Transcomunicação

Publicação: 29 de março de 2010

à memória de Philip K. Dick

A corrida das gotas de chuva era constantemente interrompida pelo frenético vai e vem dos limpadores do pára-brisa. Chovia desde a manhã e provavelmente não iria parar até a noite. A luz verde do semáforo se acendeu, mas os carros não se mexiam devido ao congestionamento. No rádio, a voz grave do locutor avisava quais eram os melhores caminhos e quais eram os pontos com maior tráfego. Para o desespero de Jéssica, ela estava no meio de um dos piores locais de congestionamento da cidade. Normalmente faria aquele trajeto até em casa em pouco mais de dez minutos, mas naquele dia já estava a quase quarenta minutos parada no mesmo lugar.

Apertou os botões das estações de rádio previamente memorizadas, mas nenhuma lhe agradou. Desligou o rádio e esticou a mão para baixo de seu banco. Pegou um porta-CD e começou a vasculhar seu interior. Música clássica, rock, pop e musicas infantis do filho. Sentiu um aperto no peito. Era a saudade que se aproximava mais uma vez. Resolveu ir direto para o final e pegou um CD sem identificação, apenas com o nome “Paul” escrito com caneta grossa preta.

Tamborilou os dedos sobre o CD antes de decidir enfia-lo no aparelho de som do carro. O painel do aparelho se acendeu com uma luz azul e a mensagem “…reading…” apareceu. Logo um chiado alto de estática começou a sair dos auto-falantes e assim permaneceu por alguns segundos até que um som estranho apareceu. Houve uma pausa e a estática voltou, mas com o som um pouco mais alto e mais limpo. No momento do som estranho uma voz parecia dizer: “Mamãe? Você pode me ouvir?”. O CD termina. Com as duas mãos apertando o volante com força, Jéssica chora e diz para ninguém:

–         Sim, eu posso querido!

Chegou em casa exausta. Levou duas horas do trabalho para casa e a única coisa que queria agora era tomar um banho quente e demorado. Depois de sair do banheiro em meio a uma nuvem de vapor, enrola a toalha na cabeça e outra na altura das axilas. Antes de se vestir, vai até a sala do apartamento e verifica o computador e se o captador de som estão ligados. Tudo funcionando. Ao lado deles, pega um porta-retrato com uma foto dela na praia, abraçada a um homem e a um menino de sete anos. Todos sorrindo, aparentemente felizes. Beija a foto e volta ao quarto para se vestir.

Vai até a cozinha, coloca uma lasanha no microondas e enquanto ela gira e descongela, volta ao computador. Desliga o captador de som e acessa o arquivo de som gravado naquele dia. Uma janela cinza aparece. Em sua parte inferior há vários botões para funções diversas, e na parte de cima um quadro escuro vazio. Ela clica num dos botões e imediatamente o quadro escuro é preenchido por linhas verde claro que se movem freneticamente. Jéssica liga as caixas de som do computador e um som baixo de estática sai delas. Olha no contador do programa de som e ele mostra o tempo de duração da gravação: 13h33min (início: 7:45 am – término: 20:18 pm). Clica num outro botão do programa e o som da gravação fica extremamente acelerado. Cinco minutos depois uma janela pequena surge na tela do computador com a mensagem “varredura completa: 5 padrões relevantes encontrados”. A frase com os números de padrões está em negrito com cor azul. Clica em cima da frase e uma outra janela aparece com cinco janelas iguais à janela principal, mas em tamanho menor. Ela ouve os cinco trechos selecionados, mas nenhum deles contém algo importante, apenas sons ambientes e barulhos vindos da rua.

O microondas avisa que a lasanha está pronta e ela vai busca-la. Volta com o prato na mão e senta-se em frente ao computador para mexer no programa novamente. Abre uma pasta com diversos arquivos de som, classificados por data e organizados a partir do mais recente para o mais antigo. Um total de quinze ou vinte arquivos. Começa a abrir alguns, conforme ia voltando para a primeira gravação feita. Quase todos seguem um certo padrão: no início um silêncio que depois se torna estática ou como o vento batendo num microfone; logo surge uma cacofonia sem sentido, às vezes alta e por vezes quase inaudível. Ao clique de um botão, o arquivo é tocado novamente, mas ao contrário, e o barulho parece assumir um padrão mais compreensível. São vozes, um tanto distorcidas, mas claramente vozes. No primeiro arquivo que abre, uma voz masculina diz:

–         “Jess? Já consegue nos ouvir melhor agora?”

Numa anterior, uma voz infantil:

–         “Mamãe? Estava com muita, muita, muita saudade!”

Em outra:

–         “Espero que você possa nos ouvir, Jess…”

Outra:

–         “Sinto muito sua falta. Eu sempre vou te amar!”

