Qareen

Publicação: 20 de março de 2010

“Mas a quem menoscabar a Mensagem do Clemente
destinaremos um demônio, que será seu companheiro inseparável.”

Alcorão, Surata Az-Zukhruf (43: 36)

A noite se aproxima. A luz do sol começa a sumir e com ela também vão as nossas esperanças. Agora é apenas uma questão de horas. Há semanas resistimos ao cerco, mas é óbvio que isso não irá durar por muito mais tempo. Dia após dia os turcos atacam nossas muralhas, como ondas de um mar raivoso. Os poucos homens restantes fazem o que podem, mas é inútil. Ninguém pode nos salvar. Nem mesmo Deus poderá nos ajudar agora.

Deus! Muitos estão reunidos na catedral, clamando pelo auxílio celeste. Rogando pela intervenção divina, para que Ele envie suas hostes angelicais para destruir o exército inimigo. Pessoas amontoadas frente ao altar. Criaturas desesperadas. Não sabem que com certeza Ele foi o primeiro a nos abandonar à própria sorte. Já fui um bom cristão, um servidor temente de Deus. Mas é difícil manter a fé quando você vê mulheres, velhos e crianças em pedaços, e os corpos daqueles que um dia foram os seus companheiros submersos numa mistura de lama, sangue e fezes. Dentre os que ainda vivem, muitos são assombrados pela ameaça da peste, do desespero, loucura e… a Fome! Este é o ano do Senhor de 1453 e Constantinopla cairá nas mãos dos infiéis está noite. Estou sujo e cansado. Sujo de sangue turco e cansado de correr. Não sou covarde, não abandonei meus companheiros de batalha. Mesmo não sendo um soldado decidi lutar, assim como cada homem que pudesse pegar em armas. Apesar de tudo, ainda tenho um último trunfo. Uma última vingança contra os infiéis e minha única forma de me redimir com minha consciência pelo o que causei a esta cidade.

Hoje estive na muralha oeste da cidade. Sabíamos que os turcos tentariam uma grande investida naquele ponto, só não sabíamos exatamente quando seria. Tudo começou assim que amanheceu.  Eu ainda estava dormindo quando fui acordado com aquele barulho, como se o céu estivesse desabando. Assustado, levantei-me rápido e corri para a muralha enquanto tentava me vestir. Lá de cima procurava no horizonte a causa do estrondo. O sol já era visível, tingindo o céu de dourado e revelando o espetáculo de morte e agonia à nossa frente. De onde estava era possível ver corpos humanos ao longo de toda a costa. Homens que um dia haviam lutado por Constantinopla agora jaziam empalados, atravessados por lanças enquanto ainda estavam vivos; seus olhos estavam abertos, vazios, contemplando fixamente o céu e pontas afiadas de madeira se projetavam para fora de suas bocas. Alguns eram postos rente ao chão, de joelhos, mãos unidas e amarradas, como em eterna oração, segurando as próprias cabeças decapitadas. Um banquete para os corvos. Esta era a forma que os turcos usavam para nos dizer que aquele seria o nosso fim, caso não nos entregássemos.

Além daquela floresta de lanças e corpos em decomposição, pude ver ao longe a boca fumegante do monstro de bronze e o exército do sultão ao seu redor. Os soldados o apelidaram de “o grande Leviatã”, pois nenhum de nós nunca tinha visto nada tão grande e tão ameaçador como ele. O tiro havia nos atingido em cheio, mas não parecia ter abalado tanto a muralha. Sabíamos que teríamos por volta de uma hora até a próxima cusparada. Ele era tão grande que esse era o tempo necessário para esfriar antes de atirar novamente. O grande Leviatã havia sido fruto do trabalho de um artífice magiar que havia oferecido seus serviços ao sultão, que por sua vez lhe prometera riquezas sem fim caso tomasse a cidade. Ele estava sempre junto ao canhão, gritando e dando ordens aos homens que recarregavam o gigante de bronze com ferro e fogo. Tal aberração era puxada por sessenta bois e escoltado por duzentos guerreiros janízaros. Estes eram a tropa de elite dos turcos. Em sua maioria eram crianças cristãs capturadas em batalha e feitas escravas. Os melhores, aqueles que sobrevivessem, eram escolhidos pelo sultão, convertidos ao Islã e treinados nas artes da guerra até a exaustão. O objetivo era torna-los soldados perfeitos e dedicados à vida de seu único senhor e líder: o sultão. O grande Leviatã e os janízaros eram as duas principais armas que nossos inimigos tinham para nos destruir, mas não as únicas. Mesmo que não as tivessem, estavam sendo bem sucedidos na empreitada.

Éramos poucos e não havia muito que fazer além de resistir e fortificar a muralha. Uma hora depois, após algumas tentativas rápidas de ataques de infantaria, arqueiros e subsequentes tentativas de assédio, o monstro cuspiu novamente. Dessa vez parte da muralha veio abaixo, mas não o suficiente para que os turcos pudessem invadir. Certamente haveria um terceiro disparo. Continuamos com nosso trabalho, nosso dever. Os inimigos tentavam forçar a entrada na brecha da muralha e nós os repelíamos. Tínhamos a vantagem deles serem forçados a se espremer para tentar passar pela brecha, o que nos dava a vantagem de lutar com poucos homens de cada vez.

A batalha ali se estendeu por todo o dia e isso irritou o sultão, que viu que o dia estava chegando ao fim e ainda não haviam conseguido nada. Ordenou então um novo disparo do Leviatã. Dessa vez o tirou derrubou mais uma parte da muralha, aumentando consideravelmente a brecha. Apesar disso, ainda conseguíamos defender o local de forma adequada.  O sultão ficou furioso e ordenou um novo disparo logo na seqüência. Ele estava enlouquecido, queria destruir a muralha a qualquer custo antes do pôr do sol. Foi quando ele cometeu seu maior e único erro durante todo aqueles dias de cerco.

O monstro ainda estava quente demais para cuspir, mas mesmo assim eles o carregaram e o apontaram para nós. Os soldados turcos corriam para longe da muralha, tomando uma distância segura e ao longe o magiar gritou a ordem de disparo e o monstro rugiu. Mas desta vez ele urrou duas vezes. Na primeira vez foi um grito de fúria, que fez aquele trecho da muralha desmoronar. A brecha que o sultão tanto queira havia sido aberta. Mas na segunda vez o urro foi do lado turco. A principio vimos apenas uma grande bola de fogo se erguer e sumir. Quando a poeira e a fumaça baixaram pudemos ver o que tinha acontecido. Devido ao calor, o grande Leviatã havia explodido e levado para o Inferno quem estava por perto. Os bois, os janízaros e o seu criador.

