O Último Gole (parte 1)

Publicação: 27 de junho de 2010

Meu último caso tinha sido há uns dois meses. Mulher desconfiada que o marido a traía. Adultério, o maior ganha-pão dos investigadores particulares. Ela jurava que tinha certeza que ele tinha uma amante, só precisava de provas. Como sempre, pediu que tirasse fotos. Eles sempre pedem fotos. É praticamente um fetiche: se torturar vendo o marido ou a esposa com outra pessoa. Ele: Bancário, 36 anos, casado há quatro, sem filhos. Magricela com cara de bom moço, de ex-seminarista. Esses costumam ser os piores! Ela: auxiliar de enfermagem, 33 anos, um pouco acima do peso, cabelo tingido de loiro com as raízes pretas aparecendo, ciumenta. Esquizofrenicamente ciumenta. Aceitei o caso. Não tinha nada a perder, muito pelo contrário. Três semanas de campana atrás do indivíduo com cara de padre e nada suspeito. Saía do trabalho sem nenhum atraso, ia sempre para um bar próximo com o pessoal do banco, tomava algumas cervejas, pegava carona com um colega e voltava para casa. Todo santo dia a mesma coisa! Nem nas noites em que a esposa estava de plantão no hospital ele saía de casa. No máximo um amigo ia para a casa deles com um punhado de latas de cerveja numa sacola plástica de mercado. Padrinho de casamento. Repassei tudo isso a ela, mas ela não estava convencida. Por quê estaria? Dizia que seu “coração de mulher não a enganava”. Pediu para investigar mais e lá fui eu fazer tudo de novo. Mais uma semana de olho no tal marido adúltero, e nada acontecia. Só o que mudava era a minha paciência, que por sinal estava acabando. Mas foi aí que tive uma idéia. A principio parecia coisa de maluco, mas depois de tantos anos nessa área nada parece totalmente absurdo.

Falei sobre colocar uma micro-câmera no apartamento deles. Ela achou estranho, mas no final concordou. Comprei a câmera. Última geração, minúscula, alta definição e cara. Bem cara. Eu mesmo a instalei. Nada muito complicado, apesar de não costumar usar esse tipo de coisa. O meu negócio ainda era máquina fotográfica, lápis e papel. Tinha um computador velho, mas não o usava tanto quanto deveria. Estava sempre dando problema e só servia para acumular poeira e ocupar metade de minha mesa.

Coloquei a micro-câmera junto à luz principal da sala. Dali eu tinha uma visão quase que completa do apartamento, com exceção do quarto e do banheiro. O apartamento era bem pequeno. A cozinha era separada da sala somente por uma bancada, então eu também podia ver parte dela pela câmera.

Instalei a câmera numa segunda-feira. Todos os dias eu verificava as imagens. Já era sexta-feira, nada de estranho e o tédio aumentando. Estava começando a anoitecer e eu estava cansado de não acontecer nada. Decidi tomar umas cervejas e deixar a câmera gravando. Só fui checar as imagens no domingo à tarde. Passei o sábado com dor de cabeça, estômago embrulhado, evitando a luz do sol, tomando litros de água e cartelas de analgésico. A garrafa vazia de conhaque no banheiro me dizia que não tinha tomado só “algumas cervejas”. Quando melhorei um pouco, fui assistir as imagens gravadas no sábado. Para minha surpresa, vi que a esposa estava certa. Ela estava sendo traída. Infelizmente, não como ela imaginava.

Liguei para ela e pedi que fosse até meu escritório. Estava ansiosa, mãos suando. Percebi um tique nervoso de tocar o lóbulo da orelha esquerda. Só que me lembro, ela fez isso umas 27 vezes em menos de 15 minutos. Pensei em lhe oferecer algo, mas não tinha nada além da água de torneira. Tentei prepara-la para a notícia da melhor forma possível. Acho que eu estava mais nervoso que ela. “Ele tem outra, não tem?”, disparou vendo que eu estava hesitante. Ao invés de lhe responder abertamente, achei melhor lhe mostrar as imagens gravadas.

De início ela parecia não entender. O rosto impassível. Mas logo seus olhos foram se arregalando, na medida que seu cérebro ia digerindo as imagens e o que estava acontecendo. Observei sua expressão se alterando e, a partir das reações dela, eu sabia que parte do vídeo ela estava assistindo. Tudo se encaminhava num crescendo até que de repente seu rosto ficou paralisado e sua boca se abriu para um grito que acabou não saindo. Com os olhos arregalados e a boca escancarada ela se virou para mim. Ela queria que eu dissesse que era mentira, que tudo aquilo era um engano. O máximo que pude fazer foi acender um cigarro, balançar a cabeça afirmativamente e dizer: “Infelizmente, senhora, o seu padrinho de casamento é muito mais do que isso. Ao menos para seu marido”.

