O Último Gole (parte 2)

Publicação: 11 de julho de 2010

Durante a noite tive um sono inquieto. Acordei umas cinco ou seis vezes e quando voltava a dormir, voltava a ter o mesmo pesadelo. Eu estava em alto-mar, num barco pequeno, no meio de uma tempestade. Nunca estive em alto-mar. Era noite e não envergava nada ao meu redor, apenas cenas rápidas em meio a um ou outro relâmpago. De repente uma onda gigantesca se erguia à minha esquerda e desabava sobre mim e a embarcação, transformando tudo em caos e desespero. Eu era como um fantoche sacudido pela força da água no fundo mar. Tentava identificar para que lado ficava a superfície, mas não conseguia. O ar estava acabando e logo era tomado pelo horror. Neste momento, alguma coisa surgia na escuridão. Algo grande. Um animal talvez. Não sei dizer. Mas era algo que me deixava paralisado de medo ao pensar em que morreria ali, debaixo d’água e devorado por algo que eu nem mesmo sabia o que era. Sentia me agarrarem e então eu acordava, suando e gritando. Foi assim durante toda à noite. Uma droga de noite!

Logo pela manhã voltei a falar com o meu contato na polícia. Disse que teve dificuldade em conseguir as informações. O caso estava sendo investigado sob sigilo. Segundo o que ele me informou, os corpos encontrados no carro eram os de Emin Adabjirian e do motorista. Ao menos era o parecer oficial, mas ainda não divulgado. Ele também disse que pouco antes de terminarem a análise dos corpos, o médico legista responsável havia sido afastado sem nenhuma justificativa e um outro assumiu o trabalho. Aquilo era estranho. Perguntei se ele o conhecia. Disse que não, mas tinha como entrar em contato com ele. Alguns minutos depois ele me ligou e passou o telefone e o endereço do médico. Eu precisava conversar com ele. Mas antes, fui até o arquivo municipal para confirmar a venda do terreno.

Confirmei a venda do terreno, mas nada mais do que isso. Após revirar toneladas de plantas e escrituras ao longo de toda a tarde, eu e uma funcionária dos arquivos de imóveis chegamos a conclusão de que a planta do local havia desaparecido. Na verdade, a pasta onde deveria constar todas as informações do local (planta geral, fotos da vizinhança, do interior do lugar e demais dados) havia desaparecido. A documentação de compra e venda do terreno estava num outro departamento e foi só assim que pude confirmar a notícia que li na intra-rede. Pelo visto, alguém não queria visitas no lugar.

Sem mais o que fazer, voltei para o escritório e liguei para o médico que tinha sido afastado do caso Adabjirian. No terceiro toque ele atendeu. Conversamos rapidamente e lhe perguntei se poderia falar com ele pessoalmente. A principio ele relutou, achando que eu fosse um repórter. Depois de muita conversa o convenci do contrário e concordou em nos encontrarmos, naquela noite mesmo.

Era por volta das nove da noite quando toquei a campainha da casa do médico. Ele morava num bairro de classe média, região sul da cidade. Região bem arborizada, apinhada de casas grandes com jardins bem cuidados e alguns sobrados. Vizinhança pacata. Do tipo que se vê em propaganda de leite para o café da manhã. Pais sorridentes, crianças coradas brincando com cachorro no jardim e ao fundo um copo grande de leite que dá energia e vitalidade à todos. Milagres da propaganda!

Não demorou muito para a porta se abrir e o rosto de uma senhora rechonchuda de óculos aparecer. Assim que me apresentei, pude ouvir a voz do médico ao fundo pedindo a ela que me deixasse entrar. Ainda estava no hall de entrada quando ele apareceu para me receber. Oriental, baixo, magro, cabelo já bem grisalho, sorridente. Pediu que o acompanhasse. Atravessamos uma sala de estar espaçosa e com um pé direito bem alto. Muitos quadros e fotos de família espalhados por toda parte. Abriu duas portas de vidro fosco e pediu que eu entrasse. Seu escritório. Numa das paredes um diploma emoldurado em vidro e outros certificados de cursos médicos e policiais. Ao redor, prateleiras cheias de livros de medicina, enciclopédias, livros forenses e, perdidos entre um Atlas desatualizado e um dicionário, uma seleção de livros de Dashiell Hammett. Aproveitei para lhe perguntar se ele era fã de Hammett. O homem me olhou com olhos brilhantes e assentiu que sim com a cabeça. Perguntou se eu também gostava. Menti. “Sim, gosto muito!”. Detestava aquele tipo de livro. Para falar a verdade, dentre minhas poucas virtudes, gosto pela leitura não estava entre elas. De qualquer forma, isso foi o suficiente para quebrar o gelo entre nós e faze-lo me ver de modo mais amistoso.

Nos sentamos junto a uma robusta mesa escura de madeira e sem muitos rodeios comecei a lhe perguntar sobre os corpos carbonizados encontrados no carro. Devo tê-lo assustado por ter sido tão direto, pois ele fez um comentário sobre minha objetividade. Disse que eu tinha uma “sutileza paquidérmica”. Ignorei o comentário e apenas lhe agradeci. Ele me olhou espantado e começou a contar sobre os corpos. Disse que os cadáveres chegaram a ele na madrugada do mesmo dia que a polícia os encontrou. Segundo as informações de meu contato, a polícia chegou até eles através de uma denúncia anônima, o que o dr. Okoyama, o médico a minha frente, confirmou. Os corpos foram encontrados entre 22h e 22:30h. Ele recebeu uma ligação do Instituto Médico Legal às quinze para a meia-noite, naquele dia, pedido para que ele fosse o mais rápido possível para lá.  Aquele não era um procedimento comum, principalmente naquela hora, mas alguém havia pedido que o trabalho fosse feito o mais rápido possível. “Alguém de cima estava me pressionando para confirmar logo a identidade dos corpos”, ele disse.