A batalha foi paralisada. Estávamos todos perplexos com o que tinha acabado de acontecer. O fogo se espalhava entre os turcos. Muitos sobreviventes rolavam no chão para apagar as chamas de suas roupas, enquanto vários agonizavam. Rapidamente a brisa do mar trouxe o cheiro de pólvora e carne queimada até nós. Começamos a comemorar, gritar e louvar a Deus por aquilo. Pensamos naquele momento que talvez ainda tivéssemos chance. Talvez ainda houvesse esperança para Constantinopla. Mas de repente nuvens escuras e espessas cobriram o céu e uma chuva torrencial desabou sobre nós. Em minutos o dia se fez noite e ventos poderosos começaram a soprar. Os gritos de comemoração foram diminuindo e o medo retornou aos nossos corações. Podíamos ouvir palavras sendo pronunciadas ao vento. Versos profanos entoados por feiticeiros turcos que acompanhavam o exército do sultão. Nós os temíamos talvez mais do que os próprios janízaros.

Aos poucos a água cumpriu seu dever e o fogo foi se apagando. Não pudemos sair além da muralha para tentar ataca-los naquele momento de fraqueza. Fazíamos força para nos segurarmos em qualquer coisa que estivesse próxima e nos apoiarmos para não cairmos com a força do vento. Todos conheciam a fama de tais homens que invocavam as forças dos céus e da natureza contra seus inimigos em campos de batalha. Recordo de ter lido certa vez sobre as histórias de quando os infiéis tentaram invadir o reino de França, e como o imperador Carlos Magno enfrentou tais feiticeiros. Naqueles tempos ele tinha ao seu lado homens-sábios que também conheciam as palavras secretas da Criação, as quais haviam sido reveladas pelo Senhor Deus a Adão e depois por Jesus Cristo aos santos apóstolos. Os infiéis foram derrotados e nunca mais ameaçaram os reinos cristãos do oeste, obedecendo às regras do grande concílio do ano do Senhor de 802 e vivendo em paz nas terras de Ibéria até os dias hoje. Mas aqui, no oriente, tal acordo de nada valia para os turcos e também não tínhamos homens-sábios como os do grande imperador para nos ajudar. Desde os tempos do Papa Urbano II, quando instituiu o Santo Conselho pela Doutrina da Fé, que os homens-sábios haviam desaparecido dos reinos cristãos.

A tempestade continuava implacável. Alguns juravam que podiam ver rostos nas nuvens, faces distorcidas que surgiam e riam para nós enquanto raios e trovões estouravam sobre Constantinopla e sobre os homens do sultão. Nosso comandante, mestre Giovanni Giustiniani, também os viu e falou que aquilo eram djinns; espíritos do oriente com quem os feiticeiros faziam acordos e pactos. Ao vê-los, muitos de nós fizemos o sinal da cruz, inclusive ele. Mestre Giovanni não apenas fez o sinal da cruz como beijou um osso que carregava pendurado ao pescoço, que dizia ser um das falanges da mão esquerda de São José. Ele era da cidade de Gênova e havia chegado no meio daquele ano trazendo mais homens e mantimentos para Constantinopla. Homem enérgico e taciturno, tinha viajado por muitos lugares em nome de sua cidade, até mesmo para as terras controladas pelos mongóis e pelos mouros. Se não fosse por sua liderança nas últimas semanas, muito provavelmente a cidade já teria caído há muito mais tempo.

Todos observavam com horror as nuvens e se benziam. Estavam tão entretidos com o que viam, que acredito ter sido o único a testemunhar o que aconteceu a mestre Giovanni. Eu estava no parapeito da muralha, próximo de onde as balas do Leviatã haviam atingido. Eu quase havia sido derrubado de lá no terceiro disparo dos turcos. De onde estava eu podia ver os soldados que estavam no chão defendendo a brecha, e a minha esquerda, num nível superior (numa das torres de vigia) estava mestre Giovanni. De repente houve um clarão, como se o céu tivesse explodido como o canhão. Um raio havia caído exatamente onde estava nosso comandante genovês, e os soldados mais próximos correram imediatamente até lá para ver o que tinha acontecido. Três homens, genoveses também, estavam mortos. Outros dois estavam com os corpos cobertos de queimaduras e gemiam muito. Um deles era Giovanni Giustiniani.

Os soldados os retiraram de lá e os levaram para longe da muralha. Nunca fiquei sabendo para onde foram com eles. Ao vermos o corpo de nosso comandante naquele estado estremecemos.  O fio de esperança que surgiu, ao ver o exército turco ardendo em chamas, desapareceu assim que levaram o corpo moribundo de mestre Giovanni. Da mesma maneira as nuvens também desapareceram. Tão repentinamente como vieram, a tempestade e o vento começaram a diminuir e os infiéis recolheram seus feridos e seus mortos e se retiravam da batalha. Mas aquela não era uma fuga, apenas iriam se preparar para daqui a pouco. Era óbvio. Enquanto isso, a moral de nossos homens havia sido arrasada. Muitos entraram em desespero e começaram a desertar. Vi homens correndo para fora das muralhas, tentando se entregar aos turcos na esperança de misericórdia. Outros correram para dentro da cidade, buscando salvar o pouco que lhes havia sobrado. Alguns simplesmente se deixaram cair ao chão, catatônicos na lama; e só alguns poucos de nós permaneciam em seus lugares.

Assim que as nuvens dos feiticeiros se dissiparam, um céu límpido e rubro nos foi revelado. O sol começava a mergulhar no oeste e eu sabia que nosso destino estava selado. A brisa do mar bateu em meu rosto e senti lágrimas em meus olhos. Era chegada a hora da vingança e de minha redenção. Precisava agir rápido e estar lá assim que as trevas cobrissem a cidade.

Desci da muralha o mais rápido que pude. Deixei para trás meu escudo e minha armadura para correr mais rápido. Ambos eram presentes de um grande amigo, mas que a partir de agora de nada me serviriam. Percorri as ruas de Constantinopla como louco. Em meu caminho só encontrava desespero e horror. Corpos espalhados por todos os lados, vítimas da peste ou da fome. O cheiro da morte havia impregnado minhas narinas há tanto tempo que já tinha me acostumado com aquele cheiro adocicado, pútrido, que dominava a cidade. Percorria as vielas mais estreitas na tentativa de cortar caminho e acabei me perdendo, chegando a uma praça com uma fonte seca. A água que ainda restava ali tinha se transformado numa lama espessa e esverdeada de cheiro ruim. Sentada no chão, encostada à fonte, estava uma mulher. Senti um frio percorrer minhas espinha e um aperto no peito. Não lembrei de imediato, mas uns três dias antes eu tinha passado por aquela mesma fonte. Na ocasião aquela mesma mulher estava sentada naquele mesmo lugar, chorando muito e balançando nos braços o corpo de um bebê. Creio que tivesse apenas algumas semanas de vida quando morreu. Sua pele estava avermelhada, ressecada e coberta de pequenas pústulas. Uma vítima da peste. Lembrei-me que naquele dia eu estava indo para a muralha, estava a pé, e ao passar por ela ouvi que em meio ao choro ela tentava ninar o pequeno cadáver e lhe cantar uma música. Quando estava bem próximo, ela levantou os olhos e me viu ali, ainda vestido com minhas roupas clericais. Ela então me estendeu a mão e pediu que eu a ajudasse, que rogasse a Deus pela alma de sua criança. Perturbado, consegui lhe dizer apenas que se a criança estava morta era porque sua alma já estava salva. Ela não entendeu minhas palavras, poucos entenderiam, e continuou a implorar por ajuda enquanto eu me afastava. Seus gritos ecoam em minha alma até hoje e só servem para aumentar meu arrependimento. Aquela imagem me marcou profundamente, e foi depois disso que decidi fazer o que estou prestes concluir. Agora que eu a reencontro, vejo que ela também se foi. Mãe e filho, ambos mortos pela maldita peste.