Ela não esperava por aquilo. Acho que se fosse uma vizinha, uma colega de trabalho dele ou qualquer outra mulher ela aceitaria e saberia o que fazer. Já estava preparada para ficar furiosa com ele e confirmar suas suspeitas. Não duvido que até ensaiado seu discurso de indignação em casa, frente ao espelho do banheiro. Mas aquilo a pegou de surpresa. Ela estava arrasada e começou a fazer o que eu temia: chorou, chorou desesperadamente. Acabou com meu único rolo de papel higiênico enxugando as lagrimas e assoando o nariz.

Acabei cobrando dela apenas os meus honorários (com um desconto) e deixei a câmera por minha conta. Coração mole! Basta eu ver uma mulher se debulhando em lágrimas para querer bancar o herói. Ela até insistiu em pagar mais, mas eu não aceitei. Depois de se acalmar ela foi embora, com os olhos inchados, um sorriso sem-graça nos lábios e com uma cópia das imagens debaixo do braço. E eu fiquei no meu escritório, com uma câmera caríssima (que tentaria revender), um cesto de lixo cheio de papel higiênico sujo de catarro e lágrimas de uma mulher magoada, e dinheiro o suficiente apenas para não morrer de fome nas semanas seguintes. Foi quando o dinheiro já estava para acabar que ela apareceu.

Era por volta das seis e meia da noite. Eu tinha recebido uns telefonemas e a visita de alguns clientes em potencial durante o dia, mas nenhum deles parecia que renderia alguma coisa. Estava cansado e com fome. Convencido que era melhor ir embora para o quarto bolorento de hotel que agora chamava de casa (isso desde que tinha me separado de minha esposa, no começo do ano), arrumei as poucas coisas que tinha em cima da mesa, saí e estava trancando a porta quando senti um cheiro forte e adocicado de perfume no ar. Surgiu tão de repente que tomei um susto. Ao me virar, lá estava ela. Na casa dos 20 anos, alta, loiríssima, cabelo comprido e liso, seios fenomenais, corpo escultural dentro de um vestido vermelho justo ao corpo – toda loira vestida de vermelho fica maravilhosa – salto alto, envolta naquele ar perfumado. Estilo puta de luxo – a associação era inevitável – daquelas que a maioria dos simples mortais nunca vai ter dinheiro o bastante para chegar nem perto. Eu estava hipnotizado. Ela andava com perfeição incrível, com tanta graciosidade que parecia flutuar. Fiquei ali parado no corredor, imóvel, esperando que ela passasse e batesse na porta de um dos outros escritórios daquele andar. Mas para minha surpresa ela veio na minha direção.

Só então pude ver que ela estava chorando, ou foi isso que queria que eu pensasse. Falou meu nome e pediu que a atendesse, apesar da hora. Imediatamente abri a porta do escritório e pedi para que entrasse e se sentasse. Assim que ela entrou, tomei a frente e acendi a luminária da mesa. A lâmpada do teto tinha queimado e estava sem dinheiro e tempo para comprar outra. Perguntei se queria alguma coisa, quem sabe um copo d’água. Ainda bem que ela recusou. Tirei meu lenço do bolso e lhe ofereci. Ela o aceitou e quando o pegou de minha mão, pude sentir a pele macia dos seus dedos sobre os meus. Enquanto enxugava as lágrimas, eu evitava olhar exageradamente para àquela pele alva que se revelava dentro do decote do vestido. Não preciso dizer que era uma tarefa quase herculínea!

Seu nome era Penélope Adabjirian. O sobrenome me soava familiar, mas não conseguia lembrar de onde o conhecia. Tentava lembrar enquanto ela se recompunha, e finalmente me veio o nome de Emin Adabjirian. Ele era um daqueles empresários celebridade do pior tipo: velho e milionário, do ramo da construção civil e mercado imobiliário. Freqüentador assíduo de festas requintadas e de colunas sociais. Uma múmia viva, um verdadeiro Matusalém, um daqueles dinossauros que se recusam a aceitar a visita de dona Morte e livrar o mundo de sua desagradável presença. Era ligado aos peixes graúdos da política que lhe deviam certos “favores”, o que lhe rendeu algumas acusações de envolvimento em favorecimentos em licitações de obras do governo, enriquecimento ilícito, lavagem e desvio de dinheiro para paraísos fiscais no exterior e até mesmo coisas mais pesadas, como a morte de um prefeito há uns cinco anos atrás, adversário político de um de seus protegidos. O velho não era flor que se cheirasse.

