que de fato ocorreu é um mistério.

Independente dos boatos sobre o local de seu sepultamento, Catherine O’Dell ficou com a casa e tudo que existia nela, assim como pude confirmar agora com a carta de Childless em mãos. Após seguir as últimas ordens do patrão, ela vendeu tudo e com dinheiro pode voltar para a casa de sua família no interior da Irlanda, em meados de 1905. Mas ela não permaneceu muito tempo lá. Teria se envolvido com um homem casado e os moradores a acusaram de ser uma bruxa, devido a certos incidentes que teriam ocorrido na região, os quais não consegui descobrir exatamente quais foram. Só se sabe que se mudou rapidamente para Dublin, onde viveu confortavelmente com o restante do dinheiro da herança de Childless até 1940, quando faleceu. Um dos outros boatos é do que ela teria ficado com o suposto tesouro de Childless, o que teria rendido uma vida tranqüila para a empregada e despertado a cobiça de parentes e vizinhos.

A segunda carta era muito parecida com a primeira e a caligrafia era quase idêntica. O que me pareceu muito estranho. Esta segunda carta datava de 28 de novembro de 1947 e, para meu total horror, era direcionada a minha pessoa! A carta dizia que eu deveria seguir uma série de procedimentos ritualísticos se eu realmente quisesse saber a verdade por trás do homem que atendia pelo nome de William Childless. Seu autor falava que tinha conhecimento de minha obsessão por ele e minhas dúvidas a seu respeito. Não era claro, mas dizia que havia sido muito difícil e que levou muito tempo até que ele pudesse me encontrar. Como prova da veracidade de suas palavras, o autor da carta relatava exatamente os meus últimos três dias em detalhes e que eu deveria seguir as suas instruções, exatamente como descritas na carta, o mais rápido possível. Eu estava perplexo e apavorado com tudo aquilo. Não sabia o que fazer.

Duvidei de minha própria sanidade. Aqueles surtos de amnésia e sonambulismo poderiam ser os responsáveis por aquela carta. Poderia muito bem ter tido um daqueles surtos, saído de casa, comprado o livro, escrito as cartas e colocado ali para que eu mesmo as encontrasse, para alimentar minha própria fantasia. A segunda carta era assinada apenas com as iniciais “A. C.” e logo abaixo, entre parênteses, “(W. M. C.)”. Observei atentamente a caligrafia da carta. Não era parecida com a minha, como já havia percebido. E o papel aparentava ser velho demais para tê-lo comprado ou encontrado tão facilmente. Baseado nisso, eliminei a possibilidade de ter sido eu mesmo o seu autor. Ainda assim, o detalhamento de meus últimos dias e demais informações pessoais a meu respeito eram precisas demais para ser mera coincidência. Isso sem contar o fato da carta citar meu nome explicitamente. Também descartei a possibilidade de um amigo ou conhecido ter feito aquilo. Os detalhes eram excessivamente precisos.
Todos os procedimentos e os elementos que a carta citava já estavam ali em cima de minha mesa e haviam sido adquiridos ao longo dos dias de meus surtos de sonambulismo. Velas, incensos, livros, cânticos e etc. Estava tudo lá, pronto para ser usado. Passei mais alguns dias sob o efeito de remédios, tossindo e febril, pensando o que deveria fazer com tudo aquilo. Não comia direito, não atendia mais telefonemas, nem a campainha e nem tomava banho. Minha mente estava voltada apenas para William Childless e a possibilidade de eu descobrir o que estava acontecendo. No final, mesmo duvidando de tudo aquilo, mesmo acreditando que se tratava de minha mente me pregando uma peça, decidi seguir as instruções da carta e fiz o ritual de invocação.
Durante a noite preparei a mesa no centro da sala com velas, incensos e desenhei com carvão um círculo mágico sobre a mesa, minuciosamente descrito na carta. No centro do círculo coloquei a bacia de cobre cheia de água. Ao redor da mesa, no chão, desenhei dois grandes círculos concêntricos e preenchi o espaço entre eles com inscrições do que me parecia ser grego e hebraico. Adjacente a eles eu deveria desenhar três triângulos, formando assim os vértices de um triangulo maior e invisível; e dentro de cada um deles um círculo e no centro um símbolo astrológico. A carta também deixava claro que eu deveria acender três velas em torno do círculo mágico da mesa, na mesma posição que os triângulos estavam em relação aos círculos do chão, colocar as duas mãos dentro da água da bacia e recitar um cântico específico contido em um dos livros.