Retomo o fôlego e continuo meu caminho, acelerando o passo. Percorro mais algumas ruas e quando vejo estou em frente a catedral. Gigantesca, monumental. A visão dela, que antes me dava prazer e orgulho, agora me traz angústia e me faz contempla-la não como um templo, mas como um túmulo. Dezenas de pessoas se aglomeram ali, buscando o lugar como um último refúgio para seus corpos e almas. Ao vislumbrar aquilo, logo me recordo das descrições de frei Francesco sobre o dia do Juízo Final.

Aproximo-me da multidão e começo a chamar pelo nome de Anatole. Grito incessantemente, até que ele surge. Um garoto de doze anos, cabelos escuros e encaracolados. Digo a ele que chegou a hora. Ele entende e juntos nos afastamos da catedral. No caminho ele me pergunta sobre a armadura e o escudo de seu mestre. Ao invés de lhe dizer a verdade, apenas conto que o escudo caiu de minha mão durante a batalha e que a armadura me foi roubada por um turco. Ele não acredita, mas não diz nada.

Caminhamos mais um pouco e finalmente chegamos ao monastério de São Lázaro. Contornamos o prédio até os fundos, onde antes se encontrava um lindo jardim, mas que agora serve de descanso final para os corpos dos irmãos clérigos que pudemos enterrar. Há uma pequena porta de madeira, que não oferece grande dificuldade em ser aberta e entramos na cozinha do monastério. Como sabemos, o local está desabitado. Todos os que ali viviam ou já se foram ou estão mortos, vítimas da peste ou da Fome.

É uma cozinha grande e espaçosa. Ainda posso me lembrar dos dias em que estava cheia de monges correndo de um lado para o outro, preparando as refeições para os demais irmãos. Corro os olhos pelas facas, facões e cutelos que estão ali pendurados na parede. Nenhum deles me agrada para a tarefa que estará por vir. Estou cansado e minhas pernas doem devido ao esforço de atravessar toda a cidade em tão pouco tempo. Sem querer esbarro num dos panelões de bronze que estavam lá, que cai no chão fazendo um grande estardalhaço. Com o barulho eles despertam e começam a gritar. Seus gritos ecoam pelo monastério abandonado, como um coro infernal. Estão loucos e sedentos por causa da Fome. Sei que eles estão bem presos na antiga capela, mas mesmo assim sou tomado pelo horror e começo a chorar. Não são lágrimas de medo, mas de angústia. Penso em como poderiam ter sido as coisas se nunca tivéssemos encontrado aquele homem. Certamente nada disso estaria acontecendo e Constantinopla nunca cairia. Seria uma cidade cheia de vida e não de morte e trevas.

Tudo começou há quatro anos, após a coroação do imperador Constantino. Eu havia chegado no ano anterior na comitiva enviada pelo Papa formada por meu mestre, frei Francesco de Vignola, doze soldados comandados pelo capitão Enzo Ferrotto (veterano das cruzadas contra os hereges sicilianos e na Floresta Negra) e três irmãos dominicanos. Chegamos durante o verão, junto com um grupo de mercadores de Veneza. Tinha quinze anos quando vi a grande Constantinopla pela primeira vez e é aquela imagem que eu rememoro quando quero pensar na cidade, não o cenário sombrio que é hoje. Apenas Roma havia me impressionado tanto daquela maneira. Os cheiros, a multidão de pessoas, os prédios. Meu último sonho seria conhecer Jerusalém, mas isso nunca acontecerá.

Frei Francesco era membro do Santo Conselho pela Doutrina da Fé, e era por isso que viemos para Constantinopla; para verificar como estava sendo praticada a fé cristã. Durante muitos anos os imperadores de Constantinopla haviam se mantidos afastados de Roma, cultivando suas próprias doutrinas e práticas, às vezes perigosamente próximas das crenças dos infiéis. Mas foi com o imperador João VIII, irmão mais velho de Constantino, que as coisas começaram a mudar. Seus espiões haviam lhe informado sobre os planos do sultão, e ele temia o avanço dos turcos sobre seu reino. Buscando por ajuda, o imperador foi pessoalmente até Roma visitar o Papa e acertou a reunificação das igrejas do oriente à sé romana. Infelizmente, ou melhor, felizmente ele não pode ver o resultado de seu acordo. No ano seguinte de seu retorno da viagem, sofreu um mal súbito e veio a falecer. Eu estive presente, junto com meu mestre, nos ritos fúnebres de João VIII. Lembro-me que eu e frei Francesco reprovamos a forma orientalizada dos ritos cristãos utilizados. Acreditávamos que nós, representantes do Santo Conselho, éramos detentores da verdade absoluta. Cheguei até mesmo a acreditar que as atitudes de meu mestre, e conseqüentemente as minhas, eram guiadas pelo próprio Deus. Hoje sei que realmente estávamos sendo guiados por uma força maior, mas não era Ele, mas sim a soberba.

Na ânsia por aprovação e apoio dos reinos cristãos do oeste, o antigo imperador havia prometido ao Papa liberdade absoluta aos agentes que ele enviasse para restituir a doutrina cristã romana em Constantinopla. Quando seu irmão, Constantino, foi coroado como o novo imperador, não se atreveu a contrariar a decisão do irmão. Para ele, o medo da ameaça turca era algo que o fazia realizar qualquer sacrifício.

Em pouco tempo frei Francesco ganhou a simpatia do imperador e tornou-se seu conselheiro, o que nos dava livre acesso ao palácio imperial. O resultado disso foi que aos poucos o imperador foi impondo mudanças em sua cidade, mudanças religiosas, seguindo o que meu mestre lhe aconselhava. Isso desagradou a muitos. Vi bispos, clérigos e até mesmo o patriarca de Constantinopla irem frente a frei Francesco e discutir com ele, ameaça-lo e insulta-lo. Meu mestre era um homem de idade, usava uma longa barba que começava a embranquecer e olhos cinzentos injetados de sangue. Era impassível, inflexível, enérgico. Para mim frei Francesco de Vignola era um exemplo, um homem de visão, que enxergava além dos assuntos mundanos e que era voltado aos interesses do Senhor. Sei o quão estava enganado. Meu mestre na verdade era um homem de visão turva, cego por seu fanatismo. Foi preciso uma cidade inteira perecer para que eu entendesse isso.