E finalmente a primeira mensagem que havia gravado:

–         “Mamãe? Você pode me ouvir?”

Jéssica estava com os cotovelos apoiados sobre a mesa e suas lágrimas escorriam pelas bochechas, caindo no prato e se misturando ao queijo e ao molho da lasanha que ainda estava intacta.

Há dois anos ela o marido e o filho tinham viajado para o litoral, durante a Páscoa. A viagem estava programada há meses. Passaram três dias se bronzeando, acordando tarde, dormindo tarde, e despreocupados de suas vidas na cidade grande. Jéssica pode desligar o telefone celular, sem se preocupar em ser localizada pelo editor chefe do jornal, querendo que ela fosse correndo realizar uma matéria de última hora. Leto, seu marido, pode esquecer do estresse da bolsa de valores. Seriam três dias em que mesmo que a bolsa central da União Européia quebrasse, uma praga destruísse as plantações da Confederação Americana ou uma nova guerra varresse a Ásia, nada iria incomodá-lo a não ser pensar em fazer um drinque novo para ele e a esposa. Enquanto isso, Paul se ocupava em cavar e fazer castelos de areia com o seu novo conjunto colorido de balde, pás e peneira de plástico atóxico.

Para não pegarem um engarrafamento monstro no retorno do feriado, decidiram esperar a noite para voltar para casa. Tinham razão. A estrada estava livre, a temperatura agradável e Paul dormindo no banco de trás. Na outra pista, sentido litoral, vinha um caminhão e seu motorista não estava contente. Estava cansado, com sono e atrasado para fazer sua entrega. Acabou cochilando ao volante e entrou na contra-mão. Quando Leto percebeu o caminhão era tarde demais. A última coisa que Jéssica viu foi o brilho dos faróis do caminhão a poucos centímetros do capô do carro e então um clarão!

Acordou numa cama de hospital, zonza e cheia de tubos ligados a aparelhos que apitavam. O que lhe disseram foi que havia sofrido um acidente horrível. A levaram para lá e já estava a pouco mais de dois meses em coma. Assim que acordou perguntou pelo filho e pelo marido, mas lhe disseram que infelizmente não poderia mais velos, pois ela os havia perdido no acidente. Jéssica passou meses em depressão profunda e sob efeito de forte medicação. Ela nunca superou ter perdido sua família daquela maneira.

Um ano havia se passado desde aquela noite. Seu corpo não trazia nenhum sinal, nenhuma cicatriz do acidente, mas sua alma estava dilacerada. Na noite de Páscoa, estava sozinha em seu quarto, deitada na cama, acompanhada de suas lembranças e sua dor, quando ouviu o celular tocar na sala. Ele tocou por um longo tempo, mas ela o ignorou. Tinha tomado uma dose extra de calmantes e se sentia mole, visão turva e um gosto estranho na boca. Se não acabasse morta pela overdose dormiria rápido e não sofreria mais com a solidão daquele dia. De manhã acordou atrasada e então decidiu que não iria trabalhar e voltou a dormir. Já havia passado das três da tarde quando resolveu levantar da cama. Arrastou-se enjoada até o banheiro e tentou vomitar, depois buscou alguma coisa na geladeira para por um fim àquele mal-estar em seu estômago. Tomou um copo de leite puro e ainda terminando um pão com manteiga foi checar seus e-mails e lembrou de também checar o celular.

A tela mostrava o aviso de “1 chamada não atendida” e no conta superior esquerdo um ícone indicava que ela também tinha uma mensagem de voz. Verificou a chamada, mas nenhum número havia sido registrado pelo identificador. Resolveu ouvir a mensagem que haviam deixado. A gravação tinha por volta de um minuto de duração e ninguém dizia nada. Podia-se ouvir barulhos estranhos, estampidos e um chiado constante. No meio da mensagem um som em específico lhe chamou a atenção, mas não sabia dizer porque. Parecia que alguém dizia alguma coisa, mas ela não conseguia entender o que era. Por fim, acabou gravando a mensagem em seu celular para ouvi-la mais tarde e achou melhor voltar para a cama. Tomou mais alguns comprimidos e dormiu de novo. No dia seguinte, antes de sair para o trabalho, tentou ouvir de novo a mensagem do celular. Não conseguia entender o que diziam. Ligou o celular às caixas de som do computar e aumentou o som ao máximo. Quando a mensagem chegou no ponto do tal barulho, apesar da má qualidade do som, ela teve a impressão de ouvir a voz de Paul dizendo: “Mamãe? Você pode me ouvir?”. Ela ficou arrepiada e quase desmaiou. Ficou tão abalada com aquilo que mais uma vez faltou ao trabalho, mas depois de conversar muito com uma amiga, se convenceu de que aquilo ou era um engano ou alguém lhe passando um trote, uma brincadeira de mal-gosto.