Ela já estava melhor e limpava a maquiagem borrada em torno dos olhos com o auxílio de um espelhinho e com uma das pontas do lenço. Ao terminar ela o devolveu, mas eu disse que ela poderia ficar com ele. Sorriu de forma tímida e agradeceu. Para mim foi como se a sala inteira se iluminasse de repente. Maldito coração mole! Enquanto guardava o lenço na bolsa lhe perguntei se ela era da família do velho Emin Adabjirian, o empresário.
“Sim, é meu marido”.

Não sei o que mais me espantou em sua resposta: ela dizer ser casada com o velho dinossauro ou infelizmente conseguir imaginar os dois juntos na mesma cama. Para me ajudar a assimilar melhor a informação, pedi desculpas a ela e tive de acender um cigarro e dar uma longa tragada. Quase engasguei. Pensei que ela fosse reclamar da fumaça, mas ao invés disso ela me pediu para fumar um dos meus. Logo estávamos imersos numa neblina espessa de tabaco. Comentou que havia parado de fumar a alguns anos, mas que agora estava voltando ao vício. Após algumas baforadas ela finalmente começou a falar.
“Preciso que o senhor me ajude!” – ela disse, estendendo sobre a mesa um de meus velhos cartões. Ele estava sujo e amassado. Fazia muito tempo que não usava cartões de visita como aquele. Não faz muito sentido você ter cartões de visita quando você não tem visitas para quem dá-los. Ela tragou novamente o cigarro e soltou a baforada erguendo bem o pescoço para cima. Já não parecia tão triste como quando chegou.

Terminei meu cigarro e pedi que ela dissesse exatamente qual era o problema. Ela então me contou tudo desde o princípio. Disse que havia conhecido Emin Adabjirian num cruzeiro pelo Caribe, há quatro anos. Ela trabalhava como modelo e participava de uma campanha publicitária para uma marca de biquínis, no mesmo navio em que estava o velho Adabjirian. Ele bateu os olhos nela e pediu para que ela o acompanhasse durante o restante da viagem. Depois disso, ela largou o emprego na agência de modelos e começou a acompanha-lo a eventos e festas. Três meses depois estavam noivos e um mês depois estavam casados. A velha história do velho rico e a ninfeta carinhosa. Segundo ela, tiveram um relacionamento feliz durante os últimos anos, até o final do mês passado. Emin Adabjirian teria acordado cedo, como sempre fazia, se arrumou e foi para a sede da empresa em seu carro dirigido pelo motorista. Desde então ele nunca mais foi visto. Tudo indicava que ele havia sido seqüestrado. Entretanto, na última semana a polícia havia encontrado um carro abandonado numa estrada de terra, a cem quilômetros sentido interior do estado. O carro tinha sido incinerado e dentro dele foram encontrados os restos mortais carbonizados de duas pessoas. Os exames de arcada dentária ainda não estavam prontos, mas tudo indicava que eram os corpos do velho e do motorista. Recordava vagamente de ter visto alguma coisa sobre o caso na televisão. Qualquer um chegaria a conclusão que a jovem viúva estaria preocupada e desesperada. Não queria aceitar a possibilidade de ser o seu amado e idoso marido no carro. Mas alguma coisa ali me dizia outra coisa.

Começava a chover forte lá fora. Levantei-me para me certificar que a janela estava fechada e, ao voltar para a mesa, lhe perguntei como eu poderia ajuda-la exatamente. Ela disse que tinha entrado em contato com o contador do sr. Adabjirian e com seus advogados. Fez uma investigação por conta própria e descobriu que o velho havia alterado o testamento. Segundo as novas alterações, ela e o sócio dele ficariam com tudo. O que significava que ficariam com nada. O velho não parecia ser tão idiota assim. Ela descobriu que várias das contas dele tinham sido esvaziadas da noite para o dia. Contas que só ele tinha acesso. Além disso, também descobriu que os negócios não estavam tão bem assim. Anos de negócios ilícitos renderam muitos lucros, mas também muitas despesas. A empresa de Emin Adabjirian estava falida! Coincidentemente o velho desaparece e suas contas secretas são limpas até o último centavo. E agora, a linda Penélope era dona de tudo. De uma empresa falida e de dívidas que nem em três vidas ela poderia saldar. Ela ficou com tudo e com nada.  Definitivamente, muita coincidência.