Ele não se deixou abalar por nenhuma das afrontas feitas a ele. Pelo contrário, foi ai que ele ficou mais confiante e foi neste momento que começaram os interrogatórios. Para meu mestre, qualquer pessoa, atitude, prática, gesto ou qualquer coisa que não correspondesse ao que ele entendia como o correto e permitido pelos desígnios de Roma e do Santo Conselho deveria ser reconduzido para dentro da verdadeira fé ou extirpado do mundo cristão. Com a proteção do capitão Ferrotto e seus soldados (o imperador havia posto alguns homens de sua própria guarda a nosso serviço) e de alguns clérigos que se aliaram a nós, muitas almas foram chamadas perante a figura inquisitiva de frei Francesco e de nossos irmãos dominicanos.

Diversas pessoas foram chamadas a se explicar e muitas nunca mais foram vistas novamente. Criticamos os turcos pelo o que eles fazem com nossos soldados, mas o que fizemos àquelas pessoas não foi muito diferente. Homens e mulheres confessavam qualquer coisa que queríamos. Eu era o responsável por catalogar e tomar nota dos depoimentos dos interrogados e vi coisas das quais me envergonho agora. Claro que na época achava que suas confissões eram sinceras, genuínas, de pessoas arrependidas de seus erros espirituais. Confissões em meio a gritos de desespero e agonia.

Aqueles que sobreviviam aos interrogatórios eram levados ao monastério de São Lázaro. Lá, os irmãos cuidavam de seus ferimentos e de suas almas. Nos dias, semanas ou meses que se seguiam a sua recuperação, as pessoas eram instruídas a seguir na verdadeira doutrina e no final eram rebatizadas por frei Francesco, representando seu renascimento na fé cristã. Entretanto, nem todos suportavam aos interrogatórios. Aqueles que pereciam em nossas mãos, mas que haviam se confessado e se arrependido de seus erros, tinham seus corpos limpos e vestidos com trajes brancos. Depois eram levados frente a grande catedral e incinerados sobre uma pilha de madeira. Isso era feito, segundo meu mestre, pois essas pessoas haviam se arrependido, mas ainda não eram merecedoras do Céu. Assim, suas almas iriam para o Purgatório e aguardariam pelo Juízo de Deus. Já aquelas que morressem antes da confissão, ou que se negassem a faze-la, tinham seus corpos jogados ao mar para que as feras das profundezas as devorassem como um animal qualquer.

O tempo passou e a presença do Santo Conselho em Constantinopla era cada vez mais temida e odiada. Vez ou outra a guarda imperial era obrigada a agir contra grupos de revoltosos. O auge foi quando por duas vezes seguidas tentaram assassinar frei Francesco, que foi salvo graças a Ferrotto e seus homens. O capitão Ferrotto era muito próximo de meu mestre e de mim. Ele era mais novo que frei Francesco, e bem mais robusto. Tinha uma cicatriz enorme que ia do canto esquerdo da boca até o lobo da orelha. Dizia que aquilo tinha sido um presente dos mouros. Creio que era tão fanático ou mais que meu mestre. Se fosse por ele, nenhum dos interrogados iria para o monastério de São Lázaro. Iriam direto para o fogo ou para o mar. E foi há um ano, quando o mar se agitou durante uma tormenta, que começou nosso fim.

O dia havia amanhecido com nuvens escuras e assim permaneceu. Ao cair da noite, uma tempestade desabou sobre nós e durou até o amanhecer do outro dia. Na manhã seguinte podíamos ver ao longo da costa barcos virados, peixes mortos e destroços despejados ali durante a noite. Os pescadores me disseram que ali era comum as ondas trazerem restos de embarcações que afundavam durante tempestades no mar. O céu estava limpo, azul, e o sol brilhava com intensidade. Caminhava despreocupado pela praia, observando o que o mar havia trazido, quando me deparei com um corpo. Aproximei-me dele e com o galho que usava como bastão, o cutuquei mas não se moveu. O cutuquei mais algumas vezes, até que o ouvi dizer algo. Abaixei-me e o virei de barriga para cima. Ele estava vivo e falando algo que eu não compreendia. Ao ver seus trajes e seus traços, deduzi que estivesse falando na língua dos turcos. Naquele momento eu podia ter pedido ajuda aos pescadores ou qualquer um por ali, ajudado o homem a se recuperar e deixa-lo partir; mas não foi o que fiz. Aquele foi meu primeiro erro. Puxei-o para trás de algumas pedras e o deixei lá, a salvo e escondido. Cego pelo orgulho e pela ânsia de ser bem visto aos olhos de meu mestre, corri até o capitão Ferrotto e lhe contei o que havia encontrado. Ele imediatamente largou o que estava fazendo e juntamente com alguns de seus homens me seguiu até a praia. Ao chegar lá, ele concordou comigo que tratava-se de um turco, e então sugeri que devíamos leva-lo para frei Francesco. Ferrotto me olhou de lado e sorriu com sua boca repuxada, um sorriso maldoso.

O capitão e seus homens o levaram para a cidade, diretamente para a presença de meu mestre. Após lhe contarmos como o encontramos, frei Francesco se aproximou, pôs sua mão em minha cabeça e me deu sua benção dizendo que eu era um exemplo para todos os jovens cristãos. Naquele dia me senti esfuziante, não podia me conter de tanta alegria. Ao lembrar daquele dia sinto apenas o peso da culpa dentro de mim.

Nos dias que se seguiram o prisioneiro foi interrogado por frei Francesco pessoalmente. Participava das sessões apenas como testemunha, quando meu mestre permitia, pois o homem se recusava a falar qualquer outra língua que não fosse a dos turcos e mouros. Segundo Ferrotto, que às vezes participava como interprete, o homem sabia falar outras línguas, mas resistia aos nossos métodos para faze-lo falar. Quando eu não participava dos interrogatórios, tentava ensinar Anatole aprender a ler e escrever. Ele era órfão e havia sido adotado pelo capitão Ferrotto. Quando o conheci, Anatole andava com um bando de outros órfãos como ele, que cometiam pequenos roubos pela cidade. Ele era o menor deles. Um dia os outros meninos o obrigaram a roubar alguma coisa para provar que podia continuar andando no bando. O pobre Anatole acabou escolhendo um lindo punhal de um senhor que estava na praça, cravejado com um rubi na ponta do cabo. Era o punhal que Ferrotto carregava à cintura. Ele conseguiu roubar o punhal, mas Ferrotto conseguiu alcança-lo. O menino apanhou muito do capitão, que por fim o jogou no chão e ordenou que voltasse para a pocilga onde morava a mãe dele. Chorando, Anatole disse que não tinha mãe, que ela havia ficado doente e morrido. Ferrotto perguntou pelo pai e o menino disse que antes da mãe adoecer ele tinha ido embora. O capitão também era órfão, como fiquei sabendo depois, e deve ter se identificado com Anatole naquele momento. Acabou levando o garoto para a sua casa e o fez seu pajem.