Dias se passaram e Jéssica foi retomando sua vida normal, ou que havia restado dela. Seu chefe então foi até sua mesa e lhe pediu uma matéria sobre fenomenos paranormais e assuntos afins. Estava para estrear um filme sobre a vida de Thomas Edison e sua relação com grupos espiritualistas, então era o tipo de assunto que logo seria a nova moda pelos próximos meses. Ela conseguiu ir assistir a pré-estréia do filme para a imprensa e ao voltar para casa comprou uma meia dúzia de livros sobre o assunto. Entre eles, o que lhe chamou mais a atenção foi o livro de um tal professor H. G. Andrade, que não apenas explicava detalhes de sua pesquisa como também demonstrava como e de que forma qualquer um poderia fazer experiências de transcomunicação instrumental (TCI). Procurou por mais reportagens sobre TCI e viu pessoas que gravavam sons aleatórios em diversos locais ou apenas estática de rádio que, depois de trabalhados e tocados ao contrário, revelavam ser mensagens de espíritos. Devido a matéria que tinha de entregar no trabalho e por razões pessoais, entrevistou o professor Andrade, que lhe demonstrou diversas mensagens que havia gravado durante sua carreira e como as fazia.

Depois dessa entrevista, Jéssica ficou obcecada pelo assunto e começou a realizar as suas próprias tentativas de transcomunicação. Adquiriu toda a aparelhagem necessária e há um ano fazia as gravações. Antes de sair de casa pela manhã, ligava o captador de som e o computador e os deixava gravando. Quando voltava para casa checava para ver se havia pegado alguma coisa. Ao longo de todo esse tempo ela tinha conseguido um total de apenas oito mensagens realmente interessantes, sendo que apenas cinco eram de seu filho e do marido. As demais eram pareciam vozes desconhecidas ou até mesmo em outros idiomas. Seus amigos eram contra ela fazer aquilo. Uns tinham medo, outros eram apenas céticos. Mas independente de opiniões alheias, Jéssica continuou a fazer suas gravações.

Não tinha mais vida social. Aos finais de semana, apesar da insistência dos amigos, ela permanecia reclusa em casa. Pegava todas as gravações feitas durante a semana, as ouvia novamente e as que lhe chamassem a atenção ela aplicava filtros de som e outros recursos para tornar a gravação mais clara. Mas naquele dia de engarrafamento monstro, Jéssica não havia conseguido nenhuma gravação interessante.

Depois de jantar, enviou alguns e-mails de trabalho e foi dormir. Dormiu rápido, com a ajuda de remédios, mas teve um sono conturbado e com sonhos ruins. Sonhou com o acidente, com o tempo em que esteve no hospital e com aquele feriado na praia. Tudo em terceira pessoa, como se estivesse vendo um filme. No sonho, também viu o filho e o marido falando com ela, mas não conseguia ouvi-los, como se houvesse uma barreira que os separasse. Acordou suando muito e assustada. Estava atrasada de novo para o trabalho.

Pulou da cama, tomou uma ducha, ligou o computador e o captador de som e saiu correndo. Passou o dia torcendo para o tempo passar o mais rápido possível para poder voltar para casa. Seu trabalho estava se tornando um estorvo e ela estava absolutamente desanimada para fazer qualquer coisa. Por diversas vezes Jéssica pensou em pedir demissão. Só não havia feito isso ainda por insistência de seu terapeuta. Além disso, não conseguia deixar de pensar no sonho da noite passada. Nos últimos meses eles haviam se tornado comuns e cada vez mais freqüentes. Para ela, aqueles não eram sonhos comuns, mas sim algum tipo de mensagem que estavam tentando lhe passar. Os sonhos eram sempre parecidos com o último que teve. O que havia de diferente dessa vez foi que ela viu o marido e o filho claramente tentando se comunicar com ela. Isso nunca havia acontecido antes.

Dizendo que não estava se sentindo bem, e realmente não estava, ela saiu mais cedo e foi direto para casa. Sentia muito frio e uma dor de cabeça intensa. No caminho para casa, a dor começou a aumentar cada vez mais, impedindo-a de pensar ou ouvir qualquer coisa. Conseguiu chegar até a garagem e pediu ao porteiro que estacionasse o carro para ela, enquanto subia para seu apartamento. Tomou um analgésico, caiu na cama e dormiu.

Jéssica começou a despertar ao ouvir que conversavam próximo a ela. Abriu os olhos e tomou um susto ao se ver deitada num leito branco no meio de um quarto de hospital. Estava cheia de tubos e aparelhos a cercava. Seu corpo doía muito. Duas pessoas vestidas de branco conversavam aos pés de sua cama. Um deles era um senhor grisalho de óculos e cavanhaque e apontava algo numa prancheta para a outra pessoa, uma moça de não mais que vinte e cinco anos, que ouvia com atenção o que o senhor dizia.