Comecei o rito à luz das velas, no escuro e com as janelas e cortinas fechadas, e recitei as palavras indicadas. Nada aconteceu. Respirei fundo e comecei tudo novamente. Nada. Na carta dizia que eu devia estar relaxado e com a mente focada. Deveria esvaziar minha mente de qualquer pensamento que não estivesse voltado para o ritual. Estiquei os braços para alonga-los, relaxei o pescoço, respirei fundo e pus minhas mãos devagar dentro da bacia. Comecei a recitar o cântico, me concentrando em cada palavra, na entonação de cada uma delas, na forma como elas rolavam em minha boca. Antes que me desse conta, as repetia mecanicamente, como se fosse um mantra. Aquilo produziu uma sensação estranha. Sentia que a vibração de minha voz ao recitar as palavras produzia um certo formigamento em minha cabeça, principalmente na região das têmporas.

Não sei se era fruto de minha mente febril e impressionada por toda aquela teatralidade ritualística, mas o fato foi que me pareceu que aos poucos a água da bacia estava esquentando e as sombras de minha sala começavam a aumentar e se mexer mais rápido do que o ritmo das ondulações das chamas das velas. Minha voz estava trêmula, mas tentava mantê-la alta o bastante, como diziam as instruções. Ao final, fui tomado de uma sensação de angústia, me sentia como se fosse a única pessoa viva no mundo. Não ouvia absolutamente nada. Nem mesmo os sons da rua, típicos da região em que eu morava. A escuridão ao meu redor era profunda. Não conseguia reconhecer nada além da mesa e do que a fraca luz das velas podia iluminar. Sentia meu coração batendo forte e ouvia minha respiração ofegante. Estava suando muito. A febre tinha voltado e eu estava exausto.

Aquele momento de torpor foi quebrado quando ouvi meu nome ser chamado de um canto escuro da sala bem a minha frente, do outro lado da mesa. Havia mais alguém ali além de mim. Não conseguia ver quem ou o que era, mas podia reconhecer seu contorno. Sem saber o que fazer continuei a recitar o cântico, agora num sussurro quase inaudível. O vulto permaneceu ali, parado, mas após alguns instantes ele se aproximou e colocou suas mãos sobre a mesa. Ainda assim não conseguia ver seu rosto. Ele então se apresentou, falando um inglês com leve sotaque britânico, dizendo ser William Magnus Childless e que estava ali para me ajudar e para ser ajudado. Eu estava paralisado. Houve uma pausa e antes que eu perguntasse qualquer coisa, ele me disse que a noção do tempo era uma farsa, uma armadilha para a nossa mente. Percebendo minha catatonia frente tudo aquilo, continuou a falar. Disse que naquele exato momento ele estava na Sicília em 1922 e em Munique em 1942; disse que naquele momento também estava em York, em 1893, no seu escritório; e que também estava em al-Uqsur, em 1640, nas ruínas de um templo; estava em Boston, em 1777, em seu quarto realizando seu primeiro ritual de magia; em Damasco, em 1230; em Jerusalém, junto ao templo de Salomão; estava em Héfeso, Kiev e Constantinopla, enquanto os turcos invadiam a cidade, além de muitas outras épocas e locais dos quais eu nunca tinha ouvido falar, além de estar comigo na sala do meu apartamento. Disse que estava me procurando há muito tempo e que agora era chegada a hora de eu despertar, pois finalmente eu voltaria para junto “deles”. Disse que não entendia o que ele queria dizer e então me mandou olhar para dentro da bacia. Foi quando vi aquele rosto. Ao olhar para dentro da bacia de cobre, a face refletida na água não era a minha. Era a de um homem de traços retos, rosto esguio e cabelo preto, vestido com roupas escuras e mangas arregaçadas. Childless! Assustado, ergui meus olhos para frente e lá estava o vulto. Ele avançou mais um pouco e o rosto que vi ali, olhando para mim, era aquele que um dia achei ser o meu. Havia outros com ele agora ali. Só então percebi que não estava mais em meu apartamento. Estávamos no meio de um deserto de areia cinza, sob um céu sem estrelas ou nuvens. Agora eu fazia parte deles e sabia que deveríamos continuar a reunir os demais. De repente tudo fazia sentido. Tudo era claro como sempre foi em meu inconsciente, mas por alguma razão eu não lembrava. Caminhei em meio a eles. Éramos muitos. Alguns grandes como edifícios, outros pequenos, outros nem mesmo se pareciam humanos. Caminhamos e marchamos pela última vez rumo ao horizonte, onde um grande paredão luminoso bruxuleava como uma aurora boreal. Aquele era o “Véu”! Os tempos do dilúvio de fogo haviam finalmente chegado.



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