Após muitos interrogatórios, acabamos descobrindo que o homem que eu havia encontrado se chamava Saud ibn Haleema. Ele estava voltando de Jerusalém e achou que seria mais rápido vir pelo mar. Quando estava próximo de Constantinopla, uma tempestade o pegou e ele naufragou. Ao ser interrogado para onde ele estava voltando, disse apenas que esta indo para a casa de seu primo. Frei Francesco não se deu por convencido. Por alguma razão ele acreditava que o infiel era um espião do sultão. O pressionaram e ele por fim confessou ser sobrinho de Murad II e primo do atual sultão. Até meu mestre ficou chocado com aquela confissão. Mesmo assim acharam que ele poderia estar mentindo e a única forma de se ter certeza seria falando com o imperador sobre o caso. Já haviam se passado quase dois meses que Saud era nosso prisioneiro sem que Constantino ao menos desconfiasse do que estava acontecendo.

Sem dúvida nenhuma aquele havia sido o homem que resistiu por mais tempo aos interrogatórios do Santo Conselho. Saud estava preso numa cela no monastério de São Lázaro, isolado de todos. Primeiramente por ser um infiel e segundo porque acreditavam que ele era um feiticeiro. Diziam isso pois coisas estranhas aconteciam quando ele estava por perto.

Os guardas me contaram que durante a noite ele dizia palavras em sua própria língua, mas de repente ele se calava e dormia. Ninguém sabe se eram orações, se ele era louco ou algum tipo de feitiçaria que ele estava fazendo. Coincidência ou não, dois guardas adoeceram misteriosamente e morreram em poucos dias. Depois foi o leite que os irmãos do monastério tiravam das cabras que eles criavam. Todos os dias, pouco tempo depois de tirado o leite, ele azedava. Depois foram as próprias cabras que morreram. Os demais guardas que passaram a vigiar sua cela começaram a se recusar em fazer o serviço. Diziam que ao dormir tinham pesadelos terríveis. Eles se viam andando em meio a pilhas de mortos e que em meio aos corpos eles encontravam a si mesmos, sendo devorados por corvos e lobos. Todos tinham medo de nosso prisioneiro.

Todas as vezes que era torturado e acusado pelos infortúnios que ocorriam e por ser um espião, Saud pedia para que o libertassem e prometia que partiria em paz. Falava que não sabia nada sobre os planos de seu primo, que ele era astrólogo e estudioso do Corão, não um soldado. Ferrotto não acreditava nele, dizia que aquilo era tudo bobagem, que eles deviam interrogá-lo mais até que contasse o que precisavam saber sobre o exército do sultão para poder derrota-lo. No último dia, o capitão se irritou a tal ponto com os insistentes pedidos por liberdade de Saud que se aproximou bem perto dele e disse algo que não entendi, na língua do turco. Este pareceu ficar furioso, respondeu algo no mesmo idioma e cuspiu no rosto de Ferrotto. Saud foi mais torturado do que de costume naquele dia e depois levado a sua cela.

Naquela noite ninguém quis ir até a cela de Saud para vigia-lo. Frei Francesco não podia, pois iria se reunir com o imperador e contar-lhe sobre nosso prisioneiro, os dominicanos se recusam a ficar próximos do infiel sem a presença protetora de meu mestre, e Ferrotto havia caído de cama com uma febre repentina que o havia acometido. Curioso, já que desde que eu o encontrara na praia nunca tive a oportunidade falar com ele, me ofereci para ir até lá.

A cela de Saud ficava nos subterrâneos do monastério, onde também existia uma adega. Fui até lá pouco após o anoitecer. A porta da cela era de madeira, reforçada com barras de metal e grandes pregos. Ali, na verdade, era uma parte da adega que acabou sendo improvisada para prisioneiros e futuros interrogados do Santo Conselho. Puxei um banco que estava por perto e me sentei junto à porta, com uma vela na mão e um pão na outra. Assim que me sentei ali, pude ouvir Saud sussurrando e pensei que o que os guardas falavam era verdade. Abaixei-me no chão para tentar enxergar por debaixo da porta, mas era muito estreito. Só consegui ver que o turco estava no escuro, sentado no meio da cela, de pernas cruzadas e dizendo coisas incompreensíveis para mim. Ele deve ter percebido a luz da vela e se calou. Assustado, levantei-me rápido e sentei no banco, fingindo que nada tinha acontecido. Ele então perguntou meu nome, falando num grego perfeito, ou o suficiente para eu entende-lo claramente. Com medo, me calei. Ele perguntou novamente e com a minha hesitação, desistiu. Depois de um tempo, voltou a falar, e perguntou se eu era o rapaz que auxiliava frei Francesco, se referindo a ele como o “demônio de barba cinzenta”. Respondi que sim, mas que meu mestre não era nenhum demônio. Ao que Saud disse que ele também não o era e que não era necessário tudo aquilo. Lembro-me que ouve um grande período de silêncio, que foi rompido quando tomei coragem e perguntei a ele:
–    Você é um… feiticeiro?
–    Por quê pergunta?
–    Dizem que você é um espião e feiticeiro do sultão. Que veio para matar o imperador e trazer o mal para Constantinopla…
–    Foi você que me trouxe até aqui. – disse num tom sombrio. Sem saber o que dizer, me calei novamente. Sabia que ele tinha razão, mas não conseguia admiti-la na época.

–    Deixe-me ir e prometo que nunca mais me verão novamente.
–    Você… você é um feiticeiro?
–    Deixe-me ir, por favor. Basta abrir a porta e eu irei para nunca mais voltar. Nunca saberão que você me libertou. Nunca. Será um segredo meu e seu.
–    Você matou aqueles guardas?
–    Por favor, abra esta porta…
–    Você é ou não um feiticeiro? – eu estava apavorado.

Ele não respondeu nada. Pude ouvir ele respirar fundo e dizer algo em seu idioma, e então se calou pelo resto da noite. Aquele foi meu segundo erro. Tive a oportunidade de evitar tantas coisas, mas fui covarde. A única vez, desde que cheguei nesta cidade. Um único momento de temeridade que causou a maior das desgraças. Bastava abrir aquela porta e tudo teria sido diferente. Mas ao não abri-la, selei o destino de todos.

Depois que o imperador ficou sabendo de tudo, enviou uma mensagem ao sultão, dizendo que tinha seu primo cativo e exigia um acordo. Suas exigências consistiam no pagamento de resgate por Saud e a promessa de que cessaria qualquer tipo de manobra militar contra a cidade, caso contrário seu primo seria executado. Alguns dias depois, um dos mensageiros enviados ao sultão retornou transtornado e com duas mensagens e um cesto. Uma era a de que o sultão não pagaria nada e que havia mandado dizer que o imperador não estava em posição de fazer exigências. No cesto estava a cabeça do outro mensageiro e uma das mãos do mensageiro sobrevivente.