–         Qualquer dúvida me procure. Este é um caso muito delicado, entendeu? – dizia o senhor.

–         Sim. Veja doutor, ela acordou!

Os dois se aproximaram dela rapidamente. A enfermeira verificou os aparelhos e o médico checava o reflexo das pupilas de Jéssica com uma pequena lanterna. Ela tentou falar, mas o tubo plástico que estava dentro de sua garganta a impedia. Tentou se mexer, mas os braços e as pernas não respondiam. Estava paralisada e em pânico.

–         Por favor, acalme-se. Não há com o que se preocupar.

–         Todos os sinais dela estão estáveis, doutor.

Jéssica não entendia o que estava acontecendo. Tudo ali se parecia com o quarto em que ela havia ficado após o acidente. A enfermeira pegou uma seringa e a encheu com um líquido azulado e o aplicou diretamente no soro que estava preso ao seu braço. Ao se misturar com o soro, alguns segundos depois, toda a mistura assumiu uma coloração rosa. Jéssica começou a sentir estranha. A dor começava a diminuir, voltou a sentir força em seus membros e se sentia muito mais bem disposta e desperta. O médico lhe perguntou se ela se sentia melhor e ela respondeu que sim com a cabeça.

–         Creio que você necessita de algumas explicações. Mas antes que eu lhe esclareça qualquer coisa, existem algumas pessoas aqui que gostariam de lhe ver.

Ele se dirigiu até a porta do quarto e a abriu, se colocando de lado. Por ela entraram duas pessoas que se aproximaram rápido da cama. Os olhos de Jéssica se arregalaram de espanto e emoção. Leto e Paul a olhavam com carinho e sorriam. Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos e sentia dor na garganta cada vez que soluçava em meio ao choro. Ergueu a mão para tocar o rosto do filho, mas foi imediatamente impedida pela enfermeira. Jéssica olhou com raiva para ela e tentou se livrar, mas a enfermeira relutou.

–         Jess! Jess, meu amor, escute! Fique calma, está me escutando? Jess! Olhe para mim! – pedia Leto, enquanto Jéssica lutava para se livrar da enfermeira. Por fim ela se acalmou e voltou-se para ouvir o que o marido dizia.

–          Jess, eles nos disseram que ainda não podemos toca-la. Tem algo haver com a medicação que acabaram de lhe dar. Mas logo estaremos juntos, entendeu? Vai dar tudo certo. Mas para isso você precisa descansar, senão será tudo em vão e não poderemos mais falar com você.

–         Mamãe! Mamãe! Você pode me ouvir?

Jéssica olhou para o filho e começou a chorar novamente. Nesse momento o médico, que até então estava apenas observando o reencontro familiar, se aproximou.

–         Como o senhor bem disse, ela precisa descansar agora. Por favor, a enfermeira os acompanhará até ao salão central.

Leto lhe enviou um beijo pelo ar e de seu colo Paul acenava. Assim que eles e a enfermeira saíram, o médico puxou uma cadeira e sentou-se de frente para Jéssica.

–         Creio que você deva estar muito confusa com tudo isso, não é? Com o devido tempo irei lhe responder tudo o que desejar, mas antes devo falar algumas coisas. Você está num hospital, como pode ver. Mas este não é como outros hospitais convencionais. Você sofreu um acidente muito grave e quase não pudemos recupera-la. Infelizmente, devido a um problema técnico que ainda não conseguimos identificar, o seu suporte meta-vital está se comportando de forma inesperada e instável. Conseqüentemente, a interface na qual você foi inserida não está respondendo aos nossos comandos. Tentamos então lhe enviar estímulos psíquicos, para que assim sua mente realizasse por conta própria a recuperação de seu padrão normal, mas isso só piorou seu quadro, segundo vimos pelo monitoramento. Verificamos que o mesmo problema está acontecendo a outros de nossos hóspedes, o que nos leva a crer que a causa seja uma auto-defesa de nosso sistema, que detectou uma tentativa de conexão indevida realizada por um de nossos hóspedes mais antigos. Um caso semelhante aconteceu há muitos anos na sede de nossa empresa na Suíça, por isso já entramos em contato com eles e um técnico deve chegar em poucos dias. Até lá, vamos tentar manter a senhora aqui, na ala de readaptação.

Jéssica olhava para o médico pasma. Ela não fazia a menor idéia sobre o que ele estava falando e a expressão de seu rosto não escondia isso. O médico percebeu e ficou um tanto desconcertado com isso.

–         A senhora não entendeu nada do que eu lhe disse agora, entendeu?

Lentamente balançou a cabeça, confirmando as suspeitas do médico.

