O Último Gole (prólogo)

Publicação: 22 de junho de 2010

Mais uma noite fria e estranha nessa cidade. Faz pouco menos de cinco minutos que começou a cair uma garoa fina e gelada. Tento andar rápido, mas com cuidado, evitando cair nos buracos na calçada e em poças d’água. Normalmente eu faria isso sem problema algum, mas agora parece coisa de malabarista. Tudo por causa de uma perna quebrada. Minha perna direita está latejando de dor. Fratura interna na altura do joelho.

Sem querer me apóio sobre a perna machucada e uma dor lancinante jorra do joelho e se espalha até a ponta dos meus cabelos. Desesperado, xingo por entre os dentes e me encosto num poste de esquina para tomar fôlego e esperar eu me acostumar com a dor. A garoa começa a engrossar. Ao me abaixar para checar a perna, um filete de água escorre da aba do meu chapéu. Minha mão também não está lá essas coisas. A pele sobre as juntas dos ossos está esfolada e arde quando a água a toca. Tive de acertar um soco num gorila armado que tentou me esfaquear pouco menos de uma hora atrás. Forte, mais alto que eu, mas com queixo de vidro. O que eu não daria por um analgésico!

Um rapaz aparece na porta da padaria em frente ao poste. Fica me observando. Deve pensar que sou um mendigo ou que estou bêbado. Eu gostaria de estar bêbado agora! Rapaz franzino com uniforme laranja. Deve ser funcionário da padaria. Continua lá, parado, mas finalmente resolve voltar para dentro. “Boa escolha!”, penso comigo. A última coisa que preciso agora é de um bom-samaritano me enchendo o saco. Antes que o rapaz mude de idéia e resolva praticar sua boa ação do dia, retomo fôlego e continuo a descer a rua. Devia ter ouvido o conselho do taxista e ido para um pronto-socorro. Mas pensando bem, não ia adiantar nada.

Tento descobrir um jeito diferente de andar para evitar colocar a perna machucada desnecessariamente no chão. Perda de tempo. Continuo mancando como antes. Sinto-me uma das criaturas mais patéticas do mundo neste momento. Estou descendo a rua e percebo que uns três ou quatro rapazes sobem no sentido contrário. Arrumo o chapéu de modo que ao passar sob a luz dos postes ninguém veja meu rosto, mas não é necessário. Estão rindo e conversam alto. Corte de cabelo estranho, comprido e com franja penteada para o lado, roupa colante e colorida. Anoréxicos. Fumam alguma coisa de cheiro enjoativo. Cigarro de cravo, talvez. Pouco me importa! Não devem ter mais do que vinte anos. Passam direto por mim sem sequer me notar. Que seja assim, é melhor que me ignorem. Não é seguro para mim, nem para ninguém. Pego o lenço do meu bolso e limpo o misto de suor, sangue e garoa da testa. Sinto dor ao toca-la e só então percebo o galo enorme que surgiu ali.

A cada passo o tambor do revolver à minhas costas me incomoda e machuca cada vez mais. Faço mais uma pausa, dessa vez escorado numa lixeira em frente a um prédio. Enquanto descanso, disfarçadamente tento arrumar a arma numa nova posição mais confortável. Aproveito também para ver se a estatueta está segura. Enfio a mão no bolso do meu capote e sinto aquela superfície lisa e extremamente gelada. Com a ponta dos dedos sinto os detalhes estranhos e as reentrâncias esculpidas nela. Enquanto a toco, consigo visualiza-la perfeitamente em minha mente e sinto nojo e horror.

A luz da portaria do prédio ascende e me cega. Levo a mão frente ao rosto e quando minha visão começa a se acostumar com a claridade, percebo que o porteiro está olhando para mim. Ouço uma voz abafada vindo do portão. “O senhor está bem?”, me pergunta a voz eletrônica distorcida do porteiro através do interfone. Ignoro a pergunta e volto a me arrastar rua abaixo. Parece que hoje todo mundo resolveu bancar o atencioso! Arrumo o capote nos ombros e sinto aquele peso extra em meu bolso. Parece pesar uma tonelada. “Estátua maldita!”, resmungo. É por causa dela que estou assim! Não. A quem eu quero enganar? A culpa na verdade era dela, da loira que entrou em meu escritório há mais ou menos uma semana. Solto um riso nervoso, debochando de mim mesmo, enquanto continuo a descer a rua rumo à porta do bar.

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Uma Resposta para
     “O Último Gole (prólogo)”

  • Lidia Zuin disse: 22 de junho de 2010

    Legal. Tem um clima meio noir esse conto, principalmente por ser em primeira pessoa e o personagem ser um pouco resmungão, um pouco misterioso.. gostei. O mais engraçado é que quando ele diz que sente o tambor da arma nas costa, eu pensei (de maneira equivocada).. “putz imagina se ele estivesse andando, fingindo estar assim despreocupado e cada vez com menos vontade que alguém o ajude e, na verdade, tem alguém atrás dele apontando uma arma nas costas?”… Ou seja, isso significa que eu quero saber que raios aconteceu com esse personagem :)

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