Entretanto, devido ao estado em que os cadáveres se encontravam, era preciso análises mais detalhadas, como da arcada dentária para o reconhecimento. Ele me disse que solicitou radiografias e outros documentos odontológicos para a confirmação, mas parecia que ninguém lhe dava ouvidos. “Eles só queriam que eu confirmasse logo que era o senhor Adabjirian e o motorista. Todos os dias alguém aparecia me cobrando”.

Contou-me que tinha decidido por conta própria entrar em contato com o dentista do velho, que lhe passou tudo o que precisava. Foi ai que recebeu a notícia que ele não estava mais no caso e lhe recomendaram a tirar férias.
“Mas o senhor chegou a fazer uma comparação entre o material que lhe mandaram e o cadáver?”
“Oficialmente, não.”
“Oficialmente?”
“Eu estava desconfiado que tinha alguma coisa errada acontecendo. Então, na noite anterior a me afastarem, eu fiz alguns exames escondidos. No dia seguinte, quando vieram anunciar meu afastamento, entreguei tudo para o novo médico e vim para casa.”
“Entendi. Mas doutor, nessas análises extra-oficiais que o senhor fez, qual foi sua conclusão?”

O médico me olhava fixamente por cima das lentes bifocais dos óculos. Passou a língua nos lábios secos e se curvou mais para perto de mim. O couro da cadeira rangeu, quebrando o silêncio no qual nos encontrávamos.
“Não.”
“Não? O que o senhor quer dizer?”
“Adabjirian. Não é ele. O corpo que está lá é de outra pessoa.”
“O senhor tem certeza disso?”
“Absoluta!”

Isso confirmava minha suspeita! O velho forjou a própria morte para poder fugir!
“E o outro corpo, é o do motorista?”
“Sim. É ele mesmo. Mas não ficarei surpreso se for anunciado que ambos os corpos foram identificados positivamente. Acho que alguém quer muito confirmar a morte desse Adabjirian.”

Emin Adabjirian então havia dado um golpe na esposa, no sócio e nos credores. Fingiu o próprio seqüestro e o assassinato, pegou o dinheiro que ainda tinha e a essa altura devia estar bem longe dali.
“O senhor tem idéia de quando isso vai acontecer? Quero dizer, quando o resultado final da análise dos corpos vai ser divulgado?”
“Provavelmente depois do próximo final de semana.”

Após isso não havia muito mais o que perguntar a ele. Ele disse que não conhecia o médico que assumiu o caso. Era um médico jovem. Nunca tinha ouvido falar dele. Depois disso falamos sobre mais algumas outras coisas sem importância até que a senhora rechonchuda perguntou se eu gostaria de jantar com eles; foi ai que decidi que era hora de ir embora. Ele e a esposa me acompanharam até a porta. Já havia me despedido quando tive um daqueles pressentimentos. Um daqueles instantes como se alguém ou alguma coisa lhe soprasse ao ouvido que você está deixando algo passar despercebido. De dentro do bolso interno do casaco puxei uma foto e mostrei ao médico.
“O senhor conhece esse homem, doutor?”

Ele se aproximou e a tomou de minha mão. Olhou atentamente para a foto, franzindo a testa e arrumando os óculos sobre o nariz. Já a estava me devolvendo, sacudindo a cabeça de forma negativa, quando vi que um raio havia iluminado sua mente.
“Espere um pouco! Sim! Sim, me lembro dele! Ele era um dos que eu lhe disse que ia quase todos os dias me cobrar sobre o resultado da análise!”
“O senhor tem certeza? Era ele mesmo?”
“Claro que tenho! Aqui na foto ele está diferente, bem vestido, mas é ele mesmo. Na última vez que ele apareceu nós inclusive discutimos. Ele queria que eu confirmasse logo o resultado e eu falei que só o faria quando tivesse certeza. Ele disse que se eu não resolvesse o caso de uma vez, que as coisas poderiam ficar feias para o meu lado. Dois dias depois eu fui afastado.”
“Quem ele era?”
“Bem, imagino que da equipe que está trabalhando no caso.”
“Mas em algum momento ele se apresentou como sendo um policial?”
“Agora que você disse isso… Não, não recordo disso. Mas presumi que fosse. A área onde trabalhava era restrita. Se ele não fosse, dificilmente entraria lá.”
“É verdade, dificilmente…”, eu disse. A senilidade deveria estar devorando o cérebro do doutor como uma criança com uma colher em frente a um pote de chantilly.

Agradeci ao doutor mais uma vez e segui direto para o meu hotel. Peguei um táxi ali mesmo na esquina próxima. Expliquei o caminho para o motorista, que resmungou alguma coisa enquanto ligava o taxímetro. Seguiu o resto do caminho assobiando uma canção antiga. Sinatra, eu acho. Melhor isso do que aqueles motoristas que tentam puxar assunto. Não estava muito no clima para conversar sobre como tinha esfriado nos últimos dias ou sobre os resultados dos jogos de futebol daquela semana. Enquanto ele se preocupava em dirigir, eu me ocupava em repassar tudo o que o doutor havia me dito e a olhar a foto em minhas mãos. As luzes dos carros na chuva, através do vidro molhado, ofuscavam minha visão. Evitava olhar pela janela. Mal notei quando, uns vinte minutos depois, o táxi parou em frente ao meu hotel. Paguei ao motorista e sai do carro, enquanto guardava o troco e a foto de Sérgio Luiz Rakowski de volta no bolso.

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