–         Jéssica, eu serei direto então. Possivelmente os problemas causados a nosso sistema tenham afetado suas lembranças – ele respirou fundo e disse – O caso é que a senhora está morta.

Ao ouvir aquelas palavras, ela sentiu uma dor forte e aguda no meio da cabeça, bem no centro de seu cérebro. Imediatamente vários dos aparelhos começaram a apitar freneticamente. Seu corpo ficou gelado, já não sentia mais nada e sua visão foi se tornando escura. Uma gritaria tomou conta do quarto.

–         Nós a estamos perdendo, doutor!

–         Rápido! 100ml de Ubik! Agora!

–         Tarde demais, doutor! Ela se foi!

Jéssica acordou com o próprio grito. Estava em seu quarto, sozinha, apenas de calcinha e camiseta regata, seu despertador apitava um som estridente, seu celular tocava desesperadamente e uma chuva grossa era arremessada pelo vento em sua janela. Correu para atender o celular, mas não chegou a tempo. Assim que o alcançou a mensagem “1 chamada não atendida” já se encontrava no visor. Viu o número que ligou. Era do trabalho. Olhou para o relógio. Atrasada de novo!

Trocou-se correndo e saiu em jejum. Seu café-da-manhã foi uma barra de cereais velha que achou perdida dentro da bolsa. Como sempre, cumpriu apenas com suas tarefas mais urgentes; basicamente alguns telefonemas, alguns e-mails para responder e confirmar o horário de uma vídeo-conferência com diretor do filme sobre o Thomas Edison. Apesar de se restringir a fazer apenas o essencial no serviço, estava exausta. Na hora do almoço não quis sair com os demais. Preferiu ficar no escritório e adiantar o que tinha de fazer. Sua amiga tentou convence-la em ir almoçar com ela, mas Jéssica resistiu. A amiga lhe perguntou se ela estava se sentindo bem, disse que ela parecia meio pálida e com ar de cansaço. Jéssica disse que talvez estivesse apenas ficando gripada e ignorou a presença da amiga.

À tarde, ela foi chamada pelo chefe e tomou uma bronca de proporções bíblicas. Foi um milagre não ter sido demitida. Ao invés disso, foi obrigada a tirar uns dias de folga (que seriam descontados de seu salário), ir a um médico e voltar ao trabalho.

Saiu da sala do chefe e foi direto para casa. A dor de cabeça tinha voltado, assim como o frio. Devia estar com febre. Chegou em casa com tontura e enjoada novamente. Só quando abriu a porta do apartamento é que lembrou que havia deixado sua aparelhagem gravando desde o dia anterior. Pausou a gravação e checou o tempo de gravação: 42h52min! Desligou tudo e foi tomar um banho. Depois de tentar comer alguma coisa (e vomitar tudo logo em seguida) foi ver a gravação que tinha feito. Nem perdeu tempo querendo ouvi-la no modo convencional. Acionou o botão da ferramenta de relevância e foi tomar seus remédios. Ao voltar o programa ainda processava o arquivo e indicava que o tempo estimado era por volta de 30 minutos para a conclusão. Ligou a vídeo-tela, retirando-a do modo de descanso, que exibia como papel de parede a imagem do quadro “As Meninas” de Velazquez, e começou a navegar pelos canais enquanto esperava o programa finalizar a varredura do arquivo. Parou num canal que exibia um documentário sobre o filósofo Jean Baudrillard e suas referências na arte e na mídia. O programa foi muito melhor que os calmantes.

Acordou com uma voz que dizia:

–         O cérebro recebe bilhões de sinais por minuto. A partir disso, nós selecionamos uma pequena parte deles e a projetamos para o exterior e achamos que essa imagem é a realidade…

Jéssica pulou do sofá e olhou ao seu redor. Estava no meio da sala de um apartamento de 80 metros quadrados, num bairro classe-média, próximo ao centro da cidade. Era seu apartamento. A voz que tinha ouvido vinha da vídeo-tela. Naquele momento a imagem da sombra de uma mão rabiscava desenhos abstratos num quadro-negro, enquanto aquela mesma voz falava sobre mosquitos, cães, seres humanos e como cada um tem noções particulares de tempo e espaço. Desligou a vídeo-tela e foi para frente do computador. Segundo o relógio, havia dormindo por uma hora e meia. O programa já tinha acabado a varredura do arquivo e mostrava “varredura completa: 6 padrões relevantes encontrados”.

Foi até a cozinha, e voltou com uma xícara de chá e um prato com três torradas. Começou a tomar o chá e clicou na janela dos resultados encontrados. O primeiro trecho não parecia com nada. Mesmo depois de limpo e tocado ao contrário não era audível. Lembrava apenas uma voz humana, mas estava muito abafada e distorcida. O segundo trecho também não era muito diferente. Parecia com a voz de sua vizinha gritando com os filhos. Tomou mais chá e terminou a segunda torrada antes de continuar. Pensou em ir dormir e deixar para verificar o restante dos trechos no final de semana, mas resolveu tentar só mais um trecho e depois iria dormir.

