O Último Gole (parte 3)

Publicação: 23 de agosto de 2010

O sol brilhava intenso no céu azul. Não havia uma nuvem sequer a vista, apenas um dirigível prateado solitário que cruzava os ares da cidade, a poucos metros do topo dos prédios, anunciando a propaganda de algum perfume feminino em sua tela holográfica lateral. Parecia uma baleia de alumínio nadando lentamente nas águas azuis do céu. Rapidamente a imagem de uma moça loira cercada por um bando de homens de smoking, que lhe ofereciam pequenos e chiques frascos do perfume, foi substituída por uma propaganda de uma rede de lanchonetes genérica, que também logo foi substituída por um informe relâmpago das últimas notícias da manhã. Ainda sonolento, a luz do lado de fora da janela fazia meus olhos arderem. Havia dormido até quase onze da manhã. Eu precisava daquilo! Ah, Deus, como precisa de uma boa noite de sono! Mas é lógico que eu não consegui! Mesmo me sentindo um trapo velho e molhado, só fui conseguir dormir às três horas da manhã. Fiquei “fritando” na cama até umas cinco horas. Devo ter cochilado até as sete e depois fiquei acordando de meia em meia hora até umas nove e meia. Quando finalmente consegui dormir profundamente e sem interrupções, o despertador tocou. Onze horas da manhã e já me sentia um lixo!

Levantei, tomei um banho, fiz a barba e fui até a padaria perto do hotel para tomar um café amargo para acordar. O elixir de ânimo para começar o dia concentrado numa xícara. Se bem que tal efeito para mim havia se tornado mais um tipo de placebo do que de fato resultado da cafeína. Aquilo apenas iria me impedir de dormir sentado no escritório. O que já era uma grande vantagem.

Na volta passei na banca de jornal e comprei umas dez fichas telefônicas. Detestava carregar fichas telefônicas, assim como odiava carregar moedas na carteira. Além de incômodas, só servem para ocupar espaço. Logo na entrada do hotel havia um telefone público. Tanto as paredes da cabine quanto o próprio aparelho estavam recobertos de etiquetas adesivas. Em cada uma delas havia um nome feminino e um número de telefone, seguido de outras informações sucintas como idade, cor de cabelo, se falava mais de um idioma, se era fogosa, universitária, se trabalhava com casais e outras qualidades que futuros clientes procuram para satisfazer suas fantasias. Retirei o fone do gancho e o limpei cuidadosamente com meu lenço antes de usa-lo. Nunca se sabe quem esteve por ali e o que andou fazendo. Contrair uma hepatite seria o menor dos meus medos.

Introduzi duas fichas, que tilintaram ao entrar no aparelho, e disquei o número de Penélope. Tocou até cair a linha. Coloquei o fone no gancho, recolhi as duas fichas que não foram utilizadas, retirei o telefone do gancho, esperei o sinal de linha, coloquei as duas fichas novamente e tentei mais uma vez. Sem sucesso. Repeti todo o processo mais uma vez. Isso sempre me irritava. Era nessas horas que eu costumava questionar se não haveria um jeito de tornarem o simples ato de realizar uma ligação em algo mais prático. O homem já havia conseguido pisar em Marte, mas nós ainda precisávamos fazer todo aquele ritual para conseguir falar com alguém que morava na mesma cidade que a gente.

Foi só na quarta tentativa que finalmente atenderam ao telefone. Uma voz rouca e sonolenta respondeu do outro lado, quase um grunhido.
“Alô…”
“Senhora Penélope Adabjirian?”
“Isso… Quem é?”
“Tenho novas informações sobre o desaparecimento de seu marido. Por isso estou ligando, como a senhora me pediu”, houve uma pausa e logo sua voz se tornou mais clara e audível. Após uma rápida conversa, recheada de mensagens cifradas, no caso de alguém mais estar escutando o que dizíamos, marcamos para nos encontrar as três da tarde. Desliguei, retirei o fone do gancho, introduzi mais outras duas fichas e disquei o número de minha ex-mulher. Tocou quase até cair a linha. Quando estava prestes e desistir, alguém atendeu.