Constantino ficou furioso e mandou que trouxessem Saud imediatamente à sua presença. Os soldados de Ferrotto o buscaram e o arrastaram até a entrada do palácio imperial. Constantino perguntou a ele as mesmas perguntas que ele estava cansado de responder durantes os últimos meses. Estava tão ferido que não conseguia nem mesmo se manter em pé. Saud, prostrado no chão, tentando se equilibrar com um dos braços para ficar com o tronco ereto, olhou para o imperador e mais uma vez pediu por sua liberdade e disse mais uma vez que nada sabia sobre os planos de seu primo contra a cidade. Constantino então disse que se não sabia de nada, ele não tinha serventia para Constantinopla, e já que o sultão não aceitava pagar o resgate por ele, era porque ele também não tinha serventia para os turcos. Sendo assim, o imperador decretou que ele fosse executado. Saud ouviu as palavras e baixou a cabeça, com a expressão de vencido, de que não havia mais nada a se fazer. Assim eu acreditava. Ele sussurrou algo e de repente ergueu a cabeça, olhou para cada um de nós com uma expressão de ódio e disse várias palavras em seu idioma. Não sabia o que as palavras significavam, mas tinha certeza que era algum tipo de maldição. Ali estavam frei Francesco, os homens da guarda imperial e os de Ferrotto e os irmãos dominicanos. Capitão Ferrotto continuava acamado.

Após dizer aquelas palavras, ele tomou fôlego e disse outras em grego. Ele nos amaldiçoava. Disse que uma peste cairia sobre todos nós, sobre toda a cidade. Uma peste da qual não teríamos como escapar, uma peste que faria nosso sangue ferver nas veias, a pele secar e rachar; e que nossos filhos e crianças iriam se alimentar de nossa carne e beber de nosso sangue, como bestas selvagens, e que elas não iriam parar enquanto ainda restasse alguém vivo em Constantinopla. Estávamos todos paralisados de terror. Frei Francesco era o único que conseguia falar. Ele gritava aos guardas para calar Saud, para mata-lo imediatamente. Então o turco olhou para mim. Ele estava possuído pela ira. Um dos guardas avançou na direção dele e acabou me empurrando para frente. Saud se aproveitou disso e agarrou meu braço com as duas mãos e disse que de todos eu seria poupado da peste, mas aonde quer que eu fosse eu levaria aquela maldição comigo. Ele olhou no fundo dos meus olhos e sussurrou:
–    A você eu passo meu qareen! – e me dirigiu uma cusparada. Frei Francesco gritava desesperadamente para que alguém calasse o infiel, os dominicanos rezavam o Pai-Nosso sem parar e o imperador recuava tomado pelo horror da cena.

O guarda deu um chute poderoso no rosto de Saud e um outro, que já havia sacado de sua espada, o decapitou com um único golpe. O corpo do turco caiu inerte no chão e sua cabeça rolou até os pés de meu mestre, que se benzia como se tivesse acabado de ver o próprio Demônio. Após se recompor, o imperador ordenou que os guardas recolhessem o corpo, o esquartejassem e que espalhassem as partes pelos quatro cantos de Constantinopla, para demonstrar seu suposto destemor frente aos turcos. Ordenou também que a cabeça fosse enviada de presente para o sultão.

Fiquei muito perturbado com tudo aquilo, como não podia deixar de ser. Mas meu mestre me acalmou dizendo que aquele era apenas um infiel e que sua maldição de nada valeria, pois o Senhor não estava do lado dele nem dos turcos, mas sim ao nosso lado e por isso triunfaríamos. Acabei demorando a dormir naquela noite e quando o consegui foi um sono inquieto. Até hoje não sei dizer se o que viria ocorrer naquela noite foi um sonho ou se de fato aconteceu.

Como disse, demorei a pegar no sono. Dormia, mas acordava repentinamente, angustiado e sem saber o porque. Numa dessas vezes pensei ter ouvido um barulho do lado fora de meu quarto. Como se alguém estivesse arranhando a porta pelo lado de fora. Levantei e permaneci parado observando a porta, tentando ouvir o barulho novamente, mas o silêncio reinava. Percebi então o quão frio estava ali. Achei estranho, pois naquela época do ano costuma fazer muito calor em Constantinopla, mas sentia frio a ponto bater os dentes e ver minha respiração virar vapor quando expirava. Fui até a janela e vi que uma neblina espessa cobria toda a cidade. Então ouvi novamente o barulho. Virei-me rápido e permaneci imóvel. Depois de alguns segundos tomei coragem e decidi abrir a porta. A abri devagar, mas não havia ninguém no corredor. Por alguma razão decidi sair e verificar o que estava acontecendo, apesar do medo. Sentia-me estranho, meio dormindo e meio desperto. Segui pelo corredor até as escadas e desci até o térreo, e de lá segui para o jardim do monastério. A neblina cobria tudo, permitindo que eu enxergasse apenas alguns metros à minha frente. Estava tremendo, sentia meu rosto arder com o frio e a umidade. Fiquei ali parado, observando a neblina e o pouco que podia ver do jardim, quando alguém apareceu.

A neblina era tão grossa e branca que só fui percebe-lo quando ele já estava bem perto de mim. Era um homem alto, andava calmamente, estava vestido inteiramente de branco com roupas iguais as dos turcos. No meio de seu turbante ele possuía uma pedra preciosa escura que não pude identificar. Depois que o vi mais de perto, notei que era muito parecido com Saud, mas sem barba, e me assustei achando ser um fantasma. Porém, com atenção notei que não era o primo do sultão. O estranho me fez uma mesura, sentou-se na mureta do jardim e fez um sinal com a mão para que eu me sentasse a seu lado. A forma como agia, seus gestos, eram muito refinados, harmoniosos, poderia dizer seguramente tratar-se de um nobre. Ele então pronunciou meu nome, o que me deixou muito surpreso.
–    É você, não é? Esse é seu nome?
–    Sim… sou eu! – fazia esforço parar de bater os dentes e falar de forma clara. Muito diferente daquele homem que não parecia se incomodar com o frio que estava fazendo – O senhor me conhece?
–    Sim, o conheço. Já ouvi falar muito de você e de seus amigos.
–    É mesmo?
–    Sim. Saud me falou muito sobre todos vocês.
–    Desculpe, mas o senhor não disse seu nome.
–    Meu nome é Iblis. Foi um prazer conhece-lo, mas tenho de ir. Em breve nos falaremos novamente.