Selecionou o terceiro trecho, limpou e o inverteu:

–         Jess! Jess, meu amor, escute! Fique calma, está me escutando? Jess!

A xícara caiu de sua mão, espalhando chá mate por todo o carpete. Ela tocou o trecho novamente e ouviu novamente a voz de seu marido lhe chamando em alto e bom som. Selecionou o próximo trecho, limpou inverteu e ouviu no meio de um grande chiado:

–         Jess, eles nos disseram que ainda não podemos toca-la… Vai dar… certo…. descansar, senão será tudo em vão e não… você.

O quinto trecho a fez ir às lágrimas:

–         Mamãe! Mamãe! Você pode me ouvir?

Tremendo muito, ouviu o último trecho, era o mais longo de todos. Assim que começou, um barulho alto de estática tomou conta do ambiente. Ao fundo parecia ouvir vozes, mas não era muito claro. De repente, trechos de falas surgiam e voltavam a mergulhar na estática:

–         … como pode ver. Mas … Infelizmente … inesperada e instável. Conseqüentemente, a … não está respondendo … estímulos psíquicos, para que assim … padrão normal, mas isso só piorou … hóspedes, o que nos leva a crer que … indevida … a senhora aqui … Jéssica … a senhora está morta …Tarde demais …

Ela estava na frente do computador, abraçada ao porta-retrato com a foto dela, do marido e o filho, chorando compulsivamente. Lembrou-se de todos os sonhos que já teve, do sonho da noite passada, do dia do acidente e de todos os dias miseráveis que viveu desde então. Se aquilo tudo era verdade, se ela realmente estava morta, ela só poderia estar no Inferno. Lembrou-se das explicações que o médico lhe disse no sonho, mas o que ele queria dizer com tudo aquilo?

Estava desesperada, no auge de uma crise de depressão, solitária e angustiada. Não podia mais suportar tudo aquilo. Desde aquele maldito dia, quando aquele caminhão cruzou seu caminho, que nada mais fazia sentido em sua vida. Foi a cozinha e tirou um pote de sorvete do congelador e colocou no microondas. Enquanto isso, foi até o banheiro e pegou todos os remédios que estava tomando ultimamente. Depois pegou os que carregava na bolsa. O sorvete havia derretido e se transformado num grande mingau sabor baunilha. Pegou todos os comprimidos e os despejou dentro do pote, como se fossem balas de confeito, e começou comer sua sobremesa suicida.

Depois de comer tudo, foi para o quarto e se deitou, esperando pelo o que viria. Junto ao peito ainda segurava o porta-retrato. O celular começou a tocar, mas mesmo que quisesse não conseguiria atende-lo. Sentiu-se sonolenta, entorpecida. O celular voltou a tocar de novo e depois mais uma terceira vez. A ponta dos dedos formigava, tinha a impressão do quarto girar. Não tinha muita certeza, mas lhe pareceu que chegou vomitar no travesseiro. Chorava e chamava por Leto e por Paul. Ouviu ao seu lado dizerem:

–         Nós a estamos perdendo!

–         Rápido! 100ml…

Por alguma razão, domingo era o dia que todos resolviam ir visitar seus entes queridos nos centros de meta-vida. As pessoas costumavam ir logo cedo pela manhã ou ao final da tarde. Leto acordou cedo naquele dia, deu banho no filho, depois tomou banho, fez a barba e saíram. Deixou Paul na casa de sua mãe e foi para o centro de meta-vida.

O dia estava ensolarado, o que fez muitas pessoas saírem de casa e aproveitarem o domingo, e atrasar um pouco a chegada de Leto. A primeira coisa que se via ao chegar na frente do prédio era a grande placa de aço ao lado do portão de entrada. Em letras garrafais douradas podia-se ler: “Central Sul-Americana de Meta-Vida e Reabilitação”. A arquitetura do prédio havia sido feita para que as pessoas não se sentissem entrando num grande mausoléu de trinta andares, mas era exatamente o que aquele prédio inteiramente branco e de traços simples parecia: um mausoléu gigante.

As portas automáticas se abriram e ele entrou no imenso salão central do centro de meta-vida e se dirigiu até o balcão principal. Uma moça de cabelo preso em coque e colete azul marinho, com o logotipo do centro, sorriu para ele. Leto entregou seu cartão magnético a ela, que prontamente o introduziu no leitor e confirmou sua consulta com o doutor Brassëll. Ela devolveu o cartão e pediu que se encaminhasse para o 23º andar, sala 18. Leto agradeceu e foi para o fim da fila para os elevadores expressos.