Segundo o que ela me contou, o velho também era um colecionador de artes, mas havia vendido boa parte delas nos últimos meses. Com exceção de alguns quadros e esculturas que restaram, havia uma peça que ela tinha grande interesse. Foi ai que eu entendi tudo. Empresa falida, não demoraria aos credores descobrirem e tomarem o pouco que restou do patrimônio deles. E para ela, a tal estátua era sua última chance de sair com alguma coisa daquele casamento. Venderia a peça e provavelmente também sumiria do mapa.

Contou que a tal estátua era uma herança do avô de Adabjirian, que a trouxe quando sua família veio da Armênia, como imigrantes, para o país. Uma relíquia de origem chinesa, antiqüíssima, de vinte centímetros de altura, feita inteiramente de jade, esculpida na forma de um macaco agachado, com cabeça de polvo e asas de morcego, ou algo parecido com isso. Um velho demônio do oriente, eu acho. Ao menos é o que me parece, pois é exatamente essa estatua que estou carregando no meu bolso enquanto tento caminhar.

A estatua também havia desaparecido, mas não achava que tinha sido o velho que a havia levado. Tinha um suspeito:  o sócio do marido. Senti, pelo seu tom de voz amargurado e o punho fechado com força sobre a mesa, que a sociedade do tal suspeito talvez não tivesse se restringido apenas aos negócios do marido. Coroa rico, ninfeta aproveitadora e o amante espertalhão. Típico. O sócio também sairia perdendo muito com tudo aquilo, e ele teria pensado na mesma coisa que ela: a estátua. Correu e a pegou antes dela.

No fundo ela não queria que eu fosse atrás do marido desaparecido ou supostamente morto. Não estava nem um pouco preocupada com ele. O que ela queria mesmo era que eu descobrisse onde estava a estátua e o tal sócio. É como dizem, a pior vingança que existe é de uma mulher traída. E era o que eu pensava que via nela. Por isso havia me procurado. Ela já não era mais a esposa de um homem rico e nem queria que soubessem o que ela estava buscando. Era uma mulher traída pelo marido, pelo amante e falida. Prometeu-me que se encontrasse a peça me daria vinte por cento do valor dela ao vende-la. Concordei. Afinal de contas, minha situação financeira era ridícula. Além disso, quem não concordaria com aqueles grandes olhos azuis focados diretos nos seus? Mas aqueles olhos eram apenas a ponta de um iceberg que eu preferia nunca ter esbarrado.

Passei todo o dia seguinte tentando levantar informações sobre o velho Adabjirian e seu sócio. Na noite anterior, Penélope havia me entregado uma pasta cheia de fotos, documentos e outros papéis que achava que poderiam me ajudar. Deixou-me um bom adiantamento. O que me surpreendeu para uma viúva falida. Uma quantia muito maior do que eu normalmente costumava cobrar. A acompanhei até a porta e antes de sair ela me disse que estaria esperando por qualquer novidade.
“Pode me ligar a qualquer hora do dia ou da noite” – me entregou um cartão com seu telefone, e me estendeu a mão para se despedir. A apertei com o cuidado de alguém que teme quebrar uma peça delicada de porcelana. Não sei o que me deu naquela hora, mas antes que eu me desse conta do que estava fazendo, ergui e beijei sua mão. Mesmo depois de ter ido embora, minhas narinas ficaram impregnadas com o aroma do perfume em seu pulso.

Virei a noite estudando o conteúdo da pasta. Era tudo muito estranho. Arriscaria dizer que o velho Emin havia dado um golpe na esposa e no sócio. Nunca trabalhei como contador, mas pelo o que podia ver pelas faturas e demais documentos fiscais e financeiros a empresa de Adabjirian estava mais quebrada do que eu. Se de fato foi um golpe, o velho tinha elaborado tudo muito bem. Quando ele conheceu Penélope os negócios já não estavam indo bem. Provavelmente seu sócio estava desconfiando que alguma coisa estava errada, mas o velho conseguiu esconder tudo. Emin Adabjirian então conhece uma moça ambiciosa, faz um teatro por alguns anos na tentativa de recuperar os negócios. Mas também não deixa de tirar proveito da ex-modelo, satisfazendo sua libido de idoso. Com o decorrer do tempo percebe que a coisa é irremediável e decide dar um golpe na esposa e no sócio. Para um homem que teve qualquer coisa que o dinheiro podia comprar, seria pior que a morte perder tudo. A melhor opção para ele: forjar a própria morte, fugir com o dinheiro que ainda tinha e deixar que a “bomba” explodisse nas mãos dos que ficassem para trás. Fazia sentido.