“Alô?”, perguntou uma voz grave e firme do outro lado. Uma voz grossa demais para ser uma mulher. Não respondi nada, apenas bati com força o fone no gancho. Pensei numa meia dúzia de xingamentos que poderia dizer, se não fosse tão bunda-mole. É sempre mais fácil pensar no que devíamos ter dito, nos melhores palavrões para jogar contra alguém, depois que o momento passou. Este costuma ser o prazer secreto dos covardes. O que mais me irritava não era saber que ela estava com alguém, mas sim ter perdido duas fichas por nada.

Até a hora do encontro, resolvi ir para o escritório e ver se havia mais alguma novidade na imprensa sobre o caso Adabjirian. Assim que cheguei me conectei à intra-rede local. Como antes, não havia nada de novo sobre o assunto. Mas ao acessar uma das intra-redes regionais uma notícia me deixou perplexo. As letras esverdeadas brilhavam intensamente em contraste ao fundo escuro do monitor: “Médico é assassinado dentro de casa”. A foto esverdeada que acompanhava a notícia mostrava a entrada de uma casa cercada por carros da polícia. Demorei a reconhecer o local, mas ao lado uma foto da vítima esclareceu tudo. Tratava-se do médico legista que trabalhava no caso do velho. O mesmo que eu havia visitado na noite anterior. Ampliei a imagem e pude confirmar. Era o próprio! A notícia dizia que durante a madrugada a casa havia sido invadida e o doutor E. Okoyama supostamente tentou reagir. O casal foi morto a tiros. Ele foi encontrado de manhã pela empregada no chão do escritório e a esposa na cama deles. Os vizinhos não ouviram nem viram nada.

Os efeitos da cafeína que haviam conseguido me manter insone logo acabaram, e quando me dei conta, vi que tinha cochilado sobre a mesa e babado sobre as fotos que Penélope me emprestara. Joguei uma água no rosto e sai correndo para o encontro. Ao sair do hotel vi um cachorro ser atropelado no meio da avenida. Um vira-lata, marrom. Uma mistura de basset com outros trinta tipos de outras raças. Parecia alegre, feliz com a língua balançando no canto da boca. Não percebeu o fusca 77 caindo aos pedaços vindo e acelerando quando a luz do semáforo mudou de amarelo para vermelho. O coitado rolou por baixo das duas rodas direitas do carro e ficou ali no chão, parado, olhos vidrados na sarjeta e com a língua ainda de fora. O motorista chegou a parar, mas o olhar reprovador dos pedestres (inclusive o meu) sugeriu que as coisas talvez ficassem ruins para ele e achou por bem engatar a primeira e fugir.

Acontece com todo mundo. Um dia você está lá, andando pela rua, feliz da vida, achando que a maior das suas preocupações é decidir entre sorvete de baunilha ou chocolate, entre cerveja ou whisky, entre a loira ou a morena, entre atravessar a rua ou virar a esquina. De repente aparece um idiota numa lata-velha e BAM! Quando menos percebe, você já está dando seu nome para a lista de convidados de São Pedro. Hoje foi a vez do vira-lata. Ontem foi do dr. Okoyama, mas tenho a impressão de que o que atropelou o doutor era bem maior que um fusca. Ambos não perceberam o que passou por cima deles até que fosse tarde demais. Um catador de sucata idoso, dono do cão, com os olhos cheios de lágrimas recolheu o corpo do amigo de quatro patas e o colocou em sua carroça, junto com peças de metal enferrujado, papelão, latinhas de alumínio e outras quinquilharias. Enquanto ele se afastava em sua marcha fúnebre solitária, fiquei pensando: “Será que existe algum tipo São Pedro dos cachorros?”.

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Continua…

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