–         Como vai o senhor? – perguntou o médico, indicando para Leto se sentar na cadeira à frente de sua mesa.

–         Estou bem doutor, obrigado. E Jéssica?

O médico acessa o terminal sobre sua mesa e vira a tela para que Leto também possa ver. Nela ele pode ver vários padrões de monitoramento, que ele não entende o que significam, e uma imagem ao vivo de uma sala onde se encontram duas mulheres vestidas de branco verificando os aparelhos conectados a um esquife de aço escovado.

–         Agora ela está bem. Tivemos de transferi-la para esta sala para que o técnico pudesse realizar os reparos necessários, mas agora está tudo sob controle.

–         Obrigado doutor, mas o que aconteceu ontem? Quando me ligou ontem à noite eu não entendi direito, mas se bem me lembro o senhor disse que ela tentou se matar?

–         Isso mesmo. Tentou o suicídio ingerindo uma quantidade absurda de tranqüilizantes.

–         Mas… Como isso seria possível?

–         As pessoas costumam achar difícil entender como alguém em tais condições ainda pode morrer. Na verdade, em tais casos dizemos que o que ocorre é uma “desativação”.

Leto olhava atento para o médico, tentando entender tudo aquilo.

–         O que seria esta “desativação”, doutor?

–         Vou tentar explicar de uma forma simples. Quando o senhor trouxe sua esposa até nós, o que fizemos foi rastrear resquícios de atividade cefálica. Felizmente no caso dela, apesar de seu corpo ter sido parcialmente destruído no acidente, ainda mantinha uma atividade muito superior à média. Entretanto, ela não se adaptou muito bem à interface de realidade proposta a ela. Isso não é tão incomum assim quanto se pensa.

–         Não?

–         Não. Ainda não sabemos o porque, mas até 25% de nossos hóspedes rejeitam as interfaces na qual os introduzimos. A causa mais provável seriam razões psicossomáticas.

–         Como no caso de Jéssica?

–         Exatamente. Como no caso dela, a maioria das rejeições ocorre quando o hóspede é submetido a uma interface que seja uma cópia de sua vida anterior ao incidente de passamento.

–         Incidente? O senhor quer dizer antes de morrerem?

–         Isso! Nesses casos suas mentes acabam presas num cenário de extrema depressão ou agressividade, resultando numa auto-destruição. Antes que o senhor me pergunte, já adianto que não há nada que possamos fazer para alterar este quadro em nossos hóspedes.

–         Como não? Eu mesmo vi vocês a retirando de lá e a colocando naquele hospital… de… como é mesmo?

–         Ala de readaptação…

–         Isso, mesmo. Como vocês não podem ajuda-la?

–         Nós podemos e é o que estamos fazendo. O problema é que nossas interfaces não são programas fixos onde os meta-viventes perambulam como marionetes. Nossas interfaces de realidade seriam como molduras de um quadro. Nós apenas lhes fornecemos elementos básicos com os quais suas mentes possam se identificar fisicamente ou emocionalmente. Todo o resto do trabalho é por conta de suas mentes. No caso de sua esposa, por exemplo, nossa interface apenas disse quem ela era e que tinha uma família com um marido e um filho. O fato de você e de seu filho estarem mortos em sua interface e a depressão decorrente disso foi a mente dela que criou. Da mesma maneira, se ela se matasse dentro daquela interface, sua mente iria acreditar nisso e iria cessar com qualquer atividade cefálica e seria desativada. Se a mente dela acredita naquilo, então é real para ela. Nós fornecemos os ovos, a manteiga e o leite, mas quem decide fazer disso um bolo, um pão ou uma grande bagunça são eles. Entendeu? – disse o doutor Brassëll com um sorriso amarelo.

–         Sim, agora compreendo.

–         No caso de Jéssica isso foi agravado pelo fato do problema técnico de nosso sistema. Em casos como o dela nós interferimos e suspendemos a interface corrente e aplicamos outra, de acordo com o desejo dos familiares, do hóspede e das compatibilidades psíquicas dos sinais cefálicos.

–         Em suma, vocês trocam o cenário do filme.

–         Pode-se dizer que sim. Com sua esposa isso não estava sendo possível. Todas as nossas tentativas de interromper a interface falharam, assim como os estímulos psíquicos para que ela “despertasse” por conta própria. Quando a transferimos de andar, foi possível minimizar a interferências que os outros hóspedes estavam causando e foi quando o senhor e seu filho puderam visitá-la em nossa interface central. Mas ai o problema voltou e ela foi tragada de novo para a interface defeituosa. O senhor sabia que vocês foram os primeiros visitantes a usar nosso novo comunicador visual 3D? Logo os telecomunicadores de protofáson serão aposentados. E pensar que quando eu comecei usávamos apenas fones amplificadores e os visitantes podiam apenas ouvir os meta-viventes. – dizia o médico empolgado.