Sergio Luiz Rakowski, pouco mais de 40 anos, terno e gravata, cabelo escuro e engomado, bem barbeado. Estilo galã de novela. Engenheiro, empresário, esbanjador e sócio de Emin Adabjirian. Tinha uma foto em preto e branco dele entre meus dedos. Atrás dela o nome estava escrito com uma letra redonda e feminina demais para ser do próprio. “Deve ser dela”, pensei. Seu pai, Haim Rakowski, tinha fundado a empresa junto com Emin Adabjirian nos anos 60. Mas há quase vinte anos ele sofreu um derrame cerebral e faleceu, deixando seu lugar nos negócios para o filho. Agora conhecia o rosto do sócio de Emin e de Penélope. Ao que tudo indicava, Rakowski não havia desaparecido como o velho. Na verdade, continuava à frente do que havia sobrado dos negócios. O difícil seria contata-lo sem levantar suspeitas de minhas intenções.

Na pasta ainda tinha muitas fotos de Penélope e Emin. Fotos de viagens e de festas. Listas com relações de imóveis que eles tinham e uma foto da tal estatueta. Aquela tinha sido a primeira vez que a vi, e imediatamente senti algo estranho. Alguma coisa me incomodava ao ver aquela forma esverdeada agachada, aquelas garras, aquela cabeça desproporcionalmente grande, disforme, aqueles tentáculos. Parecia o tipo de arte, se que é pode-se chamar aquilo de arte, feita por uma mente doente.

Era estranho como aquela imagem me perturbou. Parecia que já a conhecia, mas não sabia de onde. Agora penso que devia ser algum tipo de instinto primitivo de sobrevivência. Uma vez eu li numa revista que os seres humanos possuem certos medos (aparentemente irracionais) que remontam a instintos de sobrevivência herdados de nossos ancestrais, contra predadores e outras ameaças de tempos pré-históricos. Acredito que era isso que a visão daquela estatueta me causou. Um medo instintivo, primitivo, de algo que eu deveria ter me afastado. Mas não foi o que eu fiz.

Depois de analisar todo aquele material, decidi começar a trabalhar e buscar por mais informações. Liguei para um velho contato que tinha na polícia, dos tempos que eu também usava um distintivo, para saber o que ele podia me conseguir a respeito do caso do desaparecimento de Adabjirian e do carro que encontraram. Enquanto isso, resolvi abrir mão do meu estilo tradicional de trabalhar e usar o computador. Consegui botar o meu computador para funcionar (o que já foi um milagre) e, após várias tentativas fracassadas, me conectei à intra-rede local. Não estava acostumado a usa-la, mas era o jeito mais prático e rápido de me atualizar sobre os últimos passos de Emin Adabjirian e seu desaparecimento. Passei quase uma hora e meia navegando e sabia que aquilo acabaria me saindo uma fortuna na próxima conta telefônica. Mas o adiantamento que recebi cobriria aquela despesa. Segundo os rede-jornais de notícias e fofocas que consultei, tudo havia acontecido como Penélope me contou e todos os indícios apontavam para que os corpos encontrados fossem realmente dele e do motorista. Nenhuma novidade adicional. Tentei acessar algumas das intra-redes regionais, mas quase todas apresentavam o informe de que estavam temporariamente fora do ar, e as disponíveis não tinham nenhuma informação relevante. Pensei em me aventurar pelas redes-globais, mas existiam dois grandes problemas: diferente da maioria das pessoas normais, não sabia como acessa-las e provavelmente também estariam com problemas. No verão passado o sol havia nos presenteado com muito calor e uma tempestade eletromagnética. Houve um blecaute geral em quase todo o hemisfério sul e alguns países do norte. Foi uma loucura! Três dias de puro caos, até que aos poucos as coisas foram normalizadas, vândalos presos e o sistema elétrico reparado de forma emergencial. Desde então a intra-rede nunca foi a mesma.

Após muita pesquisa, não tinha achado nada de novo. Exceto por uma notícia de uma associação de moradores na região oeste da cidade. Uma notícia pequena, insignificante e que quase passou despercebida. Alguns moradores locais reclamavam do grande número de mendigos e viciados que viviam na região e que usavam as dependências de um galpão abandonado como refúgio. Segundo o informe da tal associação, uma empresa havia comprado a região do galpão e arredores com o plano de construir um prédio no local. O que parecia agradar muito a todos da região. Mas o que realmente me chamou a atenção foi que a empresa compradora da área era a falida empreiteira de Emin Adabjirian. E o que me espantou mais ainda foi notar que a compra havia sido feita apenas uma semana antes do velho desaparecer! Empresa falida se lançando em novo empreendimento de revitalização de bairro decadente? Aquilo não fazia sentido. Não fazia mesmo!

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