Antes que eu pudesse lhe perguntar mais alguma coisa, ele levantou-se e voltou para a neblina. Não me recordo de ter voltado para a cama após aquele encontro com Iblis. De qualquer maneira, ao acordar no dia seguinte aquele frio intenso havia desaparecido, e nem sinal da neblina. Assim que me encontrei com frei Francesco naquele dia recebi a notícia de que Enzo Ferrotto havia morrido durante a noite. Segundo o que Anatole me contou depois, a febre piorou e a velha cicatriz do capitão voltará a sangrar de repente, após tantos anos. Todas as tentativas de estancar o sangramento foram inúteis. Ferrotto sangrou a noite inteira até a morte.

Nos dias seguintes tive pesadelos. Neles eu me via andando pela cidade, outras vezes acompanhado por Iblis e outras vezes ele estava solitário. Nos sonhos, íamos às casas de várias pessoas e lhes dávamos bênçãos, e sempre ao fim, antes do nascer do sol, lavávamos as mãos e o rosto em alguma fonte de água de Constantinopla. Uma semana após o sonho começaram as mortes.

Pessoas apareciam doentes por toda a cidade, sem distinção entre ricos e pobres, laicos ou religiosos. Iniciava com um estranho mal-estar e tonturas, depois vinha a febre alta; o doente começava a suar muito e logo surgia o sangue. Quando elas paravam de suar sangue, suas peles estavam ressecadas e quebradiças, o que resultava em rachaduras e pústulas. Em menos de três dias estavam mortos. Nenhuma das diversas receitas e alternativas para impedir ou minimizar os efeitos da doença surtiam efeito. Os mortos começaram a se multiplicar de forma estrondosa. Em pouco menos de um mês Constantinopla estava apinhada de homens puxando carroças cheias de cadáveres para serem jogados em covas coletivas. Mesmo assim não era o suficiente, e mortos e moribundos se amontoavam pelas ruas.

No auge da peste, evitávamos sair do monastério e racionávamos a comida que ainda tínhamos guardada. Mas as vezes éramos obrigados a sair às ruas, e foi numa das dessas vezes que vi algo terrível. Numa viela próxima ao monastério de São Lázaro, vi vultos de pessoas correndo. Elas gritavam entre si e brigavam, se empurravam pela disputa de algo que eu não conseguia ver. Não eram raras tais cenas naqueles dias. Ao me aproximar, fui tomado de asco e horror. Eram crianças, por volta de cinco ou seis, disputando os restos mortais do cadáver de um homem. Elas devoravam sua carne com voracidade, olhos arregalados, ensandecidos, dentes à mostra arrancando a carne diretamente dos ossos do corpo. Não suportei aquilo e comecei a correr o mais rápido que pude, mas no meio do caminho tive de parar para vomitar.

Situações parecidas começaram a acontecer com mais freqüências. Geralmente eram crianças entre cinco e dez anos de idade. Ficavam doentes como os pais, mas ao invés de morrerem, elas eram possuídas por uma força demoníaca, aquilo que chamo de a Fome. Elas pareciam nunca estarem saciadas. Começaram devorando cadáveres, mas depois passaram a atacar adultos ainda vivos. Os ataques ocorriam normalmente durante a noite. Ao que parecia, elas dormiam durante o dia e ao cair da noite elas saiam para caçar os mais incautos ou algum cadáver fresco. O que as atraía principalmente era o cheiro do sangue. Por isso atacavam primeiros os doentes da peste que estavam com o suor de sangue. No decorrer dos dias, Constantinopla havia se tornado um pedaço do Inferno.

Soldados e a guardas saiam às ruas e as capturavam e depois, sob a orientação de frei Francesco, elas eram levadas até a parte norte da cidade, onde havia sido construído um buraco enorme e profundo. Este local era o “fosso dos órfãos”. As crianças capturadas e possuídas eram jogadas lá dentro e depois era ateado fogo. Eu pude presenciar a morte de dezenas delas, costumava acompanhar as execuções, lhes dando a benção final. Mas numa dessas ocasiões, um de nossos irmãos dominicanos foi no meu lugar e ao invés de dar a benção às almas daquelas crianças, resolveu tirar a própria vida tomado pelo desespero, e pulou no fosso quando o fogo estava bem alto. Ele sabia que não tínhamos salvação.

Enquanto isso, aproveitando a situação frágil da cidade, o sultão resolveu atacar. Não sendo o bastante a peste, também tivemos de nos preocupar com turcos em nossos portões. O imperador já não possuía muitos homens preparados para proteger a cidade, e ordenou que todo homem que pudesse portar uma arma se juntasse na defesa de Constantinopla. Eu já tinha noção que tudo aquilo que ocorria estava de alguma forma ligada a mim. Lembro que na véspera de eu partir para as muralhas, me ajoelhei, segurei a mão de meu mestre entre as minhas e implorei a frei Francesco para lutar pela cidade. Ele relutou um pouco, mas por fim consentiu. Ao saber disso, Anatole veio a mim durante a noite e me entregou a armadura, o escudo e a espada do capitão Ferrotto. No dia seguinte parti para a muralha oeste, onde os homens eram comandados pelo mestre Giovanni Giustiniani.

Minhas razões para ingressar na defesa da cidade não eram nobres. Não sabia lutar, temia muito os turcos e provavelmente acabaria morto. E era isso o que queria. Achava que a única maneira de me redimir com a cidade, com Deus e comigo mesmo, seria me matando. Entregando-me em sacrifício nas mãos do inimigo, lutando contra os infiéis. Porém, eu era um homem amaldiçoado. Participei de quatro batalhas contra os homens do sultão, e sai ileso de todas, sem nenhum arranhão e ainda liquidei com alguns turcos. Os soldados me invejavam e diziam que eu era abençoado por Deus contra nossos inimigos. Mas não era nada disso.

Todos os dias, quando o sol se punha e a noite se fazia presente, Iblis aparecia. Ele surgia furtivamente, e eu sempre sabia quando ele estava por perto porque eu começava a tremer de frio. Os soldados até achavam que eu estivesse com a peste, já que alguns deles começaram a demonstrar sinais dela. Ninguém mais o enxergava além de mim, e foi ele mesmo que me explicou tudo o que estava acontecendo. Foi só então que as coisas ficaram realmente claras para mim. Aquela era a maldição que Saud carregava e Iblis, que era o seu qareen, agora era o meu. A peste na cidade e agora entre os soldados, as crianças, a Fome… era eu que estava causando tudo aquilo e não importava o que eu fizesse, eu não conseguiria me matar. Não daquele jeito. Quando tomei consciência disso, Iblis riu de minha ignorância, quase chegando às lágrimas. Estava atônito e sabia que precisava fazer alguma coisa e já tinha uma idéia.