Leto se arrumou inquieto na cadeira.

–         Certo doutor, mas quando eu poderei ver Jéssica?

–         Acredito que na semana que vem. O técnico conseguiu solucionar o problema bem a tempo de nós a resgatarmos, antes que ocorresse a desativação. Ela não sofreu qualquer tipo de dano permanente. Mas seria interessante que nós escolhêssemos uma nova interface de realidade para ela. Talvez uma que não fosse tão semelhante à vida que vocês levavam, ou isso poderá leva-la a um novo quadro de depressão e mais uma vez vocês não poderão interagir com ela.

–         Puxa! E o quê o senhor recomenda?

–         Bem, há alguns anos a única opção seria introduzi-la diretamente na interface global, onde estão quase todos os meta-viventes, e esperar que ela se adaptasse a sua nova existência. Como disse, os 25% deles não se adaptavam e acabavam se auto-destruindo. Nesses casos é recomendável uma interface diferente onde, apesar de às vezes parecer ser um tanto fantasioso, a mente do meta-vivente se adapte com maior facilidade. Hoje em dia os designers de interface podem projetar o que o senhor quiser. Se quiser Jéssica pode viver numa fazenda tranqüila e pacata, numa cidade grande do outro lado do planeta…

–         Ou num outro planeta do outro lado da galáxia?

–         Sim, por quê não? Basta nos passar suas especificações que nós projetamos.

Leto saiu da sala do médico, se despediu e prometeu voltar na próxima semana. Pegou o elevador, desceu até o salão central e foi até o balcão novamente para marcar a nova visita para a semana que vem. Por coincidência, a mesma moça que o recebeu na entrada o atendeu. No lado esquerdo do peito, preso ao colete azul marinho, uma pequena placa dourada exibia o nome: “Emília”. Já tinha ido tantas vezes ao centro que já a tratava pelo nome. Ela pegou novamente seu cartão magnético e inseriu no leitor.

–         Qual a data que o senhor gostaria? Domingo, como sempre?

–         Isso.

–         Mesmo horário?

–         O mesmo.

–         Só um momento… Pronto, já está agendado. Posso descontar o valor da visita de seu cartão post-creds?

–         Por favor, Emilia.

Emília lhe devolveu o cartão e lhe desejou um bom dia. Assim que as portas automáticas se abriram, sentiu o ar quente que pairava lá fora. Entrou no carro e foi para a casa de sua mãe. No caminho, parou num ponto de recarga e recarregou o motor elétrico do carro. Quando entrou no carro novamente, seu telefone começou a tocar. Atendeu sem nem mesmo ver quem era.

–         Alô? – ninguém respondeu. Ao fundo, um barulho estranho.

–         Alô? Quem é? – o barulho continuava e alguém dizia alguma coisa, mas ele não conseguia entender.

–         Desculpe, mas não estou entendendo. – desligou o telefone e começou a andar com o carro.

Chegou à casa da mãe, mas antes de descer do carro o telefone tocou novamente.

–         Alô? – muito chiado e a alguém falava alguma coisa.

–         Fale mais alto, por favor! – ele apertou o seletor de freqüências e percebeu que a ligação havia melhorado, o chiado havia sumido – Pronto, pode falar agora.

–         Leto? Pode me ouvir?

–         Desculpe, quem é?

–         Leto? Está me ouvindo?

–         Sim posso, mas quem está falando?

–         Leto? Não sei se pode me escutar, mas se estiver… saiba que eu te amo!

–         Quem está falando? Que brincadeira é essa!

–         Não se preocupe, em breve estaremos junto. O doutor Brassëll disse que é apenas uma questão de tempo. Já o transferimos para outra ala e acho que semana que vem você estará pronto.

–         Jess? – Leto sentia suas mãos suando frio. Não entendia o que estava acontecendo. Não podia ser Jéssica. Ela estava morta, ou melhor, meta-vivendo num quarto da Central de Meta-Vida. A porta da casa de sua mãe abriu. Um rosto idoso de mulher apareceu sorrindo e logo em seguida um garoto saiu correndo e abraçou suas pernas.

–         Espere um pouco que tem alguém que quer falar com você. – houve um instante de silêncio e então ouviu uma voz infantil – Papai? Você pode me ouvir?

Leto tremia dos pés a cabeça e um pensamento assustador tomava conta dele.

–         Sim, eu posso ouvi-lo Paul…

–         O que você disse papai? – perguntou o menino agarrado a sua perna.

Enquanto isso, a voz no telefone perguntou novamente:

Papai? Você pode me ouvir? Mamãe, acho que ele não está me ouvindo!



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