Voltei até o monastério de São Lázaro para contar tudo a meu mestre, mas ao chegar lá não encontrei ninguém a não ser Anatole, que estava escondido no porão, na antiga cela de Saud. O lugar mais seguro do monastério naquele momento. Ao entrar no prédio, senti o cheiro de sangue e podridão. Os corpos dos irmãos de São Lázaro se espalhavam por todas as partes. Eles haviam sido vítimas da peste e dos órfãos famintos de Constantinopla. Era nítido que alguns dos corpos haviam sido parcialmente devorados, e também vi no chão rastros de sangue que levavam até a capela do monastério. Pensei que provavelmente as crianças arrastaram os corpos até lá para poderem comer tranqüilamente e depois descansarem até a outra noite chegar. Fui até lá e comprovei minha previsão. O que vi ali era o mais próximo que já estive da boca do Inferno. Não sei quantas crianças, trinta, quarenta, sessenta, mas eram muitas. Gritavam, urravam, disputavam entre si pedaços humanos como se fossem cães selvagens. Antes que percebessem, peguei um atiçador de ferro na cozinha, fechei a porta e passei o atiçador entre os puxadores da porta. Aquela era a única saída da capela e eles estavam presos.

Após vasculhar todo o monastério, antes de encontrar Anatole, encontrei o corpo de meu mestre. Estava em sua cama, ele havia contraído a peste como os outros. Mas para meu horror, suas mão e sua cabeça não estavam lá. Não havia sido cortadas, mas arracadas e devoradas, certamente, pelas crianças. Ajoelhei-me aos pés da cama e tentei fazer uma oração, mas não consegui terminar. Novamente a culpa tomou conta de mim e ouvi a risada de Iblis a meu lado. Desci até o porão e encontrei Anatole. Descansamos e disse a ele que eu tinha um plano e que me aguardasse em frente a grande catedral. Era mais seguro lá, em meio à multidão, do que sozinho no monastério. Antes de partir contei a ele o que tinha em mente. O rapaz arregalou os olhos de espanto, mas eu lhe expliquei meus motivos. Não sei se ele concordou ou não comigo, mas calou-se e obedeceu. O acompanhei até a catedral e de lá parti sozinho novamente para a muralha oeste, para enfrentar novamente os turcos, vê-los usar de sua feitiçaria contra nós e ver o ultimo grande defensor de Constantinopla ser atingido por um raio.

Agora ouço a voz de Anatole me chamando e limpo as lágrimas de meu rosto. Ele comenta alguma coisa sobre os últimos raios de sol lá fora, apoiado no cabo de um machado. Digo a ele que devemos esperar a noite cair por completa. De dentro de uma bolsa ele tira um pedaço de pão e um queijo bolorento e me oferece. Recuso e digo para ele comer tudo.
–    Quando ele virá?
–    Logo…
–    Mas quando?
–    Quando não houver nem um único raio de sol no firmamento.
–    Tem certeza que não quer um pedaço?
–    Não, obrigado.

O tempo passa e de repente começo a tremer de frio. É ele. Pelo canto do olho vejo um vulto branco à minha direita. Viro-me e lá está ele, como sempre. Ele sorri de forma sarcástica.
–    Você realmente pretende levar isso adiante?
–    Sim, acho que é a solução mais acertada para todos.
–    E você sabe o que vai lhe acontecer, não sabe?
–    Sim, eu sei.
–    E o garoto, ele sabe?
–    Não vejo a necessidade dele saber.
–    É verdade… – ele sorri novamente. Respiro fundo, tomando coragem e vasculho minha alma para saber se aquela é realmente a única solução. Iblis sabe o que estou pensando, pois ele olha fixamente para mim de modo malicioso. Ele sempre sabe o quem estou pensando.
–    Quer desistir?
–    Não, é um trato que estou fazendo com você. E trato é trato.
–    Concordo com você. – diz Iblis, enquanto olha pela janela da cozinha.
–    Já é hora?
–    Sim. – Anatole responde, achando que eu falava com ele.
–    O garoto está certo. O exército do sultão acabou de invadir a cidade. – diz Iblis.
–    Pois muito bem. – respiro fundo mais uma vez e começo a me despir.

Completamente nu, explico os últimos detalhes para Anatole. Digo a ele que não poderá falhar, senão tudo estará perdido. Aquela será nossa última vingança contra o inimigo e o pagamento de minha dívida para com Constantinopla. Não sinto mais frio, não vejo mais Iblis por perto. Anatole e eu caminhamos até a porta da capela e a abro. No mesmo instante vejo dezenas de sombras se erguendo, curiosas e famintas; creio que quase consigo ver o brilho de seus olhos e seus dentes. Não temo pela vida do rapaz a meu lado. Por alguma razão os órfãos de Constantinopla não tentam nada contra ele. Estufo o peito, demonstrando coragem, e entro na capela. Desconfiados, os órfãos começam a se aproximar, como animais assustados. De repente sinto puxarem meu braço direito e logo começam a morde-lo. Outro pula em minhas costas e mais outro morde minha coxa. Sinto seus dentes rasgando minha pele e atingir meus músculos, e finalmente uma dor lancinante explode quando um deles arranca um pedaço de carne de minha barriga. Outros sentem o cheiro de sangue e se aproximam velozmente. Estou no chão, completamente dominado por eles. Tento me levantar, mas já não consigo e ouço meus próprios gritos como se fossem de outrem. Com dedos mutilados consigo evitar que um deles avance sobre mim e me devore os olhos. Num último esforço, grito para Anatole que aquela é a hora. Imploro a ele para que acabe com aquilo de uma vez por todas. Enquanto um me morde a bochecha, vejo o rapaz se aproximar e conseguir espaço entre aqueles seres diabólicos. Ele ergue o machado e com um golpe põe fim ao meu sofrimento.

Iblis está a meu lado agora, mas já não sinto mais frio. Vejo o que sobrou de meu corpo servindo de banquete àqueles pequenos animais com forma humana. Anatole corre com minha cabeça para fora do monastério e logo é seguido pelos órfãos que estavam sobre minha carcaça. O rapaz corre e atrás dele as crianças o seguem. Aos poucos começa a se formar uma multidão delas. Por onde passa, por cada rua e de cada esconderijo saem crianças-demônio tomadas pela Fome. Anatole corre rumo ao oeste da cidade, até que pára e vê os soldados turcos nas ruas de Constantinopla. Ele então arremessa a última parte intacta de meu corpo na direção do exército conquistador do sultão. A cabeça cai nas mãos de um soldado que, ao perceber do que se trata, a solta no chão com nojo. Antes que consigam entender, um exército de crianças famintas por carne humana surge sobre eles, atraídas pela cabeça e pelo cheiro de sangue impregnado nos trajes dos soldados, lhes trazendo um terror nunca antes imaginado, nem mesmo em seus piores pesadelos. Finalmente não sinto mais culpa. Segundo o acordo que fiz, minha cabeça serviu como guia para os pequenos monstros, paguei minha dívida pelo mal que causei e pus um fim a maldição. Mas a que preço? Entreguei meu corpo à Constantinopla, e minha alma ao meu qareen e aos djinns. Minha amarga redenção estava realizada.




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